Entrevista exclusiva: TONY FERNANDES

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco, com a colaboração de Antonio Carlos Moreira e José Manoel Alvarez na formulação das perguntas e de Bira Dantas na caricatura.

Olá, Tony Fernandes, e bem-vindo ao blogue português de Tex. Para os que ainda não o conhecem, vamos a uma pequena apresentação de si mesmo e do caminho percorrido na sua carreira. Que lugar tiveram os quadradinhos na sua infância? E quais foram as suas leituras de BD na infância e adolescência?
Tony Fernandes: Grande, Zeca! É uma honra ser entrevistado por você, pode acreditar, meu querido bengala friend de além-mar… (Rsss…). Vamos nessa… os quadrinhos (ou quadradinhos, como vocês dizem por a í), na minha infância? Eles foram as minhas primeiras leituras, fora os livros escolares. Eu os descobri (as personagens Disney) na biblioteca da escola primária em que eu estudava e me apaixonei pela linguagem. Assim passei a comprar e a coleccionar: Pato Donald, Zé Carioca, Tio Patinhas, Brasinha, Gasparzinho, Bolinha, Mindinho (3 personagens dos irmãos Harvey), Luluzinha, Bolinha, Flintstone, Pepe Legal, os Jetsons, e outros. A minha mãe era professora, em casa tínhamos muitos livros, uma biblioteca, mas os livros não me interessavam, excepto pelas belas ilustrações. Li muitas BDs na adolescência, como: Buck Jones, Arizona Kid, O Judoka, Superman, Batman, o Fantasma, Mandrake, Flash Gordon, Brick Bradford, Tintim, Asterix, Lucky Luke, Smurfs, Modesty  Blaise, Buck Jones, Tim Holt, Reis do Faroeste, Arizona Kid, Flecha Ligeira, Milar, O Escorpião, Capitão 7, Golden Guitar, Super Heros, Pabeyma, Mônica, Cebolinha (7 títulos made in Brasil) e, principalmente, super-heróis Marvel e DC, inicialmente. Estes super-heróis, naquela época, eram lançados pela EBAL (Editora Brasil América Ltda), do Rio de Janeiro. A EBAL e a RGE (actual ed. Globo) dominavam o mercado de BDs, enquanto a editora Abril só tinha Disney. Também li muitas BDs de guerra e de terror, como: Combate, Kripta, Spectro, e outras.
Comprava também, numa importadora aqui de São Paulo, todos os meses, muitas revistas da extinta editora americana Gold Key. Adorava: Voyage to the Bottom of The Sea, Turok (ambas desenhadas por Giovanni Ticci), Lost in Space (de Dan Spiegle), Might Sanson, Banana Split, etc. Nesta época, de facto, eu era um coleccionador. Foi graças a essas revistas importadas que comecei a aprender um pouco de inglês.

O que é para si a Banda Desenhada, como linguagem e como experiência profissional?
Tony Fernandes: Eu acho que a Banda Desenhada (como dizem vocês), para a minha formação foi muito importante, pois foi através dela que tomei gosto pela leitura e aos poucos fui me interessando pelos pocktes books da editora Monterrey, que tinha uma gama de séries maravilhosas como ZZ7 e Brigite Monfort e uma imensa linha de bang bangs. Esses livros de bolso só tinham textos, obviamente, porém traziam belas capas pintadas pelo mestre Benício, que dava um show de arte. Depois dos pocktes comecei a interessar-me por obras literárias de peso (clássicos da literatura universal) e nunca mais parei de ler, principalmente bons livros. Fiquei fascinado pelas BDs e como tinha já um pequeno dom para “rabiscar” comecei a tentar fazer o meu primeiro super- herói que se chamava Super Atómico (baseado em DR. SOLAR, o Homem Atómico). Era ridículo… (Rsss…). Os traços eram toscos…

Como começou a sua história como desenhador de Histórias em Quadradinhos, uma vez que antes disso você desenvolveu outros projectos de sucesso, mas sem actuar como desenhador?
Tony Fernandes: Veja, bengala friend, o meu negócio sempre foi comunicação e não necessariamente BDs. Tudo o que se refere a comunicação, como: cinema, rádio, teatro, jornalismo, TV, música, etc., sempre me fascinou. Quando me perguntavam o que eu queria ser quando eu crescesse, dizia:”Trabalhar com comunicação”. Por que esta área sempre me atraiu eu não sei dizer porque… sempre fui fascinado por comunicação e como as BDs faziam parte do curriculum das faculdades de comunicação entrei de cabeça nesses estudos, pois também as adorava. Naquela época o Alvaro Moya (professor e quadrinhólogo da USP – Universidade de São Paulo), lançou um livro chamado Shazam, que falava sobre a linguagem das HQs (como dizemos no Brasil) e mostrava que estas tinham a mesma linguagem do cinema. Fiquei encantado. Este livro passou a ser a Bíblia dos estudantes de comunicação da época. No entanto, não parti para as editoras. Parti para as agências de publicidade e tudo o que encontrei foram propostas de estágios indecentes com pequenas remunerações durante um ano. Fiz alguns desses estágios, mas eu queria praticar o que aprendera em diversos cursos que eu havia feito. Não me davam chance e eu acabava mesmo sempre era indo no bar da esquina buscar sanduíches, cigarros e cafezinhos para os mais velhos. Mesmo assim, aprendi muito sobre técnicas observando os feras trabalhando. Coisas que nenhuma escola ensinava, que só aprendemos na prática. Mas descobri que o metiê publicitário era uma panela muito fechada, difícil de entrar, e que também os meus desenhos eram ridículos quando os comparava aos profissionais que conheci nas agências. Pensei: “Desenhando vai ser difícil, talvez como redactor eu tenha mais chance. ”Mera ilusão. Acharam os meus textos fracos. Decepcionado, deixei os estágios e fui trabalhar como caixa de banco, depois saí e fui trabalhar numa imobiliária no centro. Um dia comprei uma revista de BD e vi um anúncio chamado “Oi  Eu Aqui!” (na quarta capa). O nome da editora era M&C (Minami & Cunha). Chamei o amigo Wanderley Felipe, que morava no mesmo bairro e que também adorava rabiscar em seus cadernos e decidimos fazer uma BD de 10 págs. de terror e levar para a M&C Editores. Ficou uma porcaria, é claro… (Rsss…).

Você sempre esteve ligado a publicidade e propaganda e à Banda desenhada, qual destas paixões veio primeiro? Trabalhar em publicidade ou trabalhar como desenhador e editor da Banda Desenhada?
Tony Fernandes: Na real eu tentei, como disse anteriormente, as agências, primeiramente. Dei-me mal. Desisti e quando vi o tal anúncio que citei acima decidi (com o amigo) atacar a tal editora. Ante a simples possibilidade de me tornar um futuro profissional de uma das áreas de comunicação que eu adorava empolguei-me e decidi pedir a conta do emprego. Odiava ter que trabalhar de terno e gravata, num país tropical. O meu pai queria matar-me (Rsss…). Dizia que eu era maluco… acho que ele tinha um “Q” de razão… (Rsss…).
VOLTANDO A FALAR NA M&C  EDITORES…
Eles não gostaram da gosma que apresentamos, mas não chutaram o pau da barraca, foram gentis, educados,  e mandaram a gente procurar estagiar na casa do Ignácio Justo (nosso grande mestre), para pegar o jeitão do desenho, da anatomia e da linguagem das BDs. Assim, na verdade, comecei mesmo foi publicando uma outra BD pela M&C.
A coisa funcionava assim…  Nós, os novatos, mandávamos o material para a editora, eles passavam o nosso trabalho para um dos grandes profissionais do staff deles, que acabava refazendo duas páginas para mostrar para a gente como é que a coisa deveria ser feita. Os profissionais detonavam a gente, é óbvio… (Rsss…). Alguns desistiam da carreira de desenhador de BDs, outros, que eram teimosos como eu e o parceiro, optavam em insistir. Sempre pensei assim: “O jeito é aborrecer os caras se queremos publicar. Não temos nada a perder. Ou eles nos mandam para outro lado ou dão uma chance”. E não é que a persistência deu certo. Graças, é claro, aos editores da M&C, que nos incentivaram mandando-nos para o lendário “Barraco do Justo”. Só não sei se foi para nos ajudar ou para se livrarem da gente… (Rsss…). Aprendemos muito com o mestre, que jamais cobrou um centavo para ensinar os seus discípulos. Devo muito a este grande homem de espírito elevado. No “Barraco do Justo, conheci e convivi com muitas feras do traço.

Como foi a sua passagem pelo mercado publicitário?
Tony Fernandes: Eu diria, relâmpago… (Rsss…). Dei-me mal, não é? Como expliquei acima comecei, de facto, publicando na M&C, depois pela editora Saber, onde eu e o Felipe fizemos um almanaque cujo título era Sargento Bronca, uma série a La Recruta Zero, de Mort Walker, que satirizava os alemães e a Segunda Grande Guerra Mundial. Na sequência, eu e o Felipe começamos a colaborar para o jornal Folha de S. Paulo, no Suplemento Infantil, fazendo uma  BD criada pelo Felipe que se chamava Pré-História. Eu escrevia e ele desenhava. A série era interessante e contava a evolução do homem, como a descoberta da roda, do fogo, etc… saía no caderno de domingo. Mas, durou pouco, não tínhamos pique de produção. Também fizemos personagens Hanna-Barbera para a ed. Abril, Os Flintstones, Pato Donald, letras para os balõezinhos (dei-me mal nisso, também), mas o Felipe deu-se bem. Ele sempre levou jeito para letreirar. Depois, quando as revistas da Hanna-Barbera foram para o Rio Gráfica e Editora fomos fazer: Trapaleão, Formiga Atómica, etc., para o Estúdio Ely Barbosa (animador e autor da Turma do Gordo e do Zeca Apostador – para o Sílvio Santos, actual dono do SBT). AH… o Ely, infelizmente faleceu, mas ele também fez um desenho animado para um antigo comercial da DDDRIM, uma empresa de dedetização, que fez sucesso na TV.
Na época antidiluviana, o Ely tinha fechado um contrato para produzir as personagens americanas no Brasil e havia muita gente fazendo freelancer para ele. Inclusive nós. Eu e o Felipe éramos como irmãos, vivíamos grudados… parecia coisa de gay… (Rsss…). Eu era o mais velho. Onde eu ia arrastava ele comigo. Entramos no ramo por pura insistência minha. Isto tudo aconteceu na década de 70. Foi só na década de 80, que após começar como freelancer para a revista Akim (da extinta ed. Noblet) que acabei sendo contratado como assistente de arte. O emprego veio a calhar, pois eu tinha me casado, havia nascido a minha primeira filha (Cristiane). Tenho 4 meninas: Cristiane, Letícia, Priscila e Patrícia, que se tornaram belas mulheres e deram-me 5 netinhos maravilhosos. Viver de freelancer não dava futuro, pensei, principalmente, para um pai de família. Segurei o emprego. Algum tempo depois, alguém ligou para a editora procurando alguém do Depto. de arte para fazer um freelancer para uma certa  agência. Não me lembro bem quem foi… só sei que decidi encarar a coisa.
E foi aí que pela primeira vez fui chamado para fazer o meu primeiro freelancer numa agência. O dinheiro era dez vezes mais do que os preços da BDs. Não tive dúvidas e fui fundo, afinal, eu tinha família para sustentar. Fiz o freelancer, mas mantive o emprego na Noblet por um bom tempo (5 anos). Meu trabalho, como assistente de arte, era retocar os originais de Akim, Mister No, Vampirella, Carabina Slim, etc. O trabalho era um pé no saco, mas eu precisava do emprego e do dinheiro. Foi lá que conheci o estimado bengala friend Marcos Maldonado (veterano letrista de Tex e inúmeras publicações de grandes artistas brasileiros e internacionais e de diversas editoras). Ele era o letrista oficial da casa, pois a maioria dos desenhadores não sabia letreirar as suas histórias, inclusive eu…  É mole? Por sorte, nas revistas da Noblet, que eram quase todas feitas com material importado, sempre faltavam umas dez ou quinze páginas. Daí o Paulo Hamasaki, meu superior, que era o director de arte, perguntou-me: “Você não quer fazer essas páginas que faltam, meu jovem? Gosto dos seus textos de humor.” Aquilo era a oportunidade que eu sonhava. Assim, passei a publicar na revista Mister No uma personagem cómica chamada Jerónimo Dias (um bandeirante – o tema da série era sobre a colonização portuguesa no Brasil). Na revista Akim publiquei durante 5 anos seguidos uma série chamada Capitão (Buana) Savana e nas revistas de westerns, como: Carabina Slim e Gidapp Joe eu publicava, mensalmente, Águia Azarada, um índio trapalhão. Fora isto eu também fazia alguns passatempos e curiosidades que também ajudavam a preencher as páginas que faltavam. Isso tornou o meu trabalho popular e o meu nome conhecido no mercado editorial. Foi ainda lá na Noblet que eu e o Hamasaki recebemos um convite para desenharmos para a extinta Bloch Editores as séries: Trapasuat e Os Trapalhões, que faziam muito sucesso na TV brasileira. Em 83 ou 84, não tenho certeza, pedi a conta da Noblet para montar o meu próprio estúdio e aí sim comecei a trabalhar sério com as agências desenvolvendo grandes campanhas, criando jingles, redacções, storyboards, etc. Eu, Adão Gonçalves e o mestre Salatiel de Holanda (duas feras em publicidade) associamo-nos. Montamos um esquema chamado S.O.S Agência e começamos a atender as grandes, como: J.W.Thompsom, Mcan Erickson, Young Rubican, Mauro Salles, etc. Também atendíamos empresas directamente, como: Yakult, São Paulo Alpargataz, e outras, desenvolvendo: Estampas,  folders e até campanhas inteiras. Deu para facturar bem, na época.

Tony, você se define como um melhor escriba (argumentista) do que desenhador. Como nasceu esse interesse pelos roteiros?
Tony Fernandes: Sempre adorei escrever. Sempre tive facilidade. Com certeza, escrevo bem melhor do que desenho. Sou um escriba nato. Talvez eu tenha sido um escriba egípcio em “outra encadernação”, como apregoam os espíritas… (Rsss…). Quem sabe? Sempre achei que um bom argumento segura um desenho medíocre ou razoável. O texto, para mim, sempre foi mais importante do que o desenho, apesar dos desenhadores acharem o contrário. Obviamente, unir uma boa arte a um bom argumento é o ideal. Mas, nem sempre isto é possível. Vide as séries americanas. Trabalhei na Abril escrevendo Disney e lá descobri que a maior dificuldade para se produzir Disney no país era justamente a falta de bons roteiristas. Desenhadores bons havia aos quilos, mas roteiristas…hmmm…  tanto é que o bengala friend Júlio de Andrade Filho, na época, destacou-se como um dos mais produtivos escribas brasileiros de Disney. O cinema nacional também sofre do mesmo mal: péssimos roteiros, em geral. Passei a desenhar, por esforço, por necessidade. Como eu já disse, comecei fazendo BDs de terror, ficção-científica, etc., mas desisti ao ver os trabalhos dos outros amigos da classe. Eles arrebentavam. Conscientizei-me de que eu era um péssimo rabiscador. Tornei-me definitivamente um escriba, mas um desenhador frustrado (Rsss…).
Escrevia contos, uma centena de livros de diversos géneros, contos eróticos, fazia traduções do inglês para o português, criava slogans, letras de músicas (minha outra grande paixão), etc. Porém, um dia, um editor para o qual eu escrevia livros eróticos (Ino G. Alhanat, da extinta Acti-Vita\Onix) disse-me:” Toninho, você é capaz de fazer uma BD erótica ou de super-herói?”.
Aquela era uma chance boa de criar novas personagens. O problema é que eu tinha passado 5 anos fazendo desenhos cómicos, na Noblet, apesar de ter feito a primeira BD de Fantasticman para a ed. #12 da revista Jogos & Diversões dessa mesma editora, estava enferrujado para voltar a fazer anatomia.
Criava os roteiros, mas não conseguia desenhá-los, nem a pau… (Rsss…). Daí comecei a fazer parcerias com gente boa de traço e comecei a formar uma equipa da pesada. Mas, eu vivia frustrado, pois escrevia as séries mas não conseguia desenhá-las bem. Sempre fui consciente das minhas limitações. As primeiras BDs de Fantasticman fui eu que as fiz e, hoje, quando olho para aquilo acho uma porcaria, sinceramente. Mas, os roteiros eram bons. Actualmente, acho que o meu trabalho melhorou muito, mas ainda não está 100%. Tem muita gente boa de traço no Brasil e no mundo. Evolui no traço por esforço, estudando e dedicando muitas horas na prancheta e no computador. Jamais me considerei um grande desenhador. O desenho cómico: considero a minha praia. O resto é puro esforço, com certeza…

Quem você acha que foi ou é o melhor argumentista brasileiro? E estrangeiro?
Tony Fernandes: Estão aí duas questões duras para responder porque, apesar de termos poucos escribas de qualidade se os compararmos à gama de desenhadores que temos por aqui, ainda assim tem muita gente que eu respeito… no Brasil, admiro os bengalas friends do passado, como: Wilde Portella, Ataíde Braz, Júlio Emílio Braz, Angeli, Fernando Gonsales, Tony Carson, Paulo Paiva, Carlos da Cunha, Minami Keizi, Gedeone Malagola, Luchetti, Primaggio, Nelson Cunha e Júlio de Andrade Filho, Antonio Cedraz… os demais que me desculpem. Não dá para lembrar todos… (Rsss…). Dos gringos, do passado,  admiro: Stan Lee (ele foi genial), Roy Thomas (Conan), Edgar Rice Burroughs (Tarzan) , Alan Moore (Watchman e Liga Extraordinária), Francisco Ibañez (Mortadelo e Salaminho), Goscinny (Asterix), Hergé (Tintim), Jerry Robinson (criador do Coringa, arqui-inimigo do Batman), Bill Finger (escritor da primeira BD do morcegão), Jerry Siegel (escriba genial de Super-Home), Milo Manara, Guido Crepax, Marge (autora de Luluzinha e Bolinha. Uma das poucas mulheres que se deu bem fazendo BDs, num mercado dominado pelos homens), G.L. Bonelli (o genial criador de Tex), Guido Nolitta (Mister No), Claudio Nizzi (Tex), Gianfranco Manfredi (Mágico vento), Frank Miller (Cavaleiros das Trevas\Ronin), Charles Moulton (Mulher Maravilha), Gardner Fox (The Flash), Will Eisner (The Spirit), Chris Claremont e John Byrne (X-Men), e outras feras.

Como desenhador você tem um estilo diferenciado, lembrando em alguns aspectos o Flávio Colin, como podemos ver em sua criação mais recente, a Apache. Como você seguiu esse estilo e não o desenho tradicional, mais realista, se assim podemos dizer?
Tony Fernandes: Caramba, isto é uma honra, my friend, mas um insulto ao mestre Colin, eu acho (Rsss…). Pois é, meu caro, Zeca Willer… ou será, Zeca Benfica? (Rsss…). Brincadeira, José Carlos… muita gente acha que um desenhador é capaz de fazer de tudo, ou seja, qualquer estilo, mas isto não é verdade. Há gente especializado em desenhos fotográficos, caricaturas, etc. Poucos são aqueles que destrincham qualquer estilo ou técnicas diversificadas. Olha, conheço muita gente que detona em figuras humanas, mas que não sabem fazer uma boa e simpática figura cómica ou infantil. Quando vejo o Corrado Mastantuono desenhando Tex e Disney fico imaginando o quanto ele suou a camisa para chegar a este ponto. Admiro esse cidadão, que é um fantástico desenhador italiano. Como eu fiz durante anos desenhos cómicos fazer um desenho mais realista ficou difícil. Portanto, sou ciente de que minha arte é estilizada e adoro trabalhar com o claro e escuro, luz e sombra, técnica muito utilizada pelo grande mestre o saudoso Flávio Colin, que também era fã de Milton Caniff (um grande mestre americano do passado). Acredito que o Colin adorava e estudava Cannif tanto quanto eu. Entretanto, sou ciente de que o meu trabalho está anos-luz da arte fantástica do Colin. Outra coisa, com os preços que recebemos no Brasil, fica difícil a gente conseguir fazer um trabalho mais elaborado. Em Apache, eu fazia textos e lápis de duas edições por mês, ou seja, mais de 100 págs. O pessoal que trabalha comigo ajuda na digitalização e tratamento das imagens, letras, cores, revisão, continuidade, etc. Mas, a barra pesada eu seguro e já tive que trabalhar aos sábados, domingos e feriados (dia e noite) para entregar os arquivos digitais no prazo, muitas vezes. Já escrevi e desenhei 8 edições de 52 págs. da série Apache. Isto significa mais de 400 págs. Não é fácil. O ritmo é pauleira, como se diz por aqui. Por hora, rompemos a parceria que fizemos com a editora As Américas, que heroicamente conseguiu lançar 6 edições de Apache, infelizmente. Mas, como diz o ditado: “Nada é eterno”. Daqui para a frente nós vamos dar continuidade à série, no formatinho, até à edição 12, para completarmos a primeira temporada. Isto é, se conseguirmos fechar com as editoras que se mostraram interessadas. Isto vai depender muito da proposta financeira, obviamente. Caso contrário nós mesmo editaremos a série em tiragens pequenas e fazendo pré-venda pelos nossos blogues. Depois, quando a primeira temporada encerrar oficialmente, a ideia é fazermos álbuns em cores, de luxo, desta série e de outras séries, como: Fantatsicman, Piratas das Antilhas, etc.
Nenhum editor brasileiro gosta de admitir, mas a distribuição em bancas, por aqui, anda de mal a pior. Nem os heróis gringos vendem como antigamente. Tem muito editor “balançando” ou operando no vermelho. Principalmente depois que a DINAP (empresa do grupo Abril) comprou a segunda maior distribuidora do país, a Fernando Chinaglia. A coisa foi monopolizada e piorou. Dizem que o Angelo Rossi (filho de um dos maiores ex-accionistas do grupo Abril) adquiriu o sector Rio de Janeiro/São Paulo, mas não sei se isto é facto… requer confirmação. Alguns dizem que a má venda se deve à WEB, aos telemóveis, aos videojogos; às altas tecnologias que invadiram o mundo dando, assim, maiores opções de entretenimento aos jovens. Apesar de concordar, em parte, com isso. Acho também que as tiragens pequenas e a má distribuição também acabam fazendo com que os poucos leitores de BDs que ainda existem desistam de procurar as suas personagens favoritas, feito loucos. Achar Tex (que é tradicional) e Apache nas bancas brasileiras é uma aventura. Isto significa: baixas tiragens e um trabalho mal feito de distribuição, com certeza. Sei o que estou falando. O cidadão, para ler a sua BD preferida, tem que ficar circulando de banca em banca e até viajar para outra cidade na esperança de encontrar a sua revista. Isto é ridículo. Mas, é a realidade. Cansei de receber e-mails de leitores reclamando que não encontravam Apache. Como podemos brigar com a única distribuidora no país? Na América, eles também sofrem do mesmo mal. Por lá só existe a Diamond Comics. O nosso país é imenso e utilizamos o meio de transporte mais caro do mundo: o rodoviário. Atingir cidades, como: Manaus (região amazónica, que fica no norte do país, a milhares de quilómetros dos grandes centros urbanos) sempre foi problema. A nossa famosa rodovia Transamazónica, que cortava a selva, há muito tempo foi abandonada e hoje é um atoleiro em determinados trechos. Fora ela há pistas rodoviárias em péssimas condições pelo Brasilzão afora. Cidades pequenas? Elas jamais viram milhares de títulos nacionais ou importados, pois o frete, o custo operacional não compensa. Já fiz distribuição alternativa, no tempo da Phenix, e sei muito bem do que estou afirmando. Também já viajei por diversas capitais do país e tive que enfrentar essas pistas intransitáveis. Caminhoneiro sofre, bengala friend, apesar de hoje termos muitas rodovias privatizadas. No passado, as revistas eram distribuídas pelo transporte ferroviário – implantando pelos ingleses há séculos -, mas este meio de transporte há muito tempo deixou de ter investimentos por aqui. Temos muitos rios e o transporte fluvial seria uma boa opção, mas ele praticamente não existe.

Qual artista brasileiro foi seu grande inspirador como desenhador? E estrangeiro?
Tony Fernandes: Não houve um inspirador. Houve vários… Brasileiros: Getúlio Delphim, Ignácio Justo, Flávio Colin, Nico Rosso, Edmundo Rodrigues, Gedeone Malagola, Sergio Lima, e o saudoso mestre e amigo Jayme Cortez. Todos eles foram grandes mestres. Desenhadores, Gringos? Jack Kirby, Joe Kubert (Sargento Rock), Alex Raymond (Flash Gordon\Jim das Selvas), Harold Foster (Tarzan\Príncipe Valente), Neal Adams (Batman, etc.), Milton Cannif (Johnny Hazard), John Buscema (o Da Vinci das BDs que fez muitos heróis Marvel). Sem dúvida, para mim, esses são os caras. Ou melhor, foram os caras… (Rsss…). A maioria já “subiu a serra, lamentavelmente”.

Qual foi a sua primeira criação publicada?
Tony Fernandes: Sargento Bronca – uma sátira militar, pela extinta editora Saber (1973)-, como já citei acima.  De lá para cá jamais parei. Os leitores tiveram que me engolir, como diria o nosso ex-técnico da selecção brasileira de futebol e tri-campeão do mundo Jorge Zagalo… (Rsss…).

Como foi a sua passagem pelo mundo editorial brasileiro?
Tony Fernandes: Maravilhosa. Trabalhei com muitas editoras, como: Abril, RGE (actual Globo), Onix, Acti-Vita, Grafipar, Bloch Editores, Saber, M&C, As Américas, ed. Ninja, ed. Cristal, Imprima, Noblet, Ninja, Nova Sampa, Evictor, Tálamus, Escala, Atenta e outras… não posso reclamar da vida. Provavelmente eu sou um dos autores menores que mais publicou as suas próprias personagens neste país.  Num país subdesenvolvido como o Brasil viver de BDs é coisa de maluco e graças a Deus consegui facturar bem – no passado -, fazendo o que mais gosto: BDs.
Com elas criei as minhas filhas. Fiz mais BDs na vida do que campanhas publicitárias, pode acreditar. Adoro BDs… isto é paixão antiga… (Rsss…). Por quê? Quem pode saber? Dizem que quando o nanquim entra no sangue a gente pira. Ou seja, ele é pior do que cocaína, vicia mesmo… (Rsss…). Mas, infelizmente, parece que a época das grandes tiragens de revistas impressas está morrendo por todo o mundo, aos poucos. Talvez, quando nós, da geração antiga, que adoramos sentir o cheiro do papel, formos para a “terra-dos-pés-juntos”, as revistas de BDs impressas se tornarão cada vez mais raras e elitistas. A geração WEBCOMICS já está aí e chegaram para ficar. Para sobreviver editores e autores devem estar sintonizados neste novo mercado multimédia.

Você tem uma longa carreira nos quadradinhos e inúmeras personagens criadas, como Fantastic Man, Signus, Ninja, O Pequeno Ninja, Fantasma Negro e a mais recentemente, Apache. Qual delas você acha que foi a sua melhor criação?
Tony Fernandes: Quadradinhos? Achei o termo engraçado… (Rsss…).  Signus foi criado pelo bengala brother Beto (Alberto Jorge de Almeida Lima), que também foi o co-autor em Fantasma Negro. Fantasticman, ao meu ver, foi uma boa criação e este super-herói tem fãs até hoje, acho isto incrível… (Rsss…). Apache, também achei uma boa ideia, assim como: Buana Savana & A Turma da Selva (Sátira, infanto-juvenil,  dos antigos heróis da selva), O Inspector Pereira  (os casos policiais do inspector foram feitos para serem desvendados pelos leitores e eles foram publicados em mais de 50 jornais do Brasil). Porém, Piratas das Antilhas (mini-série que ainda não foi publicada, mas que está pronta), também achei uma boa … mas, você sabe… aquele que teve sucesso, de verdade, e que chegou a vender 125 mil exemplares na década de 90 foi O Pequeno Ninja. O Ninjinha foi o meu recordista de venda. Digo, nosso. Meu e do W. Felipe. Portanto, é natural termos um apreço especial por ele. Mas, veja bem… sou suspeito para falar das minhas criações… prefiro ouvir a opinião sincera dos leitores, Zeca. Sempre estou aberto para aceitar críticas e sugestões.

E como surgiram os Estúdios Tony Fernandes e agora o Pegassus? São Estúdios mistos onde você faz as duas funções, publicitário e banda desenhista?
Tony Fernandes: Tive vários estúdios e editoras, diversas empresas constituídas, cuja finalidade era desenvolver projectos editoriais e campanhas publicitárias, pois BDs são muito oscilantes e não dá para manter um estúdio só produzindo elas, principalmente, na actualidade. No passado era mais fácil. Chegamos a ter na década de 90 cerca de 40 títulos variados (do infantil às foto-novelas pornográficas e BDs) nas bancas do país, lançados por diversas editoras. Na verdade fizemos – eu e a minha equipa – milhares de revistas inclusive de textos e fotos, de diversos géneros e destinadas ao público leitor masculino e feminino, team, etc. Houve uma época em que qualquer tipo de publicação no país vendia muito. Durante a gestão do ex-presidente Jósé Sarney (que não sai de Brasília ou da política nem que a vaca tussa), tudo vendia. Dizíamos que até imundície em lata vendia, na época. Acho que nunca mais venderemos tantas revistas no Brasil como foi naqueles dias remotos. Produzimos aos quilos “catecismos” (revistinhas de sacanagem para adultos, cujo grande precursor no passado foi o mestre Carlos Zéfiro), e publicações de sexo explícito (fotográficas ou em forma de foto-novela erótica), quando a censura prévia deixou de existir no país (na década de 80). Hoje, com a queda brusca das vendas, a maioria dos títulos em banca tiveram que abaixar as suas tiragens. Actualmente, viver só de BDs é praticamente loucura. Até Mónica e Cebolinha vendem menos hoje. Na Itália e na América, até hoje, existem editores que só publicam BDs, como é o caso da Bonelli Comics, da Marvel, DC, e outras. No Brasil nunca tivemos um editor que conseguisse sobreviver apenas com as histórias em quadradinhos, quer fossem elas importadas ou nacionais. Isto não é incrível? Somos um continente, … mas o hábito de ler nunca foi o hábito do público brasileiro que ainda, em sua grande maioria, não sabe ler ou escrever. Os governos jamais investiram pesado em educação ou em saúde (dois factores importantes para qualquer país, mas que sempre foi uma tragédia no Brasil). Manter o povo na ignorância parece ter sido uma estratégia usada pelos nossos governantes para manter o povão alheio aos movimentos sociais mundiais. Cultura, para esses presidentes do passado, era sinónimo de problema, principalmente no período em que fomos dominados pelo militarismo. Vocês tiveram por aí o Salazar, nós, sucessivos ditadores militares. Livrar-se dessa gente não foi fácil e muita gente teve que morrer para que as coisas fossem mudando aos poucos. Ainda não somos uma maravilha, mas o país e a mentalidade do povo tem melhorado bastante. Educação e saúde ainda são problemas no meu país.

Num país que já teve grande editoras de quadradinhos num passado não tão distante, além de muitas dezenas de pequenas e médias editoras, você já criou a Phenix, a ETF Comunicação Comercial Ltda e a Ninja, se não nos enganamos. Como é ser dono de uma editora pequena no Brasil? Precisa matar um leão diariamente para poder pagar as contas no final do mês?
Tony Fernandes: A editora Ninja não era minha, as demais, sim… acho que vou entrar para o livro dos recordes de tantas editoras que já abri e que foram, literalmente, para o saco… (Rsss…). As primeiras foram aventuras, pois eu nem sabia como funcionava a parte financeira e administrativa da coisa. Eu era muito jovem e só sabia fazer textos e rabiscos toscos. Eu era, de facto, metido a empresário de comunicação sem entender coisa nenhuma de empresa editorial. Tive que pagar um “pedágio” (portagem) muito caro para aprender tudo o que sei hoje sobre o mercado editorial brasileiro.
Poucos autores conhecem tão bem o mercado e os bastidores quanto eu. Estou escrevendo um livro (fim de carreira), que contará a verdade sobre os bastidores e toda a sacanagem que rola por trás da coxia das BDs brasileiras. Quem viver verá.
VOLTANDO AS MINHAS EXPERIÊNCIAS EDITORIAS….
Na Phenix eu já estava mais maduro, mais preparado psicologicamente, experiente, e a coisa, digamos,  rolou bem melhor e chegamos até a ganhar um bom dinheiro com os nossos produtos ( cerca de 42 títulos mensais). Mas, veja bem… o que nos sustentavam eram as nossas revistas pósters de cinema e rock. Graças ao New Kids in The Bloch, Tom Cruise, Guns and Roses, Van Damme, Robocop, Bruce Lee, Madonna, A-ha, e outros títulos é que conseguimos investir nos autores nacionais e criamos uma grande equipa de autores e desenhadores que produziam almanaques de 132 páginas inteiramente de BDs brasileiras. Sem as revistas pósters as BDs jamais seriam viáveis. Aqueles pósters davam-nos suporte financeiro para pagar as BDs, que nunca foram um grande sucesso de venda. Vendiam mais ou menos, algumas pagavam-se, outras davam prejuízo, mas o que facturávamos com os pósters dava para segurar a situação. Quando as vendas em 1993 caíram – após a expulsão do até então presidente Collor do poder -, aí não deu mais para segurar a barra, meu amigo… tivemos que parar com as BDs, lamentavelmente. Deixamos uma grande família da BD nacional ao Deus-dará. Levei um ano para pagar as dívidas. Como já citei, jamais vi uma editora nacional vivendo só de BDs. No Brasil, isto sempre foi utopia.
Para ser editor num país subdesenvolvido é preciso ter peito, ter coragem e estar consciente de que você vai ter que enfrentar uma série de obstáculos pelo caminho, inclusive, a péssima distribuição. Tem que ter jogo de cintura (saber onde negociar os encalhes, criar promoções, etc.), pois o mercado é super instável. Hoje: vende. Amanhã: não vende mais. É preciso criar rápido e adaptar-se às nuances do mercado.

Hoje, qual o segmento de maior rentabilidade no Estúdio Pegasus?
Tony Fernandes: Atendimento a empresas e publicidade. Ou seja: propaganda & marketing.
BDs fazemos, por teimosia, pura paixão, pois se depender dos preços aviltantes… muitas vezes já tive que tirar do bolso para cobrir os colaboradores. Para ser franco mantive Apache, por 6 edições pela editora As Américas, no vermelho. Tanto nós, quanto o editor investimos no título, sem obtermos um bom retorno financeiro. Coisa de malucos… mas, valeu, de qualquer forma. Jamais obtive lucro com a série, apesar de receber um preço razoável por ela, pois manter um estúdio, pagar os tributos, e suportar uma boa equipa custa caro. O que eu recebia mal dava para pagar os colaboradores. Os outros trabalhos ajudavam-me a manter a pequena equipa de Bedesistas Bedesistas? Isto não soou bem… Este termo existe, em português, bengala brother? (Rsss…)

Bedesistas não se usa em Portugal, o mais comum é banda desenhista, pois o neologismo é admissível, já que “desenhista” é sinónimo de desenhador (aquele que desenha), mas voltando às perguntas, nas suas editoras você também dava chance a outros grandes desenhadores brasileiros. No Almanaque Phenix Super Ação, que lançou pela Phenix, você não publicou nada seu. Mas tinha Slane, de Jean Okada, Raio Negro, de Gedeone Malagola, o Vingador Mascarado, de Sebastião Seabra, Os Destemidos, de Marco Ramelo e Sebastião Seabra, além de outras histórias curtas do mesmo Seabra, Wilson Fernandes e Ramelo. Como foi publicar estes artistas consagrados da Banda Desenhada brasileira?
Tony Fernandes: Sem dúvida, foi um grande prazer dar espaço para esses amigos todos, visto que poucos editores, mesmo naquela época remota, davam espaço para esses grandes e talentosos desenhadores brasileiros. No país esta coisa é cíclica… de repente, aparece um editor “doido” (no bom sentido), e abre o campo para os autores brasileiros. De repente, a coisa afunda e fica todos a ver navios. Alguns anos se passam e aí surge outro “doido” , idealista, como eu fui e a coisa renasce. Já vi este “filme” muitas vezes. Toda a editora que se meteu a fazer BDs nacionalistas foi para o saco. Isto deve ser maldição… (Rsss…). Espero que um dia isto mude.
É preciso investir em mídia, fazer divulgação. Editor pequeno não tem estofo para sustentar uma boa estratégia de propaganda e marketing e editor grande nem sonha em investir em autores desconhecidos do grande público, como nós. Somos conhecidos ou reverenciados por um pequeno nicho da sociedade brasileira, que gosta e curte BDs, esta é que é a verdade. O Maurício só foi por aí acima quando se aliou a editora Abril, uma empresa sólida, que fez uma grande tiragem e divulgou a Mónica. Mas, ao fechar o contrato com a CICA, que na época fabricava o mais popular extracto de tomate chamado Elefante também ajudou muito a divulgar as personagens do Maurício através das animações dos comerciais de TV.
Infelizmente, José Carlos, a classe é muito desunida, cheia de “vedetas”, “estrelas”, narcisistas bobos… e há até uma guerrinha entre alguns autores, assim como também há conflitos entre editores e autores, por pura idiotice. Estes não se tocam que um precisa do outro. Autores não são nada sem um editor de coragem e vice-versa (pelo menos no passado era assim). Actualmente, com a ascensão da informática pelo mundo cada autor pode até dar-se ao luxo de lançar e vender o seu próprio título sem depender da “máfia editorial” que ditava as normas.

Fantasma Negro tinha desenhos maravilhosos do Beto, que tinha um traço fantástico. Em outras personagens havia o também excelente traço do Bilau. Como foi trabalhar com estes grandes desenhadores, de talento imenso, mas que não seguiram desenhando quadradinhos para as grandes editoras? E por onde andam eles?
Tony Fernandes: Como disse no início, por falta de competência minha para desenhar eu acabava chamando esses grandes amigos e profissionais maravilhosos para desenhar as séries que eu criava e escrevia. Montei um dream team, na época, maravilhoso. Alguns deles já eram publicitários experientes, ganhavam bem, e faziam BDs por paixão. Como sempre, os grandes profissionais, assim como as mulheres, não ficam nesse ramo difícil por muito tempo. As mulheres refugiam-se nas empresas de confecção, como estilistas, ou em empresas que trabalham com animação e os homens fogem para as agências de publicidade. Actualmente, tanto o Beto como o Bilau, estão atendendo agências em seus estúdios. No entanto, as agências hoje já não pagam tão bem quanto antes e tem algumas até que dão canseira para pagar. O Beto tem ameaçado voltar às BDs e até fez Springville para a edição # 6 de Apache. A minha intenção era regatá-los, trazer essas feras de volta às BDs, mas, com este mercado agitado, que sobe e desce, está cada dia mais difícil.

Porque, em sua opinião, as Histórias em Quadradinhos de faroeste (western) praticamente desapareceram do mercado brasileiro?
Tony Fernandes: Devemos isto à grande mídia, certamente. Hollywood parou de fazer westerns, que anos depois foram ressuscitados, graças a Deus, pelos italianos. De repente, o cinema e a TV empestaram de super-heróis musculosos e de mangás. No Brasil, hoje, só dá isso, com excepção do nosso genial Maurício de Sousa (autor da Turma da Mónica) e Tex. Outro dia alguém disse: “Revistas seriadas? Só vai sobrar Mónica nas bancas!”. Também acredito nisso.
O pior de tudo é que os editores simplesmente esqueceram-se de gente, como eu, como você e outros mais, que apreciam o género. Isto prova que esses bobos e seus marketeiros de meia tigela não têm a mínima visão de mercado e cada vez mais este nicho está encolhendo.

Porque você criou a revista Apache, por prazer próprio, ou porque achou que o mercado brasileiro carecia deste tipo de publicação?
Tony Fernandes: A história é longa. Vou tentar resumir… sempre comprei e li Jonah Hex, Zagor, Tex, Blueberry, além de revistas cómicas e de humor. Quando vi que Tex estava aí firme cavalgando há anos, deduzi: existe um público que está sendo menosprezado pelos editores. Como sempre gostei do tema sonhava em um dia fazer uma série de western. Mas, foi em 2005, durante um almoço com o dono da editora Noblet (costumávamos reunir-nos toda sexta), que este velho amigo, ex-patrão e editor disse que tinha intenção de lançar um bang-bang. Nesse dia estava presente também Paulo Hamasaki, outro ex-funcionário do Sr. Joseph Abourbih. Naquele final de semana comecei a estudar em casa a possibilidade de criar uma série de western, após ler alguns livros sobre aquela época, tais como: O velho Oeste e Enterrem Meu Coração Na Curva do Rio, ambos de Dee Brown.
Na semana seguinte, não fui ao almoço e até comecei a rabiscar algumas ideias. Inicialmente pensei num cowboy. Porém, achei que ia ficar parecido com Tex. Daí decidi fazer algo diferente, inusitado… “Por que não criar uma mulher, bela e sensual?” Pensei. Afinal, mulheres raramente são protagonistas de séries de western. Achei isto interessante. Pensei em propor a tal índia, ainda indefinida para o proprietário da Noblet.
Na outra semana nós três reunimo-nos, mais uma vez, no almoço, como era de praxe, naquele mesmo bat local. Foi então que descobri que o Sr. Joseph já havia encomendado uma revista do género para o Hamasaki, decidi não tocar no assunto, para não atrapalhar a negociata do amigo.
Dois meses depois, fui na editora para nos encontrarmos para o pontual almoço. Então ouvi o ex-chefe queixando-se de que o meu amigo do Oriente (o Hamasaki) até aquele momento não havia entregado a série Cavaleiros do Oeste, que ele havia proposto fazer. Diante disso, eu disse ao Editor que eu também estava desenvolvendo uma ideia, falei a respeito e ele mostrou-se interessado em ver algumas páginas. Expliquei que ainda não tinha nada pronto, mas que eu poderia preparar o material, desde que ele se comprometesse a não abandonar a ideia de lançar Cavaleiros do Oeste. O homem concordou. O Hamasaki chegou e fomos almoçar juntos.
Após fazer um brain storm com o meu pessoal decidi traçar de vez o visual da personagem num rápido esboço e tentei escrever o primeiro roteiro. Não gostei. Várias tentativas depois, surgiu uma ideia boa: a história que narrava como ela, a índia Apache, viera ao mundo e porque se revoltara contra os caras-pálidas. Gostei da ideia, apesar de usar um velho cliché. Porém, a ideia de termos uma índia no papel principal de uma nova série de BD era original, ao menos, no Brasil.
Eu jamais tinha desenhado cavalos, diligências, trens, ou alguma BD do género. Tive que recorrer ao Google e às bibliotecas para fazer uma rápida pesquisa iconográfica. Descobri que desenhar western não era fácil. Por isso, os cavalos da primeira edição saíram sofríveis, tenho que admitir.
Praticamente fiz sozinho. Fiz a primeira edição em uma semana, a pincel, no formato A4, péssimo para trabalhar e para definir detalhes. Na semana seguinte levei o material para apreciação do editor e do amigo Hamaski que estava entregando, finalmente, o tão esperado Cavaleiros do Oeste. Ambos gostaram do meu material e assim eu e o Hama deixamos os nossos originais para avaliação, numa boa, sem espírito de concorrência.
Quinze dias depois, fui chamado na editora e informado que eles não iam lançar Apache, pois achavam que o material tinha muita violência. Assim, ela acabou voltando para a gaveta, ou seja, para o HD do meu computador. Cavaleiros do Oeste foi publicado, mas não passou, infelizmente, do primeiro número. Durante 5 anos ofereci Apache aqui e acolá até que por fim a editora As Américas decidiu apostar no projecto. Portanto, sou grato ao Marco Antonio Faceto até hoje. Sem ele Apache não existiria.

Como está sendo ver Apache chegar à edição 6 nas bancas, num país onde os quadradinhos independentes ou de pequenas editoras normalmente não passam da segunda edição?
Tony Fernandes: Foi bom. Foi uma pequena vitória, não minha ou nossa, mas das BDs nacionais. Já me dou por satisfeito, bengala friend. O que aconteceu com Apache só pode ter sido coisa de Manitu. Conseguimos passar da edição 2, por milagre, mas não conseguimos passar da edição 6… (Rsss…). Sem traumas ou ressentimentos. Valeu. Mais uma vez pudemos dar nossa reles contribuição às BDs brasileiras. Apache deve continuar, estamos em negociação. Caso não consigamos fechar com os dois editores que estão interessados estou pensando em editá-la pelo nosso velho selo: Phenix (ressuscitando-o das cinzas, como na mitologia… Rsss…).

Actualmente temos então a Apache nas bancas e recentemente o Chet deu o da sua graça numa edição especial comemorativa. Parece que o Western está retornando às bancas brasileiras, onde por muitos anos o Tex, e depois o Mágico Vento cavalgaram solitários. Acha que esta volta é para ficar?
Tony Fernandes: Apache? Tínhamos… (Rsss…). Por hora nossa guerreira está sem “tenda”.
Chet é uma grande personagem. É um clássico brasileiro que também é bem conhecido aí em Portugal. Cheguei até a coleccionar Tex nos anos 70\80, se não me engano… anos depois conheci Watson Portella, no Rio de Janeiro (irmão do querido escriba Wilde). Chet está saindo num acto heróico da parceria entre Toninho Lima (desenhador), Wilde Portella (escriba e criador) e do valente Fabio Chilbisk, desenhador, dono de estúdio e editor independente. Esses “malucos” para mim são heróis, tanto quanto Arthur Filho, que de forma independente está chegando à edição # 15 da revista Billy The Kid. Essa gente tem fibra, tem garra.
A realidade do mercado nacional é a seguinte: o antigo leitor de faroestes há muito tempo abandonou os pontos de vendas, deixou de procurar por esses títulos de faroeste nas bancas, devido à escassez deles. O que restou foi um pequeno nicho de leitores, que são fãs de Tex há anos. Tex, que apesar de também estar sendo mal distribuído ainda tem uma boa visibilidade nos pontos de vendas devido às diversas edições do Ranger que saem mensalmente no Brasil e também tem um público fiel. Quando sai um outro título como Apache ou Chet nas bancas, por uma editora desconhecida, que tem poucos títulos de BDs e que, portanto, não têm boa visibilidade, esses títulos novos acabam se perdendo em meio a enxurrada de mangás e revistas de super-heróis musculosos americanos editados pela Panini em solo brasileiro. Fica muito difícil um leitor do género descobrir que uma nova série existe. Nesse caso: está faltando estratégia de marketing por parte das pequenas e médias editoras, é óbvio. Raramente os jornaleiros colocam um título desconhecido de western ao lado de Tex, também porque os formatos são diferentes. Formato – outro erro de estratégia nossa.

E já pensou numa edição especial do Chet com a Apache? Certamente o Mestre Wilde Portela, criador do Chet, daria a maior força. Mas cuidado, pois diferente do Tex que é um cowboy respeitador, o Chet é bem atirado para as donzelas.
Tony Fernandes: Falamos muito sobre isso (eu e o Wilde e os bengalas friends), mas não deu tempo… Primeiro porque as BDs de Apache, apesar de terem um final a cada edição, tinham uma sequência cronológica na próxima. Isto é, são contínuas. Cheguei até a pensar numa edição especial, comentei com o editor, mas ele não estava a fim de investir nesse segundo título da série.
Mas, isto não está fora de cogitação. Uma hora esse encontro pode acontecer entre Chet, o taradão, e Apache, a arredia. Vai ser um pega para capar danado, aposto… (Rssss…). Ou quem sabe os dois se ajustam e até se casem (Rsss…)… Hmmm… isto até daria um grande argumento, com certeza.

A pergunta recorrente a todos os editores é: porque a grande maioria das editora brasileiras publicam Banda Desenhada em formatinho, abandonando os padrões americano ou europeu?
Tony Fernandes: Custo operacional: Menos papel, gasta-se menos e o produto pode, supostamente, lucrar mais. Só tem um grave detalhe: Formatinhos aparecem menos nos pontos de venda.

Passemos agora ao Ranger que dá nome a este blogue. Qual o conceito editorial que você tinha de Tex, quando ele estava no mercado na mesma época em que você desenvolvia projectos de BD de editoração própria ou com terceiros?
Tony Fernandes: A primeira vez que encontrei Tex numa banca, folheei e não gostei dos desenhos do Galep, porque eu estava acostumado com os desenhos impactantes de Jack Kirby, dos heróis Marvel, e até pensei que os desenhos de Tex eram feitos no Brasil (olha o preconceito que eu tinha. Até nós achamos que o nosso material é inferior ao americano), é mole? “Se não tem impacto visual, só pode ser nacional”, pensava eu. Mas, achei interessante o formatinho e decidi comprá-lo e adorei o texto. Daí comecei a coleccioná-lo. Isto, acho que foi nos anos 70, era uma edição da extinta Vecchi, eu acho… sempre apreciei uma boa história e as BDs do Tex pareciam filmes antigos. Adorei. E aos poucos fui acostumando-me com o estilo certinho, sem a força de um Kirby, mas que também era bem feito. Nenhum show de arte, mas era bom. Aliás, na Noblet, a maioria do pessoal que trabalhava no departamento de arte coleccionava Tex, Zagor e Chet. O interessante é que a editora italiana, um dia, ofereceu Tex para o nosso editor, antes de oferecer para a Vecchi. O cidadão não acreditou no produto. Conclusão: fecharam com a Vecchi e Tex passou a vender 100 mil exemplares, eu  acho, ou coisa assim. O editor ficou mordido de raiva. Um dia decidiu lançar Carabina Slim e Giddap Joe para concorrer com Tex, mas esses títulos tiveram vida curta (Rsss…). Tex é imbatível, é óbvio.

Você como fã de Tex, naquela época, não se sentiu tentado a também criar uma personagem do velho Oeste?
Tony Fernandes: Nem sonhava, José Carlos. Eu não tinha capacidade para fazer desenhos com um tema complicado desse. Meu negócio era cartuns e desenhos cómicos ou infantis. Talvez eu pudesse arriscar a escrever um roteiro, mesmo tendo pouco conhecimento sobre a época, mas não queria arriscar. Eu já era ciente que para escrever sobre o tema era preciso estudar minuciosamente a história do Oeste. Veja, eu podia até tentar, mas desenhar? Nem pensar.

Sabemos do sucesso de Tex na Itália, mas em sua opinião, porque Tex está há tanto tempo nas bancas de revistas do Brasil?
Tony Fernandes: Porque conquistou não só leitores, como também editores e gente do metiê que, por serem fãs, também não deixaram o título morrer. Tex saía de uma editora e logo outra pegava, pois todos sabiam que a personagem vendia bem, principalmente, no sul e no nordeste do país, onde os leitores vivem mais em contacto com a Natureza e identificavam-se com o velho Oeste americano. A trajectória do Ranger neste país está sendo incrível. Chegou a edição #500! Um fenómeno editorial.

Como você vê hoje, o mercado brasileiro para as Histórias em Quadradinhos, e principalmente em relação a Tex Willer?
Tony Fernandes: Acho que a tendência mundial é WEBCOMICS, esta é a nova realidade e esta aí já há algum tempo fazendo sucesso no Japão. Nas bancas as vendas andam cada vez mais minguadas. As tiragens pequenas impostas pela única distribuidora do país também contribuem para a má distribuição, má visibilidade e, consequentemente, os leitores acabam desistindo de procurar os produtos. Não acredito que as BDs impressas vão desaparecer de vez. Mas, creio que as tiragens tendem a ser cada vez menores, mais luxuosas, com preços lá em cima, destinadas àqueles que, como nós, adoram o cheiro da tinta de impressão gráfica.

Hoje que você é um autor afirmado, gostaria de trabalhar com Tex?
Tony Fernandes: Não sou um autor afirmado, caro amigo, apesar de ser veterano. Estou aí, na briga… (Rsss…). Amado por alguns, odiado por outros… isto faz parte da profissão, eu acho. Neste ramo é impossível agradar gregos e troianos. Quem é que não gostaria de trabalhar com Tex, sendo bem remunerado, trabalhando com calma, caprichando na arte rica em detalhes? Acho que isto é o sonho de todo escriba ou desenhador do mundo. Entretanto, pelo visto, raros são os estrangeiros que conseguem entrar para o staff dos Bonellis. Eles dão preferência aos italianos. Estão certíssimos. Dão valor aos seus autores. Mas, eu jamais deixaria de criar e também de tentar publicar as minhas próprias personagens no meu país e no mundo. Digo sempre: “Nós somos as BDs nacionais. Se pararmos, ela morre.

O que significaria para si escrever histórias de uma lenda dos quadradinhos como Tex?
Tony Fernandes: Maravilhoso. Prefiro escrever Tex do que Batman e Super-Homem. Seria uma espécie de consagração do mercado externo. Um reconhecimento pelo esforço que venho fazendo todos estes anos tentando escrever boas histórias, mesmo sendo mal remunerado. Mas, acho isso uma utopia, bengala friend… (Rsss…).

Na sua opinião, quem ou o quê é Tex?
Tony Fernandes: O símbolo-mor de todos os cowboys das BDs, como foi John Wayne, para o cinema. Tex também simboliza a resistência de uma personagem, ao tempo, e à persistência de seu criador. Tex é a prova cabal de que o que é bom atravessa as eras. A italianada investiu pesado no Ranger e com ele colheu frutos que nenhuma de outras suas publicações pôde alcançar, eu acho, até então. Dos títulos deles, Tex, Ken Parker e Mágico Vento são os meus preferidos.

E em sua opinião, o que faz de Tex o ícone que é?
Tony Fernandes: Ele simboliza e prega a justiça a qualquer preço. No fundo, ele é um justiceiro. Todo mundo admira um tipo desses ou gostaria de agir como ele.

E como você vê o futuro do Ranger?
Tony Fernandes: Edições luxuosas nas livrarias – a peso de ouro -, filmes no cinema e TV e… WEBCOMICS! Não há outra saída.

Qual o conselho que você diria para os jovens fãs de Tex, que tendo habilidades e talento para o desenho, queiram iniciar a carreira como desenhador no Brasil?
Tony Fernandes: Ser um desenhador no Brasil nunca foi difícil. Basta você entrar numa grande editora como funcionário. Você será bem remunerado e estará realizando o seu sonho, em geral, retocando ou desenhando personagens estrangeiras. Outra opção é trabalhar para as editoras americanas, como muitos por aqui fazem. Agora, se você quer desenhar e publicar as suas próprias personagens aí a coisa complica. Vai ter que ralar muito e ter sorte. Acho que, no meu caso, Deus foi muito generoso comigo, por diversas razões, como: nunca fui um excelente desenhador. Mesmo assim houve épocas em que consegui ganhar um bom dinheiro fazendo BDs. Também consegui publicar diversas personagens criadas por mim em diversas empresas editoriais. E, por fim: Consegui sustentar a minha família e criar 4 filhas, nesta profissão de maluco e estou nela até hoje, de bengala (Rsss…). Sou um legítimo bengala boy, um dinossauro… não posso reclamar da vida ou da sorte. Quando eu era jovem eu tinha duas tendências (coisas que eu adorava): música e desenho. O meu velho pai vivia dizendo-me: “ Filho, essas porcarias não dão dinheiro! Porque não tenta outra carreira profissional decente?” Formei diversos grupos musicais, tocávamos em festivais estudantis e chegamos até a ganhar alguns deles, aparecemos em programas de TVs, tocamos em bailes e festas e chegamos até a gravar um CD. Depois, que comecei a trabalhar com uma gravadora famosa fazendo cartazes para pontos de venda e capas de discos, descobri como era difícil e podre o mundo da música, mil vezes pior do que o editorial. Vi gente famosa, rastejando, para gravar um disco e sendo chacoteada, por não venderem nada, etc. Poucos, muito poucos se dão bem no mundo da música. Milhares entram na área e saem no fundo, sem gravar, sem ter seu talento reconhecido. Achei aquilo o mundo cão. Assim, acabei levando a música apenas como diletantismo, apesar de adorar. Hoje a coisa está bem pior. Depois do MP3 as gravadoras do país estão todas no lodo, em sua grande maioria, assim como os estúdios de gravação. O pessoal hoje produz um disco em casa, no computador. Estúdio só serve para ensaios. Mesmo assim, acabei facturando algum dinheiro com a banda promovendo bailes em clubes sofisticados. Mas, também tocamos em muitas espeluncas… (Rsss…). No mundo das BDs, dei sorte e, de imediato, comecei até a facturar alguns trocados, quando iniciei a carreira.
DE VOLTA AO CONCEITO DO MEU PAI… aos poucos provei a ele que estava equivocado. Quem disse para ele que eu só queria dinheiro? Sonhava em realizar-me, também, profissionalmente. Anos depois, ele viu-me numa boa, casado, e reconheceu que havia errado. Disse-me que se orgulhava de mim.
Hoje apregoo que jamais devemos desestimular os jovens ou subestimar o potencial deles ou as suas escolhas profissionais, seja lá qual for a vocação destes. Pois, só Deus sabe o destino de cada um. O melhor conselho é: jamais desista de seu sonho! Goahead!

Voltando a si, como você analisa a evolução da sua carreira?
Tony Fernandes: Muito lenta, no que se refere ao meu desenvolvimento pessoal artístico. Mas, no geral, foi meteórica. Tudo aconteceu muito rápido, para mim, na minha vida. Fiz um zilhão de coisas simultaneamente. Sempre fui agitadão, uma máquina para trabalhar, naquilo que gosto. O Hamasaki costumava dizer, quando trabalhávamos juntos: “Cara, você é um cavalo para produzir!” Sempre fiz o que gosto com prazer, com vontade. Acho uma dádiva ganhar dinheiro fazendo aquilo que gosto. Receber para fazer o que gosto, para mim não é trabalho, é diversão. Mas, o ritmo desenfreado também cansa, stressa e é preciso, às vezes, dar um break , “trocar a pilha”… (Rsss…). Tudo aconteceu a milhão, para mim, tanto na profissional quanto na vida pessoal. Fui pai com 18 anos.

Quais são os seus projectos para o futuro? Pode nos antecipar alguma coisa?
Tony Fernandes: Tentar lançar as minhas webcomics no Brasil e no mundo, de forma profissional, é claro. Relançar Apache. Editar ou comercializar: Buana Savana & A Turma da Selva, Piratas das Antilhas, Perdidos no Infinito (nova série de Fantasticman), etc.
Ando pensando em lançar os nossos títulos, em edições pré-pagas, pelo meu selo, via meus blogues, em cores, com pequenas tiragens, para coleccionadores e continuar trabalhando duro enquanto o “Chefe” me der forças e boas ideias, sem tirar o pé da publicidade, é óbvio. Jamais sonhei em ser um Disney ou um Maurício. Sempre sonhei em ser o Tony, que sou. Um maluco, um sonhador, um batalhador, que sempre desejou lançar as suas BDs e que graças a Deus tem sempre conseguido publicar os seus trabalhos, ao longo dos anos, apesar de não ser nenhum fenómeno de arte ou de venda. Se o meu trabalho fosse tão ruim como afirmam alguns, da oposição, eu não teria ficado todos estes anos nas bancas, acredito eu. Já ministrei e ainda dou aulas de arte através do Sistema Pégasus de Ensino Avançado – um curso que mantenho há mais de 10 anos. Já formei e coloquei muita gente neste mercado. E sempre disse aos meus alunos: “Seja você mesmo. Dinheiro é consequência apenas de um bom trabalho!
Afinal, Pelés e Ronaldos não nascem a toda hora, entretanto uma equipa não é composta apenas de super craques! Faça parte da equipa esforçando-se para fazer o melhor ante as condições. Levante a cabeça e vá à luta. Acredite em si mesmo. Todo trabalho evolui, com o tempo, basta esforçar-se.

Que quadradinhos você lê actualmente e com quais mais se identifica?
Tony Fernandes: Compro Tex, Mágico Vento, Disney (adoro os traços dos desenhadores italianos) e até alguns heróis Marvel, quando gosto dos desenhos. Mas, devo confessar que não tenho saco para ler mais BDs, pois passei a vida toda escrevendo e lendo elas… (Rsss…). Prefiro um bom livro. No momento estou lendo Os Pilares da Terra, uma obra sensacional, em dois tomos.

Como você explica o facto de que as melhores séries de faroeste (Tex, Blueberry, Comanche ou Lucky Luke, por exemplo, se bem que este último em estilo humorístico) sejam todas de origem europeia?
Tony Fernandes: Lucky Luke, bem lembrado. Adoro esta série do Morris, é genial… (Rsss…). A meu ver, parece que o público leitor europeu cultua mais o velho Oeste americano do que os próprios americanos… a América evoluída e envolvida em alta tecnologia, inclusive espacial, parece ter perdido aos poucos a sua real identidade e aos poucos esta perdendo o seu poder que impunha sobre as demais nações. A economia americana está abalada, pelas guerras loucas efectuadas no Médio Oriente, nos últimos anos, onde zilhões de dólares foram queimados em vão, pelo desemprego em massa. A América criou a globalização e está sendo vítima dela. As empresas americanas, que circulam e estabelecem-se pelo mundo afora em busca de mão-de-obra barata estão indo de vento em popa, mas o povo está sofrendo na pele as consequências com altas taxas de desemprego. Não há império ou mal que sempre perdure, é óbvio. A China vem aí, a Índia e o Brasil… aguardem (Rsss…). Não tenho nada contra o povo americano, mas, sim, contra a política externa praticada por seus irracionais governantes. Julgam-se os donos do mundo e levados pela ganância ceifaram milhares de vidas de seus jovens em combates sem sentido.
Eles apregoam a democracia, mas não são nada democráticos no que tange à política interna dos demais países. Ditam as normas, suplantam regras internacionais, etc. Tudo em prol do pseudo-capitalismo, que há muito tempo está falido.

Além de BD, quais livros você lê? E quais são as suas preferências no cinema e na música?
Tony Fernandes: Sou geminiano e, portanto, tenho sede de cultura. Vivo lendo, estudando, tocando, compondo, não paro nunca. Quando não estou na prancheta, estou no computador, no violão, na guitarra, no contrabaixo, num teclado ou num piano, sempre inventando alguma coisa (adoro compor e fazer arranjos musicais). Portanto, leio tudo quanto é livro que me desperte a curiosidade. Mas… tenho paixão especial por: ficção-científica, ufologia, religiões da antiguidade, descobertas científicas, futebol, história da música, cinema, publicidade, marketing, mulheres, histórias reais do passado e do velho Oeste e de povos antigos. Enfim, não dispenso nunca um bom livro. Cinema? Comédias, filmes de acção e ficção-científica. Música? Sou músico desde que me conheço por gente. Pertenço à Ordem dos Músicos do Brasil. Portanto, não tenho preconceito. Curto ópera, rock (anos 50/60/70 e actual), música clássica, samba, sertanejo, rap, pop, etc., desde que ela tenha alguma qualidade, quer seja melodiosa ou harmoniosamente falando. Música foi feita para agradar os ouvidos e não para desagradar os tímpanos. Música faz bem para a alma, bengala friend. Até os animais adoram uma bela melodia. Há muita coisa ruim hoje em dia no mercado musical internacional, mas alguma coisa se salva, sempre.

Finalizando com os seus blogues, você tem feito entrevistas maravilhosas nos seus dois blogues, resgatando para os mais novos histórias de grandes ícones da Banda Desenhada brasileira. Essas entrevistas vão continuar?
Tony Fernandes: Sem dúvida, grande Zeca. Já retomei as entrevistas, bengala friend. Mudamos e a companhia telefónica demorou para transferir a nossa linha, depois apareceu defeito na rede e acabamos ficando sem Internet e sem telefone fixo por uns 45 dias (só usávamos celulares – telemóveis, em seu país). Depois de muita briga, ajeitaram as coisas. Mas, aí entrou uma série de serviços para ontem e acabei ficando sem tempo de agitar os blogues. Mas, voltei a postar neles no final de Julho, eu acho. E para minha surpresa eles “ andaram sozinhos”. Estamos bombando em audiência, tanto no Bengalas Boys Club quanto no Tony Fernandes Estúdios Pégasus.
Ultrapassamos os 30 mil acessos, inclusive internacionais, e já temos até anunciantes. A coisa está evoluindo. Com certeza, vamos continuar firmes com as entrevistas. Afinal, elas são o forte dos blogues, despertam a curiosidade nos webleitores, além de resgatar grandes profissionais que acabam sempre revelando coisas dos bastidores.

Quem você ainda não conseguiu entrevistar, mas está sempre em sua lista de candidatos em potencial? E porquê?
Tony Fernandes: Maurício de Sousa, Benício, Ignácio Justo, Edmundo Rodrigues, Corrado Mastantuono, Stan Lee, Ignácio Justo, Paulo Hamasaki, Paulo Fukue, Wilson Fernandes, Moebius, Ticci, Bonelli, Shimamoto, Primaggio, e mais uma porção de gente que foi e ainda é importante para as BDs nacionais e internacionais. O pessoal da nova geração, então, nem se fala, tem gente à beça que ainda desejo promover e entrevistar, se Deus permitir, é claro.
Os meus talkies shows virtuais acontecem, sempre de forma descontraída. Esta é a minha marca registada. Trata-se de uma tribuna livre onde procuro resgatar gente do passado e apresentar os novos talentos de um jeito até escrachado, como dizem alguns. Mas, o que vale é a descontracção, é a conversa informal, onde primamos pela verdade, sempre, doa a quem doer. Mostrar o outro lado do mundo editorial, os bastidores, as experiências, mostrar a verdade nua e crua, deste mundo maravilhoso e oscilante parece ter despertado o interesse de muita gente pelo mundo afora, graças aos novos navegadores que traduzem os textos para qualquer idioma. Entre as nossas audiências a América está em segundo lugar, depois do Brasil. Web leitores de países, como: França, Inglaterra, Espanha, Dinamarca, Portugal, Itália, Rússia, China, Japão, Índia, Taiwan, México, Islândia, Eslovénia, África, Alemanha, etc., também visitam constantemente os nossos blogues. Isto é motivo de orgulho, pois comecei eles há menos de um ano atrás. Trabalhei muito neles e agora estou começando a colher os frutos.
UM DETALHE IMPORTANTE: ao longo da minha carreira convivi com muita gente importante do passado, ouvi muitas histórias interessantes contadas por eles, mas jamais pensei em colher um depoimento dessa gente boa de traço e criativa. O professor Gedeone Malagola (autor de Raio Negro e de inúmeras outras personagens e BDs), é um grande exemplo. Ele era meu amigo pessoal, frequentou durante anos os meus estúdios, as minhas editoras e jamais pensei em entrevistar o velho amigo. O homem partiu dessa para melhor e eu fiquei aqui pensando: “Poxa, por que eu nunca o entrevistei? Ele tinha tanta história incrível para contar, tanta sabedoria, tanta experiência de mercado, tanta visão…”.
Ouvi muitas de suas histórias. Muitas narrativas de suas experiências. Seus conselhos profissionais e até pessoais foram-me úteis. Confesso que hoje eu gostaria de poder compartilhar com todos esta experiência maravilhosa que tive com ele. Mas, como dizemos por aqui “mosquei”. Isto é, jamais pensei em registar os factos em fotos ou numa boa entrevista. Que Deus o tenha em bom lugar. Acho importante mostrarmos à nova geração a história de todos nós e a nossa experiência no ramo. Brigamos muito, todos, para, quem sabe, abrir um dia um bom caminho às futuras gerações. Quem sabe?
Todos nós vamos deixar este mundo um dia. Morremos, todos, a cada segundo. O mínimo que podemos fazer é deixar registadas as nossas experiências de vida, de luta, de derrotas e glórias. Isto, sim, é um legado importante: transmitir experiências vividas.

Bem, chegamos ao fim. Há mais alguma coisa que gostaria de dizer? Algo que não lhe foi perguntado e que gostaria que nossos leitores soubessem?
Tony Fernandes: Tais brincando? Acho que empolguei-me, falei demais, para variar… (Rssss…). Não te disse que adoro escrever? Esta entrevista ficou quilométrica, Zeca… aliás quero agradecer, de novo o convite e dizer que admiro muito o seu trabalho, sua paixão e dedicação ao nosso querido Tex. Outra coisa: Também sou grato por ter colaborado prontamente quando solicitei uma entrevista sua, para o meu blogue. Você, na época (no início de 2011), bateu recorde de audiência. Isto prova o quanto você é carismático, é popular, e é querido bengala brother. Muita paz, saúde, felicidade e prosperidade, para você, sua bela família, e a todos os que tiveram saco de ler este meu depoimento.

Caro Tony Fernandes, em nome do blogue português de Tex, agradecemos muitíssimo pela entrevista que tão gentilmente nos concedeu.
Tony Fernandes: Foi um enorme prazer! Um grande mano amplexo a todos os bengalas brothers do Brasil, do mundo,  e do nosso querido país irmão: Portugal! Vida longa ao Ranger!!!!
See you later, cowboys!

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

11 Comentários

  1. Só um detalhe, meus caros. O nome de um dos mestres que o Tony citou é Milton Caniff (um N, dois Fs), que foi o autor de Terry e os Piratas e Steve Canyon, mas NÃO de Johnny Hazard (um só Z! Não tentem procurar na Internet com dois Zs ou vão se arrepender!).

    Johnny Hazard era de autoria de Frank Robbins, um dos muitos desenhadores influenciados por Caniff (e seu colega Noel Sickles, que teve uma carreira muito curta nos quadradinhos), que mais tarde chegou a desenhar para a Marvel Comics.

    • Pedro, muito obrigado pelas suas correcções. Já procedi às alterações 😉

      Mestre Tony, fico satisfeito por ter gostado de ver a sua entrevista no modo em que a editorei, pois o meu objectivo era fazer um bom trabalho para atrair ainda mais a atenção dos nossos leitores. E quanto ao “presentinho” texiano, obrigado por ir pagar a dívida (…risos…) mas fique descansado, demore o tempo que for preciso que eu não cobrarei juros 😉

  2. Poxa, q grata surpresa, querido bengala friend, de além mar. Acabei de ler a entrevista e achei q ficou ótima, bem ilustrada e com excelente diagramação. Grato, pela força, grande Zeca e tenha um ótimo final de semana!
    Tá valendo!

  3. Ah… agora me lembrei… acabei me esquecendo de mandar à vc uma arte do Tex. Mas, como diz o ditado: “Promessa é dívida”.
    A semana q vem te mando este presentinho. OK?
    Pode cobrar… (Rsss…).

  4. De todas as entrevistas que li até hoje no blogue do Tex – e a lista é grande – esta foi uma das que mais me agradou. Tanto assim que até tive pena quando cheguei à última linha. Tony Fernandes tem o dom da comunicação, além do “bichinho” da criatividade, e o seu “papo” foi tão saboroso e agradável como uma reunião de velhos amigos (ou bengala friends… o termo mexe mesmo com a gente!) que gostam de rebobinar as suas memórias, falando do seu trabalho, das suas experiências, dos seus sonhos, dos seus passatempos, dos seus amores, das suas alegrias, das suas vitórias e dos seus fracassos, lembrando pedaços da vida como quem ouve músicas de um LP antigo que voltou a meter no gira-discos, mas pondo sempre o presente à frente do passado e continuando a olhar o futuro com esperança.
    Uma grande lição de optimismo, de humildade, de persistência, de dedicação profissional, de respeito pelos mestres, em suma, de saber “estar na vida”.
    Parabéns ao entrevistado e aos entrevistadores. E, claro, ao Bira Dantas, cujas caricaturas são sempre o máximo.

  5. É sempre positivo ler ‘os causos’ (o legal é esse grau de proximidade, de intimidade da narrativa) do Tony, a gente vai lendo e lendo, querendo um pouco mais, e descobrindo coisas boas, lembrando do que lemos e do que tem a mão deste guerreiro, das personagens (nos anos 1990 li muito o trampo dele!) – tenho uns nº do Pequeno Ninja aqui (e comprei um ou dois repetidos para pôr nas feiras de troca, que vamos fazendo para incentivar a leitura!), bem como, Almanaque Phenix, e que bom que APACHE seguirá, essa semana mesmo falávamos dela no fórum TEXBR e como disse ao Tony pelo Facebook a galera está na vontade de finalizar a saga, eu inclusive, e que venha umas edições encadernadas – é sempre bom termos um material com quantidade de páginas para lermos – compro os formatinhos e vou juntando para ler a saga inteira – tanto que espero achar os demais nº de APACHE agora na FestComix para já ler tudo de uma vez!!
    Vida longa aos pards, e é isto Tony, HQ Brazuca tem boa qualidade, só precisamos deixar de lado a nossa ‘viralatice’ sem sentido!!

  6. PARABÉNS Tony Fernandes, FANTÁSTICA entrevista. Muito interessante conhecer citações e histórias dos bastidores, muito instrutivo. Uma entrevista muito saborosa, que apesar de longa (e ainda bem que é longa), quem começa a ler não consegue parar pelo caminho.

  7. Quando o Zeca me convidou a ajudar com ideias para algumas perguntas desta entrevista, tive a certeza de que seria uma entrevista sensacional. Não por causa das perguntas, mas pelo grande papo que é o Tony Fernandes.

    Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente na Fest Comix 2010 em SP e depois continuamos nossos papos no Facebook, quando ele “fundou” a confraria dos Bengala Boys.

    Embora só o tenha conhecido pessoalmente agora, sou um leitor antigo de sua obra na BD, e já lhe falei de como admirava os desenhos de seus personagens nos traços do Bilau e do Beto.

    Tony Fernandes é dono de uma verve descontraída e irresistível. Um bom papo a qualquer hora e lugar.

    Grande abraço ao Zeca por mais uma entrevista espetacular em seu mundialmente famoso blogue.

    Ao Tony, além do abraço, agradeço por mais esta aula de vida, de carreira, de mercado editorial, publicitário e da Banda Desenhada.

    Alvarez

  8. Agradeço, de coração, aos bengalas friends: Bira, Alvarez e ACMoreira, por terem ajudado o cowboy Zeca Willer, nessa entrevista. E também sou grato a todos que teceram seus comentários. É sempre bom saber que o meu jeito de escrever, sem frescura, dá um sabor especial aos webleitores!
    See you later, cowboys!
    Muito sucesso em 2012 à todos!
    Muita saúde e paz, o resto a gente corre atrás!

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