José Ortiz: O Mestre da energia e vigor narrativo

José OrtizResumir a carreira de um autor como José Ortiz em poucas linhas é uma tarefa praticamente impossível; de facto para se poder estudar como merece uma trajectória como a sua, requeria-se um livro, mas vamos tentar.

José Ortiz Moya nasce em Cartagena em 1932. Irmão do também desenhador Leopoldo Ortiz, começa muito cedo a descobrir a sua vocação e ganha um concurso de desenho realizado para a revista de banda desenhada Chicos em 1951. Nesse mesmo ano começa a trabalhar com a editora Maga, casa para a qual realizaria o grosso da sua produção durante a década de 50: série como El Espia, Dan Barry el Terremoto ou Pantera Negra. Em 1958 realiza para Toray Sigur, El Vikingo, série que se converte no maior êxito do início da sua carreira. O início dos anos sessenta marca também o final da época dourada do tebeo (revista de banda desenhada) popular, o que motivaria que toda uma série de autores voltasse a sua produção para o exterior através de agências. Assim, Ortiz começaria a produzir material através de Bardon Art, principalmente para o mercado britânico.

Arte de Ortiz1973 marca um dos grandes pontos de inflexão da carreira de José Ortiz, ao começar a sua colaboração com a editora norte-americana Warren. O desembarque de toda uma frota de desenhadores espanhóis serve para dar uma difusão internacional ao trabalho de artistas como Luis Bermejo, Esteban Maroto, Leopoldo Sánchez ou José Ortiz. Estima-se que Ortiz realizou 119 histórias para a Warren, o que o converte no desenhador mais profícuo da editora. Revistas como Eerie, Creepy, 1984, Rook o Vampirella viram aparecer os seus trabalhos, entre eles destaca-se com um brilho próprio Los cuatro jinetes del Apocalipsis; obra que nos serve como exemplo do labor de José Ortiz para a Warren, mediante todo o seu esbanjar de técnica, vigor narrativo e o seu pessoal e espectacular estilo de “entintar” – aqui pode-se destacar a célebre técnica de “lâmina de barbear”, marca da casa também de outros grandes desenhadores como Dino Battaglia.

TexA etapa Warren do trabalho de Ortiz dura praticamente até 1981. Simultaneamente a ela realiza também uma série de histórias com argumentos de Josep Toutain, que reproduziam a História de diversas lendas do “Faroeste” norte-americano, que se recompilaram em dois “tomos” sob a epígrafe Grandes mitos del Oeste, e que ademais servem-nos para realçar o grande carinho que Ortiz sempre teve pelo género western. A essa etapa pertencem também El pequeño Salvaje, história que contava com argumento próprio, os seus episódios da série El Cuervo e o seu trabalho com Tarzan – em que se recorda o vigor e a vitalidade que José insuflou à personagem.

Laredo e Tex1981 marca o que é seguramente o ponto chave da carreira de Ortiz: O regresso ao mercado autóctone para realizar uma obra mais pessoal, coincidente com o início da sua colaboração com Antonio Segura. A primeira criação da dupla Segura-Ortiz foi Hombre, uma série de ficção científica próxima e pós apocalíptica que rompeu barreiras na sua época, pelo seu tom lúgubre e desencantado e pelo incrível grafismo de Ortiz, tanto na primeira etapa a preto e branco, como na posterior, colorida.

A assinatura Segura-Ortiz converte-se a partir de então em habitual nas revistas de banda desenhada de vários países durante os anos oitenta e na primeira metade dos anos noventa. Em 1983, embarcam no projecto de autogestão que se chamou Metropol; Ives foi a série que criaram para a revista, uma história do género “noir” e ambiente carcerário. No ano seguinte criam essa obra-mestra denominada Las mil caras de Jack el Destripador, praticamente ao mesmo tempo rebaptizam Ives como Morgan, uma “nova” série de 23 episódios, todos eles realizados a preto e branco.

Vinhetas TexAtravés de Selecciones Ilustradas, a agência de Josep Toutain, criam em 1987 Burton & Cyb, série cómica e cósmica sobre as andanças de dois enganadores inter-galácticos que beneficiam de uma cor luminosa e de toda a arte de desenhar de Ortiz na hora de criar e recriar mundos e seres alienígenas com inegável graça. Entretanto a revista Gran Aventurero ofereceu-lhes em 1990 a oportunidade de produzir Juan el Largo, obra composta por dois álbuns e que recupera o espírito da aventura clássica mediante as andanças de um peculiar grupo de piratas nos mares do Caribe. Alem do seu trabalho com Segura, Ortiz continuou a trabalhar, através da agência Norma, uma série de trabalhos para o estrangeiro: como episódios de Rogue Trooper ou Judge Dredd para a editora 2000ad britânica ou episódios de sabre para a editora norte-americana Eclipse.

O êxito internacional dos trabalhos da dupla Segura-Ortiz, unido à crise do mercado espanhol, fez com que a partir de 1990 produzissem o seu trabalho directamente para a indústria italiana. Desse modo criam Ozono para a revista L’Eternauta, uma série do género “noir” com um alto conteúdo de denúncia ecológica, e But O’Brien, livro de cabeceira sobre um ex-boxeador metido a guarda-costas, publicado na revista italiana Torpedo. Chegamos então a 1993, ano em que se inicia a relação de Ortiz com a Sergio Bonelli Editore. Como o próprio Sergio reconheceu, a ideia de convidar José Ortiz para realizar um dos seus Tex Gigantes já estava congeminando desde há vários anos, até que finalmente o conseguiu convencer. A partir desse momento José começará a trabalhar quase em exclusivo para a Sergio Bonelli Editore, realizando uma história em quatro partes, de Ken Parker e vários episódios de Mágico Vento, além de todo o seu trabalho em Tex.

Orso Silente e TexLa grande rapina, o Tex Gigante de 1993, traz o seu primeiro trabalho com Tex. Trata-se de uma história de 224 páginas em que Tex e Carson devem desarticular um bando de ladrões de trens estendendo-lhes uma armadilha quando se dispõem a roubar o pagamento do exército. A história escrita por Nizzi serviu para que Ortiz fosse se adaptando às personagens – com o género nunca teve nenhum problema já que, como podemos ver na história, é um autêntico especialista – e em especial com Kit Carson, cuja sua interpretação é uma das mais atractivas de toda a saga de Tex.

Vinhetas CarsonO trabalho seguinte de Ortiz inclui ademais a chegada de Antonio Segura à escrita da série. Il cacciattore di fossili e L’oro del sud, editados em Novembro de 1997 e Outubro de 1999 respectivamente, são duas histórias de 350 páginas a primeira e de 270 páginas a segunda que inauguravam a sua participação na colecção Maxi-Tex (edições nºs 2 e 3, que já tinha tido um primeiro número com uma história da dupla Giancarlo Berardi/Guglielmo Letteri) e nas quais para além do habitual despejar de talento do desenhador, há que ressaltar a especial convicção de que ambos os autores fazem gala: algo que terá tido a ver com a boa aceitação que os leitores dispensaram a ambos os volumes.

No intervalo de ambos os Maxi-Tex, José Ortiz incorpora-se no grupo de desenhadores da série mensal. Os episódios 449 e 450 abarcam a história Gli uomini che uccisero Lincoln, a primeira das suas sagas que conta com argumento de Nizzi. Consiste em uma intriga de carácter quase político em que Tex e Carson, de uma maneira quase casual, vêm-se implicados numa investigação que os levará a descobrir quem estava por detrás do assassinato do presidente Lincoln. O que primeiro salta à vista ao analisar ambas as revistas é que não se tratava de uma história de características muito adequadas para poder aproveitar as melhores qualidades do seu desenhador; uma história desenrolada num ambiente urbano e em espaços fechados que não permitia a Ortiz explorar o seu vigor narrativo da mesma maneira que quando desenha guiões desenrolados em espaços abertos. Tudo isso fica ainda mais claro ao analisar os seus trabalhos seguintes na série mensal e em especial nas duas histórias seguintes escritas por Boselli.

Prancha de Sulla pista di Fort ApacheSulla pista di Fort Apache é uma história em três partes editada nos números 458 a 460 na qual Tex e Jack Tigre se vêm no meio de um grupo de índios rebeldes e do exército, tentando evitar uma nova guerra índia. La miniera del fantasma, história em duas partes publicada nos números 478 e 479 da série mensal, traz-nos Carson e Tex investigando a lenda de uma mina sobre a qual aparentemente pesa uma maldição. Ambas as histórias fazem parte das mais valorizadas pelos leitores nos últimos anos.

Os números 494 a 496, editados em 2002 a última história antes do mítico Tex 500 ilustrada por José Ortiz na série mensal. Tratou-se de um argumento escrito por Nizzi que começa quando o chefe de uma tribo Dakota pede ajuda a Tex e Carson ante o estranho comportamento de alguns jovens guerreiros, que se uniram numa espécie de conspiração inter-racial encabeçada por um misterioso individuo que oculta o seu rosto por trás de uma máscara de madeira.

Após o Tex 500, José Ortiz continua firme no seu trabalho de desenhar Tex e já participou em diversas outras histórias: Tex 515 a 517 (Il lungo viaggio), Tex 540 e 541 (Puerta del diablo), Tex 550 e 551 (Un treno per Redville) sempre com argumentos de Claudio Nizzi e ainda o Maxi Tex 2004 (Il treno blindato), com argumento Antonio Segura.

Pards por OrtizSe alguém analisar a lista de actuais desenhadores do staff de Tex, é indiscutível que há dois nomes que brilham com luz própria. A presença de dois autores da grandeza de Giovanni Ticci e de José Ortiz é um autêntico luxo que muito poucas – para não dizer nenhuma – colecção de banda desenhada pode permitir-se. De facto qualquer editor faria os possíveis e os impossíveis para ter tão só um dos dois como ilustrador de uma sua série. Ante a hipotética pergunta do que é que José Ortiz trouxe ao Tex, diríamos que energia e vigor narrativo. Porque Ortiz não só domina a cenografia do western na perfeição, como é um dos escassos autores capazes de desenhar qualquer coisa de qualquer ângulo – e sem aparente dificuldade – e o verdadeiramente impressionante é que se colhermos ao acaso qualquer sequência de acção desenhada por ele, teremos todo um tratado de como dinamizar a acção, como captar o movimento, como eleger o plano adequado para qualquer momento…

Cremos que algum dia os cientistas que se dedicam à Física deveriam voltar-se para um autor como José Ortiz para estudar como se pode criar pura energia utilizando somente lápis e pincel.

Tex a cavalo

Texto de José Carlos Francisco, baseado no livro-catálogo “Tex Habla Español”.

6 Comentários

  1. Muito bom o texto! A arte de Ortiz é mesmo ótima!

    Mas pensava que “Hombre” fosse uma série de faroeste, não ficção científica!

  2. Roberto Guedes, muito obrigado pelos parabéns quanto ao texto… tentamos divulgar o que sabemos.
    Quanto ao José Ortiz, de facto é um verdadeiro Mestre que eu tive o privilégio de conhecer com a personagem Tarzan… e agora continuo vendo a sua arte no “nosso” Tex e já agora, em Mágico Vento também…
    Um abraço e escreva sempre Amigo Roberto.

  3. Ortiz é sensacional! No Brasil, alcançou notoriedade entre os fãs a partir de 1976, com a publicação da revista Kripta (que trazia material da Warren Publishing). Doravante, suas histórias feitas para a Norma da Espanha, saíram em Aventura & Ficção. Atualmente, os fãs de Tex apreciam sua arte refinada.
    Parabéns pelo texto.

  4. Grande escrito! Um ampla notícia da carreira de Jose Ortiz. Vejo que há muchísmos quadrinhos deste desenhista que ainda não li, como As mil caras de Jack o Destripador, Ozônio e… Rogue Trooper! Não sabia que tivesse desenhado a este personagem.Deixo-vos uns links sobre Hombre, Cómics en extinción:

    HOMBRE
    http://comicsenextincion.blogspot.com/2008/03/hombre-por-segura-y-ortiz.html

    K.O. COMICS
    http://comicsenextincion.blogspot.com/2008/02/ko-comics.html

    Traduzi esses títulos com a esperança de que possam estar publicados em Portugal, sobretudo, Ozono. Crêem que o poderia conseguir?

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