As Leituras do Pedro: Almanaque Tex #52

As Leituras do Pedro*

Almanaque Tex #52
>Colheita sangrenta
Jacopo Rauch (argumento)
Alessandro Poli (desenho)
>Corrida pela vida
Giorgio Giusfredi (argumento)
Alfonso Font (desenho)
Histórias originalmente publicadas em Tex Magazine #5 (Itália, 2019)
Mythos Editora
Brasil, Fevereiro de 2020
135 x 180 mm, 110 p., pb, capa mole
R$ 13,90 / 4,00 €

Curtas

Se não nascida, pelo menos tornada popular em longos folhetins que se estendiam por semanas ou meses nos jornais, a banda desenhada, com o advento das revistas, ganhou relatos mais curtos. Hoje, encontramo-la por toda a parte naquelas duas dimensões – e noutras… – mas a verdade é que há universos em que à partida não contamos com relatos curtos – e como é relativo este adjectivo…

É o caso daquele em que se movimenta o ranger Tex Willer mas, também nele, não há regra sem excepção e este é um exemplo.

[Se ao longo dos muitos anos que Tex já conta, pontualmente surgiram aventuras mais curtas, em abono da verdade, na última década assistimos ao reforço desta realidade e a Color Tex (Tex Edição Colorida no Brasil) é mostruário disso, com as suas edições com quatro histórias de uma trintena de páginas cada.]

Disse acima que o adjectivo ‘curto’ era enganoso, e esta edição prova-o. Colheita sangrenta, que a abre, conta 78 pranchas, volume considerável em muitos outros panoramas editoriais, mas não quando falamos de Tex, cujas aventuras geralmente ultrapassa(va)m, no mínimo, a centena de pranchas, podendo aproximar-se mesmo do meio milhar.

Dessa história, realce para dois momentos fulcrais: o sacrifício humano logo nas primeiras páginas – pelo inusitado da situação em Tex e pelo método utilizado – e, depois, mais à frente, a perseguição num campo de milho – apropriação coerente de uma cena utilizada recorrentemente em diversos registos narrativos pela potencial que a vegetação alta e cerrada proporciona em termos de jogo do gato e do rato. Fora isso, esta pode ser encarada como uma aventura tradicional do ranger, a solo, embora com uma surpresa – previsível… – quase no final, que confirma uma regra cavalheiresca que Tex não transgride…

Quanto a Corrida pela vida, provoca uma dupla estranheza: pela sua curta (cá está, outra vez) dimensão – 32 páginas – e, principalmente, pela ausência do protagonista esperado, substituído aqui por Gros Jean e Dawn.

Confesso que não me ocorre – falta minha ou memória fraca? – nenhuma outra história d(o universo d)e Tex em que ele não esteja presente, com excepção de Maria Pilar, que até tem edição da Polvo, mas a verdade é que a dupla (canadiana…) escolhida faz todo o sentido, num relato que se desenrola integralmente na neve, durante numa corrida de trenós, em que os interesses e os fins, parecem justificar alguns meios.

Num caso e noutro, com a ajuda do traço mais duro e agreste de Poli e Font, os desvios à ‘normalidade’ texiana são sensíveis, mas sem serem abusivos, e permitem abordagens diferentes.

*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

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