Por Giorgio Bonelli*
Giorgio Bonelli, irmão de Sergio Bonelli e filho de Gianluigi Bonelli, recorda nas linhas seguintes um pouco do seu pai, o criador de Tex, autor a quem a Sergio Bonelli Editore acaba de dedicar um livro[i] da autoria do escritor e historiador Gianni Bono. Este testemunho constitui um dos prefácios do livro, ao lado de outros escritos pelo neto Davide Bonelli e por Mauro Boselli, atual responsável editorial de Tex, e que foi apresentado ao criador de Tex, precisamente por… Giorgio Bonelli.
Gianluigi Bonelli… que personagem!… Fisicamente não era decerto um gigante, um metro e 68 e dizia-o amiúde, quase como se estivesse a gabar-se disso, porque a presença física, bem… essa então, era verdadeiramente surpreendente.
A dar nas vistas não eram apenas as botas, mas também um inseparável chapéu de cowboy, o colete de couro (de onde de vez em quando sobressaía a coronha de um revólver) e as camisas vistosas, mas sobretudo o magnetismo avassalador que emanava desde o primeiro momento em todos aqueles que o conheciam. Um vulcão de gestos e palavras, de exclamações singulares e sonoras palmadas nas costas que tinham tanto de afetuosas… como capazes de arrancar um pulmão! Era famoso por às vezes dizer enormidades e expressar de forma muito direta uma apreciação e um julgamento que desorientavam, para não dizer desconcertavam, os presentes. Mas não me recordo, nem por uma única vez, em que as suas palavras fossem inapropriadas, vulgares e muito menos ofensivas.
Os meus colegas de escola (ele acompanhava-me a pé todas as manhãs, visto que a redação da rua Ferruccio em Milão ficava a dois passos do meu liceu), não podendo deixar de notar, perguntavam-me com alguma frequência:
– Mas que tipo é o teu pai?
– O meu pai?… Prefiro dizer o meu amigo!…
Aquele que às vezes te dizia para fazer gazeta (faltar às aulas) às segundas-feiras, para atravessar contigo os nevoeiros da Lombardia com o Citroen DS vermelho incandescente a 180 quilómetros à hora – onde todos estão à tua direita e nunca há ninguém à esquerda – e levava-te a esquiar no gélido Matterhorn ou Monte Cervino, a ponto de no dia seguinte teres de te maquilhar para não mostrares o bronzeado aos teus professores. Ou o amigo que te arrastava de barco até Loano (região da Ligúria, província de Savona) e então, não muito longe da costa e indiferente à presença de algum infeliz barco pesqueiro, convidava-te a estourar as latas de cerveja vazias lançadas para a água, furando-as com o revólver que levava sempre consigo. Esses barcos afastavam-se para bem longe de nós, e eu nem queria saber quais eram os comentários a bordo.
São tantos os episódios que me vêm à mente que demoraria dias a escrever sobre eles. A minha mãe, dona de casa e religiosa, contava que foi conquistada por aquele louco a poucos meses daquele que deveria ter sido o seu casamento com um rico comerciante de Génova. Eram tempos do pós-guerra e a sua fuga apaixonada para Paris certamente deixou perplexa a família burguesa de onde vinha… e não apenas o infeliz “marido”! Mas na Ville Lumière ele tinha-lhe prometido que ficariam instalados num hotel de luxo do centro. Pena que, em vez da suíte imperial, aguardava-a um pequeno quarto num sótão, próximo ao dos criados…e ao jantar, poucos bifes e muitas saladas com ovos cozidos!… Ele escrevia furiosamente contos e novelas que os editores franceses colocavam dificuldades em publicar. E à noite, para juntar mais algum dinheiro, subia ao ringue de algum fumarento ginásio de boxe como colega de treino de ricos parisienses em busca de emoções, com o proprietário do local a gritar-lhe:
– Bonelli, ne touchez pas le client (Bonelli, não faças mal ao cliente)!
Santa mulher, por quantas deve ter passado a minha mãe! Mas ao falar daqueles dias difíceis, os seus olhos brilhavam sempre, ainda iluminados por um amor que a acompanhou por toda a vida.
Depois veio o Tex, o sucesso e o bem-estar para todos. Eu ainda era pequeno e ele já era famoso e admirado. Os pais dos meus colegas competiam para nos convidar para almoçar ou para jantar. Descuidadamente… Um dia, apresentamo-nos diante da porta dos nossos anfitriões. Tocamos a campainha e ninguém responde. Tocamos novamente. Nada. E então, num instante, sob o olhar desesperado da minha mãe, eis que surge um revólver que descarrega a sua mensagem de projéteis, felizmente de borracha, na porta do infeliz!….
A porta finalmente abriu-se, e ao ver o olhar aterrorizado do proprietário da casa, o meu pai respondeu com a habitual palmada sonora nas costas do pobre homem.
– Então, meu velho, o que preparou de bom a bela vestal (mulher de grande beleza) da tua mulher?
Exclamou, colocando a arma no coldre e com um afetuoso sorriso acrescentou, brincando:
– Fizeste-nos esperar meia hora e estamos com uma fome de lobos!
Muitos anos depois, na cama do hospital em Alessandria, onde fui visitá-lo, uma última visita, percebi que o jogo terminara. Então, abracei-o emocionado e ele, sereno e conciso, sussurrou-me ao ouvido:
– Não te preocupes, Giorgio… está tudo bem.
Jamais esquecerei aquela frase, que ainda hoje me dá arrepios na espinha. Mas, afinal, um grande artista sabe quando chegou o momento de sair de cena, e fazê-lo com descrição e dignidade.
Hasta la vista, hombre!… Continua a cavalgar os teus sonhos nas verdes pradarias da tua fantasia. Permanecerás para sempre nos nossos corações!…
[i] G. L. Bonelli, Tex Sono Io!, novembro 2020
* Texto de Giorgio Bonelli publicado originalmente na Revista nº 14 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2021.
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