As Leituras do Pedro: Tex Gigante #39 – Pela Honra do Texas

As Leituras do Pedro*

Tex Gigante #39 – Pela Honra do Texas
História originalmente publicada em Tex Speciale #39 (SBE, Itália, 2023)
Mauro Boselli
(argumento)
Maurizio Dotti
(desenho)
Mythos Editora
Brasil, Outubro de 2023

185 x 275 mm, 240 p., pb, capa cartão
R$ 79,90

Não é a primeira vez que uma história de Tex tem base histórica, longe disso, mas, na minha leitura, este foi um dos relatos do ranger em que o peso dos factos históricos mais se fez notar e o tornou mais consistente e contido.

O facto em si, é o chamado Massacre de Nueces que teve lugar em 1862, em plena guerra civil norte-americana entre os abolicionistas do Norte e os defensores da escravidão do Sul, e opôs um bando destes últimos a um grupo de emigrantes originários da Alemanha, que foram completamente dizimados. Os alemães representavam na época cerca de 5% da população do estado do Texas e eram frontalmente contra a escravidão dos negros. Como sempre nos confrontos, as coisas nunca são a preto e branco e a presença, entre os sulistas, de alguns bandidos com outros interesses, desde terras a vinganças pendentes, contribuiu para aquele desfecho trágico.

Esta pesada carga histórica – apoiada por outros factos reais relevantes que vão sendo transmitidos ao leitor de forma natural e coerente – condiciona – no bom sentido – uma história que vai avançando a dois tempos, narrada por um lado por Kit Carson e por outro por Tex Willer, num tempo em que os dois eram bem mais jovens embora Tex já tivesse deixado o seu estatuto original de fora da lei. Deste modo, Pela Honra do Texas, decorre numa época que talvez se possa considerar intermédia entre as aventuras do jovem Tex Willer e o tempo presente do ranger. Nele, os dois irão encontrar-se pelo breve instante de umas poucas páginas, para se voltarem a separar, até quase ao final do relato, transformando quase em duas histórias este Pela Honra do Texas.

O tal peso histórico, se por um lado torna mais credível o relato e faz de Tex e Kit menos invencíveis e mais humanos – até porque não conseguem evitar o que na vida real aconteceu – por outro afasta-o de alguma forma da construção habitual da série, tornando-o um caso raro, mas não único, em 80 anos de cavalgadas e tiroteios. Também por isso, ostenta um ritmo mais lento e pausado em relação ao que é normal, aproveitando Mauro Boselli para ir desenvolvendo a sua narrativa com o cuidado de colocar à frente do leitor as diversas sensibilidade e opções num momento em que a História não se fazia a preto e branco e em que as posições iam bem mais além do que ser nortista ou sulista, tentando alguns provar que uma posição intermédia talvez fosse possível. Aliás, curiosamente, não é de todo errado afirmar que, se em termos práticos os dois rangers defendem o mesmo, o seu posicionamento teórico é quase oposto, ocupando lugares por detrás de barricadas diferentes.

O traço de Mauricio Dotti, pelo seus contornos realistas, pelo cuidado posto na reconstrução de época visível em armas, construções e vestuário, pelo trabalho cuidado visível em cada grande plano dos rostos, pelo recriar que forma quase tangível dos cenários naturais e selvagens e pelo apurado desvelo colocado em cada cena de grupo, revela-se a escolha ideal para ilustrar este relato e para ajudar de forma notável a credibilizá-lo, dado o seu tom histórico.

* Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

(capa brasileira disponibilizada pela Mythos Editora; restantes imagens disponibilizadas pela Sergio Bonelli Editore; clicar nas imagens para as apreciar em toda a sua extensão)

Um comentário

  1. Depois das mudanças (necessárias) que a Mythos fez nos formatos das mensais e na alteração do tipo de papel das mensais e do Tex Gigante, deixando as edições mais bonitas e chamativas, mas encarecendo demais as edições, isso me desmotivou um pouco em adquirir principalmente o Tex Gigante, uma vez que as mensais só compro quando os desenhistas me agradam, e vou ser bem sincero que apesar da ótima qualidade do papel eu prefiro aquele papel mais fosco, e especificamente sobre essa edição eu levei muito azar, pois adquiri via site da loja e demorei mais de 2 meses para tirar da embalagem e ler (falha minha), e para minha surpresa tinham várias paginas trocadas, tive que se desfazer da edição, acontece, fazer o quê…

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