Ainda, a Propósito de Sergio Tarquinio

Por Mário João Marques

Sergio Tarquinio

Foi com tristeza que soube da notícia do falecimento de Sergio Tarquinio, porque o desenhador de Cremona sempre foi um dos meus preferidos da época clássica do fumetto italiano. Uma época que se fundou com nomes como Walter Molino, Rino Albertarelli ou Guglielmo Letteri; que se consolidou em géneros como a aventura e o western, onde despontaram artistas como Aurelio Galleppini, Francesco Gamba, Virgilio Muzzi ou Dino Battaglia; e teve o se apogeu em nomes como Hugo Pratt, Attilio Micheluzzi ou Sergio Toppi.

Quando me foi pedido que escrevesse umas linhas sobre este imenso artista, consultei a sua extensa carreira e deparei-me com um sem número de acontecimentos que marcaram a sua vida. Pela sua riqueza, importância ou mera curiosidade, importa falar ainda um pouco mais de Sergio Tarquinio.

Por exemplo, o autor teve uma vida longa, mas a verdade é que em 1936, aos 11 anos de idade, Tarquinio adoeceu gravemente e esteve hospitalizado durante cerca de um mês e meio, fase que coincidiu com a morte do seu pai. Não existe muita informação sobre a sua doença, apenas que o prognóstico era desfavorável. Apesar disso e também da falta de medicamentos eficazes na época, Tarquinio driblou a morte, sobreviveu e recuperou… até ao passado dia 11 de janeiro. A experiência da doença teve um impacto profundo na vida e na carreira artística de Tarquinio, despertando uma sensibilidade maior para a expressão visual e para a observação do mundo ao redor. Após a recuperação, Tarquinio dedicou-se ainda mais ao desenho, usando a arte como forma de reconstrução emocional e de afirmação pessoal. Alguns críticos e estudiosos referem que este trauma infantil poderá ter contribuído para a intensidade e realismo presentes nas suas obras, dado que a sua capacidade de transmitir emoções e dramatismo pode encontrar raízes na experiência vivida.

O período em que foi convocado para o serviço militar também merece ser aqui mencionado, uma vez que foi marcado por alguns episódios intensos, certamente formadores da sua personalidade. Estávamos em 1944, quando Tarquinio embarcou num navio de transporte de materiais e tropas que partiu de Génova em direção a Toulon. Durante a viagem, o navio foi atingido por uma bomba lançada por um avião de reconhecimento aliado, acabando por ficar retido no porto de Toulon para reparação. Tarquinio permanece a bordo, de guarda à embarcação, mas em abril de 1944, um novo bombardeamento afunda o navio, deixando os militares sem abrigo e equipamentos. Tarquinio e os sobreviventes são alojados num edifício desabitado e danificado no arsenal da cidade. Dada a iminente chegada dos Aliados, Tarquinio obteve um salvo-conduto para regressar a Itália, apresentando-se no quartel-general do comando alemão em Cremona, onde acabou destacado para a secção cartográfica. Testemunha de ataques e bombardeamentos, que o obrigaram a viver em condições precárias, estas experiências marcaram a coragem e resiliência de Tarquinio e contribuíram para desenvolver no autor uma meticulosidade que se iria refletir no rigor técnico e expressivo do seu trabalho.

Terminado o conflito mundial, Tarquinio fez de tudo um pouco, mas sempre com cariz temporário e incerto. Dada a sua habilidade com o desenho, um amigo sugeriu-lhe que ilustrasse histórias de aventuras, tendo, assim, desenhado as suas primeiras ilustrações (de western), que o autor apresentou à Editoriale Dea Moda e que foram suficientes para convencer o editor. Estávamos em novembro de 1945, e Tarquinio iniciava a sua carreira de ilustrador que durou mais de quarenta anos.

Em 1948, recebeu um convite da Editorial Abril para trabalhar em Buenos Aires e rumou à Argentina. As coisas correram bem com o editor Cesare Civita e Tarquinio conhece uma atividade frenética. Civita, que importava muitas das histórias de Itália, decide também recorrer a autores italianos. Deste modo se explica a chegada do chamado “Grupo de Veneza” a Buenos Aires, formado por Mario Faustinelli, Alberto Ongaro, Dino Battaglia, Hugo Pratt e, mais tarde, Ivo Pavone. Apesar do ceticismo inicial, a verdade é que Tarquinio juntou-se ao grupo e todos se tornaram amigos, passando a conviver e a discutir sobre arte e literatura numa casa que os autores venezianos tinham alugado em Acassuso. É nesta fase que a editora confia a Tarquinio a formação de um grupo de jovens artistas, entre os quais Guglielmo Letteri, dando azo ao nascimento da “Escola Italiana de Banda Desenhada Sul-Americana”, também conhecida por “Escuela de Acassuso”. Este capítulo argentino foi decisivo para Tarquinio, dado que o contacto com outros artistas, a troca de influências e a consolidação do seu estilo gráfico prepararam o terreno para o sucesso que, posteriormente, viria a conhecer em Itália. As revistas argentinas exigiam histórias com enredos ágeis e personagens carismáticas, o que permitiu a Tarquinio desenvolver uma narrativa mais cinematográfica, com enquadramentos ousados e maior expressividade das personagens. Era um mercado que também valorizava um traço limpo e detalhado, com uma construção dinâmica, de modo a facilitar a leitura: a técnica de Tarquinio passou a equilibrar realismo com fluidez, característica que se revelaria bem evidente em obras como Storia del West.

O regresso a Itália ocorre em 1952, onde Tarquinio vai trabalhar para a Medialanum-Dardo, novamente como ilustrador. Esta década representou para o autor uma elevada carga de trabalho, que lhe permitiu conhecer vários ilustradores, argumentistas e escritores, dedicando-se também à pintura e gravura. Foi em 1957 que conheceu Sergio Bonelli, com quem partilhou uma amizade sincera e duradoura, e para quem produziu inúmeras obras, destacando-se a famosa série criada por Gino D’Antonio Storia del West. Tarquinio desenhou 34 histórias, onde aplicou as técnicas aprendidas durante a sua permanência na Argentina, sobretudo a documentação rigorosa, a narração fluida, o ritmo cinematográfico ou a expressividade das personagens.

Sergio Bonelli referia que Tarquinio era “atencioso, pontual e escrupuloso, mas também incrivelmente disciplinado, dividia os seus dias dedicando apenas as horas da manhã às páginas das nossas bandas desenhadas e reservando o seu tempo livre para as verdadeiras e grandes paixões da sua vida: a gravura e a pintura”.

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Sergio Tarquinio, desenhador de Tex, Ken Parker e Storie del West, morreu aos 100 anos

Sergio Tarquinio (13 de Outubro de 1925 – 11 de Janeiro de 2026)

13 de Outubro de 1925 – 11 de Janeiro de 2026

Por Mário João Marques

Sergio Tarquinio (1925-2026) nasceu em Cremona, Itália, e desde cedo revelou talento para o desenho. Deixa um legado imenso, através de uma carreira que abrangeu variados campos das artes gráficas.

Sergio Tarquinio

No início dos anos 1940, publicou trabalhos em revistas como Paperino Giornale e Topolino Gigante. Em 1942, venceu um concurso de desenho (Ludi Juveniles) e, como autodidata, começou a pintar e a fazer xilogravuras. Estreou-se na banda desenhada em 1946 com Luna d’argento da Editoriale Dea. Em 1948, colabora com a Medialanum, produzindo trabalhos como Blek e Gionni. Muda-se para a Argentina, onde trabalhou até 1952 para Cesare Civita (Editora Abril), com trabalhos em revistas como Misterix, além de criar Alan Blood, El Inspector Slop e outras. Regressa a Itália em 1952, tendo criado neste período séries como Marussia e Ray Fox, assim como adaptações de obras literárias. Ainda nos anos 1950, integrou a Editora Araldo (mais tarde Sergio Bonelli – SBE), assinando westerns como Giubba Rossa e Il giudice Bean, além de colaborar com a Mondadori, onde ilustrou Batman e Superman e trabalhou para o Corriere dei Piccoli. Na SBE, foi um dos artistas marcantes em Storia del West de Gino D’Antonio, sem esquecer os seus trabalhos em Il ribelle, Rick Master e, a partir dos anos 1980, em Ken Parker.

Sergio Tarquinio em Storia del West

No final desta década, abandonou a banda desenhada e passou a dedicar-se à pintura e xilogravura, com inúmeras publicações e exposições, tendo sido agraciado com muitos prémios, entre os quais se destacam dois em Portugal: em Viseu (1965) e Estoril (1977). A sua carreira no fumetto italiano foi reconhecida com a obtenção de diversos prémios, como o Nettuno di Bronzo (1979), Targa d’argento (Lucca Comics, 1998), Prémio do Júri da Anafi (1999) ou Targa do Município de Cremona (2005). As suas mãos foram imortalizadas no Walk of Fame do Festival de Lucca em 2017, por ocasião dos 50 anos de Storia del West. Em 2025, foi homenageado pelo Centro Fumetto Andrea Pazienza.

Sergio Tarquinio e Tex

O seu trabalho em Tex resume-se à história Ombre di Morte, um trabalho breve, mas marcante, interpretando o universo do ranger com o seu traço expressivo, feito de sombras e contrastes. O argumento foi escrito por Gianluigi Bonelli em meados dos anos 1960, tendo Tarquinio então desenhado 64 pranchas. A história nunca chegou a ser finalizada pelo autor, acabando esquecida nos arquivos da SBE. Não se sabe em concreto porque é que Tarquinio não terminou este trabalho ou mesmo porque nunca mais desenhou Tex. Provavelmente, algum receio da editora em ousar nos cânones da série, desafiando algumas “rotinas” habituais. Eventualmente, porque logo de seguida o desenhador passou a trabalhar em Storia del West. A verdade é que, recentemente, o trabalho foi redescoberto, tendo sido publicado em 2023, e finalizado por Mauro Boselli e Marco Torricelli. O lançamento da obra associou-se às celebrações dos 75 Anos de Tex, o que veio reforçar a visibilidade e destaque dado ao trabalho.

Tarquinio foi sempre um inovador, cuja narrativa visual, com enquadramentos cinematográficos e atenção aos detalhes, antecipava tendências que só se tornariam comuns anos depois. O seu traço seguro e rigoroso, a clareza e legibilidade gráfica ou ainda o ritmo fluido, contribuíram para dar grande credibilidade a personagens e ambientes, com especial destaque nas expressões faciais, nos cenários ricos e nas atmosferas emotivas. Este realismo narrativo acabou por se tornar num dos traços marcantes da sua obra, uma vez que Tarquinio não se limitava a desenhar com rigor técnico, também se preocupava em ser autêntico. A melhor homenagem que podemos prestar é reconhecer que, ainda hoje, os seus trabalhos permanecem atuais, quer do ponto de vista gráfico, quer esteticamente, o que prova todo o seu enorme talento. Tarquinio não desenhou apenas banda desenhada, ajudou a moldar o fumetto italiano.

Tex – ‘Ombre di morte’ de Gianluigi Bonelli e Sergio Tarquinio

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Apresentação FREDERIC VOLANTE: Desenhador de Tex presente em Anadia nos dias 9 e 10 de Maio integrado na 11ª Mostra do Clube Tex Portugal

Por Mário João Marques

Frederic Volante, estrela texiana que abrilhantará a 11ª Mostra do Clube Tex Portugal, nos dias 9 e 10 de Maio de 2026, na cidade de Anadia

Frédéric Volante, de nacionalidade italiana, nasceu em Etterbeek (Bélgica) em 19 de outubro de 1975. Formou-se no Instituto de Arte de Imperia, e iniciou a carreira no estúdio de Bruno Ramella. A estreia profissional ocorreu em 2001 com Nick Raider e continuou, a partir de 2004, com Magico Vento. Em 2009, entra no mercado franco-belga com Shahidas (Bamboo) e, no ano seguinte, trabalhou em Les Z (Glénat). Entre 2014 e 2015, participou nas séries Lukas e Lukas Reborn e, em 2015, desenhou o terceiro volume de L’Avocat (Le Lombard). Em 2018, dedicou-se a projetos institucionais, como diversos álbuns comemorativos para a Marinha Italiana, colaboração que culmina com a publicação de Come Dei nella tempesta, por ocasião dos 90 anos do navio-escola Amerigo Vespucci. Em 2022, estreou-se em Tex numa breve história a cores (Il professionista), prosseguindo, em 2024, com Un covo di vigliacchi, no Tex 765 BIS. Em 2025, lançou Lourdes, une histoire millénaire, um projeto oficial sobre o santuário francês. O seu estilo gráfico realista e detalhado caracteriza-se pelo cuidado anatómico e expressões faciais precisas.

Frederic Volante estará em Anadia nos dias 9 e 10 de Maio para deleite dos fãs de Tex

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