INDOMÁVEL ou o regresso do “Western”

Por Jorge Magalhães*

Estreou-se em 17 de Fevereiro um dos filmes mais aguardados pelos que acompanham febrilmente a corrida aos Óscares, mas também por todos os apreciadores de “westerns”, que lamentam que o seu género preferido esteja quase votado ao esquecimento pelos produtores de Hollywood, mau grado o êxito e a qualidade artística de filmes relativamente recentes como Danças com Lobos (1990), Imperdoável (1992), Wyatt Earp (1994), Desaparecidas (2003), Open Range (2004) e O Comboio das 3 e 10 (2007).

A distância temporal entre eles — quando nos lembramos de que no século passado, durante várias décadas, se produziram dezenas de “westerns” por ano — é mais o reflexo do alheamento dos produtores que do desinteresse do público, visto que quase todos conseguiram resultados de bilheteira que superaram as expectativas e até, como nos casos sem precedentes de Danças com Lobos e Imperdoável, os Óscares de melhor filme e de melhor realizador.

Embora as probabilidades, este ano, não sejam as mesmas, True Grit (Indomável), o novo filme dos irmãos Joel e Ethan Cohen, com Jeff Bridges como protagonista, já veio relançar a questão da sobrevivência do “western”, um dos géneros cinematográficos mais antigos, mas que literariamente (salvo raras excepções) perdeu todo o fulgor que teve nos séculos XIX e XX.

Esse filão literário foi activamente explorado pelos produtores e realizadores de Hollywood, dando origem a inúmeros filmes da série B, de cariz mais comercial do que artístico, mas também a produções ambiciosas, de elevado conteúdo estético, épico e dramático, que enobreceram o género e cimentaram o prestígio dos seus realizadores e intérpretes — como A Caravana Gloriosa, Stagecoach (Cavalgada Heróica), Duelo ao Sol, Forte Apache, Shane, A Desaparecida, Cimarron, O Homem que Matou Liberty Valance, Pequeno Grande Homem ou A Velha Raposa.

Este último foi o título dado em Portugal a True Grit, uma novela de Charles Portis adaptada pela 1ª vez ao grande ecrã em 1969, num filme realizado por Henry Hathaway, que valeu ao mítico actor John Wayne o seu primeiro e único Óscar. Foi agora a vez dos irmãos Cohen redescobrirem o livro de Portis, abordando com novo realismo a história de uma obstinada rapariga (Mattie Ross) que contrata um velho xerife alcoólico e rabugento, mas implacável e destro no manejo das armas (Rooster Cogburn), para ajudá-la a vingar a morte do pai, assassinado por um miserável (Tom Chaney) que traíra a sua confiança.

Publicada em 1968, True Grit, a segunda novela de Charles Portis (actualmente com 77 anos e que, depois de participar na guerra da Coreia, se dedicou ao jornalismo, tornando-se escritor por vocação), conheceu um sucesso imediato graças ao filme de Hathaway, com um John Wayne já envelhecido, de pala no olho e rédeas nos dentes, num dos últimos papéis da sua longa carreira; mas só 18 anos mais tarde seria traduzida para português, numa colecção de saudosa memória, criada em 1982 pelas Publicações Europa-América, a colecção Western, que reuniu muitos autores famosos, desde Zane Grey, Clarence Mulford e Edgar Rice Burroughs (sim, esse mesmo… o criador de Tarzan!) a Louis L’Amour, Frank Gruber, Stephen Crane, W. R. Burnett, Elmer Kelton — todos norte-americanos, representando a essência do genuíno “western” literário, que nasceu muito antes dos primeiros filmes de “cowboys”.


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Alguns dos títulos incluídos nessa colecção são marcos de fundamental importância na relação entre literatura e cinema “western”, como Shane e Monte Walsh, de Jack Schaefer, Duelo ao Sol, de Niven Busch, O Maioral, de Owen Wister, A Cidade Turbulenta, de Max Brand, Incidente em Ox-Bow, de Walter van Tilburg Clark, Céu Aberto, de A. B. Guthrie Jr., ou mesmo O Último Moicano, de Fenimore Cooper, considerado por muitos o grande pioneiro do género.


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Como ainda é possível encontrar algumas destas obras nas livrarias da Europa-América, aconselhamos os nossos leitores a não perderem o ensejo de conhecer uma das melhores colecções do género que já se publicaram em Portugal, constituída por 54 volumes em formato de bolso, com preço módico, boas traduções e um design gráfico das capas (na sua maioria excelentemente ilustradas por José Pires) que evoca as adaptações cinematográficas, nada ficando a dever ao das suas congéneres estrangeiras.


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Mas quem estiver interessado em ler True Grit, de Charles Portis, tem agora ao seu dispor uma nova edição, com o título do filme dos irmãos Cohen, oportunamente dada à estampa pela Editorial Presença. Embora com uma capa muito inferior à que José Pires desenhou para a colecção Western, em 1986.

Copyright: © 2011; Jorge Magalhães.
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Editor, autor de banda desenhada (argumentista), autor de numerosos textos de estudo, análise e história da BD, em livros, revistas, jornais e fanzines e também leitor e coleccionador de Tex Willer.

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Tex e o tempo em que brincávamos de cowboy

Por Lillo Parra [1]

As primeiras lembranças que tenho remontam aos meus cinco ou seis anos. Ainda não sabia ler, mas faltava pouco para isso.

Forrando uma caixa de sapatos velha um monte de quadrinhos cortados e colados grosseiramente, naquela habilidade típica de criança. Dentro, uma porção de revistas do Pato Donald comprados na barraca de usados da feira de sábado.

Isso pode parecer estranho hoje, mas na década de 70 as feiras livres possuíam barracas cheias de revistas usadas. O meu pai era um cliente habitual. Na verdade, o meu pai era um viciado em quadradinhos.

E foi ele quem me apresentou às revistas de banda desenhada. Primeiro Disney e Maurício de Souza (bastante apropriados para crianças de cinco anos). Dois anos mais tarde presenteou-me com Capitão América nº 7, da Editora Abril. Ele não fazia ideia da patetice que estava fazendo e como aquilo definiria a minha vida a partir dali.

Mas nesse meio tempo aprendi a ler, basicamente graças às revistas de banda desenhada e à enorme paciência da minha mãe. E também conheci três personagens fantásticas, cuja importância nos quadradinhos só fui compreender totalmente décadas depois: Fantasma, Mandrake e um cowboy durão chamado Tex.

E foi esse último que se tornou o meu preferido. O meu pai era um fã do Ranger desde criança, ainda nos tempos em que o herói era chamado de Texas Kid. Das antigas revistas Júnior da infância do meu pai não vi nem sombra, mas lembro-me muito bem das edições da Vecchi lá em casa. Eu ficava horas olhando aquelas desoladas paisagens, aquelas carroças e carruagens, os índios em seus cavalos e, claro, o nosso herói.

E era ele que me inspirava nas brincadeiras de bandido e mocinho com os meus primos e amigos. Naquele tempo vendiam-se armas de plástico em qualquer loja de brinquedos. Era um mundo muito diferente. E brincávamos armados: o xerife, os “cruéis” índios navajos e as pobres donzelas (tadinha da minha irmã).

E eu era o inabalável, justo e corajoso Tex Willer.

A verdade é que mesmo com uma recém-adquirida (e ainda deficitária) capacidade de juntar aquelas incompreensíveis letras dentro dos balões, as revistas de Tex conseguiam fazer um pequeno frangote como eu – que nem sabia somar ainda – entender valores extremamente complexos como amizade, honra e abnegação.

O meu pai faleceu em 1994, às vésperas de completar 50 anos, em virtude de um outro vício, que degradou o seu corpo e mente. Em sua herança havia uma porção de más lembranças, um relógio lindo mas quebrado, um par de abotoadeiras poucas vezes usada, uma câmara Olympus com o obturador rachado e nenhuma revista.

Mas não precisava. De todas as coisas possíveis que um filho pode herdar de seu pai eu fiquei com a melhor: a inexplicável e maravilhosa paixão pela banda desenhada.

Talvez por isso estivesse tão nervoso quando me sentei à mesa na Fest Comix no ano passado. Do outro lado, o italiano Fabio Civitelli – um génio do traço e sem dúvida alguma um dos maiores desenhadores de Tex em todos os tempos.

O simpático desenhador ficou comovido quando soube que o meu pai, que tinha me apresentado Tex, havia falecido e que era aquele o motivo pelo qual eu estava ali naquela tarde: para pegar  – em sua homenagem  – um autógrafo na edição Tex Especial Civitelli.

Sai dali exultante e emocionado. Mas havia um problema  – e dos graves: não consegui abrir edição para ler.

Sim, os fãs de Tex podem achar-me um ser louco e repugnante. Em minha defesa posso dizer apenas que não sou repugnante. As acusações de loucura serei obrigado a acatar. Mas havia lembranças demais envolvidas.

Nesta semana, organizando as minhas revistas, peguei na mão a edição especial. Vi o autógrafo e resolvi que era a hora.

Li a história “O Presságio”, um volume de mais de 300 páginas, numa única tacada. Na época do lançamento, a revista foi alardeada como uma das melhores histórias de Tex e a preferida do renomado desenhador. Nenhum elogio – absolutamente nenhum  – foi exagerado.

Presságio é uma remake de uma antiga aventura do herói chamada “Sinistros Presságios” (publicada originalmente na Itália em 1965) e gira em torno de uma história de vingança de um velho feiticeiro contra Tex, líder da nação Navajo e respeitado por todos. O peão de manobra do feiticeiro é um índio navajo chamado Urso Veloz.

Tex, ao longo das últimas seis décadas, como todas as personagens de quadradinhos com tal longevidade, foi amadurecendo, suas histórias  tornando-se cada vez mais elaboradas, com construções narrativas que pouco lembram as primeiras publicações, ainda no formato de tiras.

Prova disso é a magnífica série que vem sendo publicada actualmente no Brasil nas edições Tex Gigante, onde o nosso herói se embrenha por lugares inóspitos à sua cultura, em histórias estupendas nos mais remotos lugares.

Mas “O Presságio” tem algo a mais. Algo que foge ao controle de seus criadores. É aquele tipo de história que define uma personagem.

A trama  – aparentemente simples  – vai sendo recheada de outros elementos à medida em que a lemos. O que era apenas uma história de vingança assume ares de conspiração com a entrada em cena de um oficial do exército corrupto e ganancioso.

As personagens  – mesmo as secundárias  – possuem credibilidade e  – algo raro nos quadradinhos e que deve ser comemorado – profundidade.

Aspectos da massacrada cultura indígena norte americana são muito bem aproveitados na trama. Não é um livro de história ou folclore, obviamente, mas o pouco que é mostrado nesse sentido é feito com extrema naturalidade.

Até um inesperado interesse romântico nos é ofertado.

E tudo isso dentro de um roteiro maduro, adulto. E com a arte soberba de Civitelli.

Mas não é apenas o roteiro bem estruturado ou a arte deslumbrante. “O Presságio” traz muito mais que isso.

A história  – cujo argumento é também de Civitelli, em parceria com Claudio Nizzi –mostra-nos algo muito maior do que uma revista de faroeste.

“O Presságio” é uma história sobre honra. Uma história que nos conta como um verdadeiro homem deve se portar ante as adversidades. É também uma história de amor de um filho e seu pai, amor entre amigos e até entre povos diferentes.

Mas sobretudo, “O Presságio” traz-nos uma história de dimensões humanas reais, coisa rara nos quadradinhos em geral, mas já conhecida dos leitores italianos e da enorme comunidade de fãs espalhada mundo afora.

Terminei de ler o volume com um nó na garganta. Fui até à cozinha, tomei um café e acendi um cigarro.

E lembrei-me do meu pai sentado no quintal de cimento cru, lendo um Tex comprado na feira, enquanto eu brincava de cowboy, armado de um colt de tiros de espoleta e montado no Carimbó  – o enorme viralata que tínhamos.

Sem dúvida alguma, “O Presságio” um dia será apresentada também ao meu filho…

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[1] Texto de Lillo Parra apresentado no blogue Quadro a Quadro em 12 de Fevereiro de 2011.
Adaptação a cargo de José Carlos Francisco.

Copyright: © 2011, Lillo Parra

Inauguração da exposição “Il mio Tex, la leggenda del West nei disegni di Fabio Civitelli”

Por José Carlos Francisco

Sábado 19 de Fevereiro de 2011 na galeria Furio del Furia, um belíssimo local situado num antigo convento reconstruído em Foiano, uma cidade vizinha de Arezzo, foi inaugurada a exposição intitulada “Il mio Tex, la leggenda del West nei disegni di Fabio Civitelli” (O meu Tex, a lenda do Oeste nos desenhos de Fabio Civitelli).

Presentes Marcello Fatucchi, Assessor da Cultura e Turismo da cidade de Foiano, Roberto Fanticelli, Vice-presidente da Associação Carnavalesca, Fabio Civitelli, desenhador de primeiro plano de Tex Willer, Marco Bianchini, director artístico da Escola Internacional de Banda desenhada de Florença também ele desenhador de Tex.

No decorrer da inauguração, Fabio Civitelli contou a sua vida e as suas experiências como artista de banda desenhada, uma verdadeira e própria arte: cada vinheta do famoso Tex Willer é um pequeno quadro trabalhado nos mínimos detalhes tendo por trás um árduo trabalho de um roteiro altamente profissional. Civitelli não usa o Photoshop, como hoje se poderia imaginar pode imaginar, mas a mão e o lápis, e cada uma das suas páginas desenhadas tem um valor económico significativo, sendo obras desejadas por inúmeros coleccionadores de banda desenhada.

Tex é ainda muito actual e é uma personagem de grande sucesso, não só em Itália, mas também em países como Brasil e Portugal. A recente publicação de reimpressões das histórias em cores, levaram as vendas na Itália a um brilhante record, de modo que por várias semanas, as vendas ultrapassaram o fantástico número de 200.000 cópias semanais.

Para Fabio Civitelli, como ele o desenha, Tex é um homem prestante mas não massivo, ágil mas forte, com um olhar duro mas com um lampejo de ironia em seus olhos e um meio sorriso de quem está seguro de si e das suas razões, enquanto para Marco Bianchini, Tex é um homem tradicional, na melhor tradição da banda desenhada realista de nível mundial que se formou entre os anos 70 e 90.

Os dois artistas presentes na inauguração da exposição são de Arezzo (Civitelli nasceu em Lucignano, mas hoje reside em Arezzo) e fazem parte de um grupo exclusivo de pessoas. No mundo Texano fala-se de uma verdadeira escola aretina (de Arezzo) – recordamos também Rossano Rossi e Marco Santucci, outros dois artistas de Arezzo com grande relevo na saga de Tex. Para uma cidade como Arezzo, a concentração de artistas da banda desenhada supera por larga margem aquela de grandes cidades italianas.

Um verdadeiro prazer tê-los visto e ouvido e ainda mais admirar as páginas expostas na galeria Furio del Furia e que permanecerão em Foiano durante todo o período do Carnaval de Foiano, todos os quatro sábados e domingos em que sairão os carros alegóricos.

Há ainda uma curiosidade interessante, o convite para a exposição, assim como o desenho usado por Fabio Civitelli para presentear todos os presentes, foi aquele usado pela Mythos Editora no Brasil para ilustrar a capa da edição especial dedicada a Fabio Civitelli e que foi alvo dos maiores elogios pelas pessoas que compareceram à inauguração da exposição.

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Mauro Boselli e Ernesto Garcia Seijas também no Brasil em 2011?

Por José Carlos Francisco

Depois de recentemente termos dado conta aqui mesmo no blogue português do Tex da muito provável presença de Giovanni Ticci, o decano desenhador de Tex, este ano no Brasil, mais precisamente em Curitiba, entre os dias 15 e 17 de Julho deste ano, no decurso da primeira Convenção Internacional de Quadrinhos de Curitiba, onde decorrerá uma exposição dedicada ao TEX, exposição essa que terá então a bênção de Giovanni Ticci, tentamos saber mais sobre este primeiro evento de grande porte relacionado com a banda desenhada a realizar na capital do Estado do Paraná no Brasil e apesar de tudo estar praticamente no início, soubemos de fonte segura que há muita ambição para realizar um acontecimento que poderá bem vir a ser o maior relacionado a Tex realizado fora da Itália, isto porque segundo o que já conseguimos apurar, embora não por via oficial, há a pretensão de para além de Giovanni Ticci ser possível também contar com a presença de Mauro Boselli, o principal argumentista de Tex no presente, assim como do consagrado desenhador argentino Ernesto Garcia Seijas.

E se tal desejo se tornar realidade, estaremos seguramente na presença de um evento Texiano de elevado quilate, mas ainda segundo as nossas investigações, as surpresas Texianas neste evento de Curitiba poderiam não ficar por aqui, mas não tendo ainda certezas absolutas estaríamos a entrar no campo da especulação, por isso vamos aguardar mais algum tempo para ver se as nossas investigações estarão indo pelo caminho certo…

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Entrevista exclusiva: ALESSANDRO BAGGI

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Giampiero Belardinelli na formulação das perguntas, de Júlio Schneider (tradutor de Tex para o Brasil) e de Gianni Petino na tradução e revisão e de Bira Dantas na caricatura.

O nosso entrevistado desta feita é Alessandro Baggi, desenhador nascido em Milão em 10 de Agosto de 1966 e que se destacou na Sergio Bonelli Editore graças ao seu trabalho com Dampyr, personagem criada por Mauro Boselli e Maurizio Colombo.

Quais foram os quadradinhos das suas leituras de infância e adolescência?
Alessandro Baggi: Em 1972 eu tinha 6 anos: um dia, quando a minha tia me levava para cortar o cabelo, eu não queria, chorava, ela teve que me arrastar; eu tinha a certeza que cortar o cabelo doía. Ao passar diante de um quiosque, para que eu ficasse bonzinho a minha tia disse-me para escolher uma BD. Eu escolhi uma revista do Quarteto Fantástico, desenhada por Jack Kirby. Fascinado por aquelas páginas impressionantes, creio que foi naquela manhã que eu decidi também fazer quadradinhos: na verdade, eu queria viver as histórias, eu queria ser o Tocha Humana. Eu nem pensava mais no cabelo. Zagor eu descobri por acaso: ainda me lembro, era o volume O Rei das Águias. Depois vieram O Homem-Aranha e Demolidor, e os quadradinhos de terror publicados nas edições de bolso de Zio Tíbia (Tio Tíbia). A minha mãe deixaria eu comprar essas revistinhas em troca de uma boa conduta na escola, coisa que eu nunca conseguia observar. Ela entendia o meu drama e, no fim, comprava assim mesmo. Mais tarde eu descobri Kriminal, Tex e O Pequeno Ranger e, na adolescência (início dos anos 80), os maravilhosos desenhadores espanhóis Fernandez, Maroto, Bernet e Jesus Blasco, em razão de histórias curtas que fizeram para o mercado norte-americano.

Quais leituras ou sugestões o levaram a se envolver com o desenho? Ou essa sua paixão foi cultivada desde criança?
Alessandro Baggi: A paixão pelo desenho e as sugestões recebidas dos quadradinhos que eu lia quando criança seguiram lado a lado. O meu modo de identificar-me com um homem voador, com um vampiro, com Zagor, começou a coincidir com o facto de eu desenhá-los. Na época eu não entendia mas, como essas fantasias haviam sido suscitadas em mim pelos desenhos, desenhar tornou-se para mim o modo mais directo para participar delas. Isso constituiu, desde então, um estímulo constante para desenhar melhor. Eu pensava que, se em pouco tempo conseguisse atingir um estilo de desenho adulto, eu teria acesso a possibilidades expressivas maravilhosas: demorou uma vida, mas valeu a pena.

Você teve uma formação artística? De que tipo?
Alessandro Baggi: Eu fiz cursos específicos na Escola dos Quadradinhos de Milão, a primeira na Itália a estruturar, já em 1979, um programa trienal de estudo da narrativa por imagens. Ainda hoje eu frequento a escola, agora como instrutor, e o seu director e fundador, Giuseppe Calzolari, para mim sempre foi uma figura de referência, além de um amigo. Mas desde a primeira infância foi meu pai, Armando, aficionado por pintura e dotado de grande sensibilidade artística, quem me encorajou e apoiou. Ele levava-me consigo às mostras e explicava-me o significado de algumas obras de arte moderna, com as quais, por volta dos dez anos, eu comecei a familiarizar-me. Ele falou-me de Poe e de Wilde, de Boldini e de De Chirico, de Fontana e de Burri, e aos 13 anos ele deu-me de presente algumas fitas cassete dos Beatles, enquanto o resto do mundo dançava a disco music: “Ouça estes“, disse-me ele.

Em quais desenhadores italianos e estrangeiros você se inspirou durante a sua carreira? Há algum que, mais que os outros, você considera como seu mestre ideal?
Alessandro Baggi: Os desenhadores que mais me influenciaram foram os que eu admirava quando criança nas BD que saíam nos quiosques da época: Gil Kane, John Romita, Gene Colan e The King Jack Kirby, ou seja, a mítica equipa da Era de Prata da Marvel. Depois eu descobri e apreciei Toppi, Moebius, Manara, Battaglia, Bilal, mas na Milão dos anos 70 os modelos culturais americanos tinham uma difusão e persistência que poucas outras produções podiam igualar. Mas coleccionei com firmeza Zagor, do qual me recordo com afecto algumas histórias que, com o passar dos anos, eu reli mais de uma vez: aquelas em que ele se envolvia com os monstros (o homem-peixe, o homem-tigre, o vampiro, e até Hellingen) estão entre as minhas preferidas. Hoje, como profissional, as páginas de Alex Raymond, de Caniff e de Al Williamson parecem-me como aquelas dos mestres dos meus mestres. Frazetta, Buscema, Romita Sr. já não recordavam esses artistas que, em alguns casos, eram poucos anos mais velhos que eles?

Você começou a sua carreira a ilustrar Os Tarôs da Loucura, das Edições Scarabeo (Escaravelho). Fale um pouco dessa experiência.
Alessandro Baggi: Piero Alligo entrou em contacto comigo em 1986: as cartas de tarô que me encomendou foram o meu primeiro trabalho. Eu já havia vencido concursos com histórias aos quadradinhos, mas essas só seriam impressas posteriormente. Eu era um estreante em absoluto e Alligo confiou em mim; até hoje eu lhe sou grato por isso. Eu tinha 20 anos e trabalhava naquelas cartas de tarô a procurar dar o melhor de mim. Piero encontrava-se comigo na estação central de Milão por volta das 17h, pegava as minhas páginas e voltava a Turim de comboio. Ele passava antes na casa de Toppi, que também estava a trabalhar num projecto semelhante, e eu era o segundo, depois do editor, a ver aqueles maravilhosos originais coloridos, no vaivém da estação ferroviária. Alligo parecia considerar o meu trabalho no mesmo nível, pagava na entrega e comportava-se de modo amigável e correcto, mas a comparação com as páginas de Toppi era arrasadora e eu me impunha um imperativo: “Preciso melhorar“. Ainda estou a tentar.

Em seguida você chegou à editora Acme, onde trabalhou nas séries Mostros e Splatter: o que se recorda desse período e como considera hoje aqueles seus trabalhos?
Alessandro Baggi: O período da minha colaboração com essas duas séries permitiu que as minhas primeiras histórias de terror chegassem às páginas de uma revista. Foi estimulante, eu recebi total liberdade expressiva: eu trabalhava com histórias minhas e, por meio do desenho, eu procurava valorizar o texto e vice-versa. Eu sempre concebi a BD como uma sinergia entre desenho e palavra, o texto está na origem do processo criativo e o desenho o ilustra, o evidencia e, nos casos mais limitadores, o enfeita: embellishment, estava escrito em algumas edições americanas, a propósito da arte-final. Hoje eu considero aquelas minhas histórias curtas carentes no plano gráfico, mas graças à liberdade que recebi para realizá-las, eram mais incisivas e originais que outros trabalhos que fiz mais tarde.
Em seguida, colaborei por cinco anos (às vezes apenas como roteirista) com a revista Intrépido, para a qual fiz histórias mais longas, de 32 ou 56 páginas, de todo o tipo: eu buscava envolver-me com tramas de thriller ou de romance, e até com algo mais fantasy, e o meu estilo experimental ficava meio condicionado. Mas eram condicionamentos que eu mesmo me impunha, como uma forma de compensar com bom senso o director Carlo Pedrocchi pela liberdade que me deixava, grande quanto (e talvez mais) aquela que eu havia recebido na Acme de Francesco Coniglio. Mas “o bom senso“, diz Barthes, “é a pior das virtudes burguesas“: no fim dos anos 90 a Intrépido também deixou de ser publicada. Dela eu recordo-me, sobretudo, da maravilhosa oportunidade de aprimorar as minhas técnicas ilustrativas: por quatro anos eu fui o capista fixo, e atingi uma notoriedade e uma resposta do público que eu não esperava. Possivelmente foram essas experiências que me deram a coragem de apresentar-me à Sergio Bonelli Editore.

Em 1998 você encontrou-se com Mauro Boselli: como foi o envolvimento com o projecto Dampyr?
Alessandro Baggi: Um amigo, Gino Udina, falou-me dessa nova série que estava em preparação há três anos, e sugeriu que eu me apresentasse ao seu responsável, Mauro Boselli. Eu temia uma longa via burocrática, como costuma acontecer com as grandes editoras, mas Udina tranquilizou-me ao afirmar que Boselli era rápido, decidido e objectivo: “Ou você é aceite ou não é“, garantiu, “e ele diz isso no acto“. A equipa de desenhadores estava completa, mas ele gostou dos meus trabalhos e submeteu-os a Sergio Bonelli quase imediatamente: duas semanas depois eu começava a trabalhar na minha primeira história de Dampyr, Casa de Sangue. Eu sei que também tive sorte e que talvez autores melhores do que eu tiveram que esperar mais.

O que mais o fascina nessa série?
Alessandro Baggi: A possibilidade de dar à personagem interpretações que variam muito, de acordo com o desenhador. Alguns de nós (penso em Majo e em Luca Rossi, em mim e em Piccininno) têm estilos muito diferentes. Assim, em Dampyr continua aquela variedade gráfica que já em Dylan Dog havia permitido à personagem desenvolver-se, no plano visual, em direcções incomuns, até chegar às versões humorísticas de 2010. As grandes personagens da BD (eu refiro-me a gigantes como Batman) podem até ter uma versão humorística de si próprias sem que essa se torne uma paródia: o Batman de Bruce Timm é distante do de Neal Adams, mas aproxima-se do de Bob Kane; todas as versões dessa personagem desenvolvem possibilidades expressivas que JÁ estavam contidas na original. Certa vez Boselli brincou comigo sobre um encontro de Dampyr com as Winx, as bruxinhas de um desenho italiano adorado pela filha dele: eu levei a sério mais da metade da conversa e, se penso num Dampyr com aberturas de fábula, não acho que seja tão improvável. A personagem é sólida, e suas caracterizações não a limitam; isso permitiu-me trabalhar de forma isolada também como roteirista.

De um modo geral, você recebeu roteiros oníricos e visionários. Foi uma escolha sua ou Mauro Boselli, por conhecer os seus dotes artísticos, preferiu vê-lo trabalhar com roteiros sonhadores?
Alessandro Baggi: Boselli conhece bem as minhas referências, não só gráficas como as literárias e culturais de um modo geral. Ele sabe que gosto de arte moderna, de poesia, de Kafka, Poe, Lovecraft, Sartre, Celine, Beckett e por aí vai. Os roteiros que eu sugeria e aqueles que me foram confiados por ele continham elementos que sempre estão em todos os meus trabalhos. Além disso, Diego Cajelli, o roteirista com quem mais trabalhei, é meu amigo, e é natural que se troquem ideias e sugestões, pessoalmente ou por e-mail.

No segundo Maxi Dampyr (Itália, Agosto 2010) você foi o protagonista absoluto: desenhou o volume inteiro e se envolveu com o texto. Como nasceu essa operação? E considera-se satisfeito com o seu roteiro?
Alessandro Baggi: Por dez anos o Maxi Dampyr foi um curioso work in progress: em 2000 Boselli começou a dar-me sinal verde para elaborar algumas histórias curtas que tivessem Dampyr por protagonista; ele aprovou duas, que acabei por fazer. Depois ele pediu uma história curta a Maurizio Colombo, com Kurjak por protagonista que, no final, morreria. Depois escreveu uma história sobre a infância de Tesla, e no fim ela também morria! Eu não entendia o que ele tinha em mente: aos poucos, entre uma edição e outra, esse trabalho estranho ia em frente e, em Fevereiro de 2010, eu comecei as 50 páginas finais. As duas histórias escritas por mim compuseram, junto às demais, um mosaico complexo: a história foi enriquecida com elementos de continuidade que se ligam à série mensal, e se eventualmente mostra um estilo gráfico em transformação, isso é devido ao tempo longo de elaboração. Creio que isso também faz de Spectriana um conjunto curioso e original: o volume contém uma maturação profissional da qual sinto orgulho e espero que tenha seguimento.

Você planeja escrever outros roteiros para Dampyr?
Alessandro Baggi: Eu gostaria muito: eu penso em histórias estreitamente ligadas ao modo como as desenharei, e escrevo diálogos que imagino pronunciados em um contexto gráfico bem preciso. Actualmente estou a frequentar, por interesse pessoal, um curso de texto criativo, e vejo que separar desenho e palavras é mais difícil do que juntá-los.

Você poderia falar alguma coisa sobre a história com a qual está a trabalhar?
Alessandro Baggi: É uma história ambientada na França. Um tranquilo vendedor de perfumes recebe a visita de um cliente inquietante, envolvente. Dampyr e Kurjak, em Praga, são informados por Nikolaus de antigos comércios entre artesãos fantasmas. Não sei muita coisa mais, estou nas primeiras páginas.

Quanto tempo leva para desenhar uma página? Segue horários? Como é o seu dia entre trabalho, leituras, manter-se informado, ócio, vida familiar?
Alessandro Baggi: Uma página toma-me quase sempre três dias de trabalho. Às vezes (fico meio envergonhado em dizer) até mais. Meus horários, a trabalhar também como professor, variam bastante, e por vezes durmo pouco. Nos raros casos em que os prazos apertam, chego a desenhar 12 horas sem parar, durmo um pouco e recomeço. Quando entreguei as últimas páginas do Maxi, eu estava acordado há dois dias e estava com dor de dentes… mas feliz! Na sociedade ocidental o homem define-se sobretudo através do trabalho; vida familiar, afectiva e interior são subordinadas a ele, relegadas aos horários em que não se trabalha, ao fim da tarde e à noite. Parece absurdo mas é verdade. Eu leio no comboio ou na casa de banho (banheiro), escuto música enquanto trabalho, toco violão enquanto cozinho (enquanto espero a água ferver), crio história enquanto caminho, brinco e crio canções, que depois canto para a minha namorada. Nas noites eu desenho e amo intensamente. Vou correr. Eu gosto dos bosques, do fogo, dos insectos, dos sapos. Eu adoro a minha cidade. Gosto muito dos meus irmãos e do meu sobrinho, Tommaso. Eu contei a ele do Homem-Peixe e assistimos juntos ao filme.

Como é trabalhar para Sergio Bonelli?
Alessandro Baggi: Sergio foi o editor de Joe Kubert, de Sergio Toppi, de Aldo Capitanio e de Fernando Fernandez: escreveu as histórias de Zagor que eu lia quando criança, e quando o chamei de mestre ele se encabulou, mas eu não estava a brincar. Aos elogios dele eu é que me encabulei.

Digamos que Sergio Bonelli lhe desse a chance de escolher desenhar outra personagem da Editora, além de Dampyr. Qual você gostaria de fazer?
Alessandro Baggi: Bem, a ambientação de terror de Dampyr tem afinidade com a de certas histórias de Dylan Dog, com as quais acho que eu ficaria à vontade. O de trabalhar com Tex é um sonho comum a muitos desenhadores da Editora, mas eu (como estamos a falar de sonhos) arriscaria outro, quem sabe ainda mais ousado: uma longa história de terror de Zagor, escrita e desenhada por mim, que fale de um coleccionador de monstros, ou coisa do tipo, algo meio anos 60.

Passemos agora ao Ranger que dá nome a este blogue. Hoje que você é um desenhador bonelliano afirmado, gostaria de desenhar Tex? Já recebeu alguma proposta?
Alessandro Baggi: Eu sei que o meu editor tem uma (compreensível) predilecção por Águia da Noite. O facto dele ser também o maior entendido (aliado à estatura épica da personagem) cria em mim um receio de ver uma versão minha. Além disso, os desenhadores históricos de Tex que mais aprecio – Nicolò acima de todos, mas também Lettèri e Ticci – são modelos consolidados e condicionadores. Mas eu começaria referindo-me às versões deles, mais clássicas, em vez de inspirar-me em interpretações mais modernas, como as de Mastantuono ou Villa, que são o ponto de chegada de colegas que começaram em condições semelhantes às minhas.

O que significaria para si desenhar histórias de uma lenda dos quadradinhos como Tex?
Alessandro Baggi: Abordar a lenda com respeito e buscar fornecer a minha contribuição. Eu tenho consciência de ter feito as minhas coisas melhores (com Dampyr, por exemplo) quando me senti livre para fazer experiências, para propor soluções gráficas incomuns, quase por folguedo, a brincar. Claro que com Tex não se pode brincar demais; deve-se, como se diz em Milão, “stare all’occhio“, ficar muito atento.

Na sua opinião, quem ou o que é Tex? O que você gosta mais e o que gosta menos no Ranger?
Alessandro Baggi: Tex é uma personagem com sessenta e dois anos, cuja história começa no pós-guerra italiano e mergulha nos clarões ofuscantes de um século 19 americano cada vez mais preciso, documentado e nítido. Com o crescer da série, o seu mundo tornou-se real, adquiriu parâmetros próprios, e desenhadores cada vez melhores e mais detalhistas o tornaram majestoso: um universo de traços, às vezes mínimos, às vezes meio barrocos, no qual Tex chega e eternamente parte. Penso que, desde criança, eu percebia Tex assim: ele é o que parte de novo (enquanto Zagor, mais fixo em Darkwood, era na, minha infância, o que fica e defende a própria casa).

Você acha que Tex mudou nos últimos anos? Sob quais aspectos?
Alessandro Baggi: Ele abandonou a irreverência meio anárquica de seus primeiros anos, quando conduzia os interrogatórios à base de socos e liquidava burocratas e xerifes corruptos com modos bruscos; sacava os seus colts sem pensar duas vezes e acabava as brigas – que ele mesmo começava – com uma rodada de bebida para todos. Hoje ele é equilibrado, solene, implacável, um instrumento da Justiça, mais que da Lei; a sua chegada, nas histórias, sempre é mítica, definitiva: é a chegada do Destino.

Para concluir o tema, como vê o futuro do Ranger?
Alessandro Baggi: A crescente qualidade desta BD e a atenção que lhe reservam autores e editores continuam a ser correspondidas com o afecto do público. Faço votos para que ele mantenha (ou até mesmo aumente) o seu status de parâmetro imprescindível: quem dera eu também pudesse contribuir para isso! Mas como acontece com muitos artistas, eu não conheço as reais condições do mercado e, sobre isso, não me pronuncio.

A BD da SBE sempre foi o seu objectivo ou você gostaria de ter feito a chamada BD de autor, assim como Pratt, Battaglia, Toppi, Manara?
Alessandro Baggi: A partir dos anos 80 (com Dylan Dog e os diferentes desenhadores que começaram a trabalhar em suas páginas) a BD da SBE começou a expor episódios desenhados por Tacconi, histórias de Nick Raider desenhadas por Toppi, para chegar ao Tex Gigante de Kubert ou ao Napoleone desenhado (mas sobretudo escrito) por Bacilieri. Claro que eu também penso em fazer BD de autor, e na SBE isso é feito. Concordo plenamente com as limitações ligadas ao trabalho em séries da nossa Editora (nada de pornografia, de linguagem obscena, splatter, etc.), que também não se vêem nos trabalhos que fiz para outros editores que não impunham reservas a esses elementos.

À sua actividade de desenhador juntou-se a de instrutor na Escola de Quadradinhos de Milão. Como você se coloca diante de seus alunos, vistas as dificuldades em encontrar trabalho no âmbito da BD italiana?
Alessandro Baggi: Eu ensino a fazer quadradinhos de forma correcta, animado pela convicção de que, quando se atinge um certo nível de profissionalismo, a possibilidade de ser aceite pelo mercado italiano existe. Não existe um mercado farto a ponto de também absorver quem se aplica pouco, quem desenha raramente, quem tem mil outros interesses, etc., mas creio que pessoas assim não arrumariam trabalho em lugar algum. Não como desenhadores de quadradinhos, ao menos.

Você acha que a BD, como meio de comunicação, tem mais chances de abordar os temas mais disparatados do que, digamos, o Cinema italiano?
Alessandro Baggi: O cinema tem a possibilidade de atingir um público maior, por necessitar de um esforço menor da parte do espectador (isso se considerarmos a leitura como um esforço). Os maiores custos de produção limitam um pouco os temas abordados, que devem ir ao encontro de amplas faixas de público. A BD, por custar menos, poderia abordar qualquer assunto – mesmo com o risco de não vender muito – e fazer isso com profundidade e plena consciência de seus meios de expressão: eu penso no David Boring de Daniel Clowes, ou no titânico Brain the Brain de Miguel Angel Martin, no Zeno Porno do perspicaz Bacilieri.

Como você imagina o mercado nos próximos anos? A BD será cada vez mais endereçada a um público restrito ou pode-se pensar num equilíbrio entre propostas populares (no sentido de custo, não de qualidade) e de livraria?
Alessandro Baggi: Creio que em todos os lugares os leitores de BD têm uma idade média cada vez mais alta, são adultos, aficionados e inteligentes. Eu vejo como difícil o retorno a uma difusão vasta e popular da mídia BD. Na minha visão é mais provável uma especialização cada vez maior do produto e de seus consumidores, o que tornará necessário um nível de qualidade sempre mais elevado e políticas de venda cautelosas.

Em uma entrevista, Mirko Perniola (em ZAGOR TV, na página http://www.youtube.com/watch?v=xY_-csxPFbg) torce para que grandes editores como Mondadori ou Rizzoli dêem chances a autores de quadradinhos de publicar material inédito. O que acha disso?
Alessandro Baggi: Eu concordo com Mirko: também torço por isso.

Pode nos dizer alguma coisa sobre os seus projectos para o futuro?
Alessandro Baggi: Eu queria casar-me com a minha namorada na igreja. Mas não sabia que era tão complicado.

Quais quadradinhos você lê actualmente, com quais mais se identifica?
Alessandro Baggi: Tenho 44 anos e a minha tendência é ler os quadradinhos que eu lia quando criança. Eu identifico-me com a criança que era quando os lia, e depois começo a desenhá-los numa forma que poderia agradar àquela criança.

Além de BD, que tipo de livros você lê? E quais são as suas preferência no campo do cinema e da música?
Alessandro Baggi: Tenho pouco tempo para ler, estou sempre a trabalhar. Mas nos últimos anos desfilaram diante dos meus olhos Richard Yates, Aldo Nove, tudo de Houllebecq, Donald Bathelme, Edgar Morin, Garcia Lorca, Marshall Mc Luhan. Cinema eu vejo pouco: os filmes actuais são muito longos, duas horas, às vezes duas e meia. Vejo os seriados da TV, The Wire, Breaking Bad; qualitativamente alguns seriados têm pouco ou nada a invejar das produções cinematográficas, e a duração de 50 minutos por episódio combina mais comigo. Eu preciso trabalhar, vivemos num mundo impaciente! A música que prefiro é o jazz; eu descobri por acaso, a conversar com Sergio Boselli, que ele também entende muito do assunto. Creio que, também por razões de geração, os discos de free jazz do final dos anos 60 que eu ainda ouço, ele os descobriu mais ou menos na época em que foram lançados: John Coltrane, Albert Ayler, Archie Shepp, Pharoah Sanders, Anthony Braxton, etc. É, eu sempre ouço essa música dura e difícil, que não compreendo a fundo, mas gosto.

E chegamos ao fim. Há algo mais que você gostaria de dizer aos leitores sobre Alessandro Baggi?
Alessandro Baggi: Na minha sala de trabalho eu tenho vários quadros meus, feitos com insectos de verdade e pedaços de brinquedos e de madeiras pintadas. Também tenho outras coisas singulares e meio inquietantes (tipo uma piranha embalsamada, uma máscara africana) e um modelo de montar de Godzilla, que nunca vou concluir, uma machadinha numa caixa, e folhagens secas na varanda. Atrás de pilhas de BDs, mais BDs a perder de vista e que chegam às remotas pradarias da infância, uma foto da minha mãe na mesa de desenho, e dois violões com as cordas oxidadas. No céu de Milão, às três da madrugada, às vezes passa uma baleia, só para mim.

Caro Alessandro Baggi, nós do blogue português de Tex agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.
Alessandro Baggi: Obrigado a vocês, e um abraço aos leitores.

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