ENTRE TRILHOS E JUSTICEIROS – COMO CHEGUEI A TEX

Por Igo Roberto Amorim dos Santos

Igo Roberto Amorim dos Santos e Tex

Foi uma honra receber o vosso convite para conceder uma entrevista ao Blogue do Tex. Como leitor que sou do blogue na hora senti o peso da responsabilidade. Mas já que estou iniciando esta jornada, gostaria de contar para os leitores um pouco da minha história que me trouxe até as aventuras do Ranger mais duradouro e famoso dos quadradinhos – Tex Willer.

Diz-se que a jornada de mil milhas começa com o primeiro passo. E que o passo mais importante é sempre o próximo a ser dado. Bem! É verdade, mas no meu caso, no caso de que se trata esta história, talvez a figura de linguagem seja outra: – Não um passo, mas um dormente de estrada de ferro. Para explicar o significado disso volto pouco mais de 20 anos no tempo, até os áureos anos da minha infância, que hoje estão longe.

Nasci em Maceió, Alagoas, mas o lugar onde morei pelos meus primeiros 12 anos foi outro, Porto Velho no estado de Rondônia.

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E lá em meio a floresta amazónica, décadas antes de meus pais e eu nos mudarmos, teve inicio um empreendimento que tanto hoje como a seu tempo é taxado de, “Louca aventura” ou “A ferrovia do Diabo”, sendo este ultimo talvez um titulo apropriado a uma aventura de Tex.

Trata-se da E.F.M.M ou Estrada da Ferro Madeira-Mamoré. Que nasceu da “simples” ideia do acordo entre Brasil-Bolívia, onde o primeiro constrói uma ferrovia que leva a borracha do segundo para ser exportada para o mercado externo. E em troca a Bolívia cede o território que hoje é o Acre (vizinho a Rondônia). Tudo bem simples na teoria pelo menos.  Mas… onde eu entro nessa história mesmo?

Lá nos idos dos anos 90 eu, morando na terra do rio Madeira e da ferrovia, com curiosidade quase infinita típica daquela idade, ouvia com espanto as professoras contarem as mais variadas historias. Sobre as supostas assombrações dos antigos trabalhadores que eram vistos, à noite com lanternas nas mãos à procura do caminho para casa. Facto que nas várias tentativas de terminar os trilhos, operários de todo o mundo se deslocaram até lá e muitos jamais voltaram para casa.

Há uma lenda que já é quase que um ditado popular: – Cada dormente assentado é uma alma para o além. E sendo assim, acredita-se que muitos tesouros ficaram enterrados por descobrir, já que os seus donos se foram levando consigo o seu paradeiro.  A verdade é que o apelido nada lisonjeiro da ferrovia diz tudo: – Seja por causa da malária, contacto com tribos isoladas ou mesmo brigas o numero de mortos até hoje é incerto. Mas pode beirar a casa dos milhares.

A imaginação das crianças é fértil, comigo não era diferente. Apesar de que, quando os meus pais chegaram a Porto Velho a E.F.M.M já estar desactivada da sua linha inicial, havia uma locomotiva que fazia passeios regulares para turismo. Passei muito tempo lá brincando na praça da estação mas até então nunca havia andado de trem. Até que chegou o dia!

E que dia. Apesar de não me lembrar dos pormenores sei que foi algo marcante. Fui com o meu pai, companheiro inseparável de aventuras – meu pard, por que não? Ainda não conhecia o termo. Dentre as coisas que recordo o apito forte e vigoroso, e as fagulhas entrando pela janela a todo o tempo. Não vi fantasmas! Mas locomotivas antigas abandonadas ao longo da estrada. Dava um tom de nostálgico.

Hoje aquele dia está para o passado. Mas ao ler historias do Tex é como se eu vivesse outras aventuras se não “reais” mas tão incríveis quanto. Não na Amazónia, mas no Oeste que por fim, se separam geograficamente e historicamente, mas talvez tenham pontos em comum: – a luta pela sobrevivência em um meio hostil, a natureza desconhecida (em ambos os casos) e o toque subtil do sobrenatural.

Aqui no Nordeste onde moro hoje os personagens são outros. A minha região é rica num folclore que gira em torno das figuras do Cangaceiro do Vaqueiro e do Beato. Do homem simples que enfrenta a seca. Mais uma vez, peço licença para traçar um paralelo: – Tex começou como vaqueiro, tornou-se justiceiro e por fim Ranger. De perseguido a implacável executor da lei. De condenado a morte a líder de um povo. Pai, viúvo, e amigo. Alguém ainda pode perguntar por que é o personagem mais duradouro e amado?

Vejo que a resposta é: – Tex reúne nele mesmo as características que todos nós queríamos ter. Apesar de não possuir super-poderes age de acordo como  seu principio de justiça. Para ele errou, paga. Viveu uma vida multifacetada, mas não perdeu a sua essência. Quantos de nós não desejaríamos uma existência cheia de aventuras? E quem sabe fazer a diferença neste mundo.

Por fim mas apenas começando. Já que eu estou apenas passando a primeira estação desta linha, concluo pedindo que os leitores me perdoem qualquer incoerência e após esta leitura possa ver que, apesar de ser o mais novo entre os leitores de um personagem já tão consagrado, quero conhecer cada dia mais as historias e o universo de Tex. Ainda na primeira metáfora: – Peço licença pois há muito trilho a percorrer.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

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