Sergio Bonelli, cavalheiro da BD – A epopeia de um brilhante editor e de um autor de talento, por Sergio Badino

Por Sergio Badino *(Texto publicado em 2011 na revista Andersen e inserido nesta colectânea de homenagens por gentil concessão do autor)

A notícia da morte de Sergio Bonelli difundiu-se na manhã de segunda-feira, 26 de Setembro. O choque e a sensação de vazio que se seguiram entre o público e os profissionais da área foram imensos: uma reacção emotiva proporcional ao espaço que se abriu com a partida de uma pessoa tão carismática e significativa.

Para o mundo da BD, em particular o italiano mas com repercussões também em âmbito internacional, a figura de Sergio Bonelli é equiparável à de Steve Jobs – também ele recentemente falecido – no campo informático ou à de Stanley Kubrick no do cinema: pessoas especiais, dotadas de grande intuição, talento e capacidade de inovar sem renegar o trabalho feito por outros e por eles mesmos no passado.

Sergio Bonelli nasceu em Milão em 1932, filho de Gian Luigi e Tea Bonelli, fundadores da Editora que, no curso dos anos, cresceu até tornar-se aquela Sergio Bonelli Editore que é hoje o colosso por excelência da editoria de quadradinhos italiana. Além de Sergio, Gian Luigi Bonelli tem outro filho famoso mas cujo sobrenome é Willer: Tex, personagem nascida em 1948, tornou-se no passar dos anos a BD italiana mais famosa não só em nosso País mas provavelmente também no exterior. O sucesso deve-se tanto ao realismo dos textos de Bonelli Sénior quanto ao dinamismo dos desenhos de Aurelio Galleppini. Hoje Tex, cuja herança foi mantida no curso dos anos por outros numerosos autores, continua a sair não só na série regular mensal composta por histórias inéditas, mas também em inúmeras reedições e republicações, como aquela em cores apresentada semanalmente pelo jornal La Repubblica e pela revista L’Espresso.

Sergio Bonelli assumiu muito jovem a direcção da Editora da família em 1957, com apenas 25 anos de idade. No ano seguinte começou também a sua actividade de roteirista. Sim, Bonelli não foi apenas o sagaz editor da BD de aventura popular italiana, mas também um brilhante autor de textos e criador de personagens: talvez para não criar confusão com o pai, decidiu assinar todos os seus argumentos e roteiros com o pseudónimo de Guido Nolitta.

As duas criações mais conhecidas de Nolitta/Bonelli são Zagor (1961), o Espírito da Machadinha, realizado graficamente por Gallieno Ferri e até hoje publicado pela Editora, e Mister No (1975), também elaborado por Ferri – mas cuja fisionomia definitiva foi obra de Roberto Diso – cuja série mensal, que depois tornou-se semestral, deixou de ser publicada em 2009. Nisso Bonelli mostrou-se um verdadeiro editor cujo espírito não hesitava em abater a sua machadinha também sobre a cabeça de suas amadas criaturas ao perceber que não rendiam mais. Mister No foi, sem dúvida, o verdadeiro alter ego de Bonelli – o segundo depois de Nolitta –, um herói de grande consistência a quem o autor dedicou uma grande atenção a temáticas que ele mesmo apreciava, pacifistas e ligadas à defesa dos mais fracos, além da sua própria paixão pelos cenários da América do Sul visitados pessoalmente em mais de uma ocasião. Não há dúvida de que, para Bonelli, parar de publicar Mister No foi uma decisão difícil de tomar, mas o lado prático do editor teve que prevalecer sobre o do autor e roteirista.

Consistência, ambição e confiança na própria equipa de autores (roteiristas e desenhadores) fez com que a BD de aventura italiana – desde sempre encarnada por Bonelli – crescesse e se mantivesse a par com os tempos. Já com Zagor e Mister No Bonelli Jr. havia mostrado não aceitar a estagnação, mostrado sua vontade de olhar longe, sempre em frente. De repropor. Os dois heróis nolittianos inseriram-se à perfeição na tradição paterna, mas com algo diferente. Algo que seria o abre-alas às personagens que povoariam os quiosques nos anos 80, 90 e 2000.

Vamos seguir em ordem. Zagor é uma personagem que, sem dúvida, nasceu num contexto de faroeste, e do mundo de Tex tirou a inspiração. Se Sergio Bonelli era filho biológico de Gian Luigi, Zagor, o Espírito da Machadinha, é, de algum modo, filho literário de Águia da Noite (o bom Willer também é conhecido por esse apelido): o que não é absurdo quando se pensa que apenas treze anos separam a criação de uma personagem daquela da outra. Mas assim como Sergio Bonelli transformou a Editora do pai quando tomou as rédeas, o faroeste de Zagor é profundamente diverso daquele de Willer (e do editor de Tex não se esperaria nada diferente). Vejamos como. De início – mas deve-se dizer que isso acontecia e acontece também em Tex, embora em Zagor a tendência tenha sido acelerada – as tramas do Espírito da Machadinha sentem bastante a influência de géneros como terror, thriller e ficção científica. Ao ficar órfão dos pais mortos por um grupo de índios guiados por um renegado branco, Zagor decidiu tornar-se um justiceiro. Esses elementos, unidos à teatralidade de suas aparições armadas para que se passe por uma criatura sobrenatural, recordam um pouco Batman, criado por Bob Kane 22 anos antes. O símbolo preto sobre um fundo amarelo também recorda os heróis americanos e seus trajes, quase como se Zagor fosse um precursor daqueles, ao viver suas aventuras no início do Século 19. O braço direito de Zagor – Dom Felipe Cayetano Lopez y Martinez y Gonzales, vulgo Chico – marca o estilo de escrita de Nolitta, cujas tramas são aliviadas pela presença de uma personagem tão amalucada, elemento que seria retomado pelos dois primeiros herdeiros directos da escrita bonelliana: Alfredo Castelli (com Java, parceiro de Martin Mystère) e Tiziano Sclavi (com Groucho, assistente de Dylan Dog).

Mister No, que estreou catorze anos depois de Zagor, afasta-se do faroeste – as suas aventuras são ambientadas no segundo pós-guerra – mas mantém a característica bonelliana do herói solitário e íntegro, mesmo se romântico e, por vezes, contraditório. Assim apelidado pelos colegas de arma por ser avesso à autoridade e à disciplina, cansado dos horrores da guerra contra os japoneses, Mister No – na verdade o piloto americano Jerry Drake – refugia-se no Brasil, onde ganha a vida a levar turistas pela floresta amazónica num Piper que é quase um ferro-velho. Também as aventuras de Mister No são contaminadas por vários géneros, dentre os quais o mistério, a magia e a arqueologia fantástica, percursos nos quais ganharia experiência um autor como Alfredo Castelli, que por muitos anos se alternaria a Sergio Bonelli nos roteiros da personagem: não por acaso, sete anos depois do nascimento de Mister No veria a luz Martin Mystère, o Detective do Impossível (1982), a personagem mais famosa criada por Castelli.

Martin Mystère foi o abre-alas de uma série de outras personagens de sucesso criadas pelos autores de ponta que Bonelli sempre cultivou na Editora. Em 1986 estreou Dylan Dog, o Investigador do Pesadelo, protagonista de uma conhecidíssima série de terror saída da caneta de Tiziano Sclavi e do lápis de Angelo Stano: entre os anos 80 e 90 a personagem, de protagonista de um boom editorial que há tempos a BD não via, tornou-se um verdadeiro fenómeno de costumes. Em 1991 foi a vez de Nathan Never, série de ficção científica com três pais: Antonio Serra, Michele Medda e Bepi Vigna nos textos, com a parte gráfica elaborada por Claudio Castellini.

Martin Mystère, Dylan Dog e Nathan Never bastam para compreender a virada que Sergio Bonelli decidiu imprimir à sua Editora a partir de certo ponto. Aos três heróis clássicos – Tex, Zagor e Mister No – pertencentes à tradição da família Bonelli, aos poucos se juntariam novos protagonistas que engrandeceriam o parque de personagens e títulos do editor. A importância de Sergio Bonelli como editor está justamente aqui, neste ponto nevrálgico: ele transformou a percepção da BD aventurosa e popular. Do faroeste a uma infinidade de outros géneros. Ou melhor, não somente faroeste. Não mais. Essa característica é compreensível não só a se observar a sua obra como editor: a filosofia editorial andou lado a lado com a capacidade – enorme – do Bonelli escritor, ou seja, de Nolitta. Aos poucos Zagor e Mister No distanciaram-se do Oeste de Tex, sem jamais se afastar de vez. A mesma coisa aconteceu com a política da Editora, que continua com justiça a levar Tex na palma da mão, ao mesmo tempo em que busca mil outros corajosos caminhos.

A nossa análise leva-nos a outro elo do raciocínio em cadeia: Sergio Bonelli foi o último – ou um dos últimos – verdadeiro grande Editor (o E maiúsculo não é casual) digno deste nome. Não só no âmbito dos quadradinhos, mas em geral. Um editor é um editor, qualquer que seja o meio de comunicação que aborde. O que torna um editor digno da própria qualificação profissional? A capacidade de identificar pessoas de talento entre os próprios colaboradores, a atitude e a vontade de investir neles e em suas ideias, a determinação e o risco ao apostar dinheiro, por vezes até em projectos de incerto valor comercial mas de indubitável significado artístico, coisa que Bonelli fez com o Ken Parker de Berardi & Milazzo, por exemplo. Mais: a sagacidade em antecipar os gostos do público em relação a géneros e formatos de narrativa, onde por formato entende-se, por exemplo, a introdução da mini-série, ou seja, uma história narrada em um número pré-definido de volumes e não em um número infinito, como manda a tradição bonelliana. O caso das mini-séries não foi uma intuição inteiramente bonelliana, ela já existia antes, mas representou no mercado italiano – e na BD de grandes tiragens, como a da Bonelli – uma novidade absoluta que, mais uma vez, mostrou-se vencedora. Em tempos recentes de crise da editoria, Bonelli percebeu que, para o público, seria mais fácil saber que deveria comprar as aventuras de uma personagem por apenas 18 meses (e 18 edições) e fim, em vez de entrar numa série potencialmente infinita pela qual a afeição poderia diminuir depois de um tempo.

A atenção que Bonelli dedicava aos seus autores e às suas publicações – até o fim ele leu cada página de todos os roteiros entregues – era notória. Apesar de serem colaboradores externos – de cuja fraqueza contratual outras editoras se aproveitam largamente – e não empregados, Bonelli sempre teve consciência de que o seu verdadeiro tesouro era representado pelos argumentistas e pelos desenhadores de sua escuderia. Para os seus autores era sabido que Sergio Bonelli não fechava a mão e nem os olhos a pedidos de ajuda de escritores ou ilustradores em dificuldades económicas. Era um dos poucos, na editoria de BD, a pagar direitos de autor aos seus colaboradores: convidado para um encontro de negócios a uma importante editora italiana líder no sector de quadradinhos para jovens, explicou aos presentes essa sua peculiaridade. Nunca mais foi convidado aos encontros organizados pela filial italiana da célebre multinacional, que publica no mundo todo as histórias feitas por autores da Velha Bota sem reconhecer a eles um só Euro.

Para todos os autores, empregados e operadores do sector que o conheceram, do mais antigo ao último recém-chegado, Sergio Bonelli foi como um pai. E também o foi para os leitores, cuja maioria absoluta jamais o conheceu pessoalmente e só leu seu nome todos os meses nas revistas e nos editoriais, pelo tom alegre de quando apresentava uma nova personagem ou chateado ao comunicar um aumento de preço.

Sergio Bonelli foi o cavalheiro dos quadradinhos. O último verdadeiro senhor da editoria na Itália. Um editor dos velhos tempos, em que a palavra velho é sinónimo de um estilo de trabalhar de outra época que, infelizmente, no melancólico período da editoria por dinheiro não existe mais ou tornou-se inexoravelmente raro. O seu falecimento deixa um vazio que será difícil de atenuar e uma herança que, ainda que acolhida do jeito certo, representará um desafio para qualquer um que decida assumir seus bónus e ónus.

Prefácio à primeira edição
por Sergio Bonelli

Aquele eterno movimento

Porque outro livro sobre roteiros? A pergunta surgiu-me espontânea e tornou-se cada vez mais insistente (e até um pouco irritante) ao dar uma olhada à estante que fica bem atrás de mim. Já há muitos anos são inúmeros os operadores de BD – uns conhecidos, outros menos – que cederam à tentação de explicar como se faz. Como se faz para escrever o argumento e o roteiro de uma BD, quero dizer. E todos aqueles manuais eu devorei com total atenção, muitas vezes a ver-me diante de observações perspicazes que eu jamais conseguiria expressar, mesmo depois de ter escrito, na minha vida de roteirista improvisado, algo como trinta e cinco mil páginas de Tex, Zagor e Mister No. Mas eu não via que outros conselhos se poderia sugerir que os poucos aspirantes a profissional já não tivessem lido anteriormente.

Por sorte, o sub-título simpaticamente irónico e a inserção da pergunta que fiz ao autor deste volume e que se vê na primeira linha da Introdução, encorajaram-me a iniciar uma leitura que depois foi em frente, digamos, de um só fôlego, ainda que com algumas preocupações suscitadas pela descoberta de que um dos dois editores indicados como possíveis interlocutores dos aspirantes a autores era justamente eu.

Por essa razão, eu preparo-me para enfrentar uma multidão de argumentistas animados pelas sugestões de Sergio Badino que, curiosamente, recorreu a todos os mesmos argumentos que, se fosse o caso, eu também extrairia da minha habitual bagagem de experiências profissionais.

A imagem do escritor comparada a uma espécie de tubarão em eterno movimento à caça de uma ideia pareceu-me tão acertada que induziu-me a recordar os tempos em que também eu não me desligava e buscava a solução de uma sequência em cada momento do meu dia.

No almoço ou no táxi, no dentista ou então a jogar ténis, o meu pensamento pulava sem parar de uma solução a outra e, à noite, eu levantava sobressaltado para consultar algum livro ou para assistir pela milésima vez os meus filmes preferidos, em videocassete. E quando fatalmente alguém perguntava-me, curioso, como eu fazia para ter todas aquelas ideias, eu abria os braços num gesto significativo e, com o ar mais indiferente deste mundo, deixava escapar uma resposta mentirosa: “As ideias? Sei lá… elas vêm sozinhas!“.

S.B.

Milano, Julho de 2007

* Tradução e adaptação: Júlio Schneider

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

Sergio Bonelli, gentiluomo del fumetto – L’epopea di un brillante editore e di un autore di talento, di Sergio Badino

Di Sergio Badino (Testo pubblicato nel 2011 sulla rivista Andersen e riproposto in questo omaggio per gentile concessione dell’autore)

La notizia della morte di Sergio Bonelli si è diffusa la mattina di lunedì 26 settembre scorso. Lo sgomento e il senso di vuoto che sono seguiti tra il pubblico e gli addetti ai lavori sono stati immensi: una reazione emotiva proporzionata allo spazio lasciato vacante dalla dipartita di una persona così carismatica e significativa.

Per il mondo del fumetto in particolare italiano, ma con ripercussioni anche in ambito internazionale, la figura di Sergio Bonelli è equiparabile a quella di Steve Jobs – anch’egli scomparso da poco – in campo informatico o a Stanley Kubrick per quel che riguarda il cinema: individui speciali, dotati di grande intuito, talento e capacità di innovare pur senza rinnegare il lavoro svolto da altri e da loro stessi in passato.

Sergio Bonelli nasce a Milano nel 1932 da Gian Luigi e Tea Bonelli, fondatori della casa editrice che, nel corso degli anni, si è evoluta fino a diventare quella Sergio Bonelli Editore che è oggi il colosso per eccellenza dell’editoria a strisce nostrana. Gian Luigi Bonelli, oltre a Sergio, ha un altro celebre figlio che però di cognome fa Willer: Tex, personaggio nato nel 1948, è diventato nel corso degli anni il fumetto italiano più famoso non solo nel nostro Paese, ma probabilmente anche all’estero. Il successo è dovuto sia al realismo dei testi di Bonelli Senior, sia al dinamismo dei disegni di Aurelio Galleppini. Oggi Tex, la cui eredità è stata raccolta nel corso degli anni da numerosi altri autori, continua a uscire non soltanto sulla serie regolare mensile composta da storie inedite, ma anche su numerose ristampe e riedizioni, una su tutte quella a colori tuttora in corso proposta settimanalmente da La Repubblica e da L’Espresso.

Sergio Bonelli assume giovanissimo la direzione della casa editrice di famiglia nel 1957: ha 25 anni. L’anno seguente comincia anche la sua attività di sceneggiatore. Sì, Bonelli non è stato solo l’avveduto e lungimirante editore del fumetto d’avventura popolare italiano, ma a sua volta un brillante autore di testi e ideatore di personaggi: forse per non creare confusione con il padre decide di firmare tutti i suoi soggetti e sceneggiature con lo pseudonimo kafkiano di Guido Nolitta.

Le due creature più note di Nolitta/Bonelli sono Zagor (1961), lo Spirito con la Scure realizzato graficamente da Gallieno Ferri e tutt’oggi portato avanti dalla casa editrice, e Mister No (1975), sempre tratteggiato da Ferri – ma la cui fisionomia definitiva è opera di Roberto Diso – il cui omonimo mensile, divenuto poi semestrale, ha però chiuso i battenti nel 2009. In questo Bonelli si è dimostrato un vero editore di spirito che non esita ad abbattere la sua scure anche sulle teste delle sue stesse amate creature, una volta accortosi che non rendevano più. Mister No è infatti stato senza dubbio il vero alter ego di Bonelli – il secondo dopo Nolitta – un eroe di grande spessore in cui l’autore ha riversato una grande attenzione a tematiche a lui care, pacifiste e relative alla difesa dei più deboli, oltre alla sua stessa grande passione per gli scenari del Sud America visitati in prima persona in più di un’occasione. Senza dubbio, quindi, quella di chiudere Mister No è stata per Bonelli una decisione difficile da prendere, ma il lato pratico dell’editore ha dovuto prevalere sull’autorialità dello sceneggiatore.

Concretezza, ambizione e fiducia nel proprio staff di autori (sceneggiatori e disegnatori) ha fatto sì che il fumetto d’avventura italiano – da sempre incarnato dai Bonelli – evolvesse e stesse al passo con i tempi. Già con Zagor e Mister No Bonelli Jr. ha mostrato la sua insofferenza per la stasi, il suo desiderio di guardare oltre, sempre avanti. Di rilanciare. I due eroi nolittiani si collocano infatti a perfezione nella tradizione paterna, ma con qualcosa di diverso. Qualcosa che farà da apripista ai personaggi bonelliani che popoleranno le edicole negli anni ’80, ’90 e 2000.

Andiamo con ordine. Zagor è un personaggio che senza dubbio nasce in un contesto western, e dal mondo di Tex trae ispirazione. Se, quindi, Sergio Bonelli è figlio biologico di Gian Luigi, Zagor, Spirito con la Scure, è in qualche modo figlio letterario di Aquila della Notte (con questo soprannome è anche conosciuto il buon Willer): cosa nemmeno troppo assurda se si pensa che soltanto tredici anni separano la creazione di un personaggio da quella dell’altro. Come però Sergio Bonelli trasforma la casa editrice del padre una volta prese in mano le redini (e dall’editore di Tex non ci si sarebbe aspettato nulla di diverso), così il western di Zagor è profondamente diverso da quello di Willer. Vediamo come. Intanto – ma questo, va detto, succedeva e avviene anche in Tex, sebbene in Zagor la tendenza subisca un’accelerata – le trame dello Spirito con la Scure risentono spesso dell’influenza di generi quali horror, thriller e fantascienza. Rimasto orfano dei genitori uccisi da un gruppo di indiani guidati da un rinnegato bianco, Zagor decide di divenire un giustiziere. Questi elementi, uniti alla teatralità delle sue apparizioni volte a farsi credere una creatura soprannaturale, rimandano un po’ a Batman, creato da Bob Kane 22 anni prima. Il simbolo nero su sfondo giallo rimanda ancora agli eroi in costume statunitensi, quasi Zagor ne fosse antesignano, vivendo le sue avventure agli inizi dell’Ottocento. Il braccio destro di Zagor – Don Felipe Cayetano Lopez y Martinez y Gonzales, detto Cico – contrassegna lo stile di scrittura di Nolitta, le cui trame sono alleggerite dalla presenza di un personaggio così scanzonato, elemento che sarà ripreso dai primi due diretti “eredi” della scrittura bonelliana: Alfredo Castelli (con Java, spalla di Martin Mystère) e Tiziano Sclavi (con Groucho, assistente di Dylan Dog).

Mister No, che debutta quattordici anni dopo Zagor, si discosta dal western – le sue avventure sono ambientate nel secondo dopoguerra – ma mantiene la caratteristica bonelliana dell’eroe solitario e tutto d’un pezzo, anche se romantico e a tratti contraddittorio. Così soprannominato dai commilitoni per il rifiuto dell’autorità e della disciplina, stanco degli orrori della guerra contro i giapponesi, Mister No – che in realtà è il pilota statunitense Jerry Drake – si rifugia in Brasile dove si guadagna da vivere portando i turisti in giro per la foresta amazzonica su uno scassatissimo Piper. Anche le avventure di Mister No sono contaminate da vari generi, su cui si affacciano il mistero, la magia e la fantarcheologia, percorsi su cui si farà le ossa un autore come Alfredo Castelli, che si alternerà a Sergio Bonelli alle sceneggiature del personaggio per molti anni: non a caso sette anni dopo la nascita di Mister No vedrà la luce Martin Mystère, il Detective dell’Impossibile (1982), il personaggio più celebre creato da Castelli.

Martin Mystère fa da apripista a una serie di altri personaggi di successo ideati dagli autori di punta che Bonelli coltiva all’interno della casa editrice. Nel 1986 esordisce Dylan Dog, l’Indagatore dell’Incubo, protagonista di un’arcinota serie horror dalla penna di Tiziano Sclavi e dalla matita di Angelo Stano: a cavallo tra gli anni ’80 e i ’90 il personaggio, da protagonista di un boom editoriale che da tempo il fumetto non vedeva, diviene vero e proprio fenomeno di costume. Nel 1991 è la volta di Nathan Never, serie fantascientifica con tre padri sardi: Antonio Serra, Michele Medda e Bepi Vigna per i testi, mentre la parte grafica è affidata a Claudio Castellini.

Martin Mystère, Dylan Dog e Nathan Never sono sufficienti per comprendere la virata che Sergio Bonelli decide di imprimere alla politica della sua casa editrice a partire da un certo punto in avanti. Accanto ai tre eroi “classici”, Tex, Zagor e Mister No, appartenenti alla tradizione della famiglia Bonelli, si affiancheranno via via nuovi protagonisti che renderanno vastissimo il parco personaggi e testate dell’editore. L’importanza di Sergio Bonelli come editore sta proprio qui, in questo nodo nevralgico: ha trasformato la percezione del fumetto avventuroso e popolare. Da western a un’infinità di altri generi. O meglio, non soltanto western. Non più. Tale caratteristica è comprensibile non solo visionando il suo operato come editore: la filosofia editoriale ha marciato di pari passo con la capacità – enorme – autoriale di Bonelli scrittore, vale a dire di Nolitta. Zagor e Mister No si allontanano piano piano dal west di Tex, pur non discostandosene mai totalmente; stessa cosa avviene per la politica della casa editrice, che continua giustamente a portare Willer su un palmo di mano, pur tentando mille coraggiose strade.

La nostra analisi ci conduce qui a un nuovo anello del ragionamento a catena: Sergio Bonelli è stato l’ultimo – o comunque uno degli ultimi – vero, grande Editore (la E maiuscola non è casuale) degno di questo nome. Non solo in ambito fumettistico: in generale. Un editore è un editore, qualunque sia il mezzo di comunicazione con cui si confronti. Che cosa rende un editore degno della sua stessa qualifica professionale? La capacità di individuare persone di talento tra i propri collaboratori, l’attitudine e la volontà di investire su essi e sulle loro idee, la risolutezza e il rischio nello scommettere denaro, magari anche impegnandolo in progetti dall’incerto valore commerciale, ma dall’indubbio significato artistico, cosa che Bonelli fece con il Ken Parker di Berardi & Milazzo, per esempio. Ancora: la lungimiranza nel precorrere i gusti del pubblico in tema di generi e formati narrativi, dove per formato s’intende, per esempio, l’introduzione della miniserie, ovvero una storia narrata in un numero predefinito di albi e non in un numero infinito, come da tradizione per Bonelli. Quella della miniserie non è un’intuizione bonelliana tout-court, naturalmente esisteva già da prima, ma ha rappresentato nel mercato italiano – e nel fumetto delle grandi tirature come quello Bonelli – una novità assoluta che, ancora una volta, si è rivelata vincente. In tempi recenti di crisi dell’editoria, Bonelli aveva capito che per il pubblico sarebbe stato più facile sapere di dover acquistare le avventure di un personaggio solo per 18 mesi (e 18 numeri) e basta, piuttosto che impegnarsi in una serialità potenzialmente infinita da cui magari dopo un po’ l’affezione sarebbe calata.

La cura che Bonelli dedicava ai suoi autori, oltre che alle sue pubblicazioni – fino all’ultimo ha letto ogni pagina di tutte le sceneggiature consegnate – era poi proverbiale. Sebbene si tratti di collaboratori esterni, della cui debolezza contrattuale altre case editrici approfittano largamente, e non di dipendenti, Bonelli è sempre stato consapevole che il suo vero tesoro era rappresentato dagli sceneggiatori e dai disegnatori della sua scuderia. Per i suoi autori era noto che Sergio Bonelli non lesinasse niente, né si tirasse indietro davanti a richieste di aiuto da parte di scrittori o illustratori in difficoltà economiche. Era uno dei pochi, nell’editoria a fumetti, a pagare i diritti d’autore ai suoi collaboratori: invitato a uno dei meeting aziendali di un’importante casa editrice italiana leader nel settore dei fumetti per ragazzi, spiegò davanti a tutti questa sua peculiarità. Non fu mai più ospitato ad altri incontri organizzati dalla filiale italiana della celebre multinazionale, che ristampa in tutto il mondo le storie realizzate da autori dello Stivale senza riconoscere loro un Euro.

Per tutti gli autori, i dipendenti e gli operatori del settore che lo hanno conosciuto, dal più anziano all’ultimo arrivato, Sergio Bonelli è stato come un padre. Lo è stato anche per i lettori, la stragrande maggioranza dei quali non lo ha mai conosciuto di persona, ma ha soltanto letto ogni mese il suo nome sugli albi in edicola o in calce ai suoi editoriali, dal tono felice quando introduceva un nuovo personaggio, rammaricato quando comunicava un aumento dei prezzi.

Sergio Bonelli è stato il gentiluomo del fumetto. L’ultimo, vero, signore dell’editoria in Italia. Un editore vecchio stampo, dove la parola “vecchio” è sinonimo di un modo di lavorare d’altri tempi che purtroppo, nel tetro periodo dell’editoria a pagamento, non esiste più o comunque si è inesorabilmente rarefatto. La sua scomparsa lascia un vuoto che sarà difficile colmare e un’eredità che, se raccolta nel modo giusto, rappresenterà in ogni caso una sfida per chiunque abbia deciso di assumersene onori e oneri.

Sergio Badino e Sergio Bonelli

Prefazione alla prima edizione

di Sergio Bonelli

Quell’eterno movimento

Perché un altro libro sulla sceneggiatura? La domanda mi è sorta spontanea e si è fatta sempre più convinta (e perfino un po’ spazientita), buttando un’occhiata alla libreria che si trova proprio alle mie spalle. Da parecchi anni a questa parte, infatti, non si contano i «fumettari» – qualcuno noto, qualche altro un po’ meno – che hanno ceduto alla tentazione di spiegare «come si fa». Come si fa a scrivere il soggetto e la sceneggiatura di un fumetto, voglio dire. E io, quei «manuali», li avevo divorati proprio tutti con totale attenzione, trovandomi spesso di fronte ad acute osservazioni che non sarei mai stato in grado di esprimere, pur avendo scritto nella mia vita di soggettista improvvisato qualcosa come trentacinquemila pagine di Tex, Zagor e Mister No. Non vedevo, però, quali altri consigli si potessero suggerire, che i pochi aspiranti professionisti non avessero già letto precedentemente.

Per fortuna, il sottotitolo simpaticamente ironico e la comparsa della mia stessa domanda postasi dall’autore di questo volume e apparsa nelle primissime righe dell’Introduzione mi hanno incoraggiato a iniziare una lettura che ho poi proseguito, come suol dirsi, tutto d’un fiato, sebbene con qualche preoccupazione suscitata dalla scoperta che uno dei due editori indicati come possibili interlocutori degli aspiranti autori ero proprio io.

Mi appresto, quindi, ad affrontare una folla di soggettisti scatenati dai suggerimenti di Sergio Badino che ha, curiosamente, fatto ricorso a tutti gli stessi argomenti che, all’occasione, avrei estratto anch’io dal mio abituale bagaglio di esperienze professionali.

L’immagine dello scrittore paragonato a una sorta di squalo in eterno movimento a caccia di un’idea mi è parsa talmente azzeccata da indurmi a ricordare i tempi in cui anch’io «non staccavo mai» e cercavo la soluzione di una sequenza in ogni momento della mia giornata.

A pranzo oppure in taxi, dal dentista oppure giocando a tennis, il mio pensiero rimbalzava inarrestabile da una soluzione all’altra e, di notte, mi alzavo di soprassalto per consultare qualche libro o per visionare per la millesima volta le mie videocassette preferite. E quando, immancabilmente, qualcuno, curioso, mi chiedeva come facessi a farmi venire «tutte quelle idee», allargavo le braccia in un gesto significativo e, con l’aria più indifferente di questo mondo, mi lasciavo sfuggire una risposta bugiarda: «Le idee? Mah, non so… mi vengono da sole!».

S.B.

Milano, luglio 2007
(Cliccare sulle immagini per vederle a grandezza naturale)

O PRIMEIRO ENCONTRO DE GUIDO NOLITTA COM MISTER NO – conto inédito de Jorge Magalhães ilustrado por João Amaral

O primeiro encontro de G. Nolitta com Mr. No – conto inédito de Jorge Magalhães ilustrado por João Amaral

I

AMAZÓNIA MEU AMOR

……O motor do pequeno hidroavião ronronava suavemente, enquanto o seu tripulante manobrava os comandos para descer sobre as margens arborizadas do rio, cuja curva já se avistava a algumas centenas de metros.
……Um sorriso de satisfação franziu os lábios do piloto. Com uma volta rápida, o aparelho sobrevoou a aldeia dos Caiapós, saudado pelas exclamações alegres de alguns índios, que correram para a margem, ansiosos por ver o veloz pássaro pintado de verde e amarelo pousar nas águas do rio.
……Guido Nolitta endireitou o nariz do hidro e preparou-se para a amaragem, deitando um olhar distraído ao painel de instrumentos, onde algumas agulhas que indicavam a altitude e a velocidade do aparelho giravam como o ponteiro de uma bússola a cada oscilação da carlinga.
……O audaz aventureiro de origem italiana, com perto de 40 anos, sentia-se feliz sempre que sobrevoava aquela região da Amazónia, ao encontro dos seus velhos amigos Caiapós, em cujas aldeias era recebido festivamente, sobretudo pelo chefe Ubirajara e pelos seus filhos, um bando numeroso e chilreante de garotos que o seguiam por toda a parte, mal punha o pé em terra, à espera das guloseimas e dos presentes que ele lhes trazia no seu pássaro metálico.
……Guido era um profundo conhecedor daquelas paragens e dos costumes dos seus habitantes. Dizia sempre, a todos os seus amigos, que no Amazonas também se sentia um índio. Adorava os rios coleantes como enormes serpentes e as majestosas florestas que os abraçavam num enlace lânguido que se tornava um festival de luz e cor nas manhãs em que cantavam os colibris e nos poentes dourados em que se ouvia o rugido do jaguar. Sim, Guido Nolitta era um homem feliz quando estava junto dos seus amigos indígenas, que o festejavam como um hóspede de honra.
……Todos sorriam de contentamento ao vê-lo, até as moças mais jovens e bonitas, que não se importariam de lhe fazer companhia, estendidas na sua rede, com o luar a banhar-lhes os corpos quase nus, nas noites em que o Cruzeiro do Sul empalidecia o brilho das outras estrelas. Talvez um dia o Caramuru (o branco generoso e gentil) escolhesse uma delas, não para casar mas para lhe ciciar ao ouvido palavras tão excitantes como o ronronar dos motores e da hélice (era assim que ele lhes chamava) da sua casa flutuante.
……Nessa noite, alva e cálida como a lua, despida das brumas que costumavam pairar sobre o rio, as fogueiras brilharam na grande clareira onde se erguia a aldeia dos Caiapós e os ruídos da festa que Ubirajara oferecera ao seu hóspede ecoaram entre as árvores perfiladas, como vultos de espectadores, a alguns metros das choupanas.
……– Sangue de Judas! A tua cachaça é a melhor do mundo, chefe! – exclamou Guido Nolitta, sorvendo mais um gole daquele líquido que lhe queimava a garganta e lhe fazia zumbidos no cérebro, como se um motor silencioso tivesse repentinamente despertado, acelerando continuamente o seu ritmo.
……Guido gostava de beber em companhia do cacique Ubirajara, que conhecia há muitos anos, mas nunca – nem mesmo num bar de Manaus – perdia o controlo dos seus gestos e das suas emoções, tal como quando, a bordo do hidro, nas longas horas de voo solitário, bebia alguns tragos de um velho uísque para resistir às correntes frias, enquanto vagueava o olhar pela imensidão do Amazonas, aturdido pela beleza da paisagem e pela canção dos motores.


.
……
Noite alta, já o som dos batuques e das danças se extinguira e a maioria dos Caiapós dormitava junto das fogueiras que ardiam à beira do rio, lançando clarões sobre as águas adormecidas e o pequeno avião amarado junto da margem, quando uma flecha de fogo riscou o céu constelado de estrelas. Ubirajara observou-a com um olhar mortiço e levantou-se, espreguiçando os membros.
……– Está na hora de recolher à minha cabana – disse o cacique, como se o fugaz cometa fosse um sinal. – Antes que o ardor da cachaça comece a subir pelo meu peito e a enfraquecer a minha língua. Tu sabes, ó meu amigo descido dos céus, que tenho poucas palavras quando sinto a cabeça tão vacilante como as luzes das fogueiras ao amanhecer.
……Guido sorriu.
……– Não és o único, chefe. Boa noite!
……Atrás de Ubirajara, num cortejo silencioso e lento, homens, mulheres e crianças arrastaram os passos até às cabanas envoltas na profunda escuridão da noite. Não tardou que no terreiro se ouvisse apenas o estalar dos ramos consumidos pelas chamas, que diminuíam de intensidade, espalhando um fumo branco e pouco espesso sobre as esteiras e as cabaças vazias, dispersas no chão onde pouco antes os pés se enroscavam, lambidos pelo suave calor do fogo.
……Guido Nolitta sentiu o silêncio descer sobre ele e apeteceu-lhe entoar em surdina uma velha canção de Nova Orleães, “Oh! When the saints go marchin’ in”, ritmando-a com um ligeiro assobio, enquanto recordava uma bela caipira que tinha amado ao som dessa música, num quarto do Hotel Amazonas, em Manaus. Depois, saboreou um último gole de cachaça e fitou melancolicamente o vago resplendor das fogueiras até sentir os olhos a piscar, transformando as sombras em pequenos pontos luminosos que dançavam como faúlhas na noite escura.
……Mas não se deixara vencer pelo sono, dormitava apenas, mergulhado numa espécie de letargia que lhe povoava o cérebro com estranhas e recônditas sensações. Era o efeito da cachaça, pensou ainda, antes de cerrar mais as pálpebras, deixando o corpo distender-se, leve como as asas do avião quando o frémito do vento as embalava.

II

PERIGO!

……Tão absorto estava nos pensamentos nostálgicos que o invadiam, trazendo-lhe imagens de outros encontros, outros amores e outros lugares, como se sonhasse, que aos seus ouvidos não chegou um leve rugido que fez agitar e estremecer a vegetação da selva, em redor da clareira. Um rugido tão abafado que só os macacos e os pássaros o ouviram, fugindo dos ramos e dos ninhos onde se preparavam também para dormir.
……Mas o rugido não se repetiu. Em vez disso, na orla do matagal imerso em trevas, cintilou o clarão furtivo de dois olhos raiados de ouro e sangue que espreitavam a presa. Os olhos magníficos e ferozes de uma onça pintada!
……Em silêncio, o corpo ágil, cujas manchas se confundiam com a folhagem, moveu-se entre os troncos, olhando fixamente o vulto do homem que parecia adormecido e a luz bruxuleante das fogueiras, onde crepitavam as últimas brasas. Então, esquecendo o temor e a prudência gravados no seu instinto primitivo, deu alguns passos fora do abrigo da floresta, dirigindo-se para o homem imóvel no centro da clareira.
……Guido continuava a sonhar meio acordado, sentindo a mente povoada por uma névoa estranha que devia ser, em parte, efeito da cachaça. Não era a primeira vez que isso lhe acontecia, mas geralmente por culpa da sua própria imaginação delirante, que não parava de sonhar com coisas que só existiam no seu espírito. Cenas e figuras sem nome e sem sentido, que depressa se esfumavam quando a realidade vencia a fantasia.
……A onça estava cada vez mais próxima da sua presa, mas Guido não se mexia, totalmente inconsciente do perigo, envolto numa nuvem de sonhos e de pensamentos etéreos como os vapores da cachaça. Sonhava com uma viagem que fizera muitas vezes e com alguém que ainda não conhecia… esse, sim, com um nome e uma existência reais. Ou estaria confundido? Talvez o nome fosse real, a identidade é que não…
……As profundezas da selva amazónica, mesmo à beira dos terreiros das aldeias ribeirinhas, podem esconder muitas ameaças e muitos perigos. Especialmente de noite, quando as fogueiras se apagam e vultos mosqueados, que rosnam surdamente, espiam as cabanas adormecidas. Guido Nolitta sabia tudo isso… mas estava embriagado de sonhos, sob o clarão do luar reflectido nos tectos de colmo e no espelho límpido das águas do rio.
……Se tivesse aberto os olhos, nesse momento, teria sentido um arrepio percorrer-lhe a espinha, porque a onça se agachara a alguns metros dele, fitando-o com um olhar que coruscava no pequeno círculo de luz derramado pelas fogueiras, de garras abertas e movendo a língua entre os dentes, que pareciam punhais afiados prontos a dilacerar o corpo da sua vítima.
……Foi então que algo inesperado aconteceu… algo que não estava escrito no grande livro da selva, onde os caçadores e as presas desempenham papéis determinados pelas leis da Natureza, cujo desfecho é fatídico para os mais indefesos quando certas regras de sobrevivência são esquecidas.

……Saindo também da espessura, um vulto humano, de aparência muito diferente da que tinham os índios, atravessou a clareira com a velocidade de um relâmpago e saltou agilmente sobre a onça, paralisando-a com um poderoso garrote dos braços musculosos, no momento em que o feroz carnívoro ia desferir o bote. Não parecia sequer um combate, mas o último acto de uma cena que se desenrolava sem testemunhas, na solidão e no silêncio nocturnos da selva amazónica.
……O rosnido raivoso e arquejante do felino, que não conseguia libertar-se das mãos enclavinhadas no seu pescoço e das pernas, tão robustas como os braços, que subjugavam o seu torso, impedindo-lhe os movimentos e roubando-lhe o fôlego, despertou finalmente Guido Nolitta, cujo olhar fitou, atónito, aquela cena que parecia saída de um livro de aventuras que lera há muito tempo.
……Num último sobressalto de agonia, a onça tentou ainda libertar-se, sacudir o adversário que lhe apertava a garganta com mãos que pareciam tenazes de ferro, mas esse ímpeto durou pouco. Tal como nos livros de que Guido Nolitta se recordava, o vencedor só podia ser o mais forte, o mais ágil, o mais destemido. E o mais forte era o homem!
……Com um estalido de vértebras partidas, a cabeça do grande felino pendeu de lado, nas mãos do atacante, mostrando a língua, como um farrapo vermelho, entre os dentes que não voltariam a morder, e o seu corpo mosqueado, de selvática e majestosa beleza, pareceu encolher-se, na rigidez da morte.

III

O LUAR DO PAJÉ

……Um frémito atravessou a clareira, como se criaturas invisíveis e desconhecidas, ocultas entre as árvores, se agitassem na excitação da vitória a que acabavam de assistir. Guido Nolitta saiu do seu torpor e observou o homem ainda debruçado sobre o corpo do jaguar, que jazia inerte como um fruto maduro caído das árvores.
……Era uma curiosa personagem que nunca lhe passaria pela cabeça encontrar na selva amazónica, embora tivesse feições tisnadas pelo sol dos trópicos, que reflectiam, à meia luz das fogueiras, um ânimo valente e decidido. Envergava um traje citadino, em que eram visíveis os danos da breve luta, e um blusão escuro com uma curiosa insígnia (uma espécie de trevo de quatro folhas) na manga direita. Tinha cabelos curtos, grisalhos nas têmporas (apesar de parecer ainda jovem), olhos vivos e penetrantes, com um brilho azul de safiras, inspirando simpatia, à primeira vista, como os heróis que Guido conhecera nos livros e nos fumetti escritos pelo seu pai.

……Envolto numa réstia de luar, parecia quase uma figura fantástica, dessas que amamos na infância e nos acompanham por toda a vida, estimulando as nossas quimeras e os nossos sonhos, a parte mais poética e heróica que albergamos num recanto especial da nossa alma.
……Esta impressão foi tão forte que Nolitta não pôde reprimir a exclamação, embora incrédula, que lhe assomou instintivamente aos lábios.
……– Tarzan! Lorde… Lorde Greystoke?!…
……Uma voz metálica e fria, estranhamente calma, desfez-lhe as dúvidas:
……– Não! Chamo-me Jerry Drake… mas pode tratar-me por Mister No! Vivo aqui, na Amazónia, e também sou amigo dos Caiapós. Quanto ao resto, se quer saber, não tenho títulos nobiliárquicos e só mato animais selvagens em último recurso!
……Guido sentia-se cada vez mais perplexo. Quem seria, na realidade, aquele homem que preferia usar um nome enigmático… apesar de se ter apresentado como um cidadão comum, talvez americano como Kerry Drake? Um homem com uma força tão espantosa como a de Tarzan… embora não andasse nu como o pretenso rei da selva!
……– Eu… eu estou-lhe imensamente grato! – balbuciou, em voz trémula, estendendo a mão ao seu salvador. – Sou italiano e chamo-me Guido Nolitta… viajante e escritor por vocação. Também me dedico às histórias para rapazes. É uma herança de família!
……O outro correspondeu ao cumprimento, com um sorriso levemente irónico no rosto esbatido pelo frouxo clarão das fogueiras.
……– Não precisa de me agradecer. Calhou eu estar aqui perto, quando a onça se preparava para atacá-lo. Mas recomendo-lhe que tenha mais cuidado! Nestas regiões, a noite e a solidão são más conselheiras… Pior ainda se os nossos sentidos tiverem adormecido depois de uma boa libação de cachaça. E a do cacique… melhor dizendo… pajé Ubirajara… é demasiado forte!
……Fez uma pausa e acrescentou, com um trejeito ainda mais irónico:
……– Essa música que o ouvi trautear há pouco é uma das minhas favoritas… mas deve ter sido ela que atraiu a onça!
……Guido Nolitta continuava a sentir um vago aturdimento. Noite, solidão, cacique, pajé… qual seria o significado profundo destas palavras na boca do desconhecido? E que andaria ele a fazer, de noite, junto da aldeia dos Caiapós? Sem armas, totalmente indefeso… Teria olhos de felino para poder devassar a escuridão da selva? E em que fibras do seu ser a coragem e a ironia se entrosariam com a prudência e o bom-senso? Ou seria um louco temerário e impulsivo que não temia o perigo, apesar dos conselhos que dava aos outros? Talvez não passasse de um rebelde, um marginal de espírito solitário que procurava afastar-se do mundo civilizado. Eram questões que intrigavam Guido Nolitta, mas para as quais não esperava encontrar respostas.
……– Então escreve histórias? – perguntou o homem que se intitulava Mister No. – Tenho um bom mote para um livro: na Amazónia diz-se que a terra não tem dono, mulher não tem honra, homem não tem palavra e árvore não tem raiz! É por isso que eu prefiro a companhia dos índios!
……– Eu também gosto deles. Sempre que posso venho à Amazónia para os ver. O Brasil tornou-se a minha segunda pátria! – exclamou Guido Nolitta, que sentia a boca seca e os membros entorpecidos, sem saber se era ainda efeito da cachaça ou da extraordinária cena que se desenrolara diante dos seus olhos.
……Mister No empunhava agora, na mão esquerda, uma catana com a lâmina suja de sangue. Teria sido com essa arma que matara a onça e não com as mãos nuas, à laia de um herói de romance? Guido começava a duvidar do que presenciara momentos antes, como se sofresse de alucinações. Olhou para o cadáver do felino, mas a luz das fogueiras era muito ténue e não viu manchas de sangue.
……Um súbito negrume abateu-se sobre a clareira, quando a lua desapareceu entre um feixe de nuvens, tornando a cena ainda mais insólita. O luar e a sombra, a misteriosa dualidade dos pajés (dos xamãs), pensou Nolitta, lembrando-se do nome que Mister No dera ao cacique, que a essa hora dormia numa cabana, talvez assaltado pelos mesmos sonhos que rodopiavam na sua mente, como uma girândola fantástica.
……O outro continuava a apertar-lhe a mão, sacudindo-a vigorosamente como se quisesse arrancá-lo ao seu torpor. Foi então, ao contacto daqueles dedos fortes, tão reais no seu sonho como as garras do jaguar, debatendo-se no estertor da morte, que Guido Nolitta, o viajante italiano apaixonado pela Amazónia, regressou ao seu estado consciente e às margens do rio Xingu, a esse mundo primitivo que despertava lentamente nos braços da aurora.
……Olhou em volta e, como já esperava, não viu ninguém. Mister No e o corpo rígido da onça tinham desaparecido. Só as fogueiras ainda ali estavam, escuras e frias, sem a crepitação e o calor das brasas. Mais longe, nas cabanas dos índios, continuava a reinar o silêncio. A lua alvejava no céu, sobre a Natureza adormecida e calma.
……Dois dias depois, o hidroavião de asas amarelas levantou voo, descrevendo uma larga curva sobre a aldeia – onde os Caiapós, sobretudo os filhos e as filhas de Ubirajara, o saudavam com gritos estridentes –, antes de sobrevoar, aos ziguezagues, a fita prateada do afluente do poderoso Amazonas.
……O piloto olhava em frente, através dos vidros da carlinga, onde o clarão ofuscante do sol se reflectia como num espelho, iluminando-lhe o sorriso estampado no rosto, sob os óculos e o gorro de aviador. Voar era um dos seus maiores prazeres!
……Mal sabia Guido Nolitta que voltaria a encontrar-se muitas vezes com Mister No… a personagem dos seus sonhos descoberta em plena selva, graças à cachaça (ou à magia?) de um xamã, numa noite da Amazónia!


Nota: A frase “Na Amazónia, a terra não tem dono, mulher não tem honra, homem não tem palavra e árvore não tem raiz”, foi extraída de um artigo sobre o jornalista e defensor do ambiente Felipe Milanez.

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Fred Macêdo homenageia Sergio Bonelli

Fred Macêdo homenageia Sergio Bonelli

Fred Macêdo imaginou fazer inicialmente um Tex para homenagear Sergio Bonelli mas aí pensou “O Sergio tinha a sua autonomia como artista e portanto suas próprias criações, logo resolvi fazer uma composição com o Zagor, o Chico e o Mister No.”

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