O “deslize” de Galep e a “infalibilidade” de Tex

Por Raffaele De Falco [1]

Aurelio GalleppiniGalep foi colossal. Um mestre da banda desenhada. Um dos maiores desenhadores italianos em absoluto. Uma verdadeira lenda que tem um séquito numerosíssimo de fãs que o colecciona e o celebra ainda hoje e, isto, por várias razões: porque ele era um talento puro, porque produziu uma enorme quantidade de trabalho, porque era dotado de grande profissionalismo!

Da mesma forma, a editora, que o contratou em 1947, tornando-o o desenhador principal, fez escola. Após os aventurosos inícios dos anos 40/50, onde tudo era criado numa sala, adaptada como redacção, da casa onde habitavam (e trabalhavam) a proprietária, a Senhora Tea e o jovem filho Sergio Bonelli (a quem se juntava uma secretária durante o horário laboral), a editora desenvolveu-se graças a um escrupuloso cuidado editorial feito de várias mutações interligadas, uma verdadeira estratégia de trabalho, produção e controle, antes de enviar para a gráfica qualquer publicação.

Tex 100 originalEm 1951, quando as vendas demonstravam claramente que Occhio Cupo, a série em que a editora tinha apostado e dedicado tanta energia profissional, e porque não, também económica, tinha fracos resultados, enquanto Tex, que nasceu como uma série feita com espontaneidade para preencher um sector editorial, sem grandes pretensões, via as vendas a aumentarem constantemente, foi feita a escolha óbvia. O editor, “forçada” pelo crescente interesse do público em Tex, dedica cada vez mais atenção começando a desenvolver aquele método de trabalho redaccional feito de vários controles sobre os textos e desenhos a fim de corrigir e minimizar os erros antes da revista ir para a gráfica. Um controle que no decurso dos anos, com o crescimento da editora e dos homens que nela trabalhavam, se tornou quase obsessivo, mas que também permitiu que os quadradinhos Bonelli dessem aquele salto de qualidade levando-os a serem considerados como obras muito profissionais; que pudessem estar dignamente nas livrarias e serem consideradas no mesmo nível que qualquer outro livro de qualidade.

Desse modo, “um erro” passado despercebido, primeiro pelo perfeccionista Galep e, em seguida, pela “triagem” da redacção é um evento excepcional, se acrescentarmos que é um erro que aconteceu no nº 100 da série é ainda mais excepcional, como podemos observar de seguida:

Tex 100 com erro - página 1Tex 100 com erro - página 2
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O bom Galep explicou que por uma sua distracção, a personagem de nome Runyon (o homem de Nogales), corrupto traficante de armas, concebido como um homem branco, com barba, camisa vermelha e jaqueta preta (conforme se pode ver nas páginas 53 a 58 da edição), estranhamente, e precisamente por causa dessa distracção, aquando do reaparecimento nas páginas 87 a 89, até ao final da história, tornou-se … um mexicano de sombrero, camisa verde e colete vermelho!

O erro de Galep no desenhar o indivíduo passou, não foi detectado, mesmo com controles rigorosos na redacção e, quando o erro foi descoberto, era tarde demais! Grande parte da tiragem já estava em viagem para a distribuidora. Obviamente, trabalharam à pressa para corrigir rapidamente as páginas. Todas as edições posteriores, inclusive as do número 100 original que ainda faltavam para completar a tiragem, tais como subsequentes reedições e edições estrangeiras, foram impressas correctamente, conforme se vê nestas duas páginas:

Tex 100 corrigido - página 1Tex 100 corrigido - página 2

Levando em conta que apenas alguns coleccionadores italianos são conhecedores deste erro, talvez, para muitos amigos do blogue português do Tex que não possuem a rara edição original em italiano esta seja uma boa surpresa que vos fará estimar ainda mais os nossos mitos.

[1] Texto original e exclusivo para o blogue do Tex
Tradução e adaptação a cargo de José Carlos Francisco

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

Um comentário

  1. A carga de trabalho, leva o ser humano a errar, de forma que nem os revisores perceberam este deslize. Isso é normal de forma que nos mostra que o Galep era humano.

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