As Leituras do Pedro: Chanbara – El Camino del Samurai (Le Storie)

As Leituras do Pedro*

Chanbara – El Camino del Samurai

Chanbara – El Camino del Samurai

Chanbara – El Camino del Samurai
Inclui Le Storie #2 A redenzione del samurai (2012) e #15 I fiori del massacro (2013)
Roberto Recchioni (argumento)
Andrea Accardi (desenho)
Stefano Simeone e Luca Bertelè (cores)

Panini
Espanha, 28 de Fevereiro de 2019
195 x 259 mm (deluxe), 256 p., cor, capa dura
22,00 € (cada)

Confirmação…

Volto a Le Storie e sou obrigado a reafirmar o que escrevi há menos de um mês: ‘diversidade’ é o mote desta (magnífica) colecção da Bonelli.

Chanbara, como o sub-título deixa intuir, decorre no Japão feudal tradicional e compila duas histórias de vingança.

Aventura pura, com as emoções como pano de fundo, esta é mais uma inflexão – ou apenas mais uma proposta, curiosamente uma das suas primeiras propostas – numa colecção de relatos independentes, sem qualquer outro critério que não a qualidade.

De comum às duas narrativas de Roberto Recchioni – sim, o mesmo do excelente Dylan Dog: Mater Morbi – há apenas Ichi, um velho cego, mais sábio do que aparenta, mais forte e ágil do que o aspecto físico decadente e a idade deixam antecipar, que cria a ponte entre ambas e deixa a vontade de conhecer melhor o seu passado e a sua história. Melhor, a vontade de conhecer melhor este universo que agradará com certeza a quem se sente atraído pela cultura nipónica mas também a quem gosta de uma boa banda desenhada de acção.

Em ambos os relatos – e não se deixem enganar pela presença de Ichi e pela aparente continuidade entre eles, apenas acontecem num mesmo universo narrativo, com a curiosidade de um suicídio sacrificial ser o remate de um e a origem de outro – a vingança é o mote, embora as razões que a fazem desejada variem.

La redención del samurái, começa com a perseguição a um samurai que (aparentemente) não cumpriu a sua missão, mas o seu sacrifício permitirá desvendar males maiores. Quanto a Las flores de la Masacre, desta vez com protagonismo feminino, segue o percurso de uma jovem esposa que passa de vítima de violência doméstica – como diríamos hoje… – a vingadora cruel – e mais ainda.

A primeira é uma história de crescimento pessoal, em nome do bem comum; quanto à segunda, em que impera a individualidade, é uma história de crescimento e superação pessoal, embora possivelmente não pelas melhores razões.

Ichi, surge em ambas pontualmente, como conselheiro e consciência, tentando que a violência, necessária, não extravase os limites do razoável – e, sim, eu sei o quão estranho e perigoso isto soa. Mas, numa época e num meio específico – de senhores feudais (quase) todo-poderosos e de servos, simples criados ou guerreiros qualificados, mas ainda assim meros servos – imperavam o sentido de honra, a coragem e a necessidade de cumprir o dever acima de tudo. Mesmo quando se discordava do senhor, mesmo quando as tarefas eram claramente iníquas.

É esta dualidade entre o que devia ser e o que era necessário fazer que tornaram tão apetecíveis ao moralmente díspar ocidente tantas obras de samurais e o levaram a espelhar essa forma de estar no cinema, na televisão e na banda desenhada.

As duas narrativas aqui reunidas, são mais um exemplo disso. Para além dessa dupla sensação de estranheza/curiosidade, atraem também pela sua legibilidade extrema – o relato avança por si só, com os diálogos reduzidos ao mínimo, com a vertente gráfica a imperar na condução do leitor – e as sucessivas cenas de acção, dinâmicas, intensas, surpreendentes – veja-se em especial o confronto final da segunda história.

O caderno final que fecha mais uma boa edição da Panini espanhola, reproduz um bom lote de esboços de Andrea Accardi – cujo traço é servido por uma ampla paleta de cores, de acordo com os momentos descritos – que permitem descobrir algumas das suas fontes de inspiração e que o seu traço ágil, apesar da sua matriz clássica e a boa reprodução do corpo e do movimento humanos não surge do nada, é atingido com trabalho, treino, tentativa e erro…

Chanbara – El Camino del Samurai

*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

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