Faleceu Jorge Machado-Dias (editor, escritor, coordenador editorial, autor de banda desenhada e ilustre sócio honorário do Clube Tex Portugal)

Jorge Machado-Dias (1953-2020)

JORGE MACHADO-DIAS

(Lisboa, 7 de Julho de 1953 – Caldas da Rainha, 2 de Abril de 2020)

* É com tristeza e pesar que informamos do falecimento de Jorge Machado-Dias, hoje, 2 de Abril de 2020, vítima de cancro..

* Dadas as circunstâncias actuais, não vai haver funeral.

* Depoimentos de José Carlos Francisco, João Miguel Lameiras e José Hartvig de Freitas

 

Jorge Machado-Dias (Lisboa, 1953), tendo frequentado o Curso de Formação Artística da Sociedade Nacional de Belas Artes e, mais tarde, o Curso de Arquitectura na Escola Superior de Belas Artes, optou em 1983 por enveredar pelo design gráfico como profissão.

– Em 1995 escreveria o argumento para os livros de banda desenhada As Aventuras de Paio Peres, volumes 1 e 2, ilustrados por Victor Borges e fundou a editora Pedranocharco Publicações.
– Em 2005 lançou o jornal/revista sobre banda desenhada BDjornal, uma das poucas revistas SOBRE BD que existiram em Portugal, que terminaria a sua publicação em 2013.
– Em 2014 abalançou-se finalmente a escrever Últimos no Leste de Angola, a rememoração do seu serviço militar, iniciado dois dias antes do 25 de Abril, decorrendo durante o chamado PREC (Período Revolucionário em Curso) e culminando com uma comissão de serviço em Angola, durante a retirada do exército português, tudo isto entre 23 de Abril de 1974 e Outubro de 1975.
– Ainda em 2014, Novembro, tornou-se o responsável gráfico da nova Revista do Clube Tex Portugal (cargo de que se ocupou até à edição nº 10, datada de Julho de 2019), revista composta por artigos elaborados por membros do Clube  habituados a estas lides, contendo ainda algumas ilustrações exclusivas dos desenhadores do fumetto, Clube ao qual O Machado-Dias se tinha associado a 19 de Agosto de 2013.

José Carlos Francisco e Jorge Machado-Dias

Trata-se do falecimento de um dos seus ilustres  sócios honorários e um dos maiores responsáveis pelo sucesso da Revista do Clube Tex Portugal e por esses motivos o Clube Tex Portugal encontra-se de luto, daí termos escutado algumas palavras do seu Presidente, o José Carlos Francisco:À família do Jorge Machado-Dias, os meus mais sentidos pêsames, em meu nome pessoal e em nome do Clube Tex Portugal, Clube pelo qual o Jorge Machado-Dias tanto fez em especial sendo o responsável maior pelo Design (Capa e paginação) dos primeiros dez  números da revista do Clube, revista que sem o Jorge Machado-Dias certamente não seria o que hoje é, reconhecida mundialmente como uma grande publicação dedicada ao Ranger, inclusive pelos responsáveis da Sergio Bonelli Editore.
Vai em paz, Jorge Machado-Dias!
Saudades eternas deste teu Amigo que muito se orgulha de ter trabalhado contigo desde 2005 para o BDJornal e de ao longo dos anos ter consolidado uma sã e especial Amizade.

Jorge Machado-Dias e o orgulho pelas suas revistas do Clube Tex Portugal

Também pedimos um breve depoimento ao João Miguel Lameiras (crítico, divulgador e livreiro)  a propósito da partida do já saudoso Jorge Machado-Dias:
Não sei precisar quando conheci o Jorge Machado Dias, mas deve ter sido num Festival da Amadora, provavelmente em meados da década de 90, quando ele criou a editora Pedranocharco que, entre outras coisas, publicou diversos livros de José Carlos Fernandes, com destaque para Alguém Desarruma essas Rosas, a primeira antologia de histórias curtas do autor.
Fomos-nos encontrando por aí, em especial nos Festivais e na Tertúlia BD do saudoso Geraldes Lino, de que ele era um frequentador bastante mais assíduo do que eu, mas foi quando criou o BD Jornal que colaborámos mais assiduamente, tendo eu publicado diversos textos nessa publicação, alguns dos quais até foram pagos, coisa rara num editor sempre no limiar da sobrevivência.
Desde que ele deixou de frequentar os Festivais e foi morar para as Caldas, os nossos contactos eram muito mais esporádicos, embora ele se mantivesse bem atento ao que eu escrevia, divulgando os meus textos no Público no seu blogue muitas vezes antes de eu próprio o fazer, o que foi um dos motivos para ter deixado o meu blog em “pousio”.
O Machado Dias era um entusiasta e esse entusiasmo reflecte-se nos trabalhos que criou, com destaque para o BD Jornal, ou nas publicações a que esteve ligado, como a revista do Clube Tex, em cujas páginas nos cruzámos pela última vez.
Vou sentir falta de ver os meus textos no seu blog, mas sobretudo, vou sentir falta do Machado Dias
.

João Miguel Lameiras e a Revista do Clube Tex Portugal, em cujas páginas se cruzou pela última vez com o Jorge Machado-Dias

Para finalizar, ouvimos também um sincero e sentido depoimento de alguém que conviveu bastante nos últimos tempos com o Jorge Machado-Dias, um nome importante da Banda Desenhada portuguesa e cuja amizade com o Jorge veio ainda do século passado, o José Hartvig Freitas, um dos principais editores (e tradutores) de BD em Portugal:

José Hartvig de Freitas

Entrei no mundo da BD em 1999, quando a Devir começou a editar as revistas da Marvel, e eu passei a ser o responsável pelo departamento editorial na empresa. A partir daí, o Jorge Machado Dias tornou-se numa daquelas pessoas omnipresentes no panorama da edição de BD à minha volta, por vezes pelos melhores motivos, noutras vezes nem tanto.
Encontravamo-nos nos festivais e em tertúlias, e de início aqueles modos meio bruscos dele fizeram com que eu não simpatizasse especialmente com ele, impressão que não era melhorada por aquilo que eu apenas poderia referir como a passagem meio desastrada dele pela edição, em que deixou atrás de si um rasto de ressentimentos de autores, chatices e dívidas, de que eu ia ouvindo ecos.
Mas a verdade é que o tempo ajuda a sarar muitas feridas e mais más impressões iniciais ainda, e com esse tempo, aprendi também a ver que o Jorge era uma pessoa com muitos talentos, que nem sempre tinham encontrado a sua melhor expressão, que era alguém com um apesar de tudo considerável conhecimento do meio, e sobretudo, uma pessoa bem simpática, com alguma capacidade de auto-crítica e de se rir de si próprio, mesmo que daquela maneira meio “despassarada” dele.
Ao ritmo de algumas (poucas) colaborações no BD Jornal e de muitas conversas, acabámos por nos tornar amigos. O acaso quis que nestes últimos anos nos tivéssemos tornado vizinhos, aqui nas Caldas, onde passo uma quinzena por mês, e onde retomámos contacto.
Ao longo dos últimos anos convivi bastante com ele, em conversas regulares no café em frente de casa dele, aqui a pouco mais de 5 minutos a pé da casa onde fico nas Caldas, onde ele me explicava os livros e as investigações que estava a fazer e a escrever, me contava histórias da vida dele, de África, e sobretudo, do seu mergulho no mundo da BD nos anos 80, quando trabalhou para várias editoras ao longo dos anos, antes de se tornar ele próprio editor (e era também um desenhador bastante bom).
Destes últimos anos de privar com ele retenho o seu bom humor face a tragédia da sua saúde, que piorava de ano para ano, o constante fumo do cigarro que se recusava a abandonar, e o seu carinho pela Clara.
Na verdade, a morte dele apanhou-me mesmo de surpresa. Nestes últimos oito ou nove meses, tinha a sensação de que ele não estava pior do que antes, e embora ele me contasse das suas chatices, de metastases e mais, fiquei convencido que ele ainda aqui estaria por mais uns bons anos.
Não vou dizer que tenha sido um dos meus grandes amigos, mas ele vai deixar alguma saudade, em mim, e neste nosso pequeno meio da banda desenhada portuguesa.
“.

A homenagem de Jorge Machado-Dias aos 63 anos de Tex, onde evidencia as suas qualidades ímpares para o desenho referenciadas por José Hartvig de Freitas

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

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