As Leituras do Pedro – Comissário Ricciardi: Primeiros inquéritos

As Leituras do Pedro*

Comissário Ricciardi: Primeiros inquéritos
Inclui os relatos Dez Cêntimos, Os vivos e os mortos e Mammarella
Colecção Aleph
Sergio Brancato e Claudio Falco (argumento)
Daniele Bigliardo e Luigi Siniscalchi (desenho)
A Seita
Portugal, Outubro de 2021
170 x 230 mm, 128 p., pb, capa dura
13,00 €

O princípio

Presença(ir)regular neste blogue, o Comissário Ricciardi chega agora a Portugal pelas mãos de A Seita, na sua colecção Aleph, dedicada aos títulos ‘de heróis’ Bonelli, que chega assim (já) ao décimo volume.
Primeiros inquéritos, com as suas primeiras investigações, revela-se a porta ideal de entrada no mundo deste inspector da polícia italiana, criado literariamente pelo escritor Maurizio de Giovanni.

Introvertido, Ricciardi carrega consigo desde criança um enorme peso: ele vê as vítimas de crimes violentos, nos locais em que eles aconteceram, e ouve as últimas palavras que proferiram. É esse dom – maldição? – sobrenatural que, por um lado, o torna introvertido e fechado em si mesmo, mas, por outro, provoca nele uma enorme sede e necessidade de que a justiça seja feita, sejam quem forem os envolvidos, impulsionando-o a investigar até às últimas consequências.

Ambientadas na cidade de Nápoles dos anos 1930, bem caracterizada na sua dualidade natural entre os (muito) ricos aristocratas, por um lado, e os (muito) pobres por outro, para mais entre duas guerras que deixaram marcas profundas, e com a sombra cada vez mais ameaçadora da ascensão ao poder dos fascistas de Benito Mussolini, as investigações do comissário Ricciardi são também um retrato sociológico de uma cidade e de uma época em que pensar pela própria cabeça era um grande risco.

Avesso ao poder, às imposições dos superiores, aos interesses políticos e ao peso social de alguns dos criminosos, Ricciardi, sob o peso das visões violentas e e do sofrimento final das vítimas que lhes está associado, é um homem transtornado e cada vez mais isolado, a que poucos conseguem aceder, ganhando por isso alguma preponderância junto dele, como bóias de salvação lançadas a um náufrago, o sargento Maione, a sua governanta Rosa ou a jovem vizinha que diariamente observa à distância e em silêncio.

Assentes em relatos intimistas, introspectivos e penosos, pela forma como nos aproximam e nos fazem partilhar a dor e o tormento do protagonista, as investigações do comissário Ricciardi têm apresentado uma assinável unidade apesar das diferentes equipas criativas que as transpõem dos romances para os quadradinhos, embora (também) neste livro me pareça justo destacar a componente gráfica assinada por Daniel Bigliardo.

*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro 

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

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