Vídeo: Crystal Trio com Guglielmo Letteri, Carlo Loffredo e Umberto Cesari

Hoje no blogue do Tex, damos lugar à música… mas não uma música qualquer, muito pelo contrário… JAZZ, uma música muito especial protagonizada por três mitos, um dos quais relacionado com Tex, outro mito da banda desenhada: GUGLIELMO LETTERI à guitarra, acompanhado por CARLO LOFFREDO no contrabaixo e UMBERTO CESARI ao piano, os três integrantes do CRYSTAL TRIO, um trio de renome que gravou inúmeros discos de 1945 a 1947 e que se exibia também na rádio e para as forças armadas americanas, estacionadas na Europa, fazendo reviver aos militares norte-americanos as emoções da autêntica música americana e tendo ganho inclusive uma menção na prestigiada revista americana dedicada à música: Down Beat.

Letteri em especial, inspirava-se num grande jazzista dos anos 40, Charlie Christian, um verdadeiro inovador do género, um pouco como Alex Raymond no campo da Banda Desenhada.

De seguida temos portanto a oportunidade de assistir a um vídeo que contém um excerto de um concerto que a RAI (Televisão italiana) gravou em casa de Umberto Cesari e que nos brinda com tanto talento naquelas seis mãos juntas… e temos então também a oportunidade de ver em acção um jovem Letteri numa faceta desconhecida para muitos:

As Leituras do Pedro: El Muerto

As Leituras do Pedro*

Tex Coleção nº 242Tex Colecção #242 e #243
El Muerto

Guido Nolitta
(argumento)
Aurelio Galleppini (desenho)
Mythos (Brasil, Março e Abril de 2007)
133 x 177 mm, 100 p., pb, brochado, mensal


Resumo
Esta aventura começa quando Jack Tigre e outro navajo regressam de uma viagem com cobertores e provisões para a tribo. Aproximam-se de um pequeno acampamento onde aparentemente são recebidos com hospitalidade mas rapidamente o grupo mata o indígena e espanca violentamente Tigre. No final, o chefe, uma personagem com a cara toda retalhada, que se intitula El Muerto, diz-lhe para transmitir um recado a Tex: se quer saber a razão do ataque, terá que se encontrar com ele no cemitério de Pueblo Feliz, daí a uma semana. Dias depois, uma diligência que transporta Kit Willer para se encontrar com o pai, é assaltada e o jovem baleado para transmitir o mesmo recado.
Tex não tem qualquer lembrança de se ter cruzado com a estranha personagem, mas dispõe-se a comparecer ao encontro.

El Muerto e Jack TigreDesenvolvimento
Considerada uma das melhores histórias de Tex, “El Muerto”, originalmente datada de Agosto/Setembro de 1976, faz jus à sua fama.
Como quase sempre acontece nestes casos, apresenta um Tex menos infalível – por isso mais humano – que tem que correr atrás dos acontecimentos, desconhecendo quem orquestra tudo e porque o faz. E dando a ideia que chega sempre um pouco tarde ou que não consegue virar o rumo aos acontecimentos, mesmo quando consegue antecipar os movimentos do seu misterioso adversário, como na chegada a Sunsetville. Nessa “falibilidade”, Tex vê os seus amigos serem feridos espancados ou mesmo mortos, sem conseguir inverter as situações, algo raro nas suas histórias.
Mesmo a forma como, a caminho do lugar do encontro final, consegue derrotar os capangas de El Muerto – apenas cinco… -, após a emboscada que eles lhe prepararam, precisando para isso da ajuda providencial de Tigre, apenas reforça esse (estranho e incomum) lado humano do ranger e cria mais expectativa para o duelo final, aumentando a estranha aura de El Muerto.
Este, é uma personagem bem delineada, um dos mais marcantes vilões que Tex enfrentou, não tanto pelos seus actos, mas pela forma como se impõe ao ranger quase até final. Um vilão movido por um insano (?) desejo de vingança, que nem as explicações do ranger, no cemitério, conseguem demover. O que só contribui para acentuar o seu lado trágico e, surpreendentemente, para lhe dar consistência e credibilidade.

El Muerto e Tex

A tensão acumulada ao longo das pranchas, aumenta ainda mais quando Tex e El Muerto finalmente se encontram cara a cara no cemitério que este escolheu para se desvendar e ao segredo que há anos carrega. De uma forma (invulgarmente) leal e correcta, posicionando-se no capítulo moral no patamar que (apenas) Tex costuma ocupar, o que reforça ainda mais o seu impacto. Só dessa forma, aliás, seria possível o longo flash-back, em que um e outro vão completando a história – e em que finalmente são desvendadas as razões que motivam o bandido.
Tex Coleção nº 243E se a explicação é longa, que dizer do duelo final que ocupa três (demoradas) pranchas e finalmente possibilita o aliviar da tensão acumulada. Pelo menos para o leitor, porque Tex, se obtém o esperado resultado final, ainda precisa de se libertar dela contra o relógio que testemunhou o dramático confronto…
Guido Nolitta, construiu com mestria a trama, que prima em conduzir num crescendo, sem pontas soltas nem incongruências, encaixando nela perfeitamente a narrativa “antiga”, afastando quase completamente o Tex heróico e infalível que tantas vezes custa a “engolir”.
A seu lado, esteve um Galep na posse de todas as suas (muitas) qualidades, com um traço vibrante e dinâmico como sempre, especialmente detalhado e completamente à vontade cenários interiores ou nas paisagens do velho oeste, no retrato de homens ou animais, de cenas calmas ou de acção intensa.

A reter
– A manutenção do mistério da identidade de El Muerto ao longo de 130 das quase 200 páginas da narrativa.
– A forma como Tex é desta vez um peão na história, seguindo o curso dos acontecimentos, não o impondo como é habitual.
– A consistência e a credibilidade de El Muerto.

Menos conseguido
– A história ganharia ainda mais se a presença de Paco Ordoñez na fatídica cabana fosse revelada apenas no final da narrativa em flashback.

Curiosidades

– O Tex Colecção #242 (ainda) está disponível nas bancas portuguesas, devendo a edição seguinte chegar ainda durante este mês.
– Existe uma versão semi-animada desta banda desenhada que pode ser vista aqui (https://texwillerblog.com/?p=7366).
– Guido Nolitta é pseudónimo de Sergio Bonelli.
– Tex Colecção republica, por ordem cronológica, todas as histórias de Tex.

.Pedro Cleto
*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias e na revista In’ – distribuída as sábados com o JN e o DN), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro.

Tex Série Normal: Entre Duas Bandeiras

Entre Duas BandeirasArgumento de Gianluigi Bonelli, desenhos e capas de Aurelio Galleppini.
Com o título original Tra due bandiere
, a história foi publicada em Itália nos números 113 a  115 em 1970 e no Brasil, pela Editora Vecchi nos números 53 a 55.

Em quase todas as consultas efectuadas aos leitores, esta aventura destaca-se sempre por ser uma das mais apreciadas da série. Convenhamos que os leitores têm toda a razão. Não só pela qualidade do enredo, que revela um Gianluigi Bonelli no pleno da sua capacidade narrativa, como também nas qualidades gráficas de um Aurelio Galleppini que assina aqui um dos mais notáveis trabalhos da sua longa carreira.

Tudo começa em Abilene, quando Tex, na companhia de Carson e seu filho Kit, ao chegar ao saloon encontra Dick Dayton, um seu velho amigo do tempo da Guerra da Secessão. E é na companhia de outro velho amigo, o xerife Ben Trevor, que Tex e Dick vão narrar alguns episódios que viveram juntos em pleno conflito que opôs norte e sul, mas que sobretudo colocou em lados opostos da barricada velhos amigos.

Tex 53A Guerra da Secessão constitui um dos episódios mais marcantes da história dos Estados Unidos. O rápido desenvolvimento e expansão do país marcaram grandes e crescentes diferenças entre o Norte e o Sul. Enquanto o Norte se industrializava cada vez mais mercê das vagas de imigrantes, no sul expandiam-se as plantações que recorriam à mão-de-obra escrava. Quando em 1860 Abraham Lincoln (inimigo da escravatura) foi eleito presidente, o Estado da Carolina do Sul declarou a sua saída da União e até meados de 1861 outros dez Estados seguiram esse exemplo, formando em Montgomery e Richmond uma nova federação. Lincoln negou o reconhecimento e todas as negociações fracassaram, iniciando-se a Guerra da Secessão em Abril de 1861.

Tex 54Bonelli aproveita este infeliz episódio histórico para fazer em toda a aventura uma marcação cerrada à guerra, aos seus malefícios, a toda a realidade inerente aos conflitos. Através do relato de Tex e Dick, o leitor toma conhecimento da realidade de um país dividido entre um norte industrial, que de certa forma representava o ideal americano e um sul agrícola, fundamentado em ideias conservadoras. O autor parte para uma aventura épica protagonizada por dois homens de princípios e valores tão distantes naqueles anos. Tex e Dick são por assim dizer o instrumento ético de Bonelli, funcionando como um baluarte contra a barbárie dos homens, contra o ódio que opôs amigos e familiares, contra os actos sem regras e sem limites de uma guerra fratricida. E repare-se que Tex e Dick sendo sulistas vão estar nas fileiras do norte, o que não espanta, porque um dos valores texianos é estar do lado dos oprimidos e dos direitos. Assim sendo, Tex nunca poderia lutar ao lado de ideais sessionistas que defendiam a escravatura e a diferença entre os homens.

Tex 55Para Bonelli não importa estar de um lado contra o outro, o mais importante é defender aquilo que ele considerava ser justo, a defesa da integridade e dos valores humanos. Por todas as páginas, mais do que assumir um ou outro lado, importa desaprovar o conflito e realçar que todos os homens são iguais. Funcionando como instrumento ético do autor, Tex tem uma acção dinâmica, assume o risco e assume-se como um homem independente ideologicamente durante uma guerra que vai sendo narrada de batalha em batalha, num crescendo narrativo que tem o seu epílogo dramático na morte de Rod, um velho amigo de Tex e Dick, que acaba por realçar os malefícios de um conflito que dividiu todo um país, atrasando a sua modernidade.

Graficamente temos um Galep pujante, com um desenho pleno de vigor e dinamismo, um Galep maduro, no auge das suas capacidades. O autor alterna planos, sabe transmitir uma aura épica à aventura, descrevendo situações e personagens com grande realismo. O horror da guerra e das suas batalhas, os acampamentos militares, as explosões, as tropas, os homens perante a dura realidade do conflito, tudo passa pela mão de um Galep irrepreensível, de um Galep experiente, de um Galep que soube transmitir a dura crueldade de uma história infelizmente saída da História.

Texto de Mário João Marques