Andrea Venturi e a cidade de Viseu

Por José Carlos Francisco (texto), Andrea Venturi (fotos), António Guerreiro (fotos) e Orlando Santos Silva (fotos)

Venturi e pards à descoberta de Viseu

Andrea Venturi e António Guerreiro apreciando os belos jardins viseenses

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Na cidade que se assume como berço de Viriato, não faltam locais para visitar e descobrir o passado e foi essa a proposta feita a Andrea Venturi aquando dos dois dias em que esteve em Viseu, e mais uma vez ficou comprovado que quem passeia pela cidade beirã também não fica indiferente às milhares de flores que dão cor e vida aos canteiros, às rotundas e a cada pedaço de jardim que faz de Viseu uma das cidades mais bonitas do país.

 

Orlando, José Carlos, Andrea Venturi e António Guerreiro em Viseu

Andrea Venturi, Mário Marques, António Guerreiro, Carlos Moreira, José Carlos Francisco e Orlando Santos Silva na Sé de Viseu

Na companhia de alguns pards portugueses e respectivas famílias, Andrea Venturi foi então à descoberta da cidade que recebeu Tex Willer em 2013, começando pela Sé de Viseu, edifício cujo aspecto exterior é imponente, embora pesado e austero e onde no seu topo resistem marcas de outros tempos. Trata-se de um edifício gótico, com traços de igreja-fortaleza, dos séculos XIII-XIV.

Mesmo ao lado, o Museu Grão Vasco, que deve o nome ao célebre artista plástico da terra, mostra uma colecção permanente de arte sacra e exposições temporárias variadas que tivemos obrigatoriamente que visitar, mesmo que um pouco à pressa. Fundado em 1915 por Francisco de Almeida Moreira, que dedicou grande parte da sua vida a reunir obras portuguesas, sobretudo representativas dos melhores pintores portugueses modernos e contemporâneos, o Museu de Grão Vasco está instalado no Paço dos Três Escalões, contíguo à Catedral.

António Guerreiro, Andrea Venturi e Orlando Santos Silva no Museu Grão Vasco

Andrea Venturi e Orlando com as belas artes do Museu

À colecção de objectos e imagens originalmente destinados a práticas litúrgicas (pintura, escultura, ourivesaria e marfins, do românico ao barroco), acrescem peças de arqueologia, importantes exemplares de pintura portuguesa do séc. XIX, faiança portuguesa, porcelana oriental e mobiliário. A colecção principal do museu é constituída por um conjunto notável de pinturas da autoria de Vasco Fernandes (1475-1542), o célebre Grão Vasco, e do seu colaborador principal, Gaspar Vaz.

José Carlos Francisco e Andrea Venturi nas escadarias da Igreja dos Terceiros de São Francisco

Um momento de pausa no interior do Templo

Mas também nos perdemos pela cidade, onde a arquitectura religiosa está presente em todos os recantos, e pode ser observada em pormenor em locais como a própria Sé de Viseu, a Igreja da Misericórdia, a Igreja dos Terceiros, a Igreja do Carmo, a Igreja de Santo António entre muitos outros templos.

A cidade antiga, que ainda conserva parte da sua muralha, descobriu-se no centro, descendo do largo da Sé até ao Teatro Viriato, passando, claro, pela mítica Rua Direita, via estreita onde abundam as curvas, e que é a principal artéria de comércio da cidade, conservando uma atmosfera própria de épocas passadas.

Andrea Venturi e o painel de azulejos do Rossio viseense

O descanso das guerreiras texianas

Passamos também pelo Rossio (também conhecido por Praça da República), onde Andrea Venturi apreciou em detalhe o painel de azulejos que reveste a parede em frente à Câmara Municipal, o “Salão de Visitas da Cidade”. Este painel de azulejos retrata trajes típicos da região, personagens e cenas da vida quotidiana tradicional, bem como 5 representações de uma torre de um castelo. A parte inferior do painel está preenchida por um friso que representa repetidamente duas plumas. Destacam-se várias figuras enquadradas por molduras decoradas com motivos florais.

José Carlos Francisco, Orlando Santos Silva, Andrea Venturi e António Guerreiro com os azulejos ao fundo

Viseu mostrou ser uma cidade de contrastes, com antiguidade e memórias, modernidade e espaços verdes – um equilíbrio perfeito que foi devidamente apreciado por Andrea Venturi e seus pards…

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As Leituras do Fernando Dordio: Springfield Calibre 58 (Tex Ouro nº 62)

Por Fernando Dordio [1]

Nunca tinha percebido o fascínio dos livros de banda desenhada existentes nas bancas portuguesas e que normalmente se encontram no conhecido formatinho brasileiro. Admito que havia da minha parte uma certa arrogância em considerar, nem sei porquê, aquelas publicações em algo menor. Felizmente, apareceu no mercado português a colecção do DN da Turma da Mônica, que me fez investigar o que se vendia por aí do Maurício de Souza – e uma coisa leva à outra e às tantas comprei o livro Tex Edição de Ouro 62: Springfield Calibre 58.

Com argumento de Claudio Nizzi e arte de Victor De La Fuente, o western voltou com força para as minhas leituras.

Tex

Antes de fazer uma crítica mais focada no livro que li, gostava de começar por tentar explicar o apelo que a personagem tem para mim.

Um género que gosto bastante de banda-desenhada é o pulp de aventuras. Na banda desenhada norte-americana existem alguns títulos que fui lendo e que estavam dentro deste estilo: Doc Savage, Spirit, Rocketeer, Lone Ranger, Zorro entre muitos outros.

O mais estranho é que nunca encontrei uma personagem ou Universo tão rico e complexo como nas publicações DC/Marvel, Tex consegue dar-me o mais puro western de aventuras e ao mesmo tempo consigo perceber que há todo um Universo de personagens para nos perdermos em milhares de histórias.

Crítica

Duvido que este livro seja uma das melhores aventuras de Tex. Em termos de escrita não vai mal de todo e a arte é excelente (sendo por vezes mal reproduzida). O problema é que Nizzi não consegue conter a narrativa e acaba por estragar algumas cenas, em que explica, como determinado assunto aconteceu com demasiada exposição – por exemplo, Tex cruza-se com o xerife que está a fazer a ronda e posteriormente é revelado num flashback que o xerife vê o vilão a sair da janela e por causa disso é que Tex agiu de determinada maneira.

Penso que com um pouco mais de trabalho, a cena poderia resultar numa equivalente, sem o flashback que acaba por enfraquecer a narrativa (na altura em que escrevo já li outro Tex deste argumentista, em que ele utiliza novamente o mesmo truque).

No entanto, Nizzi faz um build up excelente, o arranque é muito forte e prende imediatamente, qualidades excelentes para uma narrativa “serializada”, na qual o leitor tem de estar sempre motivado para continuar a ler. De referir ainda, a homenagem a Sergio Leone na última sequência, sobre quem é mais forte, o homem da espingarda ou o homem da pistola.


A reter

– Universo complexo no qual as personagens se movimentam;
– Personagens muito bem desenvolvidas, nas quais o criador trabalhou durante muitos anos, definindo meticulosamente todos os detalhes da sua personalidade;
– Excelente utilização do Western na banda desenhada;
– Arte de grande qualidade, artista muito sólido, ainda mais por não ter cor.

[1] (Texto publicado originalmente no Blogue “Concerto em O Menor para Harpa e Nitroglicerina“, em 13 de Setembro de 2013)

Andrea Venturi e a barraca de tiro do Tex na Feira de São Mateus, em Viseu

Por José Carlos Francisco

O 18º Salão Internacional de Banda Desenhada de Viseu, organizado pelo GICAV – Grupo de Intervenção Cultural e Artística de Viseu, abriu as portas ao maravilhoso mundo do Tex, no passado dia 10 de Agosto, no interior do Pavilhão Multiusos em plena Feira de São Mateus, voltando assim uma vez mais às suas origens, mas antes da inauguração do Salão e da chegada de Andrea Venturi, a estrela maior do evento viseense, à capital da Beira Alta, já Tex Willer estava bem presente na secular Feira de São Mateus que conta já com uma história de 620 anos, sendo por isso a Feira mais antiga de Portugal, trazendo animação, espectáculos, comércio, diversão e milhares de pessoas à cidade, onde se incluíam este ano, dezenas de fãs e coleccionadores de Tex Willer.

Andrea Venturi e a barraca de tiro do Tex

E ao passearem pela Feira de São Mateus, Andrea Venturi e alguns texianos foram surpreendidos ao depararem-se com uma das inúmeras barracas de tiro ao alvo presentes no recinto da Feira, mais em concreto naquela denominada “Hotel Silverado“, onde algumas pessoas, atraídas por uma voz alta que dizia “Vai um tirinho, freguês?” disparavam espingardas de pressão de ar contra balões, tentando ganhar o almejado brinde “debaixo” do olhar atento de Tex Willer.

Andrea Venturi e António Guerreiro na barraca de tiro do Tex

A barraca de tiro que surpreendeu Andrea Venturi, porque jamais tinha visto o uso da personagem Tex Willer em algo do género, até por ser ilegal, estava ricamente ilustrada com várias imagens de Tex, com destaque para duas imponentes e que foram inspiradas em ilustrações de Aurelio Galleppini (capa de Tex nº 74, “Na Fronteira do Colorado“) e Claudio Villa (capa de Tex Anual nº 6, “O Filho do Vento“) mas nenhuma delas inspirada em algum desenho de Andrea Venturi… mas no fundo tratava-se de uma bela homenagem a Tex até porque o proprietário da barraca de tiro conhecia Tex, ficando muito honrado com a presença de um desenhador de Tex na sua barraca de tiro, prometendo em contra-partida visitar a exposição dedicada ao Ranger…

Andrea Venturi e José Carlos Francisco na barraca de tiro do Tex

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Fabio CIVITELLI foi a estrela maior do Festival de Banda Desenhada de Helsínquia

Cartaz do Festival de Banda Desenhada de Helsínquia, 2013

Por Janne Viitala (texto e fotos) e Fernanda Martins (tradução)

Um dos maiores artistas de Tex Willer, Fabio Civitelli, esteve presente no Festival de Banda Desenhada de Helsínquia, na Finlândia, nos dias 7 e 8 de Setembro de 2013. Esse evento é o maior festival de banda desenhada da Finlândia. Este ano o Festival recebeu 28.000 visitantes, o que é um novo recorde. Civitelli foi convidado pelo editor Jouko Ruokosenmäki, da editora Egmont Kustannus, que publica Tex na Finlândia, tendo sido entrevistado em ambos os dias do Festival, no sábado e domingo, pelo antigo editor do Tex finlandês, Asko Alanen.

Fabio Civitelli e Janne Viitala

Logótipo dos 60 anos de Tex na Finlândia

Fabio Civitelli mostrou-se à vontade com os fãs e contou tudo sobre a sua carreira e Tex. Ele iniciou na editora Sergio Bonelli, no início dos anos 80, com o objectivo de desenhar Mister No. Mas logo ele foi convidado a trabalhar com Tex. O género western era algo novo para Civitelli, e ele confessou que no início copiava o estilo de Giovanni Ticci, especialmente no desenho dos cavalos. Com Fernando Fusco ele estudou como desenhar armas, casas, etc. Pouco tempo depois Civitelli descobriu o seu próprio estilo de desenhar Tex.

Fabio Civitelli entrevistado durante o Festival

Ele também disse que desenhar Tex é muito difícil pois só podem ser usadas duas cores: preto e branco. O problema é criar tonalidades de cinza.

Civitelli estudou isso muito e desenvolveu o seu estilo único em como criar tonalidades de cinza: ele usa pequenos pontos para fazer esse efeito. E não, ele não cria esse pontilhado com o computador.

Ele o faz todos os pontos com caneta e pincel! Essa técnica foi muito importante para Civitelli quando estava realizando seu “Texone” La cavalcata del morto.

Esse álbum foi premiado no festival de Banda Desenhada de Lucca, na Itália, do ano passado como a melhor arte em Banda Desenhada.

Fabio Civitelli (e Asko Alanen) falando do seu Texone

Civitelli disse ainda que, durante os primeiros 25 anos, ele trabalhou quase que sem excepções com Claudio Nizzi, que conhecia muito bem as qualidades e fraquezas de Civitelli. Por exemplo, no começo ele tinha dificuldades em desenhar desertos e poeira.

Por causa disso, Nizzi colocava a maioria das suas histórias nas cidades. “Hoje em dia…“, disse Civitelli, “…eu não tenho problema algum com desertos e poeira.“.

Fabio Civitelli desenhando para os seus fãs finlandeses

Actualmente Civitelli está trabalhando com Mauro Boselli. A próxima história que estarão criando será uma nova história de Yama, o filho de Mefisto. Asko Alanen tentou perguntar que tipo de história seria. Civitelli respondeu [sorrindo] “Não me pergunte. Pergunte a Boselli. Ele é que está escrevendo a história!”.

Entretanto, disse Civitelli, Boselli não gosta que Yama tenha sido retratado como um “filhinho da mamãe” no último episódio de Mefisto. Ele vai mudar isso. Yama será muito, muito maléfico de novo.

Fabio Civitelli foi a escolha perfeita para os fãs finlandeses de Tex Willer. Tex iniciou a sua trajectória editorial na Finlândia há 60 anos e a visita de Civitelli foi o ponto maior dessa celebração.

Fabio Civitelli conversando com os seus fãs finlandeses

Edição especial comemorativa dos 60 anos de Tex na Finlândia

Outro ponto alto das comemorações dos 60 anos de vida editorial de Tex na Finlândia, foi o lançamento de uma edição especial contendo a história “El Muerto“. Em ambos os dias do evento Civitelli foi muito preciso e engraçado. Por exemplo, ele falou sobre a sua técnica em desenhar Tex (e em como faz os tons de cinza) de uma maneira que foi compreensível para todos. Ele falou em italiano, e foi traduzido para o finlandês. Civitelli pareceu gostar de estar a falar com os fãs. A atmosfera era muito boa entre os fãs finlandeses de Tex Willer. Muitos de nós conseguimos autógrafos ou mesmo um pequeno desenho feito pelo “maestro”. E também algumas suas páginas originais foram compradas pelos coleccionadores finlandeses.

Muito obrigado por visitar a Finlândia, Sr. Civitelli!

Janne Viitala conferenciando sobre Tex

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As Leituras do Pedro: Tex Ouro #63 – O Retorno do Tigre Negro

As Leituras do Pedro*

Tex Ouro #63: O Retorno do Tigre Negro
Claudio Nizzi
(argumento)
Fabio Civitelli
(desenho)
Mythos Editora
(Brasil, Novembro de 2012)
135 x 175 mm, 284 p., pb, brochado
R$ 18,90 / 9,00 €

Se a presença de mortos-vivos foi o pretexto – desnecessário – para a recente evocação de Mágico Vento aqui nas minhas leituras, uma coincidência levou-me a, em pouco tempo, deparar com outro herói Bonelli às voltas com zombies, no caso presente o insuspeito Tex Willer.

Esta história, no entanto, fica também marcada por outras notas distintivas em relação ao que é habitual nas aventuras do ranger: a troca das montanhas e planícies do Oeste selvagem pelas ruas de Nova Orleães – onde Tex e os seus habituais companheiros, nos trajes tradicionais, destoam menos do que seria de esperar – sem que os seus métodos duros sejam postos de lado, mesmo numa trama mais próxima da investigação policial do que do western puro que o costuma caracterizar, ou o retorno de um dos raros inimigos recorrentes de Tex, o Tigre Negro, protagonista na sombra de uma história em que ronda as suas presas, aproximando-se cada vez mais delas até (quase) desfechar o golpe final e decisivo.

Tudo numa narrativa longa, bem construída por Claudio Nizzi, que conta com a belíssima arte de Fabio Civitelli, que mais uma vez demonstra a sua mestria no estilo realista e na aplicação da técnica de pontilhado, quer na representação dos espaços urbanos de Nova Orleães, quer na caracterização das zonas pantanosas que se encontram nos seus subúrbios e onde tem lugar o desenlace do relato.

.*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro.