Por Gabriele Parenti*
Entrevista do periódico STAMP Toscana, Itália
8 de Setembro de 2019
Claudio Nizzi e o “seu” Tex, personalidade e novas aventuras do atemporal ranger

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Fiumalbo – Claudio Nizzi, histórico autor de Tex, que há mais de trinta anos assumiu o bastão do lendário Gianluigi Bonelli, escreveu mais de uma centena de histórias da mais popular personagem da banda desenhada italiana. Após um período em que tinha suspenso a sua colaboração ao Tex para dedicar-se à narrativa de alguns romances policiais ambientados no Appennino tosco–emiliano, regressou agora a Tex numa forma melhor do que nunca e o seu último trabalho Un capestro per Kit Willer (uma longa história, a cores, de 160 páginas ) obteve um notável sucesso de crítica.
Fomos encontrá-lo na “sua” Fiumalbo:
O Color Tex deste Verão, que contém a história “Un capestro per Kit Willer” escrita por si e desenhada por Rodolfo Torti, obteve um notável sucesso. Como explica esta calorosa recepção por parte dos leitores? Talvez porque é uma história clássica?
Claudio Nizzi: Creio que o motivo principal resida no facto que os leitores tenham finalmente encontrado o Tex mais tradicional, aquele criado e continuado por quase quarenta anos por Gian Luigi Bonelli. O Tex que actua na companhia dos outros três pards, com os quais troca as habituais piadas que se esperam dele e o mesmo se pode dizer de Kit Carson. Esta história assinala o meu regresso ao Tex que eu abandonei há cerca de oito anos, excepção feita a uma breve história de 32 páginas desenhada por Roberto Zaghi publicada há um par de anos no Tex Color outonal, aquele que contém cinco histórias curtas escritas e desenhadas sobretudo por autores novos. Os outros escritores da série principal mensal que levaram por diante o Tex nestes últimos oito anos “ traíram-no” um pouco, talvez convencidos de que o estão a rejuvenescer, a modernizá-lo, a torná-lo mais parecido com os heróis sombrios e “excessivos” que estão na moda no cinema e na banda desenhada americana de hoje. O carácter de Tex mudou: já não é irónico, mas antes muito sério. O seu modo de falar já não é aquele pitoresco de G.L. Bonelli (que eu me esforcei por preservar), mas antes um diálogo qualquer. Em suma, os leitores já não o reconhecem. Na história “Un capestro per Tex Willer” voltaram a encontrá-lo. Apenas isto.
Kit Willer desde sempre é um pouco azarado, os seus acidentes de percurso são frequentes, a sua excessiva impulsividade é ainda uma característica de adolescente?
Claudio Nizzi: Seguramente sim. Kit continua a ser um adolescente e – segundo a filosofia da série – jamais crescerá. Cada personagem permanece congelado na própria idade. A de Kit nunca foi revelada com precisão, G: L. Bonelli nunca a precisou. O primeiro e mais popular desenhador de Tex, Aurelio Galeppini popularmente conhecido por Galep, lamentava-se desse facto porque não sabia como reger-se: “É um jovem ou um adulto? Não se sabe, eu fico desconfortável quando tenho de desenhá-lo”. Na verdade Kit foi criado por G. L. Bonelli na onda do sucesso dos jovens heróis que povoavam as revistas dos anos ’50, na época mais famosos do que o Tex. A criação de Kit foi feita para incluir na série um herói jovem. A experiência funcionou até um certo ponto, e mais tarde, quando o Tex assumiu a sua personalidade definitiva que decretou o seu sucesso, já não havia necessidade do herói jovem, e Kit permaneceu um pouco “suspenso”. Nunca teve uma personalidade própria e o risco contínuo é de o tornar um Tex em formato minore, com os defeitos do pai, mas sem os seus méritos. Porém, funciona bem dentro do quarteto dos pards.
Tenho a impressão que as histórias “investigativas” são aquelas que lhe são mais agradáveis. Confirma-o?
Claudio Nizzi: Seguramente. Quando eu comecei a escrever o Tex (no início dos anos ’80) eu tingia as minhas histórias com um modo “policial” porque eu achava que um certo mistério as enriquecia comparativamente àquelas simplesmente western que se tornavam muito repetitivas. Decio Canzio, o director da editora, grande especialista de banda desenhada, grande leitor de histórias policiais e grande homem, aconselhou-me a continuar por esse caminho, porque também ele pensava que um pouco de mistério era um valor agregado. Mas Sergio Bonelli não pensava do mesmo modo, o editor (também ele autor de um certo número de histórias de Tex que escreveu quando teve que ajudar o pai, antes da minha chegada) não amava o género policial. E como era ele que tinha a última palavra, tive que me adequar á sua vontade. Mas não excluo que no futuro, alguma minha história volte a ter algum mistério.
Como é o seu relacionamento com as cores, após tantos anos de histórias clássicas a preto e branco?
Claudio Nizzi: As cores podem valorizar ou dar cabo de uma história. Amiúde se tende a considerar as cores como um efeito constantemente melhorativo. Por outro lado, se as histórias são confiadas a coloristas pouco qualificados, o efeito torna-se bem negativo. O contribuição do computador revolucionou as coisas também no que se refere às cores, e actualmente todos se consideram coloristas. Os bons coloristas melhoram as histórias, os medíocres pioram-nas. Nem mais nem menos do que acontece com os desenhos. Concluindo, eu acredito que colorista de banda desenhada deva tornar-se uma verdadeira profissão artística, como é a dos desenhadores. Uma condição para isso é que os coloristas sejam mais bem pagos.
Pode dar-nos algumas antecipações relativas às recentes histórias que acabou de escrever?
Claudio Nizzi: Em Dezembro próximo (excepto alterações de última hora na programação) começará na série principal uma história minha de dois números desenhada por Lucio Filippucci. A ambientação é a mais clássica possível: bandidos, o deserto, uma estação de correios transformada num fortim e assediada por índios, algum mistério por uma bolsa de ouro perdida, um indício amoroso entre os sitiados, a sua heróica defesa e por fim a chegada da cavalaria com Kit Carson à frente. Pouco tempo depois deve iniciar-se a publicação de uma história (também ela de dois números) desenhada por Corrado Mastantuono, ambientada num rio localizado nas florestas do norte, com um barco atacado por bandidos e por índios, e Gros-Jean que dará uma ajuda aos quatro pards. Uma terceira história comparecerá num Maxi Tex, desenhada por Giancarlo Alessandrini, que narrará sobre uma grande conspiração contra Ely Parker, também conhecido por Donehogawa, o índio comissário para os assuntos indígenas. Os malfeitores tentarão, numa única cajadada, desembaraçar-se de Ely Parkere de Tex. Será muito movimentada e desenrola-se no Arizona. Uma quarta história, desenhada por Giovanni Ticci narrará a fuga, rumo ao Canadá, de um numeroso grupo de índios protegidos por Tex. Uma quinta história desenhada por Rodolfo Torti será ambientada nas Dragoon Mountains, com um ataque inicial a um banco, a caça aos bandidos, o mistério de uma bolsa com o saque escondido numa velha cripta, um pai idoso em busca do seu filho, um bando de apaches evadidos da reserva de San Carlos. Uma sexta história, desenhada por Frederic Volante, é ambientada nos pastos do Montana, onde Tex actuará sozinho e em nome da agência Pinkerton, procurará um agente desaparecido, colidindo com um aguerrido barão do gado. Outras duas histórias já escritas aguardam para serem atribuídas a dois desenhadores.
Uma novidade na minha maneira de trabalhar em comparação com o passado – já que não sou pressionado pela pressa – é que já não escrevo muitas histórias contemporaneamente, aos bocados, escrevendo apenas uma de cada vez, iniciando-a e finalizando-a.
*Copyright: © 2019 Gabriele Parenti & STAMP Toscana, de Itália
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