Patagónia: A primeira aventura de Tex publicada por uma editora portuguesa, a Polvo Editora

Carlos Gonçalves e a sua apreciação à aventura “Patagónia”, da Polvo

Por Carlos Gonçalves[1]

Olhamos para uma pequena brochura, embora esta edição portuguesa tenha respeitado as dimensões das italianas e tentamos imaginar a abnegação, a tenacidade e o trabalho que nela se encontra contido, para depois de uma leitura, mais ou menos emotiva, ser colocada de lado numa prateleira ou numa gaveta ao abandono e, provavelmente, jamais lida de novo. No entanto, não nos podemos esquecer que às vezes nesse trabalho estão investidas centenas de horas, semanas, meses e às vezes um ano ou dois…

Os traços de Pasquale Frisenda são agressivos e possuem muitos negros, como tal muito mais trabalhosos, mas que ambientam o leitor ao desenrolar da história, criando por isso uma grande empatia entre o público e cada prancha. Página a página é minucioso o trabalho do artista, o planeamento da história e a divisão de cada sequência, tornando-a mais ou menos emotiva e empolgante ao sabor do génio do desenhador e indo de encontro aos desejos do leitor. Tal é bem saliente neste trabalho de Frisenda. As cenas mais emocionantes vão-se ultrapassando umas às outras e o leitor entusiasmado, vai folheando a brochura à sua procura. De episódio em episódio, de vinheta em vinheta, cada uma delas mais cheias de arte, demonstrando que este será um dos desenhadores italianos a fixar o nome no futuro, mais ou menos próximo. Cada página que lemos em escassos segundos, demora por vezes imenso tempo a ser concretizada. Nem sempre o seu planeamento sai bem, há que redesenhar a página ou cortar uma ou outra vinheta menos conseguida, mas o seu autor soube obter um excelente resultado no seu trabalho final.

Numa altura em que o tema do “Western” se encontra quase esquecido, ter a oportunidade de ter acesso a uma história desta importância é gratificante. Estamos numa fase de “Super–heróis” e “Mangás”. Ter novas aventuras de “Tex” e com esta qualidade é de louvar e um caso excepcional de longevidade, mas sem dúvida que tal deve-se à qualidade dos seus argumentistas e desenhadores de tão alto gabarito, que irão ajudar, por certo, a criar novas aventuras por ainda muitos e bons anos.

Terá que haver uma palavra de apreço pelo texto de Mauro Boselli, um argumentista de peso das edições Bonelli e que tem demonstrado possuir, ao longo da sua prolifera carreira, um dom muito especial, ao ser um vasto criador de personagens e de histórias que têm povoado a mente de todos aqueles que sabem apreciar uma boa História aos Quadradinhos de “cow-boys”. Desta vez este escritor conseguiu ultrapassar-se a si próprio em imaginação, pois este é sem dúvida um dos seus melhores trabalhos publicados ultimamente.

Sabemos o quanto é arriscado editar em Portugal, principalmente Banda Desenhada. As edições Polvo/Rui Brito estão pois de parabéns ao tomarem a iniciativa de publicar, pela primeira vez em Portugal, uma aventura de “Tex”. No entanto, pensamos que o arrojo da editora irá por certo recolher os seus frutos, pois trata-se de uma obra muito bem cuidada, bem traduzida e num papel de excelente gramagem, que não envergonha ninguém.

Desde sempre foi nosso o apanágio de ter uma grande admiração pela Escola Italiana, não só no que respeita aos seus desenhadores como argumentistas. Lembrar hoje Mussolini, talvez seja descabido, mas foi durante a sua ditadura em 1938, após a publicação de um manifesto de Marinetti, sobre a Literatura Juvenil, que todas as histórias aos Quadradinhos de origem estrangeira foram proibidas na sua importação, com excepção de “Topolino” (Mickey), por decisão pessoal do Duce (este ditador tinha uma certa atenção pela formação das crianças, para que seguissem as suas doutrinas). Durante a própria II Guerra Mundial o “Topolino” foi extinto também (1941). Os balões foram igualmente proibidos e substituídos pelas legendas didascálicas. A partir daqui cada artista italiano passou a desenhar a continuação das aventuras do “Mandrake”, do “Flash Gordon”, do “Mickey” e outras personagens, cujas histórias se encontravam em plena publicação nas revistas da época. Novas personagens foram criadas e novos “heróis” foram surgindo, como aconteceria com o nosso “Tex”. Ao mesmo tempo uma Escola passou a afirmar-se no Mundo da 9ª Arte, como aconteceria com a franco-belga, a espanhola, a norte–americana, a argentina, a inglesa…

[1] Carlos Gonçalves é um dos maiores especialistas e coleccionadores de banda desenhada em Portugal, sendo inclusive fundador e sócio número 1 do Clube Português de Banda Desenhada, tendo sido galardoado em 2013 com o Troféu de Honra, o prémio máximo do nosso mais representativo Festival de Banda Desenhada, o da Amadora.

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