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As Leituras do Pedro – Mister No Revolution: Amazonia
As Leituras do Pedro*
Mister No Revolution: Amazonia
Michele Masiero (argumento)
Alessio Avalone, Matteo Cremona e Emiliano Mammucari (desenho)
Panini Comics
Espanha, Março de 2021
195 x 259 mm, 160 p., cor, capa dura
19,00 €
Final inglório
É um sinal de tempos mais ou menos recentes, o revisitar das origens de heróis da banda desenhada, e não só para tentar tirar partido da sua popularidade e da sua pertença ao imaginário colectivo.
Este tipo de exercício, feliz nalguns casos, infeliz noutros, comporta sempre dois riscos: por um lado, quanto maior é a popularidade da personagem revisitada, mais arriscado se torna mexer com o que maravilhou gerações; por outro lado, se a nova obra beneficia sempre do conhecimento prévio do original por parte do leitor, também tem que se apresentar autónoma em si mesma, para seduzir quem se aproxima dela virgem do tema.
É nisto que falha o volume final deste tríptico de Mister No, que transpõe as suas deambulações para 25 anos depois do tempo em que o situou o seu criador.
É verdade que Mister No está longe de ser uma personagem de topo no universo Bonelli, apesar de desfrutar de alguma popularidade em Itália e, principalmente do Brasil, pela localização das suas aventuras. Mas poder ser associado ao nome de Sergio Bonelli, enquanto seu criador sob o pseudónimo de Guido Nolitta, é um trunfo não de todo desprezável, embora não lhe permita atingir, nem de perto nem de longe, os níveis de um Tex ou um Dylan Dog.
Prosseguindo o exposto dois parágrafos acima, é pena que assim seja, porque este tríptico Mister No Revolution até tinha começado bem em Vietname, com a transposição temporal do protagonista da II Guerra Mundial para aquele conflito traumático para os Estados Unidos, e, depois, em California, transportando-o para a São Francisco do final da década de 1960, sob o signo dos hippies e das manifestações pela paz. Foram dois volumes com uma forte sustentação histórica, com a subida de um degrau em termos de violência e sexo, condizentes com os dias de hoje – bens diferentes, em termos narrativos, gráficos e de liberdade criativa, dos vividos em 1975 quando o herói surgiu – e em que Mister No, com o seu posicionamento e forma de pensar característicos e reconhecíveis, fazia todo o sentido. E eram dois volumes completamente autónomos, que dispensavam qualquer conhecimento prévio da obra.
Agora, Amazonia, apresenta um problema de base: enquanto os volumes anteriores tinham uma base histórica que permitia a alteração temporal e, até, um melhor aproveitamento da forma livre de pensar do ex-piloto-aviador, no caso presente – desculpem a franqueza, a Manaus dos anos 1970 não difere muito da dos anos 1950 – em termos narrativos ou do retrato que Nolitta e Masiero traçam dela. Depois, enquanto que os outros dois volumes beneficiavam de uma forte componente social e política, na sua chegada ao Brasil, Mister No é apenas um homem desencantado com a vida, desencanto esse que vai afogar em álcool e mulheres, prosseguindo a atormentada descoberta de si mesmo numa espiral com muito de auto-destrutivo.
Mas, o grande problema de Amazonia, é a excessiva colagem – deixem-me escrever assim para ser bem claro – à trama original delineada por Sergio Bonelli/Guido Nolitta, pois os acontecimentos aqui narrados são os mesmos: os primeiros tempos com Esse Esse, o conhecimento e nascimento da paixão pela bela Patrícia Rowland e a busca pelo templo Asteca em plena selva amazónica. Explicando melhor, o actual argumento surge com hiatos – ou saltos temporais demasiado longos – que quem já conhece o original preenche com facilidade, mas que poderão deixar algo desorientados os leitores de ‘primeira vez’.
Valendo como reencontro, Amazonia é, assim, uma opção menos válida como descoberta. E, para quem tanto prometeu nos dois primeiros volumes deste tríptico, significa um passo atrás para Masiero e deixa um sabor a pouco para os leitores que tinham aderido à sua ‘revolução’ da personagem.
Nota final
Como nos dois volumes anteriores, a edição espanhola da Panini revela-se robusta, com uma sólida capa dura, bom papel, boa impressão e um caderno final de extras que inclui, para além de esboços preparatórios e ilustrações do trio de desenhadores de serviço – Alessio Avalone, Matteo Cremona e Emiliano Mammucari – um dossier sobre a época e a localização da acção deste volume.
* Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro
(capa disponibilizada pela Panini; pranchas (da versão original italiana) disponibilizadas pela Sergio Bonelli Editore; clicar nelas para as aproveitar em toda a sua extensão)
OS DURÕES TAMBÉM RIEM
Por Júlio Schneider*
Bonelli Kids é uma divertida série de tiras que retrata algumas personagens da Sergio Bonelli Editore (SBE) como crianças que se envolvem nas mais variadas confusões. As primeiras tiras apareceram no sítio internet da editora no início de 2017 e, no ano seguinte, foram todas compiladas num volume impresso de pequeno formato. Escrita por Tino Adamo, Sergio Masperi e Alfredo Castelli, e desenhada por Luca Bertelè, a primeira série bonelliana humorística, criada para leitores pequeninos, conquistou logo os fãs tradicionais que divertem-se a ver, entre outros, o jovem sabichão tagarela Martin, o pequeno Mister No que pensa ser um sedutor, o menino Zagor que sempre cai do cipó, e até o traquinas Alf, “o menino mais velho do mundo“, que lembra muito – no nome, na fisionomia e nas atitudes – Alfredo Castelli!
Mas entre as várias personagens retratadas na série não está Tex Willer, o principal nome da Casa Bonelli. Segundo os editores, por respeito, pelo facto de Tex ser uma instituição nacional e, praticamente, sinónimo da BD italiana, decidiu-se não o envolver num projeto que, ainda que de forma divertida, mexe com a visão tradicional das personagens retratadas. Também há nobreza da parte dos editores em não pretender fazer algo que eles não sabem se seria aprovado por quem criou e deu consistência à personagem que é o sustentáculo da editora, e por não saberem se estariam à altura das brincadeiras feitas com Tex pelos próprios criadores Gianluigi Bonelli e Aurelio Galleppini e pelo então editor Sergio Bonelli, que em certas épocas decidiram fazer graça com o grande Águia da Noite, obtendo resultados que conseguiram fazer o leitor sorrir, sem que fosse preciso desmitificar a personagem. Em 1985, por exemplo, o sóbrio herói viveu uma cena irónica, desenhada pelo mestre Galep: Tex e Jack Tigre param para acampar à noite, num local escuro, e, quando acordam, veem-se numa praia cercados de veraneantes. Outro bom exemplo, também com desenhos de Galep, viu-se na última página do n° 1 de Os Grandes Clássicos de Tex (Ed. Mythos, 2006), em que Tex leva uma sonora pancada na cabeça aplicada por Lilyth com um rolo de macarrão, numa cena digna de comédia de costumes.

Tex leva uma sonora pancada na cabeça aplicada por Lilyth com um rolo de macarrão, numa cena digna de comédia de costumes.
Em 2004, por licença da SBE, a editora italiana Hazard publicou um livro com vários momentos dos heróis bonellianos em situações, digamos, não muito ortodoxas, entre as quais a que reproduzimos ao lado, com diálogos de Guido Nolitta e desenhos de Claudio Villa: uma noite, num acampamento, Tex diz a Jack Tigre que os índios são pessoas de poucas palavras, que passam horas quietos e, quando alguém conversa com eles, respondem apenas ugh!; quando estão no meio de um tiroteio, o único comentário é ugh!; se cai um raio a dois metros de distância, exclamam ugh!; se encontram uma jazida de ouro, manifestam surpresa dizendo ugh!; e tenta arrancar do calado parceiro o significado da interjeição, recebendo uma resposta quilométrica, sem sentido e divertida.
Como disse o saudoso editor Sergio Bonelli (autor da cena em que Tex leva o rolo de macarrão na cabeça), “a vida de todo dia é muito dura e séria, faz bem rir um pouco“. Mesmo que o objeto do riso seja – mas não com muita frequência – o nosso Ranger preferido, granítico e setentão.
* Texto de Júlio Schneider publicado originalmente na Revista nº 9 do Clube Tex Portugal, de Dezembro de 2018.
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Um momento de descanso na cavalgada de Tex. Desenho de Carlo Raffaele Marcello
TEX NO GRANDE NORTE
Por Moreno Burattini*
“Era a Selva, a Selva do Norte, selvagem e com um coração gelado”. É desta forma que Jack London descreve o deserto de neve e as florestas do Alasca, no seu romance “White Fang – Caninos Brancos”. London que, na realidade, passou muitos meses ao longo do curso do rio Yukon, junto dos exploradores de ouro, inspirando-se nas suas histórias, é o escritor que, acima de tudo, conseguiu contar-nos o Grande Norte e transmitir-nos a sua grandeza e crueldade, a sua beleza e a solidão das terras situadas a norte da linha imaginária que divide o continente norte-americano em dois, separando o Canadá dos Estados Unidos. Depois de “The Call of the Wild – O Apelo da Selva”, a “Selva” Londoniana entra orgulhosamente no imaginário coletivo, evocando os cenários de uma natureza não mais bucólica e doce, mas crua e brutal, o que a torna ainda mais fascinante. O Grande Norte, com as suas terras geladas a percorrer por trenó, fustigadas pelo vento e povoadas por lobos, consegue extrair o melhor e o pior de cada homem, realçando as fraquezas e paixões, a coragem e a cobardia.

Tex num rigoroso dia de Inverno, viajando velozmente de trenó puxado por cães. Desenho de Claudio Villa
Giovanni Luigi Bonelli e Aurelio Galleppini introduziram os cenários canadianos na saga de Tex a partir do álbum de tiras “L’orma della paura”, o primeiro da terceira série, em maio de 1951, onde também surgem pela primeira vez duas personagens destinadas a regressar muito mais vezes, o casaca vermelha[i] Jim Brandon e o caçador de peles Gros Jean. A partir dessa aventura, quer seja no Alasca, no Saskatchewan[ii], na região dos Grandes Lagos ou na costa norte do Pacífico, os ambientes gelados do norte são parte integrante da “ortodoxia” texiana e são tão apreciados pelos leitores como os secos e ensolarados do sudoeste. Quando Tex e os seus pards partem em missão para as terras do Norte, geralmente é para responder ao apelo de um destes amigos, do mountie (Polícia Montada do Canadá) ou do trapper (caçador que arma laços ou armadilhas), ou mesmo de ambos em conjunto.

Tex Willer, numa noite fria de luar intenso, de arma em punho debaixo de um alpendre, avaliando tudo o que o rodeia
Nestas ocasiões, Águia da Noite viaja de comboio ou de barco, transportes que superam mais rapidamente que o cavalo as longas distâncias que o separam do seu destino e, vestindo um pesado casaco de pele, entra em ação no seu modo habitual, desembainhando a pistola, preparando a espingarda ou fazendo voar os adversários ao som de socos, indiferente às diversas latitudes. É o que acontece, por exemplo, em aventuras como “Terra violenta”, digna de sublinhar, porque Tex encontra em Skagway uma personagem que existiu na realidade, Soapy Smith[iii]. Ele, “graças a uma assustadora face bronzeada e a certos métodos, domina em toda a região”, como explica Jim Brandon, que acrescenta: “Teoricamente, Skagway e o seu território fazem parte do Canadá, mas desde há algum tempo os políticos vêm debatendo se deve continuar assim ou ser integrado no Alasca, ou seja, nos Estados Unidos”. Resultado: “Atualmente esta região é uma espécie de terra de ninguém”. “O que permite a este Soapy Smith dominá-la a seu bel prazer, sem receio de ver chegar os Rangers ou algum xerife federal”, conclui Águia da Noite, que parte de imediato para fazer uma limpeza geral.
Não é só Jack London que inspira os autores de Tex. É também Julio Verne, que dedicou algumas obras ao Grande Norte, talvez menos conhecidas, mas não menos convincentes, como “Le Pays des Fourrures – O País das Peles” ou “Le Volcan d’Or – O Vulcão de Ouro”. Esta última serviu de base para “Yukon Selvagem”, que relata a busca por um depósito de ouro no cone de um vulcão extinto no coração do Alasca. Por outro lado, na história “Nei Territori del Nord Ovest” surge o desfiladeiro de Chilkoot, o qual, para se poder alcançar, juntava filas inteiras de exploradores de ouro que se alinhavam ao longo de uma subida íngreme e interminável, onde, no final da mesma, os aguardava a miragem da riqueza. Para além do desfiladeiro, estes homens precisavam de alcançar (como Tex e Carson) o Lago Lindeman, de onde flui o Rio Yukon, a principal via para o Klondike, onde até o Tio Patinhas começou a acumular a sua fortuna.
Na região canadiana dos Grandes Lagos, tal como em todos os territórios situados a sul e sobretudo mais a leste, não é o gelo e não são os exploradores de ouro a caraterizarem as inúmeras histórias de Águia da Noite, aqui ambientadas. Frequentemente, são as revoltas dos mestiços contra o governo britânico, as revoltas índias, ou os traficantes de armas e de uísque, como os infames “wolfers” de Forte Whoop Up. Em qualquer caso, não faltam os ingredientes da Grande Aventura. E quando Tex entra em ação, até mesmo o “coração gelado” da “Selva” aquece com o chumbo quente.
Por vezes, os cenários gélidos e nevosos não são os do Canadá nem os do Alasca, mas situados, igualmente de forma adequada, nas Montanhas Rochosas. É o caso da história “La Notte degli Assassini”, onde Nick Billing, agente índio de uma reserva Dacota e comerciante em Great Falls, para se apoderar de um depósito de ouro, descoberto no vale ocupado pelos pele-vermelhas, suspende o fornecimento que deveria enviar para a tribo, deixando ao Inverno a tarefa de os eliminar. Quando Tex e os seus pards chegam à aldeia onde os índios, reduzidos a esqueletos ambulantes, morrem de fome, a cena é impressionante e perturbadora. Só graças à intervenção de Águia da Noite é que os Dacotas evitam a morte à fome e o terrível comerciante paga com a vida a sua ambição.
Gros Jean
Voltemos a Gros Jean. O caçador canadiano é um mètis[iv], nas suas veias correm três quartos de sangue francês e um de índio, devido a uma avó Dacota. A aventura onde o robusto caçador de peles faz a sua entrada em cena é de 1951, e é também a primeira onde Tex e os seus pards aparecem juntos pela primeira vez. Em bom rigor, as presenças de Carson, do jovem filho Kit e do fiel Jack Tigre é, tudo somado, algo limitada, e Tex acaba por atuar sozinho em grande parte da aventura. Na verdade, não totalmente sozinho, acompanhado, precisamente de Gros Jean. A longa história, intitulada “L’Orma della Paura”, é considerada como uma das melhores do primeiro período e representa um ponto de viragem em toda a série. Entre os acontecimentos da aventura anterior e os desta passaram alguns anos para Tex. A sua mulher Lilyth morreu, o filho Kit está a crescer, e Águia da Noite vive na aldeia Navajo do seu sogro Flecha Vermelha. Eis quando chega à aldeia Kit Carson, que vem pedir a Tex que aceite uma perigosa missão, que o chefe dos rangers lhe pretende confiar: ir até ao Canadá vingar Arkansas Joe, um dos melhores rangers, morto à traição.
Tex parte, então, para mais uma nova aventura e, pela primeira vez, as frias e infinitas florestas do Canadá e os cenários do Grande Norte passam a fazer parte das location texianas. Gros Jean, que surge como o típico habitante destas regiões, é de tal forma pitoresco que, na sua aparência de urso, logo os recorda. No início, o gigante canadiano parece pertencer às fileiras dos “bandidos”, mas acabará por se tornar num valioso aliado de Águia da Noite. Jim Brandon, o sargento dos Mounties (os famosos Casacas Vermelhas Canadianos), respondendo a Tex que lhe perguntou que tipo de pessoa é aquele mestiço, descreve-o assim: “Um grande idiota”.

Gros-Jean salva a vida de Tex, na capa de um volume de Tex publicado nos anos cinquenta (desenho de Galep)
Efetivamente, o impetuoso e irreverente Gros Jean pode por vezes parecer um pouco fraco de intelecto (por exemplo, demolir um barracão ficando muito provavelmente debaixo dos escombros quanto o teto desaba sob os golpes do seu machado), mas apenas porque ele age de impulso, guiado pelo fervilhar do seu sangue. De facto, Gros Jean não é ignorante, revelando-se mesmo decisivo em muitas situações. Sabe movimentar-se perfeitamente à vontade nas florestas onde nasceu; conhece bem os brancos e os índios; é imparável com armas na mão e é um grande problema detê-lo, mesmo quando está desarmado. Corajoso e fanfarrão, ao trapper não faltam a ironia e o senso de humor, o suficiente para Tex e os leitores, desde o primeiro momento, quererem sempre revê-lo.
Parece estranho que uma personagem destinada a inúmeras reentradas em cena, no seu primeiro encontro com Tex descarregue-lhe o tambor da pistola, no entanto, é exatamente isso que acontece. Águia da Noite, evitando os disparos por milagre, não deixa de pensar: “Filho de uma centena de pumas! Ao vê-lo, parecia um urso desajeitado, mas em vez disso… olha bem para esta coisa!”. Apesar deste início tempestuoso, a ligação entre os dois torna-se cada vez mais estreita. E quando chega a hora da despedida, Gros Jean esconde as lágrimas fingindo estar constipado, enquanto Tex estende-lhe a mão, dizendo: “Adeus Gros Jean! Não será fácil esquecer um companheiro como tu!”.
Jim Brandon
Poucas coisas, no imaginário coletivo, são capazes de evocar tão bem o Canadá como o uniforme dos Casacas Vermelhas. Os Mounties, como são conhecidos os homens da Real Polícia Montada, tinham a tarefa de fazer cumprir a lei nos territórios selvagens e sem fim do noroeste do Canadá, cobertos de neve por longos meses, parcialmente inexplorados, e destino de pioneiros e exploradores de ouro. Nascida em 1873, por iniciativa do ministro inglês John A. Mac Donald, a Real Polícia Montada foi protagonista de muitos filmes excitantes e quadradinhos de aventura, a começar com Audax, a famosa tira diária escrita pelo romancista Zane Grey para o desenhador Allen Dean, publicada nos Estados Unidos a partir de 1935. Cecil B. De Mille realizou em 1940 o filme North West Mounted Police (Legião de Heróis), com Gary Cooper como protagonista e Preston Foster no papel de Jim Brett, um sargento da Polícia Montada, no que constituiu o primeiro de uma longa série dedicada aos feitos dos policias a cavalo. Em 1950, também os quadradinhos bonellianos começaram a interessar-se pelos Mountie, quando Teddy Star, sargento protagonista de Mani in Alto!, uma série da autoria de Roy D’Amy, trocou as pradarias americanas pelas extensões arborizadas do Canadá e passou a usar a casaca vermelha. Precisamente, “Casacas Vermelhas”, o título de uma série de origem inglesa retomada em Itália, entre 1959 e 1962, por Giovanni Luigi Bonelli com desenhos de Sergio Tarquino. Em 1980, Hugo Pratt criou L’Uomo del Grande Nord para a coleção bonelliana Un Uomo Un’Avventura, onde surge a personagem Jesuit Joe, um louco e implacável mountie, que se tornou protagonista de um filme.
Giovanni Luigi Bonelli, que sempre se declarou devedor dos romances de Zane Grey, não conseguiu escapar ao fascínio dos uniformes escarlates dos policias canadianos. Um fascínio perfeitamente representado numa personagem que, de imediato (ou quase), passou a fazer parte do microcosmo de atores secundários da série: Jim Brandon. Primeiro como sargento da Policia Montada, mais tarde promovido ao posto de coronel, por indiscutível mérito, Jim Brandon torna-se numa figura recorrente e acompanha Águia da Noite e os seus pards nas aventuras ambientadas no Grande Norte, do Quebeque ao Alasca. Para o seu rosto, Aurelio Galleppini inspirou-se em Prenston Foster, um dos protagonistas do filme de Cecil B. de Mille North West Mounted Police (Legião de Heróis), já acima referido. Brandon não hesita em recorrer a Tex em qualquer altura, sobretudo quando se encontra perante uma grande dificuldade, o que não é assim tão raro. Por isso, encontramo-lo como coprotagonista em inúmeras aventuras escritas não apenas por Bonelli pai, como também, mais tarde, por Guido Nolitta e todos os demais argumentistas. Brandon é o exemplo perfeito de um homem da lei que enverga o seu uniforme com honra, mas que não se curva perante as engrenagens da burocracia e da rigidez das hierarquias.
Honesto e incorruptível, Jim Brandon consegue ultrapassar esquemas e regras quando a necessidade a isso obriga, encontrando-se em perfeita sintonia com Tex Willer. A inteligência que o distingue, permite-lhe a flexibilidade mental indispensável para o papel que desempenha. É por isso que o ranger reconhece em Jim Brandon uma amizade fraterna, e não hesita em percorrer as enormes distâncias que separam o Arizona, onde se encontra a aldeia Navajo, do território canadiano. A este respeito, são significativas as palavras que Brandon e Tex trocam quando se despedem no final da primeira aventura: “Espero, do fundo do coração, poder ver-te de novo, um dia!”, diz o casaca vermelha, ao que Tex responde “Mesmo que uma montanha de quilómetros nos separem, estarás sempre junto ao meu coração”.
Notas
[i] Famosa farda vermelha da Real Policia Montada do Canadá, conhecida como Review Order, cujo estilo foi utilizado para enfatizar a natureza da força britânica e diferenciá-lo dos uniformes azuis dos norte-americanos.
[ii] Uma das dez províncias do Canadá, localizada no centro oeste do país.
[iii] Jefferson Randolph Smith, mais conhecido como Soapy Smith, desceu sobre a cidade de Skagway, no Alasca, para acabar com os mineiros da febre do ouro de Yukon.
[iv] Canadianos que descendem dos primeiros colonos europeus.
* Texto de Moreno Burattini publicado originalmente na Revista nº 9 do Clube Tex Portugal, de Dezembro de 2018.
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