Entrevista com o fã e coleccionador: Carlos Gonçalves

Entrevista conduzida por José Carlos Francisco.

Carlos GonçalvesPara começar, fale um pouco de si. Onde e quando nasceu? O que faz profissionalmente?
Carlos Gonçalves: Nasci em Lisboa, no dia 10 de Setembro de 1941. Tenho 66 anos portanto. Comecei a trabalhar muito cedo…naquele tempo era assim. Iniciei a minha actividade profissional no dia 1 de Outubro de 1953, com 12 anos. Os empregos iniciais foram vários, mas sempre bem remunerados, pois devido à minha desenvoltura como trabalhador, recebia muitas gorjetas. Isso permitiu-me iniciar a minha vida de coleccionador, que começou ainda no tempo do “Diabrete” que comprava, mas aquela colecção que me marcaria sempre e que seria feita até ao fim, foi a do “Cavaleiro Andante”, iniciada a 5 de Janeiro de 1952. Estas revistas eram ainda adquiridas com o pouco dinheiro que a minha mãe me dava, modista de profissão. Pouco a pouco fui comprando muitas mais: “Audácia”, “Oásis”, “Álbuns do Cavaleiro Andante e Números Especiais”, “Valente”, “Escudo”, “Titã”, “Salgari”, “Tigre”, etc.. A nível profissional e dois anos depois, empreguei-me num Armazém e desse para um escritório. Os meus estudos foram todos nocturnos. Fiquei neste escritório até ir para a tropa e ser incorporado para o Ultramar (Angola). Depois de regressar e de trabalhar neste escritório ainda poucos meses, decidi que era altura de começar a minha vida profissional a sério. Empreguei-me então numa grande empresa do Ramo Automóvel, ramo que segui sempre até à minha reforma. Em 1969 já era chefe e depois fui subindo, até que em 1972 era Chefe de Departamento e daí para Director Comercial foi um pequeno salto. Mantive esta categoria até à minha reforma, em finais de 2005.

Banda Desenhada de Carlos GonçalvesQuando é que teve início esta paixão pela Banda Desenhada, em especial pelo Tex?
Carlos Gonçalves: A minha paixão pela Banda Desenhada iniciou-se quando tinha 10 anos, ao ter acesso à revista “O Mosquito”, que um moço amigo possuía. Sempre comprei tudo o que me aparecia à frente, desde que fossem revistas de Banda Desenhada. Como possuía um certo poder económico com a minha actividade profissional, fui adquirindo muitas revistas brasileiras: “Guri”, “Gibi”, “Globo Juvenil”, “Lobinho” que comprava nas bancas dos Cinemas Salão Lisboa, Eden Cinema (Galo), Jardim Cinema e em muitos outros sítios que hoje já não existem. A Banda Desenhada portuguesa que fui comprando ao longo dos anos, acabaria por ser vendida em 1963, pois como estava a tirar o Curso na Tropa em Tavira, tinha que estar lá, além de vir de vez em quando a Lisboa, aos fins-de-semana e o pré mensal era de 3$50, o que de modo algum dava para os meus gastos e a minha mãe, coitada, pouco ganhava. Quando em 1964 cheguei a Angola, comecei a ganhar muito dinheiro de novo. Era altura de voltar a adquirir todas as revistas portuguesas de Banda Desenhada que se publicavam, incluindo as brasileiras que mandava vir do Brasil. É aqui que começa o meu interesse pelo “Tex”, bem como de muitos outros “heróis” de “cow-boys” de quem era fanático, editados pela Vecchi: “Heróis do Faroeste”, “Chacal”, “Chet”, “Ken Parker” e outras revistas de Terror (outro tema da minha predilecção). Quando regressei à Metrópole, voltei a adquirir pouco a pouco, as 50.000 revistas portuguesas de Banda Desenhada que hoje possuo.

Banda Desenhada de Carlos GonçalvesPorquê o Tex e não outra personagem?
Carlos Gonçalves: Embora seja um grande apreciador das aventuras de “Tex”, não quero dizer com isto, que ele seja o meu único “herói” preferido, no campo das Histórias aos Quadradinhos sobre o “Western”. Tenho muitas outras personagens de que gosto muito, tais como “Gene Autry”, “Matt Dillon”, “Wes Slade”, “Matt Marriott”, “Cisco Kid”, “Hopalong Cassidy” e, finalmente, “Ken Parker”, “Mágico Vento” e “Zagor” no campo italiano. “Zagor” é um misto de personagem de “cow-boy”, mas igualmente fabuloso nos seus enredos e dinâmico nas suas aventuras. O “Tex” é uma série excepcional pelos seus enredos e sempre teve excelentes desenhadores a ocuparem-se da série.

Banda Desenhada de Carlos GonçalvesO que Tex representa para si?
Carlos Gonçalves: Depois de ter uma colecção de cerca de 20.000 revistas brasileiras, onde abundam muitas aventuras de “super-heróis”, de Terror e de “cow-boys”, esta personagem surpreende-me, pois as suas aventuras, subordinadas aos seus enredos, são sempre magníficas e não cansam os leitores. A fórmula é simples e quase sempre do género que eram os antigos filmes norte-americanos: uma personagem má, que quer exercer o seu poder seja de que modo for sobre outras pessoas, na ganância da riqueza, quer para se apoderar do comércio, das minas, das diligências, do gado, das terras…a justiça que não funciona (ainda hoje é o mesmo) e aparece o nosso “herói” que sem medo, dá pancada em todos e vence-os de todas as forma e feitios. É pena não haver moças, mas isso é, provavelmente, um dos segredos da série.

Carlos GonçalvesQual o total de revistas de Tex que tem na sua colecção? E qual a mais importante para si?
Carlos Gonçalves: Eu tenho todas as revistas do “Tex”, pelo menos até ao final de 2006. Presentemente estou à espera que um amigo meu, que me costumava trazer essas revistas, venha a Portugal ou me mande as que me faltam. Não possuo claro, por falta de espaço, repetições, excepto os primeiros 150 números da “Tex Coleção”. Todas elas são importantes para mim, pois gosto de todas as revistas de Banda Desenhada, sejam estas de que personagem forem.

Colecciona apenas livros ou tudo o que diga respeita à personagem?
Carlos Gonçalves: Só colecciono livros do “Tex”. Embora coleccione muitos bonecos de PVC, ele não está incluído neste campo, pelas suas dimensões e também por muita falta de espaço minha, apesar de ter duas casas com Banda Desenhada. É que tenho muitos brinquedos, soldadinhos de chumbo, comboios, automóveis, cromos, etc.,etc..

Colecção TexQual a sua história favorita? E qual o desenhador de Tex que mais aprecia? E o argumentista?
Carlos Gonçalves: Sinceramente não tenho nenhuma história preferida. Quanto ao argumentista e desenhador preferidos, são os iniciais, como é lógico, embora ache que presentemente a série possua muitos artistas de valor. Ao longo dos anos apareceram muitos artistas de grande craveira internacional: Jesus Blasco, Guido Buzzelli, Marcello, etc., etc.. São tantos e todos eles souberam sempre interpretar na perfeição, o que era desejado para a criação de cada história de “Tex”.

Tex's GigantesO que lhe agrada mais em Tex? E o que lhe agrada menos?
Carlos Gonçalves: Dificilmente poderemos dizer o que nos agrada mais ou menos nesta personagem, pois a qualidade de todos os trabalhos e a simbiose que sempre existiu entre os vários argumentista e desenhadores, tem sido de tal modo benéfica, que o produto final é sempre da grande valor literário e artístico. Tanto quanto me lembre, nunca encontrei uma história menos conseguida, embora como é lógico, criar mais de 500 histórias só de uma personagem não seja tarefa fácil, sejamos justos. Portanto, vamos admitir que todas elas são boas.

Tex's AnuaisEm sua opinião o que faz de Tex o ícone que ele é?
Carlos Gonçalves: Como disse anteriormente, o sucesso de “Tex” encontra-se na qualidade dos argumentos e dos desenhos. Felizmente em Itália há escolas de argumentistas, que sabem explorar em pleno, os temas que lhe são pedidos e estes não são criados de ânimo leve. Cada um deles é estudado ao ínfimo pormenor e nada surge por acaso. Há sempre fundamentos históricos na criação de qualquer obra. Quanto aos desenhadores, todos eles são bons, pois o que praticam, fazem-no conscientes e com conhecimento de causa. Não nos podemos esquecer de que Itália é um país onde têm surgido grande Mestres do desenho: Hugo Pratt, Milo Manara, Guido Crepax, Magnus (Roberto Raviola), Guido Buzzelli de novo, Franco Caprioli, Battaglia, isto já para não falar daqueles que foram os Grandes Mestres Desenhadores Italianos, Rino Albertarelli, Vittorio Cossio, Giulio Ferrari, Giovanni Scolari, Guido Moroni Celsi, Cesare Avai, Franco Chiletto, Franco Bignotti, Renato Polesi e mais umas largas dezenas deles. Alguns destes artistas deixaram-nos nas páginas do “Cavaleiro Andante” belas histórias, que ainda hoje recordamos com saudade.

Almanaques TexPara concluir, como vê o futuro do Ranger?
Carlos Gonçalves: Tanto quanto penso, o “Tex” nunca estará em crise, como hoje acontece com o tema do “western”, pois a fórmula está estudada e tem dado frutos, pelo que seguindo a mesma linha de actuação, todos os leitores nunca se sentirão defraudados com a orientação que seja dada às histórias desta personagem. As novas gerações de leitores, que infelizmente nunca tiveram acesso às obras dos grande desenhadores italianos, pois hoje dificilmente esse material se encontra disponível, poderão mesmo assim ter acesso a material de excelente escolha e de grande teor artístico, sem esquecer os belos momentos lúdicos que passarão, ao ler as aventuras de “Tex”.

Prezado pard Carlos Gonçalves, agradecemos muitíssimo pela entrevista que gentilmente nos concedeu.

(Para aproveitar a extensão completa das fotografias acima, clique nas mesmas)

3 Comentários

  1. Caro pard Gonçalves, permita-me com a intimidade de texiano, já me declarar seu fã, pois você expressa em número e feitio a verdadeira alma do amante de banda desenhada, carregando ao longo da vida alguns dos mais nobres sentimentos – a sensibilidade, a persistência, a motivação, a sabedoria.
    50 mil revistas… 20 mil revistas brasileiras… 2 casas… números expressivos que denotam a grandeza desse verdadeiro castelo dos gibis e que retrata boa parte da história da BD mundial.
    Parabéns e se aceitar uma sugestão, dê a conhecer esse tesouro fabuloso aos jovens que estão começando a vida, para que possam conhecer e dar testemunho da sua paixão e do acervo, bem como conseguir seguidores e admiradores, representando uma carga emocional que te dará muito regozijo.

    G.G.Carsan

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