Dylan Dog, Martin Mystère (de Tiziano Sclavi e Alfredo Castelli) e Tex em grande destaque na revista LER nº 65: Inverno 2004/2005

Texto da secção Livros do Trimestre (Banda Desenhada) nº 65, de Dezembro 2004
João Ramalho Santos


As sequências rebeldes

As sequências rebeldesOnde se pode encontrar banda desenhada? A resposta a esta pergunta é a mesma que se repete quando se referem muitas outras coisas. A BD está em toda a parte. Dos panfletos e manuais para montar móveis, ensinar línguas ou accionar complexos electrodomésticos, às livrarias, passando por paredes, ruas e passeios. Mesmo, por vezes, pendurada em molas, encaixada em estruturas caóticas de metal, sujeita às intempéries, escondida entre brindes vendidos com jamais e revistas. Nos quiosques.

Por aí se recomendam os clássicos das Obras-Primas da BD Disney (com trabalhos de Don Rosa e Carl Barks); ou o fenómeno W.I.T.C.H., boa descoberta para pré-adolescentes que talvez cheguem ao Harry Potter ou aos Cinco. Porém as propostas mais interessantes neste contexto são as que chegam de Itália, via Brasil. Fumetti da Bonelli Comics distribuídos em Portugal pela Mythos Editora, que é uma aventura descobrir no reino do efémero que são os escaparates dos quiosques. Estamos a falar de livrinhos que o leitor terá muita dificuldade em encontrar; o tempo de distribuição é curto, o trimestre longo. E talvez um leitor paciente encontre outros números, outras aventuras. Pode ser que valha a pena. Vale a pena, de certeza, agradecer a José Carlos Francisco, representante da Mythos em Portugal, que revelou antecipadamente aquilo que talvez ainda por aí espreite e espere, suspenso.

Tiziano Sclavi
Dylan Dog
Alfredo Castelli
Martin Mystère
Bonelli/Mythos, 2004

Tiziano Sclavi - Dilan Dog e Alfredo Castelli - Martin MystèreAs fundações da Bonelli, um autêntico império de BD em Itália, radicam em dois pressupostos que se repetem nas (muitas) séries da editora: a definição arquetípica de personagens e a submissão a um esquema de narratividade extrema, que enquadra uma história para contar e orquestra o desenho no sentido de o fazer de forma clara e  «legível». É interessante notar que, considerando estas características os fumetti da Bonelli se aproximam da BD franco-belga na exacta medida em que se afastam dos comics norte-americanos. E vice-versa. Se o estilo gráfico, narrativo e temático tem referências franco-belgas, a produção quase em série lembra mais o folhetim, ou o ritmo dos comics (e não serão casuais alguns pontos de partida de Umberto Eco ao discutir uns e outros). Ou seja, alguma repetitividade que se encontra nas histórias cíclicas de super-heróis surge contrabalançada pela ausência de elementos óbvios de fantasia e role play.

Por outro lado, se Charlier condensava vários westerns numa só aventura de Blueberry, basta começar a ler o Tex da Bonelli para perceber o que significa a produção em massa. Enunciado desta maneira parece estarmos em presença de uma receita inevitável para fazer artesanato sem arte. Pior, artesanato industrial. Este assunto é mais um cavalo de batalha do que uma discussão séria. Muita da pior banda desenhada que se faz é comercial, mas alguma é, também, alegremente independente e alternativa. Mesmo que se considerem as revistinhas da Bonelli/Mythos um antro de comercialismo, qual é o problema? Simplicidade arquetípica não é o mesmo que simplismo formulista. Na verdade, aquilo que surpreende na Bonelli é a qualidade média extremamente elevada das suas histórias (embora o formato disfarce, pela redução, alguns grafismos medíocres). E é sempre bom haver um mainstream para iniciar leitores e, até, para ajudar a definir a que nível se propõem as tais alternativas.
Já agora note-se que, em termos de BD portuguesa o que predomina há muitos anos (excluindo alguma BD histórica) é o «alternativo». O que é hoje o mainstream, senão José Carlos Fernandes?

Ler nº 65Mas adiante. Nos comics da Bonelli Tex é ainda a grande referência, até por ser escrito muitas vezes pelo próprio Sergio Bonelli (sob o pseudónimo Guido Nolitta). O grande problema desta personagem é ter um alcance demasiado lato, ser escrita por demasiados argumentistas, e ser protagonista de demasiadas aventuras. Dependendo das circunstâncias, Tex pode ser xerife, detective, justiceiro, cowboy, agente junto dos índios, e, até, de modo muito pouco credível, chefe índio. No campo do western a Bonelli lançou ainda outras personagens, como o índio Mágico Vento, Ken Parker ou Zagor, que, por terem um limite de acção mais definido, acabam por ser mais convincentes enquanto personagens complexas. Tex é o típico cowboy-herói sem grandes cambiantes ou lados escuros (mais Super-Homem do que Batman), logo, pouco dado a surpresas. Estas surgem, apesar do sabor formulista de muitas histórias, através do tom humanista completamente desprovido de cinismo, mas que não cede a enredos demasiado açucarados. Se o leitor nunca sente o herói em perigo, há sofrimento e crueldade realistas, e as personagens secundárias são sempre construídas com um rigor e uma complexidade que escapam muitas vezes ao próprio Tex, mesmo quando o argumento prevê uma morte rápida. Como exemplo do melhor, veja-se o Tex Anual n° 4, Em Território Selvagem, uma aventura complexa e muito bem delineada que mescla vários dos elementos característicos da série, e em que o argumento de Mauro Boselli tem a excelente fortuna de encontrar o desenho de um dos maiores autores espanhóis, Alfonso Font (Clarke & Kubrick, John Rohner).

Tiziano Sclavi - Dilan Dog e Alfredo Castelli - Martin Mystère (continuação)Apesar da dominância de Tex, as duas personagens mais interessantes da Bonelli em Portugal são, de um ponto de vista pessoal, e apesar dos nomes gongóricos, Martin Mystère e, sobretudo Dylan Dog. Ambas são reflexo da imaginação (e trabalho narrativo) de bons argumentistas (Alfredo Castelli e Tiziano Sclavi, respectivamente), que, regra geral, contam com desenhadores acima da média (mais no caso de Dylan Dog), capazes de animar dois mundos misteriosos ricos e coerentes, dentro das respectivas impossibilidades. Para gáudio de leitores que partilham as mesmas referências, ambos são também exímios na citação obscura. Martin Mystère vai beber à tradição clássica do mistério, variante ficção científica. Acompanhado pelo seu amigo Java, um homem de Neanderthal, o «detective do impossível» revisita nos últimos números (22 a 24) a Atlântida, Mu e a ilha de Páscoa, sob a sombra tutelar de Júlio Verne e do capitão Nemo.

Já o universo de Dylan Dog deriva da literatura de mistério, variante terror, com passagem por The Twilight Zone e The Outer Limits, com chegada previsível a The X-Files. O auxiliar do herói é aqui Groucho Marx em pessoa, o que trai, desde logo, o uso excelente de humor cínico com que Sclavi pontua uma narrativa de possessão maligna (número 20), ou uma excelente história tétrica de crime e castigo com estranhos contornos temporais (número 19). Note-se que, tal como em Tex (mais ainda, dada a temática), quer Dylan Dog, quer Martin Mystère fogem de finais demasiado felizes e reconfortantes, mesmo para os seus heróis; ou seja: mantêm o realismo possível dentro da irrealidade em que se movem. Uma imagem de marca que ajuda os fumetti da Bonelli a evitar os estereótipos dos piores comics. Da pior banda desenhada.

Copyright: © 2004 LER; João Ramalho Santos
(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima clique nas mesmas)

Um comentário

  1. Uma imagem de marca que ajuda os fumetti da Bonelli a evitar os estereótipos dos piores comics. Da pior banda desenhada.

    E esse só pode ser o comentário de um mau crítico.

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