Dupla homenagem a Sergio Bonelli na revista Anim’arte nº 82

Textos da revista “ANIM’ARTE” nº 82 (a revista ANIM’ARTE é um projecto editorial do GICAV – Grupo de Intervenção e Criatividade Artística de Viseu), do trimestre Outubro – Novembro – Dezembro de 2011.

Homenagem a Sergio Bonelli (editor da arte do Tex) falecido logo após o encerramento do XVII Salão de Banda Desenhada de Viseu 2011, onde o editor e o TEX tiveram destaque especial

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MISTER NO E OS “SUSPIROS”
por Júlio Schneider

O trabalho do editor Bonelli eu conheço há mais de quarenta anos, desde que comecei a ler a fabulosa História do Oeste, publicada no Brasil a partir de 1970 com o mítico título de Epopeia-TRI. O roteirista Sergio Bonelli eu comecei a apreciar logo depois, com as aventuras da personagem Mister No. E o maior de todos, o homem Sergio Bonelli, começou a fazer parte da minha vida há vinte e cinco anos, quando criei coragem de entrar em contacto e, ao telefone, perguntar: “é sério que você fala português?“. Mais um pouco e o editor e roteirista também tornou-se amigo e chefe, a partilhar trabalhos editoriais da Mythos e da própria Sergio Bonelli Editore. O maior e mais honroso dos encargos que recebi foi o de preparar um pequeno dossiê dos factos, da situação económica, histórica e geográfica do Brasil do início dos anos Setenta, inclusive o preço do cafezinho e descrições dos uniformes do exército e dos aviões da FAB (a Força Aérea Brasileira, da qual eu havia feito parte), para que a fantasia da última aventura vivida por Mister No respeitasse o contexto real.

O pagamento pelo serviço? Ele presenteou-me os roteiros originais dessa última longa saga, com algumas anotações que ainda emocionam-me: “Atenção desenhador: ver os detalhes do uniforme nas descrições do Júlio“. Na última vez que estivemos juntos, em Outubro de 2009, eu levei um puxão de orelhas, porque não compareci ao almoço surpresa que Sergio havia preparado para festejarmos os meus 50 anos. Só que, por ser surpresa, ele não me havia avisado! A compensação veio no jantar, num restaurante de Milão em que só entrava quem tivesse feito reserva antecipada… mas ao bonachão editor as portas se abriam rapidinho.

Um jantar fantástico, com um vinho que jamais tomarei igual na vida, e com uma sobremesa também especial: quando o garçom trouxe um carrinho com dezenas de iguarias de encher os olhos, Sergio mandou guardar tudo e pediu um pote de suspiros iguais “aos que saboreava nos botequins de beira de estrada no Pantanal“! Dias depois tivemos a última conversa, na porta da Editora; dali a pouco eu tomaria o avião de volta para casa e ele embarcaria em seu automóvel, rumo ao Festival de BD de Lucca. Nós nos despedimos com um abraço e um até breve e, quando o vi se afastar, meu coração ficou apertado, não sei porque, mas pensei… “Vaya con Dios, amigo. Quando será que nos veremos novamente?“. E tirei a última foto, de Sergio que partia…

© do texto: Editora Mythos (Brasil), revistas de série, Out/2011.

A SIMPLICIDADE DE UM GRANDE
por Luca Raffaelli

Sergio Bonelli foi, para mim, uma pessoa especial. Eu o conheci há mais de trinta anos quando, junto a outros rapazes que hoje são profissionais da BD (entre outros Luca Boschi e Francesco Coniglio), fazíamos L’urlo (O Grito), uma revista atrevida sobre quadradinhos direccionada a quem trabalhava no meio. Nós precisávamos de dinheiro para imprimi-la e buscávamos publicidade. Bonelli era um dos que sempre comprava espaço. Não só isso: dizia para visitá-lo sempre que fôssemos a Milão (morávamos em Roma). Ele, o mais importante editor de BD da Itália, abria as portas de seu estúdio e dedicava o seu tempo a um grupo de rapazes um pouco rebeldes e muito aficionados. Ele o fazia com gentileza e cortesia, sempre.

Muito tempo depois, quando já tínhamos uma certa familiaridade, ele contou-me da decepção que teve aos trinta anos de idade, num dia em que visitou um set de filmagem e ficou a olhar o director Pietro Germi a trabalhar. Ele contou-me que, quando as filmagens acabaram, Germi ficou a beber no bar, sozinho, com o olhar um pouco parado e entediado, como era seu normal. Ao jovem Sergio pareceu uma chance única. Ele armou-se de coragem e avançou em sua direcção. Apresentou-se como o editor de Tex (já o era) e declarou sua admiração pelos filmes do director. E esse olhou-o, baixou o copo do qual havia bebericado e disse: “Você não tem nada melhor para fazer?“. Sergio sentiu-se muito mal. Tão mal que muito tempo depois ainda contava esse episódio com amargura (espero que para Germi tenha sido só o resultado de um mau dia).

Existem pessoas que poderiam aprender com maus mestres e dizer “é assim que devem se comportar as pessoas de sucesso“. Mas de sua enorme desilusão Sergio entendeu que aquele era justamente o comportamento a evitar. Porque também um homem importante como ele, também o maior editor italiano de BD, podia partilhar com outros aficionados a sua paixão pela vida, que não se limitava aos quadradinhos. Sergio amava tantas coisas diferentes e entre essas – cito ao acaso – o cinema (um certo tipo de cinema), os livros (certos livros), as boas conversas, os desenhos originais, o futebol, os amigos, as amigas, o feijão, as viagens não-organizadas, e o Brasil.

Há muitos anos eu comecei a ir ao Brasil, e então Sergio indicava-me lugares e hotéis que eu não poderia deixar de visitar. De um desses nós continuamos a falar por anos em razão do seu belíssimo nome: Hotel Solar das Águas Cantantes. Fica em Ubatuba, entre Rio e São Paulo. Eu nunca lhe disse que quando estive lá (e não foi nada fácil de achar) visitei a recepção, a piscina, os ambientes belíssimos daquele hotel da atmosfera tropical, mas depois tive que ir embora porque estava além do alcance do meu bolso. Eu nunca lhe disse porque o deixaria sem graça. Se havia uma pessoa que não falava da própria riqueza era ele, e eu o admirava muito também por isso, pelo seu automóvel Panda que parecia de segunda mão, pelo seu jeito de ser diante da tecnologia moderna que o levava a olhar com desconfiança todos nós com nossos telemóveis e computadores.

Eu não me recordo quando foi a primeira vez que ele disse-me para ficar à vontade num sofá da sua biblioteca. Eu devia ter pouco mais de vinte anos, mas da emoção eu me recordo. Eu só não era um desconhecido para ele porque Sergio lia tudo o que se escrevia sobre a BD e não só a bonelliana. Então, ele também havia lido L’urlo e fazia questão de dizer-me. Muito tempo depois eu soube que a bela sala onde ele havia me recebido não era o seu estúdio pessoal, que é bem menor e cheio de livros e de lembranças. No Verão de 2010 nós havíamos feito uma aposta sobre quem tinha o estúdio mais desordenado. “No meu não se pode entrar sem pisar em papéis“, ele dizia. “No meu também não dá para evitar pisar em papéis, e o meu é mais espaçoso“, eu replicava. Depois de uma troca de fotos ele declarou-se vencedor porque numa delas viu a minha bicicleta e, por isso, decidiu (por conta própria) que o meu não era um estúdio, mas sim uma garagem. A contragosto, eu tive de aceitar a derrota. Belas recordações.

Quando o conheci, Sergio ainda fazia as suas viagens lendárias, aquelas em que dormia nas redes (por isso quando fui ao Brasil eu fiz o mesmo) e comia cobras na Amazónia (por isso eu fiz o mesmo). Mas no Brasil ele fazia muitas outras coisas aventurosas que eu jamais fiz, como as que se vêem nas fotos deste texto (algumas são de aventuras africanas). Como não podia mais fazer essas viagens quando começou a ter problemas ligados à idade, reclamava da vida. Nos últimos tempos ele deu-me o seu número de casa e eu o chamava na tarde de alguns domingos, depois da partida de futebol, para trocar considerações sobre o campeonato, sobre quadradinhos, sobre as odiadas (por ele) graphic novel de que tanto se fala, e de muitas outras coisas. Agora, quando sinto falta daqueles telefonemas, eu me dou conta de que Sergio Bonelli havia se tornado uma parte importante da minha vida afectiva, não só da profissional. Sim, a falta daqueles telefonemas começa a pesar.

© do texto: Editora Aurea (Itália), revista Lanciostory, secção “Nuvolette”, Out/2011.

Júlio Schneider, 52 anos, brasileiro, é advogado e, na área editorial, actua como redactor, tradutor e consultor de BD italiana em seu País. Luca Raffaelli, 52 anos, italiano, é jornalista, escritor e compositor, além de consultor editorial das colecções de BD do jornal La Repubblica, dentre as quais a série Tex a Colori. Os dois conheceram-se graças à intermediação de Sergio Bonelli, de início um na presença do editor e o outro ao telefone, ao mesmo tempo, e depois pessoalmente.
Org. e montagem: Zeca (José Carlos Francisco)

Copyright: © 2011 Revista “ANIM’ARTE“, Júlio Schneider e Luca Raffaelli.
(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

6 Comentários

  1. E assim graças a estes belos artigos, vamos aprendendo algo mais sobre os grandes mestres da BD. Obrigado amigo José Carlos por mais este trabalho de investigação, através da revista Anim’arte.

  2. No fundo, como se deduz das emotivas recordações de Luca Raffaelli, Sergio Bonelli tinha um temperamento de aventureiro (como Hugo Pratt) e foi isso que o levou a correr mundo e a desfrutar experiências que outros apenas viveram nos seus sonhos e nas suas “viagens” imaginárias. Cada vez sinto mais admiração por este grande criador que, para contentamento de todos nós, leitores de banda desenhada, seguiu os passos de seu pai, tornando-se um dos principais pilares da “catedral da aventura” que é a Bonelli editora.

  3. Fotografias de Guido Nolitta na Amazônia, que tanto amava, e na África, sempre no Norte, como a sua amada Milano; uma curiosidade naquela em cuja está partindo: metade do seu corpo está na luz e a outra nas sombras, um prenúncio do seu adeus. Parabéns a Júlio Schneider e a Luca Raffaelli a homenagear o saudoso mestre da BD, Mister Sergio Bonelli.

  4. Júlio e Luca tiveram o privilégio de conviver com este grande mestre italiano, que tinha um espírito aventureiro e, como pudemos notar, era de uma simplicidade extrema.
    Bela matéria. Através dela pudemos conhecer um pouco mais sobre Sergio Bonelli. Que em 2012 a saga da família Bonelli, pelo mundo das BDs continue em alta.
    E que, você, querido bengala friend de além mar mantenha este seu espírito incrivelmente texiano!
    Um grande 2012 à todos!

  5. O diretor citado por Sergio Bonelli com certeza não estava num dia ruim, agiu como muitas pessoas famosas, cheias de cultura e de alma podre, a maioria das pessoas aficionadas por hqs, cinema e música infelizmente são assim desprovidas de consideração ao próximo, por isso sentimos tanto a morte do Sergio Boneli, porém ele nos deixou como herança pessoas extraordinárias, que darão seguimento ao trabalho dele no mundo inteiro, especialmente no Brasil…

  6. Estes textos são primorosos e servem para corroborar a ideia que sempre tive, da simplicidade do Sr Bonelli.

    Abraços,

    Sílvio Introvabili

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