Até sempre Mestre Ennio Morricone

Por Pedro Pereira*

Se os livros de Tex tivessem música, seria de Morricone!

Disse esta frase muitas vezes, ainda quando o grande génio Ennio Morricone fazia parte do mundo dos vivos. Agora que nos deixou fisicamente e cavalga para toda a eternidade nas pradarias celestiais, a frase faz ainda mais sentido. Afinal de contas, o homem passa, a obra fica.

Nascido em Roma, no seio de uma típica família italiana de 5 irmãos, no já longínquo ano de 1928, teve uma vida longa e feliz (incluindo um único casamento de mais de 60 anos), resistindo sempre à tentação de deixar a sua amada Itália e rumar aos Estados Unidos. Deixou-nos a 6 de julho de 2020 com a bonita idade de 91 anos. A música sempre foi omnipresente, em boa parte por causa do seu pai que tocava trompete e foi o seu primeiro professor de música, abrindo-lhe as portas para um mundo, do qual nunca mais iria sair, felizmente!

Ainda na sua juventude, tornou-se amigo de um outro grande nome italiano que todos conhecemos bem: Sergio Leone! Nada mais que o grande cineasta e produtor italiano, “pai” do que geralmente conhecemos como western spaghetti. Tinham apenas um ano de diferença (Leone era mais novo) e, anos mais tarde, a música e o cinema voltaram a juntar os dois amigos, sendo que os frutos da genialidade e admiração mútua fazem parte da herança cultural da Humanidade. Sem medo de exagerar, afirmo que a música e o cinema seriam mais pobres sem estes dois homens e, felizmente, há muito mais gente a pensar como eu!

O que tem de especial a música de Morricone?

O genial compositor e maestro teve uma vida também atribulada. Por exemplo, ainda era um adolescente quando a Segunda Guerra Mundial atingiu a Itália em força, tempos muito complicados que o jovem Ennio conseguiu superar. Numa primeira fase, com a ajuda do seu trompete, em bandas de jazz, mas é na década de 1950, ainda bastante jovem, que começa a compor para o cinema e o teatro.

Na década de 1960, o seu génio explode para o mundo, lado a lado com o seu amigo Sergio Leone, em filmes épicos que qualquer texiano (ou simples apreciador do género) já deve ter assistido várias vezes, porque são verdadeiramente mágicos. Faço referência a alguns e menciono o título em inglês por ser mais fácil de entender para todos. Basta pensar que as traduções dos títulos em Portugal e no Brasil são muito diferentes. Refiro ainda outros que considero “obrigatórios” e que muito devem ao talento de Morricone:

A trilogia: A Fistful of Dollars (1964), For a Few Dollars More (1965) e, sobretudo, The Good, the Bad and the Ugly (1966), constituem um verdadeiro hino ao cinema western, em que a música desempenhou um papel fundamental. Estes filmes constituíram a rampa de lançamento para Sergio Leone, Ennio Morricone e um tal jovem de nome Clint Eastwood que, felizmente, ainda faz parte do mundo dos vivos. Incrível pensar que esta trilogia teve como ponto de partida o filme Yojimbo (1961) de Akira Kurosawa. Ou seja, um filme sobre samurais no Japão… que deu o pontapé de saída para o western italiano!

Quando chegaram aos Estados Unidos (e depois a todo o mundo), estes filmes foram inicialmente olhados com uma certa desconfiança (afinal Hollywood era a Meca do Cinema) e tiveram que ser feitas alterações nos nomes. Por exemplo, Sergio Leone era agora Bob Robertson, Ennio Morricone era Dan Savio, e até o ator italiano Gian Maria Volonté era agora Johnny Wels. Apesar disso, o estrelato chegou rapidamente e o western spaghetti veio para ficar, sendo que as músicas de Morricone eram a peça chave para resultar tão bem. Aparte o realismo dos filmes, os belos cenários (muitos de Espanha), alguma crueldade de várias cenas… tudo era cimentado por uma banda sonora incrível, com efeitos sonoros como assobios, uivos, gritos, chicotes, mistura de diferentes instrumentos… em que a música quase chegava a ser a própria narrativa, ou seja, o centro da ação.

Navajo Joe (1966), um filme sobre o Oeste, realizado por Sergio Corbucci, que nunca chegou a atingir a projeção de outros em que Morricone foi o responsável pela banda sonora, mas não deixa de mostrar a sua genialidade, nomeadamente quando se ouve o coro de homens e mulheres a entoar várias vezes o nome do herói do filme “Navajo Joe”, interpretado por um “vingativo” Burt Reynolds.

Once Upon a Time in the West (1968) é, na minha perspetiva, o auge da colaboração entre os dois génios nos filmes western spaghetti e a música quase rebenta a escala. Além disso, contava com vários atores americanos já com créditos firmados: Charles Bronson (desempenho soberbo), Henry Fonda, Jason Robards e a belíssima atriz italo-tunisina Claudia Cardinale. Este filme tem todos os ingredientes para um bom filme do Oeste Selvagem: há vingança, amor, sangue, duelos, ódio, cobiça, cinismo, mas as cenas com a harmónica em som de fundo são de arrepiar! Aliás, enquanto escrevo estas linhas, estou a ouvir uma coletânea das suas 50 melhores músicas The Morricone Masterpieces. São quase três horas de boa música, maioritariamente instrumental, onde se encontram as principais obras do génio.

Duck, You Sucker (1971), mais um trabalho em equipa dos dois amigos. Novamente um western, mas algo diferente dos anteriores, assim como o período temporal abordado é diferente, decorrendo a ação já no início do século XX. Um filme onde já vemos metralhadoras, camiões e até motos. Graças à sua banda sonora, é mais que um simples filme. Ah… e também ao uso abundante de explosões, leia-se dinamite!

A dada altura, Morricone e Leone seguem cada um o seu caminho, o que não invalida que não voltem a encontrar-se mais tarde e a trabalhar juntos, mas já lá vamos, de modo a tentar manter uma certa ordem cronológica.

Days of Heaven (1978), brilhante banda sonora, que ilustra bem a capacidade “camaleónica” do mestre se adaptar a diferentes cenários e atmosferas. Um filme melancólico e até triste, que nos faz mergulhar bem no nosso próprio interior. Terence Mallick e Morricone tornam este filme num hino ao amor e à felicidade, ao direito de sonhar e à esperança…

The Thing (1982), um filme de arrepiar! Numa atmosfera pesada, quase amedrontadora, em que Morricone e John Carpenter criam um filme de culto para os apreciadores do género. Não aconselhável a pessoas mais sensíveis. Um allien que assume a forma das suas vítimas, tudo na atmosfera gélida e desoladora da Antártida…

Once upon a time in America (1984), mais um filme magistral e com uma banda sonora à altura, com músicas imortais. É o último filme que junta Morricone e Leone, que faleceu poucos anos depois, em 1989. A cena em que o menino é morto pelas costas quando foge, e a música que acompanha a cena, fica para a história do cinema. Simplesmente imperdível! Morricone merecia o Óscar, mas não foi ainda dessa vez. Para muitos, é este o verdadeiro apogeu do duo e um dos melhores filmes de sempre.

The Mission (1986), fantástico filme de Roland Joffé e que, sem a banda sonora de Morricone, nunca seria a mesma coisa. Aparte os atores, os cenários deslumbrantes e selvagens, é a música que reforça ideais tão nobres como o perdão, a redenção, a fé e outros não tão bons como a cobiça ou a vingança…

The Untouchables (1987), mais um filme reluzente, em boa medida graças a um leque fabuloso de atores e, sobretudo, a uma banda sonora de exceção. Tem momentos de tensão incrível, como sucede com a cena na estação do comboio, com o carrinho de bebé a cair pelas escadas abaixo, ao mesmo tempo que ecoa um enorme tiroteio e uma mãe amedrontada chora sem nada poder fazer. Brian de Palma dirige aqui um dos seus melhores filmes.

Cinema Paradiso (1988), não considerando os westerns com música de Morricone, é o meu filme favorito e o de muita gente. A realização de Giuseppe Tornatore é estupenda, o desempenho dos atores também (em cada um de nós há um pouco do menino Toto, por exemplo), mas, uma vez mais, é a banda sonora que torna o filme mágico. Temos ternura, mágoa, paixão, riso, romance, desilusão… ainda hoje consigo emocionar-me com este filme!

Maléna (2000), para alguns pode ser um filme algo perturbador, sobretudo pelo magnífico papel da lindíssima Monica Bellucci. Ainda assim, a genial banda sonora de Morricone e a realização de Giuseppe Tornatore trazem até nós um filme de uma beleza indescritível, em que a música carrega todo o drama, do princípio ao fim. Não dá para descrever, só mesmo vendo e ouvindo.

Kill Bill (2003), neste incrível filme juntamos Morricone a um grande realizador, Quentin Tarantino, e o resultado só podia ser brilhante! Isto, apesar de Morricone ter anteriormente manifestado que não tinha interesse em trabalhar com Tarentino. Ainda bem que mudou de ideias, porque o resultado foi estrondoso e Uma Thurman destaca-se, naturalmente.

The hateful eight (2015), não é dos meus filmes favoritos e a própria banda sonora sabe a pouco, mas destaco-o por uma razão especial: após várias nomeações, Ennio Morricone ganha finalmente a estatueta de Hollywood. Um western diferente, com o cunho inegável de Morricone e Tarantino, mas que nunca chegou a ser um grande sucesso.

Ao longo da sua extensa carreira de mais de meio século, Morricone produziu bandas sonoras para muitos outros filmes, peças de teatro, dirigiu orquestras várias vezes… era um homem verdadeiramente incansável!

Esteve em Portugal em 2019 (não fui ver e ainda hoje me arrependo), e teve a seu lado vários artistas de inegável talento como Dulce Pontes, que o acompanhou na sua digressão europeia, interpretando, nomeadamente, o tema Your Love do filme Once Upon a Time in the West.

Como seria se Tex Willer viesse à Europa?

No seu papel de ranger, chefe dos Navajos ou simplesmente justiceiro, Tex tem as suas aventuras ambientadas essencialmente nos Estados Unidos ou no vizinho México. Desloca-se também com alguma frequência mais a Norte, às terras brancas, mais precisamente ao Canadá, geralmente para ajudar os seus amigos Jim Brandon ou Gros Jean. As viagens mais longas são pouco comuns, mas algumas merecem referência, como por exemplo, na aventura “San Francisco”, quando Tex perseguiu o capitão Barba Negra, que tinha raptado o seu filho Kit, e rumou até à Melanésia, assim como a aventura sucessiva cronologicamente, “O Tirano da Ilha”, que marca o regresso de Tex depois de salvar o filho; em “O Solitário do Oeste”, quando Tex foi à Colômbia juntar-se ao filho que tinha acompanhado o fotógrafo Timothy O’Sullivan numa expedição que preparava a construção do Canal do Panamá; a ida à Argentina, novamente com o seu filho, no genial “Patagónia”; ou a Cuba, com Montales, nos “Rebeldes de Cuba”; e ainda uma fugaz escapada à América do Sul para caçar Butch Cassidy em a “Horda Selvagem”.

Certamente que já terá sido ponderada a possibilidade de o ranger rumar a outras paragens fora do continente americano, nomeadamente viajar até à Velha Europa, apesar da distância, o que ainda não aconteceu. Se tal acontecesse, não creio que fosse à longínqua Inglaterra, à verdejante Irlanda, ao simpático Portugal ou mesmo à fascinante Itália. Com toda a certeza que seria a Espanha, mais precisamente ao Sul, à região quase desértica de Almeria, em plena Andaluzia, e até bem perto do Mediterrâneo, ao chamado “Deserto das Tabernas”.

Deserto das Tabernas – Espanha

Para quem não conhece a região, pode parecer estranha esta afirmação, mas há uma explicação óbvia: foi nesta região desértica, com enormes semelhanças com o Oeste Selvagem de Tex, nos Estados Unidos e México, que foram filmados muito dos westerns spaghetti e não só. Também filmes como Lawrence da Arábia (1962), Conan, o Bárbaro (1982), Indiana Jones e a Última Cruzada (1989), foram ali parcialmente realizados.

Nesta zona, Willer iria sentir-se como estando no Arizona ou no Texas, tal como se sentiram também Leone e Morricone, embora para estes o desafio fosse muito maior: filmes com orçamento baixo, italianos a realizar um filme… em Espanha… com financiamento alemão… em que contracenavam vários atores norte-americanos e figurantes espanhóis. Uma verdadeira Babel cultural e linguística, no que deve ter sido um tremendo desafio!

Deserto das Tabernas – Espanha

Faz parte do sonho de muitos visitar o Oeste Longínquo de Tex Willer, mas pode ser complexo, devido aos custos, à distância e, pelo menos nesta fase, à pandemia que assola o mundo, pelo que fica o desafio de o conhecer de uma forma mais simples, sobretudo para os europeus ou brasileiros que visitem Portugal: em 2 ou 3 dias, façam uma escapadinha a esta região de Espanha! Para mais, continuam a existir vários edifícios da época das filmagens, como se fossem parques temáticos (existe mais que um, mas não posso contar tudo), são feitas representações de momentos-chave como duelos, mulheres de “má fama” a dançar cancan no saloon, e até a comida e bebida são típicas. Se puderem, não deixem de visitar. Talvez até encontrem por lá um pouco de Ennio Morricone e oiçam a sua música no vento que passa. Tenho planos para lá regressar, porque muito ficou por visitar e recordar é viver!

* Texto de Pedro Pereira publicado originalmente na Revista nº 14 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2021.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima clique nas mesmas)

Um comentário

  1. Morricone… um gênio…
    Músicas incríveis que iluminavam dando um encanto extraordinário aos filmes…. Músicas como as Cinema Paradiso e Bastardos Inglórios são de uma beleza extraordinária…

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