Entrevista exclusiva: PATRICK PIAZZALUNGA

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Giampiero Belardinelli na formulação das perguntas, de Júlio Schneider (tradutor de Tex para o Brasil) e de Gianni Petino na tradução e revisão e de Bira Dantas na caricatura.

Patrick Piazzalunga na arte caricatural de Bira Dantas

Olá, caríssimo Patrick Piazzalunga, e bem-vindo ao blogue português de Tex! Quais foram as leituras de quadradinhos do pequeno Patrick?
Patrick Piazzalunga: Eu agradeço ao meu irmão que, quando voltou do serviço militar, trouxe consigo duas revistas de Dylan Dog: o número 84 (Zed) e uma colectânea da Editora Mondadori com as primeiras histórias do mítico Investigador do Pesadelo. Foi ali que me apaixonei pela Banda Desenhada.


Aos 14 anos de idade você começou a frequentar a Escola Internacional de Comics de Florença: o que se recorda daqueles anos?
Patrick Piazzalunga: Eu havia recém-concluído o ensino básico e era o mais novo da sala de aula; foi uma experiência dura e estimulante, eu tive que trabalhar com as bases do desenho e dos quadradinhos… já disse tudo! E o agradecimento maior vai para os meus pais, que acreditaram nessa árdua proeza!


Três anos depois, com 17 de idade, você fez arte-final na série John Doe: como considera hoje aquele trabalho?
Patrick Piazzalunga: John Doe desenhado por Alessandro Giommetti e arte-finalizado por mim e por Dimitri Gori (amigo e colega de sala na Escola de Comics): hoje, ao rever aquele trabalho, eu mudaria muita coisa, pois não havia tempo para retoques, era preciso produzir. Eu iniciava por volta das 8h da manhã e acabava lá pelas 4h da madrugada seguinte, e nesse tempo conseguia passar a nanquim 4 ou 5 páginas, era uma loucura!

Fale um pouco do ambicioso projecto de animação Batman: l’ombra di Ra’s Al Ghul.
Patrick Piazzalunga: Para esse trabalho, Giuseppe Camuncoli (a quem agradeço muitíssimo) convidou-me a mim e a Dimitri Gori para participar da arte-final. Eu recordo-me pouca coisa porque nós trabalhávamos de forma intensa, dia e noite… foi realmente cansativo.

A actuação com Marco Bianchini permitiu que você trabalhasse com personagens importantes como Mister No e Tex: como foi a sua experiência com esses dois heróis?
Patrick Piazzalunga: Em seguida ao fim do curso na Escola de Comics e depois da experiência de John Doe, Marco Bianchini (professor e director da Escola) convidou-me a dar uma mão na arte-final de algumas páginas de Mister No desenhadas por Marco Santucci e, em seguida, de Tex. Sempre foi meu sonho de menino poder trabalhar com a Casa Bonelli, e passar aquelas páginas a nanquim foi realmente estimulante e útil para mim. Eu ia com frequência ao estúdio de Marco Bianchini, em Arezzo, e ali aprendia.


Que circunstâncias o levaram, depois disso, a trabalhar com Marco Santucci?
Patrick Piazzalunga: Depois que Santucci e Bianchini deixaram de trabalhar juntos, Santucci pediu-me para actuar consigo, como arte-finalista. Ele estava aos poucos a abandonar o traço “clássico” e a aproximar-se cada vez mais de um estilo americano “moderno”. Naquela época estávamos ambos impressionados com o trabalho feito por Brian Hitch em Ultimates e com aqueles de Alan Davis. Era para esse tipo de desenho que Santucci estava a direccionar o seu lápis, e o mesmo acontecia comigo, assim os nossos caminhos alinharam-se perfeitamente. O trabalho com Santucci prosseguiu por sete anos, a actuar para os mercados italiano, francês e americano. O nosso último trabalho conjunto foi uma história curta para um Color Tex (n.t.: no Brasil, Tex Especial Colorido), que eu não sei quando será publicado mas espero que seja para logo! Eu sou grato a Santucci, um verdadeiro mentor, com ele eu realmente aprendi muito!


Para o mercado francês, vocês trabalharam juntos para a Editora Soleil Editions, no projecto La Mandragore: como considera essa experiência em relação ao modo de trabalhar na Itália?
Patrick Piazzalunga: As diferenças são evidentes sob muitos pontos de vista: a BD francesa apresenta-se com um formato bem maior que o bonelliano, tem menos páginas e o produto final é colorido. A montagem da página é bem diferente, com muitas vinhetas e há a tendência a se descrever muito a ambientação. Do meu ponto de vista (o da arte-final), a diferença do material italiano é pouca, mas certamente deve-se deixar mais espaço ao colorista, com menor uso de variações de cinza ou espaços preenchidos com preto.


Você gostaria de também fazer os traços a lápis de seus trabalhos?
Patrick Piazzalunga: CERTAMENTE! É o que estou a tentar fazer, com as páginas de teste que apresento à redacção.


Retornemos ao Ranger que dá nome a este blogue: como se sente hoje a trabalhar com Tex?
Patrick Piazzalunga:
Depois da experiência inicial, para adquirir prática, e da história curta feita com Santucci, eu não trabalhei mais com o Ranger, só fiz algumas páginas de teste. A BD de faroeste é um dos géneros mais complexos a se desenhar e, quando se fala de Tex, mais ainda. Eu tive a sorte de poder frequentar o estúdio dos toscanos Ticci e Civitelli, que me deram conselhos valiosos a respeito do modo melhor para enfrentar o faroeste e Tex. Serei eternamente grato a ambos.


Para si, quem ou o que é Tex? O que gosta mais no Ranger e o que gosta menos?
Patrick Piazzalunga: Tex é uma instituição, faz parte da nossa cultura, é uma personagem internacional e a mais longeva na história da BD italiana. É preciso dizer mais?


Para concluir o tema, como vê o futuro de Tex?
Patrick Piazzalunga: Sinceramente, não sei responder.


Quanto tempo leva para arte-finalizar uma página? Cumpre horários? Como é o seu dia padrão entre trabalho, leituras, busca por informações, ócio, vida familiar?
Patrick Piazzalunga: Eu não uso despertador, mas os sobrinhos gritam logo cedo, por volta das 7h30, aí eu levanto-me e começo a trabalhar às 8h, paro pouco antes do meio-dia e vou à academia, depois volto a trabalhar às 14h30 e não paro enquanto não concluir uma página. Após o jantar, saio com amigos ou vou aos ensaios das bandas de que faço parte. E se estou atrasado com o trabalho? Então, TRABALHO! 🙂


Como é a sua técnica de trabalho?
Patrick Piazzalunga: Para o Dampyr que estou a fazer com Daniele Statella, ele passa-me as páginas a lápis, eu imprimo em cíano, em papel Fabriano liso, e faço a arte-final com nanquim Winsor & Newton e pincel da mesma marca, série 7 número 2 (se bem que ultimamente tenho usado pincel japonês da Pentel, pincéis finos de vários tipos, além de canetas técnicas japonesas e Staedtler), e, para os retoques, uso acrílico branco. Para os trabalhos totalmente meus (lápis e nanquim), eu faço um layout digital com Manga Studio, imprimo em cíano e depois concluo com lápis e nanquim. Aqui os instrumentos de trabalho mudam: papel Schollershammer liso e também o pouco áspero; eu nunca estou satisfeito, é uma espécie de fetiche, troco sempre! Actualmente também passei a pincéis maiores, como o de pelo de marta Da Vinci n. 5 ou 6, que me dá a possibilidade de sintetizar ainda mais até os menores detalhes, nanquim Pelikan ou Winsor & Newton (depende do papel que estou a usar), além dos pincéis finos de vários tipos, das canetas técnicas japonesas e Staedtler, e do acrílico branco para os retoques.


Quais são os seus projectos imediatos?
Patrick Piazzalunga: Actualmente eu estou a fazer a arte-final da história de Dampyr que mencionei antes, com roteiro de Giorgio Giusfredi e lápis de Daniele Statella. O título será O Deus do Massacre e sairá este ano.


Quais BDs você está a ler?
Patrick Piazzalunga: Ultimamente eu leio muito pouco, só alguns títulos da Bonelli.


Além de quadradinhos, você lê livros? E quais são as suas preferências no cinema e na música?
Patrick Piazzalunga: Actualmente leio livros de filosofia emprestados de um amigo, além de contos de H. P. Lovecraft. Quanto ao cinema, eu sou ligado ao passado (anos 70 e 80), aos filmes de série B de terror, suspense, policiais ou policiescos (n.t.: algo como policial-espaguete, filmes italianos), kung fu, comédias, faroeste-espaguete, tudo! Também adoro Tarantino, de vez em quando assisto a seriados da TV, se bem que o meu preferido é Twin Peaks. Quanto à música, eu escuto metal desde os oito anos de idade e, se não ouço metal, escuto southern rock tipo Lynyrd Skynyrd, ZZ Top, etc. E ainda, trilhas sonoras de filmes, música ambiente ou folk norueguês. E também toco guitarra em três bandas metal.


Caro Patrick, agradecemos muitíssimo pela entrevista que tão gentilmente nos concedeu.
Patrick Piazzalunga: Eu é que agradeço, foi um prazer e espero encontrá-los pessoalmente! 🙂

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Intervista esclusiva: PATRICK PIAZZALUNGA

Intervista condotta da José Carlos Francisco, con la collaborazione di Giampiero Belardinelli per la formulazione delle domande, di Júlio Schneider (traduttore di Tex per il Brasile) e di Gianni Petino per le traduzioni e le revisioni e di Bira Dantas per la caricatura.


Ciao, carissimo Patrick Piazzalunga, e benvenuto sul blog portoghese di Tex! Quali sono state le letture fumettistiche del bambino Patrick?
Patrick Piazzalunga: Devo ringraziare mio fratello, quando tornò a casa dal militare portò con se un paio di numeri di Dylan Dog: numero 84 (“Zed”) e una raccolta di storie della Mondadori che racchiudeva le prime storie del mitico Dylan. Da lì mi innamorai del fumetto a 360°.

All’età di 14 anni frequenti la Scuola Internazionale di Comics di Firenze: cosa ricordi di quegli anni?
Patrick Piazzalunga: Ero appena uscito dalle scuole medie ed ero il più piccolo della classe, è stata un esperienza tosta e stimolante, mi sono dovuto misurare con le basi del disegno e del fumetto… ho già detto tutto! E il ringraziamento più grande va ai miei genitori, che hanno creduto in questa ardua impresa!

Tre anni dopo, a 17 anni, collabori come inchiostratore con la testata John Doe: come consideri oggi quei lavori?
Patrick Piazzalunga: John Doe disegnato da Alessandro Giommetti e inchiostrato da me e Dimitri Gori (amico e compagno di classe della scuola di Comics): rivendendo il lavoro, beh, cambierei un sacco di cose, non c’era tempo per i ritocchi, dovevamo produrre, iniziavo la mattina verso le 8 e finivo verso le 4 di mattina, riuscivo a chinare 4/5 tavole in questo arco di tempo, una pazzia!

Parlaci del progetto ambizioso Batman: l’ombra di Ra’s Al Ghul.
Patrick Piazzalunga: Per questa lavorazione Giuseppe Camuncoli (tra l’altro ringrazio tantissimo) contattò me e Dimitri Gori per prendere parte alle chine di questo progetto, sinceramente ricordo poco perché lavorammo intensamente giorno e notte… fu davvero stancante.

La collaborazione con Marco Bianchini ti ha permesso di lavorare a personaggi importanti come Mister No e Tex: qual è stata la tua esperienza con questi due eroi?
Patrick Piazzalunga: Finita la Scuola di Comics, dopo l’esperienza di John Doe, Marco Bianchini (insegnante e direttore della scuola di comics) mi contattò per dare una mano a inchiostrare alcune tavole di Mister No disegnate da Marco Santucci e, successivamente, Tex. E’ sempre stato il mio sogno da bambino riuscire a collaborare in Casa Bonelli, inchiostrare quelle tavole fu davvero stimolate e utile per me, andavo spesso ad Arezzo nello studio di Marco Bianchini e lì imparavo.

Quali sono state le circostanze che ti hanno portato in seguito a lavorare con Marco Santucci?
Patrick Piazzalunga: Dopo l’interruzione della collaborazione tra Santucci e Bianchini, Santucci mi chiese di collaborare con lui come inchiostratore. Santucci stava sempre di più abbandonando il segno “classico” avvicinandosi di più ad un segno americano “moderno”. In quel periodo entrambi eravamo folgorati dal lavoro svolto da Brian Hitch in Ultimates e dai lavori di Alan Davis. Le sue matite stavano virando su quel tipo di segno, lo stesso riguardava me e le strade si allinearono in maniera perfetta. La collaborazione con Santucci è durata per 7 anni prendendo parte a lavorazioni per i mercati italiano, francese e americano. L’ultimo lavoro che abbiamo fatto insieme è stata una storia breve per un Color Tex, ma non so quando uscirà, spero presto! Devo ringraziare Santucci, è stato un mentore, con lui ho imparato davvero tanto!

Con quest’ultimo hai lavorato al progetto francese, per la casa editrice Soleil Editions, La Mandragore: come consideri quest’esperienza rispetto al modo di lavorare in Italia?
Patrick Piazzalunga: Le differenze sono evidenti sotto molti punti di vista: il fumetto francese si presenta con un formato molto più grande di quello bonelliano, è composto da meno pagine e il prodotto finale è a colori. La gabbia della pagina è totalmente diversa, presenta molte più vignette e si tende sempre a descrivere molto l’ambientazione. Dal mio punto di vista (quello dell’inchiostrazione), è cambiato poco dalla lavorazione italiana, sicuramente si tende a lasciare più spazio al colorista, applicando meno sfumature o campiture di nero.

Ti piacerebbe realizzare le matite dei tuoi lavori?
Patrick Piazzalunga: CERTAMENTE! E’ quello che sto tentando di fare, proponendo tavole di prova in redazione.

Ritornando al Ranger che dà nome a questo blog: come ti senti oggi a misurarti con il Ranger?
Patrick Piazzalunga: A livello lavorativo, a parte la gavetta iniziale e la storia breve fatta con Santucci, non mi sono più misurato con il Ranger. Ho fatto delle tavole di prova. Sicuramente il fumetto western è uno dei generi più complessi da affrontare e, se si parla di Tex, ancora di più. Essendo toscani, ho avuto la fortuna di aver frequentato lo studio di Ticci e Civitelli, dandomi preziosi consigli su come affrontare al meglio il western e il Ranger… li ringrazierò a vita.

Chi o cosa è Tex secondo te? Cosa ti piace di più nel Ranger e cosa di meno?
Patrick Piazzalunga: Tex è un’istituzione, fa parte della nostra cultura e non solo, è un personaggio internazionale e il più longevo nella storia del fumetto italiano, c’è poco da dire…

Per concludere il tema, come vedi il futuro di Tex?
Patrick Piazzalunga: Sinceramente non saprei rispondere.

Quanto tempo impieghi per inchiostrare una tavola? Hai degli orari? Come si articola una tua giornata tipo fra lavoro, letture, tenerti informato, ozio, vita familiare?
Patrick Piazzalunga: Non ho una sveglia, ma lo sono i nipoti che urlano alla mattina, alle 7:30 circa, quindi mi alzo e attacco a lavorare verso le 8, poco prima di mezzogiorno stacco e vado in palestra e riattacco a lavorare verso le 14:30 e stacco finché non ho completato una tavola. Sera dopocena esco un po’ con amici oppure vado in sala prova con le band di cui faccio parte. Se sono indietro con il lavoro? LAVORO! 🙂

Puoi esporci la tua tecnica di lavoro?
Patrick Piazzalunga: Per il lavoro che sto facendo su Dampyr con Daniele Statella, stampo in ciano le sue matite su carta Fabriano liscia e inchiostro principalmente con pennello Winsor & Newton serie 7 numero 2, china Winsor & Newton, anche se ultimamente mi sono dato al pennello giapponese della Pentel, pennini di vario genere, pennarellini giapponesi e Staedtler, e per i ritocchi acrilico bianco. Per i lavori totalmente miei (matita e china), faccio un layout in digitale con Manga Studio, stampo in ciano e poi proseguo con matita e successivamente china. Qui cambio strumenti di lavoro: carta Schollershammer liscia e semiruvida, non trovo mai pace, è una sorta di feticismo, quindi cambio sempre! Attualmente sono passato a pennelli più grandi (pennello di martora Da Vinci n. 5 o 6), mi da la possibilità di sintetizzare di più anche i particolari molto piccoli, china Pelikan o Winsor & Newton (dipende che carta uso), pennini di vario genere, pennarellini giapponesi e Staedtler, e per i ritocchi acrilico bianco.

Quali sono i tuoi progetti immediati?
Patrick Piazzalunga:
Attualmente sono impegnato con una storia di Dampyr sceneggiata da Giorgio Giusfredi, matite di Daniele Statella e chinata dal sottoscritto, si intitolerà “Il Dio del massacro” e uscirà quest’anno.

Quali fumetti leggi attualmente?
Patrick Piazzalunga: Ultimamente sto leggendo veramente poco, qualche testata Bonelli.

Oltre ai fumetti, quale tipo di libri leggi? E quali sono le tue preferenze nel campo del cinema e della musica?
Patrick Piazzalunga: Attualmente qualche libro di filosofia che mi ha prestato un amico e racconti di H. P. Lovecraft. Per quanto riguarda il cinema, sono legato al passato (’70, ’80), ai film di serie B, che possono essere: horror, giallo, polizieschi o poliziotteschi, kung fu, commedie, spaghetti western, di tutto! Amo molto Tarantino, guardo ogni tanto qualche serie tv, anche se la mia preferita è Twin Peaks. Per quanto riguarda la musica, ascolto metal dall’età di 8 anni, se non ascolto metal mi sparo del southern rock come Lynyrd Skynyrd, ZZ Top ecc… colonne sonore dei film, musica ambiente o folk norvegese. Attualmente suono la chitarra in 3 band metal.

Caro Patrick, ti ringraziamo moltissimo per l’intervista che ci hai così gentilmente concesso.
Patrick Piazzalunga: Grazie a voi, è stato un piacere, spero di incontrarvi di persona! 🙂

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A Opinião do Rui: Tex Edição de Ouro nº 83 – A Grande Invasão

Por Rui Cunha

Se bem que grande parte da Banda Desenhada que se faz hoje em dia seja original e parta da imaginação dos seus criadores (argumentista e desenhador), outra há que parte duma base existente, seja ela uma simples notícia ou um acontecimento histórico que, depois de cuidadosamente analisado e estudado, dá origem a um bom argumento que resulta num grande entretenimento chamado banda desenhada e que, regra geral, não desmerece nenhum dos seus autores, seja argumentista ou desenhador.

Tex Willer e o seu filho, Kit deslocam-se até à cidade de Wackett, no Texas para assistir ao funeral de um  velho amigo. O que levaria uma alta patente dos Rangers a estar presente no funeral daquele que, para os habitantes da pequena cidade, não passava de um zé-ninguém? Decidido a mudar a opinião da cidade sobre o morto, Tex resolve contar a história de como ele e outros, alguns anos antes, conseguiram impedir a grande invasão dos Comanches e salvar o Texas.


Começa assim “A Grande Invasão”, uma aventura de Tex, escrita por Mauro Boselli e desenhada por Carlo Raffaelle Marcello. Publicada em Itália em 2002, foi também a última história desenhada pelo autor, desde que passou a integrar o lote dos desenhadores eleitos pela Editora Bonelli em 1991, antes do seu falecimento em 2007. Das nove histórias de Tex que desenhou, desde “I Diavoli Neri” (Tex italiano nº 371 a 373),  sete delas partiram de argumentos escritos por Mauro Boselli e são consideradas verdadeiras obras-primas do universo Bonelliano. O desenho de Marcello tem um traço próprio que ajuda a que o leitor mergulhe na aventura e interaja com as personagens sem nunca perder a noção de aventura e o tom épico, uma característica bem patente em “A Grande Invasão”. Os argumentos de Boselli são sinónimo de qualidade e esta também está muito bem representada na história que aqui me trouxe.

Percebe-se também que Mauro Boselli nutre um especial fascínio pela história, em especial pela dos Estados Unidos e não hesita em agarrar no episódio da batalha do Álamo, ocorrido em 1836, na qual, pouco mais de uma centena de texanos, sitiados nas ruínas duma velha missão espanhola, auxiliados pelos tennessianos de Davy Crockett fizeram frente a mais de quatro mil mexicanos comandados pelo general Santa Anna para impedir que este anexasse o Texas, adaptando-o livremente para banda desenhada.


O argumento de Boselli colhe alguns destes elementos e adapta-os à sua vontade numa nova realidade (a invasão Comanche) com outros protagonistas (Tex, os colonos, os condenados, os próprios índios e seus chefes), estabelecendo até um paralelismo com os eventos verdadeiros, nos quais, segundo reza a história, alguns lugares-tenente do general Sam Houston, o comandante das forças militares do Texas, ao saber da situação do Álamo, quiseram ir em seu auxílio, mas Houston preferiu deixá-los sacrificar-se e assim conseguir reunir o número de tropas efectivas necessárias para enfrentar o exército mexicano (na aventura acontece o mesmo quando, depois de repelido o ataque dos índios a San Antonio, Carson e os Rangers querem ir à procura de Tex e o comandante proíbe-o de o fazer, alegando que Tex terá que se desembaraçar sozinho).

Toda a aventura, se excluirmos as primeiras ( onde após um momento de tensão, entre Tex e os habitantes de Wackett, no cemitério, tudo parece ficar esclarecido apesar da curiosidade do xerife e do seu ajudante em relação ao morto) e as últimas páginas, passa-se num longo “flashback” de mais de 300 páginas (a história tem um total de 330 páginas), o que, diga-se de passagem, não é nada fácil de escrever, quanto mais desenhar  (Marcello mostra bem, em vários quadrados, toda esta tensão inicial) e ainda, pelo meio, colocar um “flashback”dentro do “flashback”, no qual somos surpreendidos ao ver um Kit Carson ainda de cabelo preto (págs. 203-208), em plena acção.


As personagens, excluindo Tex, que incluem  um grupo dos condenados e dos soldados que os guardam, nas famílias de colonos (que Tex ajuda sair do território) são-nos apresentadas, independentemente das suas motivações pessoais ou outras, como tendo um objectivo comum que é a sua sobrevivência. Boselli consegue aqui (de resto, como em outras histórias por si assinadas), construir uma notável galeria de personagens (principalmente no seio do grupo de condenados onde a riqueza psicológica (ou não?) de cada um é esmiuçada quase até ao limite) a que o desenho de Marcello, carregado de simbolismo e sentimento, fazendo uma boa gestão das situações, dá um tratamento muito realista (principalmente nas sequências nocturnas), que reflecte muito do que era o velho Oeste, também nas sequências de acção, nomeadamente o ataque dos índios á caravana dos colonos e o ataque final ao Forte Quitman, a arte de Marcello consegue transmitir aquilo que no argumento de Boselli só poder ser (e deve ser) descrito como sendo uma verdadeira epopeia épica ao nível do melhor que Tex nos tem mostrado e que nos remete imediatamente para os antigos westerns que tantas e tantas vezes preencheram o nosso imaginário numa altura em que todos (e este vosso comentador também se inclui) queríamos ser uma espécie de cowboys para podermos combater os índios.

Nesta aventura surge, igualmente, como acontece em muitas outras, um dos pilares mais fortes do universo texiano: o senso de justiça a que o Ranger está obrigado por aquilo que ele representa: a lei e neste campo, é-lhe dada, mais uma vez, a oportunidade de aplicar essa mesma justiça ao confiar a sua vida (e igualmente a de outros) nas mãos de homens que estão a braços com essa mesma justiça e com a lei que ele próprio  representa dando-lhes uma oportunidade de redenção.

Uma última palavra para a capa que ilustra este “Tex Edição de Ouro nº 83”, onde vemos num primeiro plano uma cruz de madeira e uma pá numa sepultura e em segundo plano vemos Tex e Kit Willer, numa atitude de respeito, com as suas gabardinas a esvoaçar ao vento (é incrível a sensação de movimento que esta imagem transmite), que vemos junto ao chão e num céu em tons amarelados e rosa, simbolizando o final do dia, vemos alguns abutres a esvoaçar. É mais um trabalho de muita qualidade da autoria de Claudio Villa, o consagrado desenhador do Staff Bonelliano, autor das últimas centenas de capas da revista Tex.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

Vídeo: Spot de Tex na TV

Nos principais canais de TV na Itália irá a ser emitido, a partir do dia 3 de Março, um spot publicitário anunciando a estreia de uma nova colecção de Tex:  Tex Classic, a nova colecção (a cores) de Tex Willer que repropõe, a cada duas semanas nas suas 64 páginas, todas as aventuras de Tex desde as primeiras stiscias até às mais recentes edições no formato “bonelliano” (16 X 21 cm)  ao preço de 2,90€.

Spot publicitário esse que dura 15 segundos e que damos já hoje a conhecer aos nossos leitores:

Trata-se de mais uma oportunidade para novos (e porque não, velhos) leitores de Tex (re)lerem a saga do Ranger e dos seus pards, na exacta sequência em que foram realizadas de 1948 até hoje, agora a cores mostrando uma vez mais o enorme sucesso deste grande fenómeno da banda desenhada italiana!