“Fumetti” italianos choram artista Giorgio Trevisan

Texto do Jornal de Notícias on line de 06/10/2024
BD
F. Cleto e Pina

O italiano Giorgio Trevisan, considerado um dos últimos grandes desenhadores italianos clássicos de banda desenhada, faleceu a uma semana de completar 90 anos, após um período de internamento no Hospital Schiavonia, em Monselice.

.
Nasceu em Merano, a 13 de outubro de 1934, e aí viveu até aos 20 anos, obtendo o diploma do ensino secundário clássico. Autodidata, direccionou a sua vida para o desenho depois de, ainda muito jovem, ter ficado impressionado com uma enciclopédia infantil ilustrada por pintores ingleses do final do século XIX e início do século XX.

A mudança para Milão, em meados da década de 1950, levou-o a ingressar no Studio Creazioni D’Ami, onde se estreou com um episódio da série “Cherry Brandy”, tendo igualmente posto a sua arte ao serviço da editora Audace. Mais tarde, mudou-se para a editora inglesa Amalgamated Press, onde fez o traço a lápis de inúmeras histórias de guerra, um género então na moda, em edições de pequeno formato, como foram exemplo em Portugal as revistas “Falcão” e “Condor”.

Numa carreira em que alternou trabalhos na área de banda desenhada com pintura clássica, explorando temas como paisagens, figuras mitológicas e temas religiosos, tendo realizado mesmo inúmeras exposições, no seu país e no estrangeiro, na década de 1960, após se ter mudado com a esposa para Este, Trevisan desenhou igualmente para o “Corriere della Sera”, o “Corriere dei Piccoli”, o “Corriere dei Ragazzi” e o “Messaggero di S. Antonio”.

No final da década de setenta, foi contactado pela Sergio Bonelli Editore para se juntar à equipa criativa de “Ken Parker”, um western humanista, com argumento de Giancarlo Berardi. A ligação com este último iria prolongar-se, quando foi um dos escolhidos para desenhar “Julia”, a criminóloga de Garden City, um policial em que, mais uma vez, o carácter humano é predominante, sendo mais importante as motivações dos criminosos do que a sua descoberta.

Dotado de um traço realista, duro e semi-barroco, que lhe serviu tanto para representar a temática bélica quanto os grandes espaços do Oeste selvagem, passando pelos cenários urbanos contemporâneos ou passados, Trevisan soube imprimir o seu cunho pessoal às bandas desenhadas em que trabalhou, salientando-se na sua bibliografia, para além das duas séries já referidas, as histórias de Sherlock Holmes que fez para a revista “L’Eternauta” na década de 1980.

Em declarações ao jornal italiano “Il Gazzettino”, o seu filho Pietro recordou o legado do pai: “Procurou a beleza na arte, escolhendo temas nos quais se sentia representado, desde nus artísticos a criaturas fantásticas. Nas suas pinturas fugia da realidade: nisso era um verdadeiro mestre”.

Copyright: © 2024 Jornal de Notícias;
F. Cleto e Pina

A prova gráfica, a capa e quatro páginas de Tex Willer #72 – ‘Fiamme nelle tenebre’

Tex Willer #72 – Fiamme nelle tenebre
Argumento: Mauro Boselli
Roteiro: Mauro Boselli
Desenhos: Roberto De Angelis
Capa: Maurizio Dotti
Lançamento: 19 de Outubro de 2024

A missão secreta de Tex complica-se. Ele não só deve vingar Jeff e levar Tim Hardy à justiça, mas também encontrar evidências do envolvimento de Lowett, o capitão da “River Queen”, sempre fingindo ser o que não é mais, ou seja, um fora-da-lei procurado. A sua investigação causa um verdadeiro inferno na cidade, entre armazéns em chamas e a barca à deriva. Suspeitando que Tex seja o autor das sabotagens, Lowett envia os seus sicários para matá-lo…

(Para aproveitar a extensão completa das imagens, clique nas mesmas)

Morreu Giorgio Trevisan, um dos últimos mestres do fumetto italiano de fama internacional

Giorgio Trevisan (13 de Outubro de 1934 – 5 de Outubro de 2024)

(13 de Outubro de 1934 – 5 de Outubro de 2024)

Por Mário João Marques

Morreu Giorgio Trevisan, um dos últimos mestres do fumetto italiano de fama internacional. Encontrava-se internado no hospital de Schiavonia, em Monselice, e dedicou a sua vida à arte, como desenhador e pintor. Em Portugal, era sobretudo conhecido pelas séries de banda desenhada História do Oeste (Storia del West), Ken Parker e Julia.  Se atentarmos na sua extensa biografia, Trevisan foi um autor com uma enorme produção, tendo colaborado com um grande número de publicações e editores italianos e internacionais. No entanto, sempre que o confrontavam com este facto, o autor respondia humildemente: “A sério? Eu pensei que tinha feito pouco!“.

Trevisan nasceu em Merano (Bolzano) em 13 outubro de 1934. Depois do liceu, rumou a Pádua para seguir estudos de agronomia. Contudo, uma vez que já tinha desenhado uma pequena história para um tipógrafo local, é aconselhado a dedicar-se ao desenho e à ilustração. Transfere-se para Milão e começa a colaborar com o Studio Dami de Roy D’Amy (Rinaldo Damy): entre 1956 e 1960, com esboços para Cherry Brandy racconta… e, posteriormente, esboços e tinta para histórias de guerra para o mercado britânico. Entre 1959 e 1977, trabalha para a editora do Corriere della Sera. Para o Corriere dei Piccoli pintou em têmpera as figuras da Storia di Roma e Storia del Risorgimento, seguindo-se a página central com a Storia d’Italia com textos de Mino Milani. Para o Corriere dei ragazzi desenhou histórias para as séries Catastrofi sulla Terra, Paura a Milano, I grandi generali e Processi alla Storia. Para o Corrieri dei Piccoli desenhou para a série I grandi capi indiani. Entre 1960 e 1968, através da Agenzia Maffi trabalhou para a editora francesa Lug, desenhando várias personagens, algumas, como Archie e Fury, chegarão às bancas italianas.

Entre 1961 e 1962, também produziu aventuras para a editora Vaglieri. Em 1965, com o Studio Dami, trabalhou para a Fleetway ilustrando em porcelana colorida os romances infantis Il giardino secreto, Il cane delle Fiandre, Till Ulenspiegel, Pollicino e Gulliver, enquanto fazia histórias em BD como Il mago di Oz. Trevisan também ilustrou alguns romances para as caixas de presente dos assinantes da Mondadori: em 1971, para contos de Poe, Melville, Melbourne; em 1972, para L’amore de Stendhal, Il giovane Werter de Goethe e Jacopo Ortis de Foscolo. Em 1971, começou a colaboração com Messaggero dei Ragazzi, desenhando Fátima. Toda a sua atividade para a editora da Basílica do Santo valeu-lhe o Prémio Europeu da Imprensa Cristã. Desde 1973, desenhou os oito números da série Medium (incluindo capas) para a editora Dardo, além de um número que permaneceu inédito, todos com textos de Romano Garofalo. Também para Dardo desenhou várias histórias de guerra para publicações como Super Eroica, Reportage, Prima linea e Uomini e guerra; No final dos anos 1970, Trevisan entrou como desenhador na Sergio Bonelli Editore, para a qual trabalhou em séries que se tornarão particularmente famosas como Storia del West e Ken Parker.

Mais tarde, juntou-se à equipa de Julia, a criminóloga criada por Giancarlo Berardi, sendo o desenhador do número comemorativo 100, Clowns. Durante os anos 1980, Trevisan desenhou a personagem de Sherlock Holmes publicada pela revista L’Eternauta com textos de Giancarlo Berardi, transpondo algumas histórias originais de Arthur Conan Doyle. Em 1991, Trevisan realizou os Tarot Romantici e del Rinascimento produzidos pelas edições Lo Scarabeo. Em 2001 ganhou o prémio HQ Mix com Giancarlo Berardi e Ivo Milazzo, pela edição brasileira da revista Ken Parker. Em 2019, desenhou La voce del Killer, uma curta aventura a cores de Tex, escrita por Fabrizio Accatino.

Apesar desta elevada quantidade de produção, a carreira de Giorgio Trevisan deve ser sempre medida em termos de qualidade. Inspirado por colegas como Hugo Pratt, Dino Battaglia e Sergio Toppi, ou por outros grandes autores italianos como Gino D’Antonio, Renzo Calegari ou Mario Uggeri, Trevisan foi um artista pouco indulgente com o seu trabalho, mas que sempre se mostrou aberto a novas experiências, como por exemplo desenhar Tex aos 82 anos de idade, uma personagem capaz de fazer tremer os pulsos.

Para além da banda desenhada, Trevisan nunca abandonou a pintura, explorando temas como paisagens, figuras mitológicas e temas sagrados, numa busca constante pela beleza, valor que os seus filhos Elisabetta e Pietro continuam a levar por diante. Em declarações ao jornal italiano “Il Gazzettino”, Pietro recordou o legado do pai, afirmando que “ele procurava a beleza na arte, escolhendo os temas com os quais se sentia mais representado, desde os nus artísticos até às criaturas fantásticas. Nas suas pinturas ele fugia da realidade e nisso ele foi um verdadeiro mestre”.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima clique nas mesmas)

Lançamento de Outubro de 2024 da Editora A Seita; Portugal: TEX vol. 5: MINSTREL SHOW (História inédita em língua portuguesa)

TEX vol. 5: MINSTREL SHOW
Argumento de MAURO BOSELLI e desenhos de MARCO GHION
Capa de MAURIZIO DOTTI

136 páginas a p/b, capa dura, formato 20 x 28
ISBN: 978-989-9202-15-3
PVP: 21,99€

Entre os artistas com o rosto pintado de negro da companhia dos Minstrels, há um que não precisa de se pintar de negro: Joey Nelson, antigo escravo e amigo de infância de Tex. Quando, após a Guerra Civil, os rebeldes sulistas de Arch Clement e Jesse James atacam a cidade de Lexington, no Missouri, Tex e Carson vão defendê-la. Mas de que lado se posicionarão os artistas nascidos no Sul do Minstrel Show, do lado do seu companheiro Joey, negro livre, ou do lado dos irredentistas Sulistas? Uma aventura de Tex com música para banjo e colt!

Criado em 1948 por Gianluigi Bonelli e Aurelio Galleppini, Tex é um dos mais antigos cowboys da banda desenhada europeia, e a mais popular personagem dos fumetti italianos. A editora A Seita estreia nesta  colecção, inicialmente dedicada a histórias criadas expressamente para a cor e para o formato mais ambicioso dos álbuns de BD franco-belga, uma das histórias da colecção Speciale Tex Willer (no caso o #6, de Julho de 2023), que apresenta narrativas algo mais extensas e desenvolvidas do Tex jovem.

Minstrel Show ou Minstrelsy, é o nome pelo qual ficou conhecido um tipo de espectáculo teatral popular americano, que reunia música, canções, dança e diálogos cómicos, protagonizado por artistas brancos que maquilhavam o seu rosto de negro (os blackfaces), e pintavam os lábios e os olhos com tinta branca. Este espectáculo floresceu no século XIX e chegou até ao século XX, baseado em estereótipos extremamente racistas, que perduraram muito longe no tempo, ridicularizando os negros. É com esta realidade terrível comno pano de fundo que se desenrola esta aventura de Tex.

Uma aventura que decorre na juventude de Tex, desta vez em duas épocas distintas, separadas por cerca de seis anos. O prólogo desenrola-se no breve período em que Tex, depois de reabilitado pela justiça, regressou ao Vale de Nueces e se tornou num pequeno criador de gado ao lado de “Damned” Dick e Rod Vergil, na altura em que os Estados do Sul declararam a Secessão. Os acontecimentos seguintes ao prólogo desenvolvem-se após a Guerra Civil, e a vitória do Norte, nunca bem aceite por muitos rebeldes sulistas que resistem, entre os quais o famoso Jesse James, que faz aqui a sua primeira aparição na série. O enredo de Mauro Boselli é mais uma autêntica lição de História sobre um dos períodos mais conturbados dos Estados Unidos. Tendo como pano de fundo os Minstrel Shows, o autor aproveita para dissecar temas tão sensíveis como o racismo, o final da Guerra Civil, e a posterior integração de populações num país que se pretendia novo e unido.

Bibliotecário, tradutor, escritor, Mauro Boselli (nascido em 1953) começa a colaborar com a Sergio Bonelli Editore como assistente de Gianluigi Bonelli, o criador de Tex. Tal como o seu mestre, Boselli adopta como estilo o espírito heróico da aventura clássica e os temas épicos do western. Escreveu para inúmeros títulos, assinou uma história de Tex com Gianluigi Bonelli, e é também creditado pelo “renascimento” de Zagor, e em 2000 cria Dampyr com Maurizio Colombo. Em 2011, a editora Mondadori publica o seu Tex Willer – Il Romanzo della mia Vita. uma biografia do herói bonelliano em forma de romance (com ilustrações de Fabio Civitelli). Desde 2012 é o editor-responsável de Tex, personagem que continua a escrever com dedicação e empenho. Até hoje já escreveu mais de trinta e cinco mil páginas de BD!

Nascido em 1980, Marco Ghion forma-se em Geometria, mas é o desenho que o atrai, e que o leva à Scuola del Fumetto de Milão, em 2001, onde se diplomou como desenhador realista. Depois de trabalhar uns anos no sector da animação, Ghion conhece  em 2009 Bruno Bozzetto, célebre realizador e animador, iniciando a sua colaboração no Studio Bozzetto, desenvolvendo uma forte paixão pela animação. Em 2015, inicia-se na BD, integrando o estúdio de Enea Riboldi, capista de Dampyr. Em Março de 2018, Ghion entra na equipa de desenhadores da Sergio Bonelli, estreando-se no álbum especial da série Tex Willer, lançado em Dezembro de 2019 com o título Fantasmi di Natale, seguido deste Minstrel Show, em Julho de 2023. Actualmente, Ghion está a trabalhar na série regular Tex Willer, desenhando a história I 5 della mano rossa.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)