Júlio Schneider entrevistado pelo jornal O Tempo, de Belo Horizonte

Logótipo do jornal O TempoEntrevista publicada no MAGAZINE do jornal “O Tempo” de Belo Horizonte (Minas Gerais, Brasil), de 25 de Julho de 2010.
Por MARCELO MIRANDA

*Entrevista a Julio Schneider: Consultor, redator e tradutor de quadrinhos

Em qualquer banca de jornal, você encontra as revistinhas com o caubói Tex. Criado em 1948 na Itália, o personagem é  publicado no Brasil desde os anos 50 e possui o título de  quadrinhos mais longevo e ininterrupto no país – desde 1971, quando ganhou edição mensal, está no número 489, pela Mythos Editora. Julio Schneider, tradutor e consultor das  revistas Bonelli no Brasil, falou com o Magazine sobre Tex e o possível cancelamento de “Julia Kendall – Aventuras de uma Criminóloga”, um dos principais títulos da editora.

Quadrinhos que vêm da Itália

Vamos começar pela parte ruim: o possível cancelamento do ótimo “Julia Kendall” no Brasil. “Aventuras de uma Criminóloga” é um gibi (em Portugal: revista de banda desenhada) que vive uma situação paradoxal. É considerada pelo leitor, pela crítica e por jornalistas como uma das mais interessantes histórias em quadrinhos (em Portugal: quadradinhos) das últimas décadas. Porém, é dos títulos que menos vendem em banca. No início, quando sugeri editarmos a série aqui, as revistas vendiam maravilhas. Aos poucos, os números passaram a diminuir, e aí começou a acender a luz vermelha na editora. Já faz tempo que as vendas não cobrem os custos mensais da revista. Tenho carinho monstruoso por “Julia”, inclusive já ganhei do Giancarlo Berardi [roteirista da série] uma edição autografada onde se lia: “Para o único homem com quem divido uma mulher” [Risos]. Sempre que vamos renovar o contrato de “Julia”, pensamos em cancelar, mas ela se mantém porque existem leitores que apenas compram essa revista. Se tirarmos de circulação, esse leitor nem volta à banca. É um pessoal pequeno, mas fiel. Só que está ficando insustentável. Empresarialmente, não tem sentido fazer um produto sem mercado.

Qual o prazo máximo de “Julia”? Estava decidido que iria até o final deste ano, mas em junho a editoria decidiu cancelar logo naquele mês, na edição 68. O legal foi que vários leitores entraram em contato conosco, mostraram seu carinho pelo título e se dispuseram a ajudar a mantê-lo nas bancas. Temos garantido até a edição 71, de outubro, para saber se continua ou não. Depende de vendas.

O que mais torna “Julia Kendall – Aventuras de uma Criminóloga” um título potencialmente atrativo? Histórias intrigantes, inteligentes, jamais banais, sem lugares comuns e sempre com aquela surpresa final, como todo bom romance ou filme policial. Você nunca sabe como a trama vai terminar, às vezes, até chegar na última página. O próprio Berardi, ao escrever, não tem em mente como vai terminar cada história e deixa os personagens criarem seus próprios ritmos. Há ainda detalhes que parecem não ter nada a ver com o enredo central: discussões com a empregada sobre o leite, ou sobre uma gata grávida, ou sobre um quadro na parede… Isso valoriza o caráter humano dos personagens. Não há apenas a ação que interessa à história, mas a psicologia das pessoas. Vemos pessoas que podem ser nossos vizinhos, nossos colegas; situações de pais discutindo com filhos, problemas no trabalho… Quem lê “Julia” sempre elogia a HQ (em Portugal: BD) como um trabalho de altíssimo nível. Se Berardi tivesse nascido nos EUA, seus roteiros seriam comprados para virar filme. Mas ele é italiano, e o norte-americano não gosta muito do que vem de fora.

O preço (R$ 8,90) não é alto? Na Itália, terra natal de “Julia”, tem-se lido menos a cada ano, mas lê-se dez vezes mais que no Brasil. Uma edição de baixa venda por lá vai de 20 mil a 40 mil exemplares. No Brasil, qualquer edição de sucesso vende uns 2.000 a 4.000. Nos anos 1970, aqui, se você colocasse seu caderno de desenhos na banca, vendia. “Tio Patinhas” chegava a 500 mil exemplares, “Tex”, uns 150 mil. Mas o preço acaba sendo resultado de uma questão matemática. Se não vende, o preço não acompanha, porque não vai pagar o quanto aquilo custa para chegar até ali.

Júlio Schneider, fotografado por Nilson FarinhaVamos ao carro-chefe da Bonelli/Mythos, que é “Tex”. A que você acredita que se deva a longevidade da publicação da série? Se “Tex” fosse criado no Brasil, não teria o sucesso que teve. Ele surgiu na Itália no momento certo, depois da guerra. O país estava destruído, e as pessoas precisavam de algo para lhes dar esperança. Um dos entretenimentos era o cinema, especialmente vindo dos EUA, onde se tinha o auge do faroeste. Os italianos se identificaram com aquele universo: heróis lutando contra vilões prepotentes em busca de um país a ser reconstruído. “Tex” nasceu nesse meio. Quando chegou ao Brasil, ele veio no bojo do próprio faroeste, que era muito popular. Logo os gibis fizeram sucesso. Continham histórias mais longas que a dos quadrinhos tradicionais e serviam como entretenimento prolongado. Criou-se o que chamamos “leitor de rodoviária”, que comprava o gibi para durar uma viagem inteira de ônibus (em Portugal: autocarro), com histórias emocionantes e gostosas de ler. Hoje, o Brasil é o maior mercado de “Tex” fora da Itália. Temos uns seis ou sete títulos circulando em bancas brasileiras, entre a edição mensal regular e especiais.

“Tex” ainda sai em muitos países? Não, apenas em alguns poucos, vários no Leste Europeu.

Como é na Itália? Por lá, o Tex é uma instituição nacional. Você pode fazer qualquer tipo de piada com os italianos, menos as que envolvam a “mama”, a pizza e o Tex. Boa parte das personalidades do país leem a série. Ministros, jogadores de futebol, cineastas. O Roberto Benigni já se declarou um grande fã. O mais legal também é que todas as secretarias municipais de cultura do país apoiam os quadrinhos. Durante o ano todo, acontecem mostras dedicadas às HQs, sempre em uma cidade, às vezes em mais de uma. Tenho até uma certa inveja deles [risos].

Por que alguns títulos populares na Itália, como “Dylan Dog” e mesmo “Julia Kendall”, parecem não funcionar no Brasil? É questão de gosto. Cerveja, por exemplo: o europeu gosta das amargas, nós preferimos as mais suaves. Os norte-americanos gostam de quadrinhos de super-heróis, os europeus os consideram fabulares demais. Para você ter uma ideia, os títulos mais populares da Bonelli Comics [a principal editora de HQs da Itália] são “Nathan Never” e “Dylan Dog”. O primeiro, uma ficção científica; o segundo, terror. Nenhum deles funciona no Brasil há mais de 30 anos. O leitor brasileiro não gosta desses gêneros. É uma questão cultural. O mangá, que vende milhões no Japão, não pega na Europa, mas possui seu nicho no Brasil.

Quem é o leitor de “Tex” no Brasil? O leitor padrão tem entre 30 e 40 anos, é do sexo masculino e está na classe média baixa ou na “média-média”. Muitos leitores jovens passaram a ler “Tex” por conta de coleções dos pais, dos avós. Mas esse processo está enfraquecendo porque, a cada geração, surgem novas formas de diversão, e isso no mundo todo. “Tex” já vendeu um milhão de exemplares por mês na Itália; hoje, se chega a 250 mil, é sucesso. Todo ano há um decréscimo constante de vendas, na casa dos 10% ou 15%. O Brasil segue a mesma tendência. Em breve, os leitores de “Tex” serão um grupo muito mais segmentado e específico. Tenho exemplo em casa. Minha gibiteca (em Portugal: bedeteca) tem milhares de exemplares, mas meus dois meninos simplesmente não se interessam.

O desinteresse em determinadas formas de arte é geracional? Ah, ler dá trabalho. A pessoa precisa olhar a página, virar a página, imaginar, concentrar-se, compreender. Diante de outros entretenimentos, é difícil demais. Ao ver TV, você senta passivo e olha, é bem menos trabalhoso. O que acontece hoje é que a preguiça tomou espaço.

*********************************************************************************************
Aventuras de uma criminóloga #58Salvem a Júlia Kendall


“Julia Kendall – Aventuras de uma Criminóloga”
é um quadrinho policial criado e escrito por Giancarlo Berardi e publicado mensalmente na Itália. Está na edição 143.

No Brasil, “Julia” começou a sair em novembro de 2004 pela Mythos, mas corre risco de ser cancelada no próximo mês de outubro, na edição 71.

Os fãs pedem que leitores comprem uma edição para si e outra para presentear alguém e “inocular” o vício
de ler “Julia Kendall”.

(Para ver na plenitude a página do jornal, clique na 1ª imagem)
Copyright: © 2010, Jornal O Tempo; Marcelo Miranda

5 Comentários

  1. Ah, ler dá trabalho. A pessoa precisa olhar a página, virar a página, imaginar, concentrar-se, compreender. Diante de outros entretenimentos, é difícil demais. Ao ver TV, você senta passivo e olha, é bem menos trabalhoso. O que acontece hoje é que a preguiça tomou espaço.

    Nessa parte, o Júlio falou tudo. Infelizmente, é a pura verdade, e a principal causa que fez o sucesso dos quadrinhos e leitura em geral despencar tanto.

  2. Julio Schneider pôs o dedo na ferida. Cada vez há menos leitores de quadrinhos, porque a preguiça, de facto, tomou o lugar da leitura. Mas eu diria que é uma forma de preguiça activa, porque os jovens, o principal segmento etário que lia BD há alguns anos, dirige hoje os seus interesses para outras formas de actividade, como a música, por exemplo, e a dança. Veja-se as multidões que assistem aos concertos de rock. E as discotecas, ao fim de semana, não têm falta de clientes. Penso até que poucos ligam já à televisão, pelo menos da forma contínua que os amarrava ao pequeno ecrã noutros tempos. A própria TV foi ultrapassada e relegada para segundo plano pela Internet… o facebook… o twiter, etc…
    Estamos à beira de uma revolução nos nossos hábitos, uma revolução da consciência e da percepção da realidade – de facto, até já entrámos nela, sem nos apercebermos muito bem desse momento – e só um pequeno grupo fiel, cuja idade ainda alimenta os sonhos curtidos na infância, continua a querer dar ao espírito outra substância menos efémera do que as imagens e os contactos virtuais que nos submergem a cada passo.

  3. Eu particularmente acho Júlia um “saco”. Na verdade, eu acho os roteiros do Berardi muito sem graça.
    Agora…
    Que saudade do Dylan Dog, do Nathan Never, do Dampyr, do Martin Mystere…

  4. Tem razão em parte. Porque os mangás vendem muito. Então os jovens lêem muito sim tem de saber atrair eles. Quem discorda me explica o sucesso dos manga.
    Tex é muito bom mesmo.

  5. Posso dizer que será uma lástima se realmente perdermos esse grande título “Júlia Kendall-Aventuras de Uma Criminóloga“. Minha primeira Júlia, foi a nº 13 (justamente onde se falava de um possível cancelamento e que o título teria continuidade, inclusive um especial de final de ano, pois ai está ELA com + de 60 Aventuras depois e 5 especiais, não podemos deixar que cancelem) mas só fui comprar regularmente SEM PARAR apartir do n° 37 em diante. Sem contar os especiais como havia citado antes, “Almanaque Mistério“, que são uma uma JÓIA, Preciosidade, com as primeiras investigações, casos e “namorados”…
    Se toda cidade que tivesse um ou mais colecionador de quadrinhos(BD) Bonelli, tentasse fazer exposições anuais via Secretaria de Cultura local ou por livre iniciativa, ajudaria principalmete a atrair um novo público, proporcionaria esse primeiro contato.
    Espero continuar adquirindo mensamelnte meu exemplar de Júlia, e ir atrás das que ainda me faltam!!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.