Jornal de Notícias de 11 de Julho e “O deserto dos tártaros”: uma vida a ansiar pela glória militar

Texto da secção Cultura de 11/07/2026
F. Cleto e Pina

Uma vida a ansiar pela glória militar

* “O deserto dos tártaros” questiona as nossas escolhas quotidianas e as nossas prioridades.

Novo álbum de BD de Michele Medda e Pasquale Frisenda adapta uma obra-prima da literatura italiana e questiona as nossas escolhas quotidianas e as nossas prioridades.

Giovanni Drogo é um jovem oficial, apostado em seguir a carreira militar e cobrir-se de glória no campo de batalha, mas as suas aspirações parecem coartadas quando é colocado na inóspita Fortaleza Bastiani. Entusiasmado, de início, pela proximidade da fronteira com um reino inimigo, sente-se rapidamente desiludido pela degradação do fortim e pela incúria e falta de disciplina e de postura de soldados e oficiais lá colocados. Um pedido de transferência urgente será a solução.

É assim que arranca o romance “O deserto dos tártaros”, considerado uma obra-prima da literatura italiana, escrito pelo jornalista Dino Buzzatti e publicado pela primeira vez em 1940. No recente festival Maia BD, a editora A Seita disponibilizou a sua adaptação em banda desenhada, assinada por Michele Medda e Pasquale Frisenda, dois autores bem conhecidos associados à Sergio Bonelli Editore – o primeiro foi cocriador da série “Nathan Never” e o segundo é, entre outras coisas, um dos mais destacados desenhadores de “Tex”.

É o seu traço realista, preciso e elegante que dá corpo a Drogo e àqueles com quem se cruza, tão à vontade a trabalhar da figura humana, quanto em retratar a aridez da imensa extensão deserta que separa Bastiani do inimigo, tornando quase reais e palpáveis o calor opressivo e as partículas de areia constantemente no ar.

Voltando a Drogo, aos poucos, deixa-se seduzir por aquele espaço e pelo anseio de atingir a glória militar em confronto com os adversários da sua pátria, seguindo os passos de oficiais lendários que também cumpriram o seu dever patriótico naquela fortaleza.

Nasce assim uma obsessão crescente que, com o passar do tempo, o levará inexoravelmente a esquecer a mãe doente, a noiva prometida, os amigos leais, numa dedicação crescente e absurda a um espaço semiarruinado, que vai influenciar e afetar cada um dos membros da missão em diferentes planos, e a um sonho que cada vez mais se assemelha a uma utopia, numa vivência cíclica, cada vez mais vazia, em que as altas expectativas alternam com as desilusões quotidianas.

Alegoria sobre o modo como os sonhos podem esvaziar a vida real e torná-la oca e sem rumo, “O deserto dos tártaros”, quase um século depois, continua a questionar as nossas escolhas de vida e as nossas prioridades.

“O deserto dos tártaros”
Michele Medda, Pasquale Frisenda
A Seita
184 páginas
26€

Copyright: © 2026 Jornal de Notícias;
F. Cleto e Pina

Um comentário

  1. Sou fã da arte do Pasquale Frisenda, seus traços finos e detalhistas são muito bonitos.

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