As Leituras do Pedro – Zagor: El hombre con el fusil

As Leituras do Pedro*

Zagor: El hombre con el fusil
Contém Zagor #336 a #338 (Itália, 1993)
Moreno Burattini (argumento)
Gallieno Ferri (desenho)
Aleta Ediciones
Espanha, 2015
160 x 210 mm, 272 p., pb, capa dura

Acima da média

Apesar de ter sido uma das minhas primeiras entradas no(s) universo(s) da Sergio Bonelli Editore, a verdade é que Zagor – pese embora a sua popularidade e longevidade – nunca me convenceu, devido a algumas incongruências narrativas, à previsibilidade dos argumentos e ao excessivo peso – figurado e literal – de Chico, como distracção humorística a roçar o ridículo em muitos dos relatos.
A leitura deste El hombre con el fusil, referenciado como uma das melhores histórias da personagem, revelou-se uma agradável surpresa.

É verdade que a base argumental é recorrente no que ao western – mas não só… – diz respeito: a descoberta de quatro cadáveres semi-enterrados na neve e mortos a tiro leva Zagor e Chico a uma perseguição implacável ao seu assassino. A tarefa revelar-se-à mais árdua do que previsto e aos dois protagonistas – com Chico a assumir aqui um (agradável) papel discreto e secundário, juntar-se-à, primeiro Bull, um mestiço a quem o perseguido (também) matou a mulher e, mais tarde, um pequeno grupo liderado por um xerife.

Ao enredo, Moreno Burattini entendeu por bem – e muito bem! – acrescentar a descoberta de um rico filão aurífero, alguém com a cabeça a prémio, um caçador de recompensas, encontros com índios, uma história de infância atribulada, referências ao racismo dos brancos sobre os que não o são e uma paisagem coberta de neve do princípio ao fim, que acrescenta características díspares, fortes tempestades e alguns momentos bem conseguidos em função das características atmosféricas.

O desenho de Ferri, com uma qualidade acima da simples muita competência que é imagem de marca das edições Bonelli, merece também uma chamada de atenção pela forma como consegue gerir os diferentes elementos de uma paisagem escondida sob um imenso manto branco ou sob a intempérie.

Um trajecto pejado de cadáveres, a forte carga emocional presente em momentos-chave do relato e a constante sombra da tragédia que uma e outra vez se abate sobre protagonistas e participantes contribuem igualmente para elevar esta aventura de Zagor uns bons furos acima do que é habitual na série, especialmente porque nem sempre o que os leitores vêem e ouvem corresponde ao que realmente se desenrola sob o seu olhar atento…

Nota final

No Brasil, esta história foi publicada em Zagor Especial #5 (2006), da Mythos Editora.

* Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro 

(Clicar nas imagens para as aproveitar em toda a sua extensão)

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