Lucio Filippucci e Tex…

Por Sandro Palmas*

Em 2003, durante um jantar, Sergio Bonelli conversava com o seu amigo Gino D’Antonio sobre uma aventura que este deveria realizar para Tex. O editor guardava o firme desejo de uma história desenhada por D’Antonio para o ranger, algo que, no entanto, não convencia Gino, a quem agradava mais outro tipo de história e outras personagens. Numa altura em que D’Antonio desenhava cada vez menos e, pelo contrário, escrevia cada vez mais, Sergio Bonelli conseguiu arrancar o acordo para que o amigo pelo menos escrevesse uma história para o ranger. Para o convencer, apresentou-lhe uma pasta com documentação para uma história sobre os Seminoles, que ele próprio tentava invariavelmente escrever desde há um tempo para um Texone. Em maio de 1970, tinha sido publicado na coleção Storia del West um volume com o título “Acque morte”, que D’Antonio tinha escrito para Sergio Tarquinio, ambientado precisamente nas Everglades da Florida. O passo seguinte para a nova história “Acque morte”, o título inicialmente previsto para a aventura, era encontrar um desenhador que pudesse dedicar-se às 224 pranchas do novo Texone. Gino D’Antonio não se importava de trabalhar com Giampiero Casertano ou mesmo com Sergio Toppi, com quem colaborava nas páginas do Il Giornalino, em suma, dois seus amigos históricos. No entanto, o editor já tinha em mente um nome desde algum tempo, um dos estandartes da equipa de Martin Mystère, personagem a quem, nas próprias palavras de Sergio, “tinha trazido inovação e grandeza às suas páginas”.

Tratava-se, na realidade, do bolonhês Lucio Filippucci, na altura quase cinquentão, e que teve um instante de hesitação antes de aceitar e meter mãos ao trabalho, naquele que viria a ser o vigésimo segundo Texone, iniciado em janeiro de 2004. A hesitação do desenhador é perfeitamente compreensível, e foi mesmo o próprio que referiu o quanto distante estava do western naquela altura, mais habituado a outros géneros, dia após dia, e desde há 15 anos: “a ficção científica, creio mesmo que o fantástico em geral, foi sempre a principal fonte do meu trabalho”. E ainda: “o editor Bonelli insistia, mas eu vacilava, porque nunca fui um texiano. Não era um leitor habitual, identificava-me mais com outro estilo de western, mais moderno, como Ken Parker, ou Blueberry de Giraud”. Mesmo no cinema, eu apreciava os westerns dos anos sessenta, Soldier Blue (Soldado Azul), A Man Called Horse (O Homem a quem chamaram Cavalo). Tex é anos cinquenta, é John Ford. No final, aceitei porque era um belo desafio. Tex é uma personagem exigente, que carrega consigo uma longa história e regras sólidas”. Felizmente, a ajudá-lo a ilustrar o Texone, onde se destaca a verde e luxuriante vegetação tropical da Florida, esteve alguém que é muito próximo de Filippucci, a sua mulher Maria Graziella Buccioli, grande apaixonada de plantas e autora do livro “I giardini venuti dal vento”, que inclui belíssimos desenhos do seu marido.

Ultrapassada facilmente esta dificuldade, certamente não indiferente, convidamos o leitor a folhear uma vez mais o álbum e a debruçar-se sobre os grandiosos detalhes da flora, protagonista absoluta em muitas das páginas do Texone, nas quais, no entanto, o desenhador bolonhês teve que enfrentar o mesmo e duro desafio com que se deparam todos os artistas do lápis e do pincel que se confrontam pela primeira vez com uma personagem como Tex: “no início, Águia da Noite foi um adversário coriáceo, tal como eu já esperava que o fosse, mas depois ficámos amigos… mesmo que tenha sido através de um processo lento e gradual”. A referência para Filippucci foi um desenhador toscano: “devo dizer que para quem se prepara para desenhar Tex pela primeira vez é fundamental que se inspire num mestre; no meu caso foi em Giovanni Ticci, que considero o maior desenhador western contemporâneo”. Em resultado disso, o Tex de Filippucci é um homem de rosto duro, com traços angulosos e com olhos que surgem como fissuras na sua face: “é um homem de aço, com uma vestimenta concreta, armas, com um modo preciso de cavalgar e de olhar”.

O Texone foi publicado em junho de 2008, para o qual foram necessários quatro anos de intenso trabalho, período durante o qual Filippucci foi reconhecido com o prestigiado prémio anual Anafi (2005), conferido ao melhor desenhador, e Gino d’Antonio faleceu na véspera de Natal de 2006. Para quem, como Filippucci, veio do mundo da ilustração e trabalhou tantos anos para a publicidade, seria lícito ansiar por uma capa à altura e a espera dos leitores acabou por se justificar, não ficando desiludidos com aquela que é, certamente, uma das melhores de todos os Texones. Uma outra prova de qualidade foi dada pelo desenhador para a capa da edição especial cartonada deste seu Texone, editada num reduzido número de exemplares pela Editora Alessandro, onde se incluem diversas aguarelas com Tex, os Seminoles e as Everglades, cada uma mais bela que a outra.

As pranchas são dominadas por um estilo muito pessoal, extremamente limpo, nítido e preciso, detalhado e meticuloso, com as personagens bastante expressivas, as vinhetas plenas de dinamismo, com o autor a dar o seu melhor na segunda parte da aventura, a mais difícil de desenhar, com as encantadoras paisagens pantanosas que se assumem como o cenário da parte final da aventura. “No Texone…” conta o desenhador “… notam-se indecisões em algumas faces de Tex, muitas vezes influenciadas de Ticci. Os cavalos, desconhecidos para mim, eram muitas vezes desenhados a partir de fotos ou de outras obras, para não falar de outros detalhes menos visíveis ao leitor. Digamos que me salvei de um trabalho árduo, o não ter de contar com dias e horas empenhado a estudar o abc do western e um ambiente muito particular e desconhecido para mim”.

Sem dúvida, o Texone convenceu toda a redação, tanto que nos primeiros meses de 2008 Filippucci encontra-se perante uma encruzilhada: uma estrada leva-o em direção às pranchas do velho tio Marty; a outra, pelo contrário, é a estrada principal e pretende conduzi-lo pelos mesmos caminhos de De La Fuente, Ortiz, Capitanio, Font e outros, na série mensal de Tex, a publicação mais vendida em Itália. É o próprio Sergio Bonelli a convencê-lo com uma oferta que Filippucci não podia recusar. O acordo alcançado prevê que Filippucci possa dedicar-se também à realização de algumas curtas aventuras para os diversos especiais de Martin Mystère entre 2009 e 2012.

A segunda história texiana representa para o desenhador a primeira colaboração com Claudio Nizzi, que naquela altura trabalhava na primeira parte de uma história que tinha sido aprovada na Primavera de 2007, “Inferno bianco”, título que, posteriormente, será alterado para “L’oro dei monti San Juan”. Para Filippucci, que não lhe agradam os ambientes urbanos, desta vez aguarda-o uma aventura que transporta Tex pelas montanhas do Colorado em pleno Inverno. No sítio da editora, o trabalho do novo desenhador era elogiado na apresentação da história: “Filippucci construiu um western autenticamente clássico e, nas suas arejadas e dinâmicas vinhetas, respira-se o ar da Fronteira”. O mestre bolonhês, com um traço seguro, constrói efetivamente paisagens de sonho que, por si só, valem o preço do álbum. Os ambientes são seguramente a sua força principal.

E é o próprio Filippucci que revela num fórum de Tex aspetos que, segundo ele, devem ser melhorados: “se por um lado acho que consegui chegar a uma boa caraterização pessoal da personagem (de Tex), por outro, aceito perfeitamente as críticas que me possam ser feitas sobre a rigidez expressiva que muitas vezes se encontra nas faces dos pards”. Sobre as críticas de uma certa inexpressividade nos pards, o desenhador sublinha: “reconheço que posso fazer melhor. Como atenuante, posso dizer que a minha carreira de desenhador de Martin Mystère não me ajudou certamente. Passar de uma linha clara sintética e muito estilizada ao realismo dinâmico e sujo de Tex, acreditem, foi duro, mas dei o meu melhor tentando não trair o meu estilo e, ao mesmo tempo, respeitar a personagem”. De passagem, dizemos nós, o objetivo foi absolutamente alcançado!

A história de Nizzi foi concluída no Verão de 2012, e à espera do desenhador bolonhês estava, desta vez, uma aventura escrita por Pasquale Ruju intitulada “La legge dei Forrester”, título que será ligeiramente alterado para “La pista dei Forrester (na realidade, o titulo inicial assemelhava-se a uma velha história do ranger escrita por Mauro Boselli: “La legge di Tex”), novamente em dois álbuns, aos quais Filippucci se dedicou a partir de outubro do mesmo ano. Ainda no fórum, o autor confidenciou pretender desenhar de modo mais constante para a série porta estandarte da editora Bonelli: “interrompi demasiado a história de Nizzi, devido a outros projetos. Tudo bem, eu não suporto a rotina, mas exagerei.  Sem prejuízo dos compromissos para o especial de Martin Mystère, que todas as Primaveras absorve-me um mês de trabalho, e as eventuais ilustrações para o livro da minha mulher (a quem, por motivos óbvios, não posso dizer não), decidi dedicar-me totalmente à história de Ruju, sem me dispersar até ao seu final”. Mesmo assim, serão necessários cerca de três anos e meio (não faltarão os compromissos para Martin Mystère e um novo livro ilustrado para a sua mulher “Una giardiniera in cuccina. Erbe, fiori e frutti del mio giardino in tavola”) para podermos ver todas as páginas desenhadas.

Com uma média de cerca de nove pranchas mensais, Filippucci termina a aventura de Tex em maio de 2016 e passa logo em seguida para uma nova história de 32 páginas, que surgirá no Color Tex. Desta vez, Tex estará acompanhado pelo seu filho Kit Willer e a face do ranger evolui para um certo endurecimento dos traços, enquanto a personagem do filho surge mais cabeluda, mas bem conseguida pelo desenhador. “La casacca magica” é o título da aventura e vai contar com duas novidades: a presença da cor e o argumento de Gabriella Contu, a primeira mulher a escrever uma história para o ranger, que nos traz uma recordação comovente ligada ao passado de Kit Willer, ainda criança, que decorre nos cenários sempre extraordinariamente detalhados da reserva navajo, com o traço limpo de Filippucci a adaptar-se a contento à cor.

“L’assedio di Mezcali” é um velho argumento de Claudio Nizzi, escrito no Verão de 2008 e que Canzio tinha aprovado, pedindo-lhe apenas algumas alterações. Nizzi, que pretendia dedicar-se plenamente aos seus romances, decidiu então retirar-se e deu por terminada a sua colaboração com a editora Bonelli. Mauro Boselli, responsável pelos destinos de Tex desde 2012, já tinha tentado por várias vezes trazer de novo Nizzi para a editora, esforços que foram sempre gentilmente recusados, considerando o autor que tinha colocado um ponto final na sua experiência com o ranger. Há uns anos atrás, no entanto, algo mudou. Boselli, que insistia no regresso de Nizzi, achou que seria uma bela ideia recuperar o Tigre Negro, uma das personagens mais conseguidas do autor de Fiumalbo. No início falava-se frequentemente de uma colaboração entre ambos para uma história que retomava (pelo menos em parte) as linhas mestres de uma intriga antiga de Nizzi que fora rejeitada anos atrás por Sergio Bonelli. Por fim, estimulado pela fórmula do Color Tex, que prevê a publicação de histórias curtas de cerca de trinta páginas, Nizzi aceita regressar e acaba até por escrever uma aventura para esta coleção.

Chegamos ao Outono de 2016 e, para o seu regresso à série mensal, Nizzi decide então recuperar o seu velho argumento abandonado em 2008, dando-lhe alguns retoques que acabarão por torná-lo numa sólida história de ambientação mexicana que apresenta um tema clássico do Velho Oeste, como é o assédio por parte de guerreiros índios a uma estação de correios em pleno deserto. Os desenhos foram confiados a Filippucci, visto ser um dos desenhadores com quem Nizzi gosta de trabalhar, já tinham colaborado uma vez e que, após a história curta para o Color Tex, encontrava-se sem compromissos. Filippucci começa a trabalhar no Outono de 2016 e termina a história rapidamente, em pouco mais de dois anos e meio. Como sempre, desenhos claros e limpos. “Ticci é tão bom a desenhar as florestas do Grande Norte, como é ele (Filippucci) a exaltar o brilho dos ambientes do Sul”, lê-se no fórum italiano de Tex. O desenhador é também um mestre a conferir humanismo à montra humana presente no recinto fortificado da estação de Mezcali, em suma um autor perfeitamente sintonizado com a história… Fordiana!

A parceria entre Filippucci e Nizzi renova-se mais uma vez no Outono de 2019 com a história “Un maledetto imbroglio”, que foi pedida ao autor para um Color Tex de 160 pranchas. Novamente, o desenhador perante a cor, uma escolha que não foi feita por acaso, como nada o é com o editor Mauro Boselli. Como leitores, podemos afirmar a nossa felicidade pela escolha, mas da história pouco se sabe. Aguardamos com curiosidade, seguros que a cor valorizará ainda mais as belas pranchas do artista de Bolonha que, desde há quinze anos, afigura-se cada vez mais como um ícone de Tex!

* Texto de Sandro Palmas publicado originalmente na Revista nº 13 do Clube Tex Portugal, de Dezembro de 2020.

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Gigi Cavenago no Coimbra BD 2025!

Um dos grandes nomes da BD europeia vem a Coimbra! Gigi Cavenago, ilustrador, concept artist e diretor artístico de animação, marcou a indústria com o seu trabalho em Dylan Dog, e no crossover Batman/Dylan Dog, publicado pela DC Comics e Sergio Bonelli Editore!

Cavenago também trabalhou em The Magic Order, de Mark Millar, e recentemente expandiu o seu talento para o mundo da animação. Atualmente, trabalha em vários projetos para estúdios como Netflix Animation, Sony Pictures Animation e Titmouse!

Agora, tens a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, assistir ao seu painel e garantir um autógrafo deste mestre da BD!

25 a 27 de abril |  Convento São Francisco, Coimbra

Gigi Cavenago (Luigi Cavenago) nasceu em Milão em 1982, tendo estudado banda desenhada na Scuola del Fumetto de Milão e grafismo publicitário, antes de iniciar a sua carreira profissional em 2005, com uma curta história “Predatore”, publicada no primeiro número da revista Strike da Star Comics. Seguem-se a série Jonathan Steele, colaborações com Cronaca di Topolinia e a série Dr. Voodoo para Free Books. Entra na Sergio Bonelli Editore em 2008, começando por trabalhar em Cassidy e Orfani, tendo com esta conquistado em 2014 os prémios Gran Guinigi do festival Lucca Comics & Games para o melhor desenhador e o prémio Boscarato para o melhor desenhador do Festival de Treviso. Ainda em 2014, torna-se o capista de Dylan Dog Old Boy e em 2016 desenha o número de aniversário dos 30 anos de Dylan Dog, “Mater Dolorosa”, história escrita por Roberto Recchioni. Com esta aventura conquista o prémio Micheluzzi do melhor desenhador do Festival de Nápoles em 2017. A partir do #363, Cavenago torna-se capista da série principal de Dylan Dog, ocupando-se também das capas de “Il Dylan Dog di Tiziano Sclavi”. Em 2019, é apresentado no Festival de Lucca “Relazioni pericolose, o #0 do crossover de Dylan Dog e Batman, desenhado por Werther Dell’Edera, com passagem a tinta e cores de Cavenago, que também realiza as capas (principal e variante). Ainda em 2019, desenha o primeiro número de “I racconti di domani”, escrito por Tiziano Sclavi. No ano seguinte, desenha (com Lorenzo De Felici) a curta história “Paperoga e la passeggiata monstruosa”, de Marco Nucci, publicada na revista Topolino #3388. Em 2021, decide deixar o papel de capista de Dylan Dog e vai trabalhar com Mark Millar, desenhando no ano seguinte a terceira mini-série “The Magic Order”. Finalmente, em 2022 é publicado o crossover Dylan Dog/Batman, que Cavenago desenha com Werther Dell’Edera. Paralelamente à banda desenhada, Cavenago trabalha como ilustrador para outras editoras e para a publicidade, trabalhos que lhe valeram uma exposição no festival Arf! de Roma em 2017.

O Festival Coimbra BD 2025, organizado pela Câmara Municipal de Coimbra, através da Divisão de Bibliotecas e Arquivo Histórico, está prestes a regressar ao Convento São Francisco, entre os dias 25 e 27 de abril, com entrada livre. O evento, que é já uma referência por parte dos mais conceituados autores e editoras, promete trazer o universo da banda desenhada e da cultura pop a Coimbra com três dias preenchidos com convidados, lançamentos exclusivos e muitas novidades anunciadas em breve.

A edição de 2025 do Festival Coimbra BD vai contar com a presença de mais de 40 autores e ilustradores nacionais e internacionais que vão apresentar as suas obras e participar em sessões de autógrafos e workshops. Entre os autores confirmados destacam-se nomes como: Daniel Henriques, Luís Louro, Osvaldo Medina, Patrícia Costa, Margarida Madeira, Gigi Cavenago, Arno Monin, entre muitos outros.

O cartaz do Festival Coimbra BD 2025 é da autoria de Daniel Henriques, criador português de banda desenhada com mais de uma década de experiência na indústria. Iniciou a sua carreira profissional como arte-finalista, trabalhando para editoras como Marvel, DC, Image e Dark Horse Comics, em títulos de relevo como “Spawn, The Last Shadowhawk”, “Venom, The Incredible Hulk”, “Batman: Detective Comics”, “Batman: Arkham Knight”, “Green Lanterns”, “Justice League of America”, “Supergirl”, “Teen Titans e Aquaman”, entre outros. Recentemente, fez parceria com Frank Miller em Ronin Rising, com finalização e meios-tons na arte de Philip Tan e do próprio criador, e vai estrear-se em breve como argumentista e cocriador da nova série The Curse of Sherlee Johnson da Todd McFarlane Productions.

O evento vai incluir ainda várias exposições entre as quais: “A Adopção” de Arno Monin, “De Dylan Dog a Batman” de Gigi Cavenago, “Os Filhos de Baba Yaga” de Luís Louro, “Crónicas de Enerelis” de Patrícia Costa, “Escritos em Coimbra: Os Clássicos da Literatura Revisitados em BD” de vários autores como Joana Afonso, Rita Alfaiate, Carina Correia, Filipe Abranches, Miguel Jorge, João Miguel Lameiras e João Ramalho-Santos, “E Depois do Abril” da editora Escorpião Azul ou “Fojo” de Osvaldo Medina.

Os visitantes do Festival Coimbra BD 2025 podem encontrar novas áreas e conteúdos com várias sessões de cinema, competições de card e board games, demonstrações de Warhammer e Dungeons and Dragons  e muito mais. A área de Artists’ Alley continua a ser uma das de maior destaque com dezenas de grandes talentos a mostrarem os seus trabalhos e arte, bem como a área comercial onde vão estar presentes editoras com obras de banda desenhada e literatura e distribuidores de merchandising com os mais variados produtos alusivos à cultura pop com personagens e títulos adorados por todos.

Uma referência também para a área do Cosplay que continua a marcar presença com o Concurso de Cosplay, desfile kids, workshops e diversos painéis com os cosplayers embaixadores, bem como exposição de alguns dos mais impactantes fatos criados para competições.

Na área Kids & Family não vai faltar animação com várias oficinas dedicadas aos mais novos, atividades como a Hora do Conto promovida pela Divisão de Bibliotecas e Arquivo Histórico da CM de Coimbra, lançamentos de obras infantis, pinturas e desenho, workshops, o melhor do cinema da animação, entre outros momentos de muita diversão.

O Festival Coimbra BD 2025 vai contar ainda com uma área Gaming com vários equipamentos que vão permitir a todos os visitantes experimentar e jogar os videojogos de maior sucesso da indústria, realidade virtual, PC gaming, consolas e retrogaming com os títulos mais icónicos para várias gerações.

O Coimbra BD 2025 vai decorrer de 25 e 27 de abril no Convento São Francisco e vai estar aberta ao público entre as 10h00 e as 20h00, na sexta-feira e no sábado, e entre as 10h00 e as 18h00, no domingo. Todos os dias são de entrada livre.

O Coimbra BD tem a produção e programação da GuessTheChoice.

Da arte original a preto & branco até à arte final, da deslumbrante ilustração oficial de Lucio Filippucci para a 10ª Mostra do Clube Tex Portugal

Lucio Filippucci, estrela texiana que abrilhantará a 10ª Mostra do Clube Tex Portugal, em Maio de 2025, na cidade de Anadia

Como forma de agradecimento pelo convite para participar na 10ª Mostra do Clube Tex Portugal, evento a realizar nos dias 3 e 4 de Maio de 2025 no Museu do Vinho Bairrada, Lucio Filippucci, desenhou uma Esplendorosa Arte Exclusiva onde das montanhas áridas do Arizona, Tex, montado no seu inseparável Dinamite, despede-se da aldeia navajo antes de galopar até Anadia, para apadrinhar mais uma Mostra do Clube Tex Portugal, como demos a conhecer há alguns dias.

Hoje vamos dar a conhecer, de seguida, a arte finalizada a preto e branco e também uma imagem de quando o processo da colorização já decorria para podermos ver o processo evolutivo de tão magnífica ilustração que retrata uma nova homenagem de Tex à cidade Anadia.

A arte original a preto e branco da deslumbrante ilustração oficial de Lucio Filippucci para a 10ª Mostra do Clube Tex Portugal

A arte semi-pintada da deslumbrante ilustração oficial de Lucio Filippucci para a 10ª Mostra do Clube Tex Portugal

“Das montanhas áridas do Arizona, Tex, montado no seu inseparável Dinamite, despede-se da aldeia navajo antes de galopar até Anadia… a deslumbrante ilustração oficial de Lucio Filippucci para a 10ª Mostra do Clube Tex Portugal

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Homenagem a Jorge Machado-Dias

Por Mário João Marques*

Não posso dizer que conhecia bem o Jorge. Na verdade, creio que nos encontrámos apenas por duas vezes. Ambas em edições do Festival de Banda Desenhada da Amadora, a primeira em 2008, quando fui apresentado ao Jorge através do José Carlos Francisco e, mais recentemente, creio que há dois anos atrás. Apesar disso, o facto do Jorge ter estado na preparação dos primeiros dez números da Revista do Clube Tex Portugal, permitiu-me contactar e falar diversas vezes com ele, sempre por telefone, ocasiões que aproveitávamos para abarcar de tudo um pouco. Da revista, claro, de banda desenhada, certamente, de História, porque era outra das suas paixões, assim como dos seus projetos, de experiências vividas e até de gastronomia, já que muitos dos meus telefonemas interrompiam a preparação do seu almoço. À noite evitava contactá-lo, porque sabia que, a partir de uma certa hora, bem cedo, o Jorge “hibernava” para os seus afazeres e para as suas séries policiais, que me dizia apreciar muito.

Mário João Marques e Jorge Machado-Dias no Festival de Banda Desenhada da Amadora, em 2008

Da sua vida sei pouco e sei fundamentalmente aquilo que ele me contava, tendo eu retido, não sei bem porquê, as suas conversas sobre as noitadas que fazia, os copos que tomava, os cigarros que fumava, em companhia dos seus amigos de tertúlia, entre os quais o saudoso Fernando Relvas. Havia ali um misto de prazer por esses tempos vividos, mas ao mesmo tempo uma certa amargura pelo facto de, segundo ele, ter estoirado dinheiro que dizia fazer-lhe falta.

Um dia falou-me do seu problema de saúde, algo que parecia não o preocupar sobremaneira, sublinhando até que não tinha tempo para pensar muito nisso. Disse-lhe que devia consultar um médico, mas só o fez quando o seu estado de saúde a isso o obrigou. Tínhamos combinado ir ao Festival de Beja para nos conhecermos pessoalmente. Como disse, na primeira vez que estive com ele tinha sido apenas uma rápida apresentação, uma mera troca de cumprimentos de circunstância e o Jorge, naturalmente, nem se lembrava de mim. No entanto, o seu estado de saúde agravou-se, o que o impediu de se deslocar a Beja, tendo o nosso aguardado encontro ocorrido mais tarde, na Amadora, há uns dois anos atrás.

Para além da História, a sua grande paixão era a BD, o que o levou a criar a editora PedranoCharco e apresentar um conjunto de autores portugueses como José Carlos Fernandes, Eliseu Gouveia ou Filipe Andrade (que hoje trabalha para a Marvel). Lançou o BD Jornal, uma revista de análise e crítica, onde também teve oportunidade para publicar algumas histórias de BD. Foi nesta revista que eu escrevi pela primeira vez sobre BD, não por convite do Jorge, mas sugerido pelo José Carlos Francisco. O Jorge precisava de um artigo sobre fumetti e o José Carlos sugeriu o meu nome. Escrevi sobre Demian, uma personagem criada por Pasquale Ruju, hoje autor de Tex, cuja ação se desenrolava nos meandros do crime organizado em Marselha. O BD Jornal durou cerca de três dezenas de números, com altos e baixos, mas sobretudo com muita dedicação do Jorge.

Jorge segurando as edições nº 6 da revista do Clube Tex Portugal

Quando foi fundado o Clube Tex Portugal e surgiu a ideia de uma revista, o Jorge prontificou-se logo para ajudar, sem qualquer contrapartida. Confesso que os meus primeiros contactos com ele foram tímidos, porque eu pouco ou nada percebia do assunto, enquanto o Jorge tinha uma vida inteira dedicada a estas lides. Depressa nos entendemos, porque o Jorge com o seu espírito crítico, algumas vezes “bota abaixo”, e a sua linguagem muito terra a terra, contagiou-me. Confessou-me que não era grande apreciador do Tex, mas até nisso rapidamente nos entendemos, porque sempre “prometi” que o faria gostar do ranger. Não sei se fui a tempo, mas sei, porque ele mo disse, que a preparação da revista lhe dava muito trabalho, mas, ao mesmo tempo, cada vez mais prazer.

O Jorge queixava-se de muita coisa, mas era raro ouvi-lo queixar-se do seu problema de saúde. Muitas vezes contactei com ele internado em Santa Maria, onde se deslocava com cada vez maior frequência, mas sempre mais preocupado pelo facto de não ter um computador para trabalhar, do que propriamente com o seu estado. Numa dessas ocasiões, ligou-me para informar que provavelmente não iria conseguir preparar a revista nº 11, de modo a podermos encontrar alguém que o substituísse. Para ele, tratava-se apenas de uma fase, enquanto estivesse hospitalizado. Infelizmente foi a última vez que falámos. Entretanto, a revista foi preparada e distribuída e eu fui adiando telefonar ao Jorge para saber dele e falarmos um pouco. Fui adiando e adiando, hoje por isto, no outro dia por aquilo. Até que veio a altura de começarmos a preparar a revista nº 12 e disse ao José Carlos que precisava de falar com o Jorge para saber da sua disponibilidade em retomar a sua “tarefa”. Nesse mesmo dia, o José Carlos voltou a ligar-me para informar o falecimento do Jorge. Quanta tristeza, quanta amargura! Adiamos tudo nesta vida, adiamos tanto até um dia não podermos adiar mais, desta vez, infelizmente, porque o Jorge nunca mais estará do outro lado.

Obrigado por tudo Jorge

* Texto de Mário João Marques publicado originalmente na Revista nº 12 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2020.

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