Na Itália está a ser lançada pela empresa Hobby&Work uma nova colecção de DVD’s dedicada ao “spaghetti western” e o DVD número 6 será dedicado ao ranger Tex Willer e ao seu filme “Tex e il signore degli abissi“.
A Hobby & Work apresenta nesta colecção quinzenal, alguns dos filmes mais famosos que permitiram que o género western renascesse na Itália: de Tomas Milian a Terence Hill, Tonino Valeri a Duccio Tessari, passando por Giuliano Gemma, o “Tex Willer“… uma colecção imperdível para todos os apaixonados do grande western à italiana.
O primeiro número desta colecção é ”Django” de Alberto De Martino e tem um custo de 5,90 €. O número 2 é o filme ”O Cangaceiro” e terá um custo de 7,90 €, tal como os restantes filmes.
Finalmente em DVD o filme de Tex Willer, integrado numa colecção de filmes que marcaram uma época de grande sucesso para o cinema italiano.
Argumento de Mauro Boselli, desenhos de Carlo Raffaele Marcello e capas de Claudio Villa. Com o título original I sette assassini, a história foi publicada em Itália nos nº 463 a 465 e no Brasil pela Mythos Editora nos nº 378 a 381.
Um bando de sete criminosos chefiados por Jack Thunder, um cego louco, anda de cidade em cidade a saquear bancos e a deixar atrás de si um rasto de sangue e destruição, cometendo assassinatos frios e impiedosos. Enquanto isso, Tex, Carson, Kit e Tigre, que estão no encalço de um ladrão de cavalos, chegam a Heaven, uma pequena cidade onde Lenna Parker e a sua filha Donna abriram uma estalagem, graças a parte do dinheiro roubado outrora pelo bando dos Inocentes, do qual fazia parte Ray Clemmons, o pai de Donna. Dinheiro esse que Jack Thunder também pretende saquear.
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Esta é uma aventura violenta nos variados sentidos que a queiramos interpretar. Violenta no rasto de destruição que vai deixando ao longo das suas mais de trezentas páginas, violenta também na forma abusiva como Jack Thunder guia a sua conduta, marcada por uma certa religiosidade, porquanto para este psicopata toda a sua acção acaba por ser justificada por preceitos religiosos e a que não é alheio o facto de apelidar o seu bando de família. .
Violenta ainda nas contradições surgidas da própria aventura, primeiro com o elemento fogo sempre presente na acção destrutiva de Thunder, mas que aqui surge mais identificado a limpeza e purificação das almas, depois o inferno onde tudo acaba por acontecer (Heaven), que tem tudo menos de paraíso. Finalmente, e apesar de toda esta violência, a aventura não renega a sua veia romântica, patente não só no romance entre Donna e Kit e mais tarde com Kid Rodelo, também na atracção sentida entre Carson e Lenna, porque não ainda no comportamento dos irmãos Lane, mas sobretudo em toda a atmosfera em redor da estalagem.
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Toda a estrutura de Boselli é notável, onde desenho e diálogo aliam-se numa acção narrativa verdadeiramente cinematográfica. Boselli consegue sempre alternar cenários e situações sem que a estrutura narrativa se ressinta. Porque se trata de um autor habituado a apresentar os elementos da trama, desenvolvendo-os sempre sucessivamente com o auxílio de construções psicológicas, que o autor privilegia, logrando construir personagens ricas, densas e poucas vezes maniqueístas.
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Cada elemento do bando dos sete assassinos tem o seu próprio perfil, moldado por um passado determinante na sua conduta e é curiosa a forma como Boselli coloca em cada um dos assassinos uma característica particular: Jack Thunder é cego mas possui ouvidos extremamente acutilantes, Monk utiliza uma metralhadora, Kid Rodelo esconde por trás da sua cara de anjo um verdadeiro pistoleiro, Firewolf é um índio pirómano, Lizard treinou dois cães para atacar qualquer presa, Hammer é um negro gigante que usa um martelo para os seus fins, enquanto que No-Face apenas emite grunhidos e usa o punhal como poucos. Mas a aventura também é feita de outras personagens como o padre Sheridan, Higgins, o atormentado Latimer, a senhora Philips ou ainda os simpáticos Jim Lane e o seu irmão Bronco, construções “bosellianas” que denotam uma real aptidão do autor que nunca nos cansamos de elogiar.
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O desenho de Marcello começa a sentir a erosão dos tempos (sabemos que entretanto uma incapacidade física já o afastou do desenho), mas ainda mantém aqui muito da auréola romântica que sempre o caracterizou. A sua composição dos quatro pards é das mais conseguidas, mas merece especial destaque a forma como o autor consegue também construir uma galeria de psicopatas frios e loucos, desprovidos de qualquer sentimento como o bando dos sete assassinos.
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A figura de Jack Thunder parece ter sido estudada afincadamente pelo autor, tão sinistra nos surge em páginas latentes de destruição e loucura, mas a verdade é que qualquer outro dos elementos dificilmente seria composto de modo tão eficaz.
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O desenho de Marcello já não surge tão fino de pormenor como em anteriores aventuras, de que destacamos forçosamente aquela da qual esta surge intimamente ligada, “O Passado de Kit Carson” (Boselli alude ainda a “O Homem Sem Passado”, quando Donna refere a relação que Kit manteve com Flor de Lua), onde o autor compôs páginas caracterizadas por um traço mais preciso, parecendo agora ausente em várias passagens.
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Uma aventura memorável, digna de permanecer na galeria texiana das mais apreciadas e que poderá ter lançado mais um grande adversário para Tex, uma vez que a morte de Jack Thunder nunca foi verificada pelo ranger, deixando uma abertura para um eventual regresso.
Novo desenho de Claudio Villa, onde vemosTex Willer chegando montado no seu fiel Dinamite, ao velho Pueblo dos Cayuses, onde estavam Bill Cassidy e Sam Tracy aguardando por Red Curry (entretanto capturado por Tex) para dividirem o saque de um audacioso assalto ao banco Fargo de Yucca Flat, no Colorado.
Desenho usado no Brasil como capa de Tex Edição Histórica #27 e inspirado na história, “Una audace rapina” de G. L. Bonelli e Galleppini (Tex italiano #44).
(Para aproveitar a extensão completa do poster clique no mesmo)
Argumento de Claudio Nizzi, desenhos e capa de Roberto De Angelis.
Com o título original Ombre nella Notte, a história foi publicada em Itália no Tex Albo Speciale nº 18 em Junho de 2004 e no Brasil pela Mythos Editora em Outubro de 2004.
Sombras na Noite representa mais uma incursão texiana no domínio do fantástico. Bonelli tinha conseguido, com sucesso, esta entrada do ranger por domínios que sempre cativaram o leitor. Lembramo-nos, assim de repente, de El Morisco, Mefisto, Yama, mas sobretudo de Diablero, em cuja criatura Nizzi parece ter sido inspirado ao assinar este argumento.
A história é suficientemente cativante para o leitor, é mesmo uma das melhores que Nizzi nos apresenta desde há alguns tempos a esta parte, mas sofre de uma certa falta de equilíbrio. Sendo mais uma versão do clássico Dr. Jekyll e Mr Hide, Nizzi consegue, ainda assim, juntar-lhe o contraponto da eterna questão de se saber onde termina a ciência e começa a magia ou ainda laivos de uma certa moralidade cristã que nunca viu com bons olhos o subverter as leis naturais. Se Nizzi sempre se revelou maniqueísta, em Sombras na Noite o autor acaba por nunca defraudar o leitor neste particular aspecto, uma vez que o ideal patente é o do eterno conflito entre o bem e o mal, aqui apresentado com um carácter altruísta.
No entanto, após apresentar toda a base do seu argumento, Nizzi acaba por revelar ao leitor toda a informação que lhe faltava, aquela que prendia a sua atenção e conferia um certo mistério do que estaria por detrás de toda a trama. Nizzi não soube guardar um pouco mais as expectativas, preferindo antes antecipar quase todas as explicações.
Não se trata de apontar fraquezas no argumento, na sua ideia geral, mas sim um certo desiquilíbrio no desenvolvimento do mesmo. As personagens, tal como as acções, vão surgindo de modo misterioso, para rapidamente tudo se desencadear sem percalços ao longo de uma aventura que acaba por se arrastar por um excessivo número de páginas.
Tex surge em Sombras na Noite como um conhecedor da alma do oeste, um homem cujo faro raramente o engana, como ele próprio tem oportunidade de dizer. Tex pensa antes de agir, Tex joga psicologicamente com este seu conhecimento e só passa à acção física quando as condições assim o impõem. Para os puristas, este é um Tex medroso e estanque, um herói envelhecido. Nizzi tem sido duramente criticado por ultimamente adoptar esta postura para o ranger, conferindo a Tex uma maior espessura psicológica, esta sua faceta dialogante em detrimento da “conversa de mãos” que tanto sucesso fez com G.L. Bonelli. Em Sombras na Noite Tex só passa à acção física após decorridas mais de 180 páginas.
Mas se o Tex bonelliano era sobretudo um duro, porque sustentado nesta acção física , o Tex nizziano, não descurando esta, é porventura mais maduro. Repare-se em toda a subtileza patente na página 187 onde Nizzi consegue congregar estas duas facetas do ranger. Após ter esmurrado Sammy no estábulo, na boa maneira bonelliana, Tex saca da sua arma e, através de um fabuloso jogo de mãos, o ranger passa a uma atitude de violência psicológica, esta mais do agrado de Nizzi. Se o Tex de Bonelli não perdia tempo, este “novo” Tex adopta uma outra atitude, tendo tempo para sacar a arma, tirar as balas, fechar o tambor e girar o canhão, sequência toda ela superiormente representada através de belas imagens de De Angelis.
Se Tex raras vezes se assume verdadeiramente ao longo de todas as páginas de Sombras na Noite, a verdade é que muito da culpa está nos seus adversários. O mentor de toda a tramóia não é verdadeiramente um adversário como Tex tem encontrado ao longo das suas aventuras. Por trás dos reais objectivos do Dr. Sommers está a procura de algo de bom na espécie humana. Os verdadeiros adversários são então aqueles que aproveitaram as suas pesquisas para subverter o ideal de um médico, mas nunca se assumindo como reais ameaças à investigação do ranger. A crítica que podemos certamente fazer a Nizzi é que o autor acaba por escolher adversários sem carisma, que nunca obrigam Tex a aplicar-se.
Uma nota final para os outros pards, simples figurantes nesta aventura. Carson surge-nos muito sério, sem aqueles deliciosos diálogos com Tex que tanto prazer nos dão. Kit não tem influência e Jack Tigre nunca se assume. Talvez aqui exista mais matéria de crítica a Nizzi do que propriamente saber que caminho Tex poderá vir a assumir no futuro.
Na entrevista que acompanha Sombras na Noite, De Angelis afirma ser um autor meticuloso e trabalhador e foi esta postura que pretendeu adoptar com Tex, mas por fim deixou-se levar pelo ambiente e pela personagem. Foi esta a impressão que, indubitavelmente, o autor italiano nos deixou.
Isso mesmo se nota na própria expressão adoptada para Tex.
Folheando Sombras na Noite, podemos ser levados a pensar que De Angelis vagueou entre Villa e Ticci na composição do ranger, mas com o desenrolar das páginas, a verdade é que o Tex de De Angelis é assumidamente e marcadamente ticciano.
Não só na figura do ranger se nota uma influência de Ticci (como quase todos os desenhadores o têm feito), mas de igual modo na composição de cada página, procurando De Angelis oferecer muitas perspectivas de conjunto e conferir assim uma expressão global a cada cena.
O autor mostra-se muito à vontade em ambientes nocturnos, onde o seu jogo de sombras e o seu domínio do claro e do escuro são bem evidentes, a que não é alheio o facto de De Angelis estar habituado a desenhar séries de ficção científica como Nathan Never. Também as cenas de interiores são muito ricas, cheias de detalhes.
Eventualmente, De Angelis assume-se em Sombras na Noite como um dos melhores desenhadores destas edições gigantes dos últimos anos. Não só o seu desenho é rico, como a composição do ranger nos parece conseguida e fiel aos parâmetros a que o leitor está habituado.