SECRET ORIGINS: TEX CLASSIC 45

Por Saverio Ceri [1]

Prossegue a cavalgada de Tex Classic, e nós continuamos no seu rasto para redescobrir as capas do passado do Ranger. 
O quadragésimo quinto volume, Dodge City, repropõe a cores as strisce 27 a 32 da série verde da collana del Tex, publicadas há mais de 70 anos, entre Novembro e Dezembro de 1953. As mesmas strisce foram pela primeira vez reimpressas no formato albo d’oro (em três tiras) nos dois últimos álbuns da segunda série do Tex quinzenal, os números 33 e 34, em Fevereiro de 1956.
Abaixo, em sequência, podemos ver a capa de hoje e a capa de 1956.

Tex Classic #45 – Dodge City

Albo d’Oro Tex #33 – Nuova Serie

Além do corte da imagem, não existem diferenças particulares entre as duas capas. A capa “descartada” nesta ocasião já havia feito mais sucesso no passado; poucos meses após a sua publicação, na verdade também foi usada como capa do nº 12 da primeira série gigante de Tex, que nada mais era do que uma colecção dos albi d’oro texianos.
Abaixo vemos as duas encarnações da capa em confronto:

Albo d’Oro Tex #34 – Nuova Serie

Tex # 12 – Primeira Série Gigante

Que dizer? Sem o incêndio no saloon a imagem perde muito do seu fascínio.
Antes de encerrar, uma última curiosidade ligada às capas de Tex: uma vinheta contida nesta edição também está na origem de uma capa de Tex, precisamente aquela assinada por Claudio Villa para o décimo número da Collezione Storica a colori di Repubblica. A vinheta vê-se abaixo, e é da sétima tira do álbum que dá título a este Tex Classic, o vigésimo sétimo da série verde da collana del Tex.

Vinheta desenhada por Aurelio Galleppini que serviu de inspiração a Claudio Villa para a capa

A capa de Claudio Villa, de 2006, que eterniza o mesmo momento

Come prossegue depois o ataque nocturno do Ranger, em auxílio ao índio capturado, descobrimo-lo em duas outras ocasiões; a primeira desenhada por Galep para a capa do próprio volume no formato em tiras que mencionamos anteriormente (depois reutilizada também para a 28ª raccoltina da 2ª série, que dá o título ao volume do La Repubblica);

Collana del Tex #27 – Série Verde

Tex raccoltine Serie Bianca #28 – Ombre di morte

A segunda com um enquadramento ligeiramente diferente, por Claudio Villa, em 1995 por ocasião do lançamento do décimo segundo volume de Tex Edição Histórica da editora brasileira Globo, e publicada em Itália como um mini-póster inserido na colecção Tex Nuova Ristampa.

Tex Edição Histórica #12

Mini-Póster Tex Nuova Ristampa #17

Incrível como uma única vinheta, uma entre muitas, ao longo dos anos tenha inspirado três capas de um extremo ao outro do mundo. De notar que as cores da versão brasileira, fornecidas pelo próprio Villa, são decididamente mais tridimensionais do que o mini-póster italiano recolorido editorialmente.

Saverio Ceri

Encontre todas as outras origens das capas de Tex Classic na rubrica Secret Origins: Tex Classic

[1] Material apresentado no blogue Dime Web em 30/11/2018; Tradução e adaptação (com a devida autorização): José Carlos Francisco.
Copyright: © 2018 Saverio Ceri

As Leituras do Pedro: Harlem + Tex: Minstrel Show

As Leituras do Pedro*

Harlem
Mikaël
Ala dos Livros
Portugal, Outubro de 2024
235 x 310 mm, 136 p., cor, capa dura
30,00 €

Tex: Minstrel Show
Mauro Boselli (argumento)
Marco Ghion (desenho)
A Seita
Portugal, Outubro de 2024
210 x 290 mm, 136 p., pb, capa dura
21,99 €

Conexões 

O que pode unir, nesta partilha de impressões de leituras, Tex e Harlem, mesmo que acção decorra no mesmo país, embora em locais separados por mais de 1800 quilómetros e três quartos de século?

A resposta, que mantém triste actualidade nos nossos dias, está já a seguir.

Curiosamente, não desconhecia-o antes da leitura sequencial, por acaso, destas duas obras. Harlem, foi o álbum que levei para leitura na minha viagem para o Amadora BD; Minstrel Show, trazido do festival, acalmou, de alguma forma, a minha ‘sede’ de Tex, há meses ausente das minhas leituras. [E de alguma forma, apenas, porque prefiro o ranger adulto a esta sua versão jovem…]

Mas deixem-me então responder à questão que abriu este texto, entre Harlem, terceiro e último tomo da trilogia nova-iorquina assinada por Mikaël, e este Tex, o ponto comum é a denúncia do racismo. De formas diferenciadas, adequadas aos respectivos registos, mas nos dois casos como parte integrante e determinante dos relatos.

Mikaël volta a Nova Iorque para nos falar do bairro negro, das lotarias clandestinas que a protagonista, negra, Stéphanie St. Clair, conhecida por Queenie, organiza, e da cobiça que os seus grandes lucros provocam nos gangues de brancos e na Mafia em crescimento. Entre a tentativa de afirmação e de independência da primeira, alternada com flashbacks que explicam como se tornou quem é e chegou até ali, as guerras entre facções separadas pela nacionalidade e a cor, a prepotência da polícia – então como agora a fazer distinções de cor de pele – e a tentativa de sobrevivência de quem só não quer ser uma vítima colateral, o autor franco-canadiano apresenta-nos mais um retrato de época violento, credível e até chocante mas apaixonante, que complementa os dois anteriores, Giant e Bootblack – e até faz ligações com eles, se bem repararam.

Quanto a Minstrel Show, tem início antes da Guerra da Secessão que cavou ainda mais as diferenças entre Norte e Sul e entre negros e brancos – com os reflexos que (ainda) se vêem (também) em Harlem – e, decorrendo maioritariamente no pós-conflito, centra-se na actuação de grupos que tocavam músicas de negros e contavam piadas sobre eles, com a particularidade de serem formados por brancos com a cara suja de carvão.

Um batalhão de ex-soldados sulistas em busca de vingança, uma das primeiras parcerias entre Tex e Kit Carson, a situação periclitante dos Rangers, texanos de origem e em riscos de serem extintos devido a esse facto, e a presença entre os intervenientes de um certo Jesse James, são os ingredientes de mais uma história movimentada, em que o racismo – e a oposição a ele – são pontos fulcrais a par dos habituais ingredientes nas aventuras de Tex.

* Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

(imagens disponibilizadas pela Ala dos Livros e A Seita; clicar nas imagens para as apreciar em toda a sua extensão)