As críticas do Marinho: Tempesta su Galveston (Texone italiano #30)

Por Mário João Marques

Tempesta su Galveston (Texone italiano #30)

Galveston, Texas, junto à costa do Golfo do México, sul dos Estados Unidos. Apesar da escravatura ter sido abolida em 1863 pelo então presidente Abraham Lincoln e oficialmente proibida pelo Congresso em 1865, a verdade é que muitos estados sulistas mantêm a sua prática, ora através de restrições legais (Black Codes) ou por qualquer outro artifício que, no fundo, traduz-se no mesmo objectivo de humilhação da raça negra. Senhor de extensas plantações de algodão, o coronel Woodlord continua a usufruir e a utilizar a mão-de-obra negra gratuitamente, mercê de um expediente legal criado pelo juiz Trent e que visa permitir que condenados pela justiça possam ser colocados e sujeitos a trabalhos forçados nas plantações de ricos proprietários. Tex e Carson dirigem-se a Galveston para entregarem ao xerife local um dos membros de um bando de assaltantes que tinham perseguido e abatido nas imediações da cidade, acabando por se ver envolvidos numa história de um tesouro escondido, cujas coordenadas que permitem a sua localização estão desenhadas no verso das cartas de um baralho herdado por Eleanor Hood, a sensual proprietária do “Lucky Smile”, o melhor saloon de Galveston.

Ao situar esta aventura no sul dos Estados Unidos, a alusão ao tema da escravatura acaba por ser muito natural, permitindo a Pasquale Ruju evidenciar algumas das principais características do Tex bonelliano, sobretudo o seu humanismo, a sua ética e o seu ideal de justiça. Ao longo de toda a série é bem patente a acção texiana em defesa do sentido da vida e dos mais elementares valores humanos. A filosofia texiana é muito clara, não havendo lugar a qualquer distinção em função da fé particular de cada um ou da cor da pele com que se nasce. Para Tex, todos obedecem à lei de Deus e todos têm o direito de viver. Em todas as religiões, como em todas as raças, há homens bons e homens maus, devendo os mais fracos e oprimidos serem defendidos sem qualquer prévia discriminação. Esta luta permanente faz-se sentir no mais recôndito local, assim como junto dos poderes instituídos, por maiores e poderosos que sejam. A libertação dos escravos é o exemplo flagrante deste Tex humanista, mas esta sua característica também é realçada em pequenas atitudes, como por exemplo quando Tex abate Diego Garras num duelo e o corpo deste cai literalmente nas águas infestadas de aligátores. Tex apela a uma consciência humana como poucos e sobretudo contrária aquela do homem que tinha acabado de abater, disparando contra os aligátores e deste modo evitando que o seu corpo sirva de repasto aos répteis. Este Tex bonelliano também se reflecte na ética e na moral, sobretudo quando transposta para a aplicação das leis. O Juiz Trent de Ruju parece decalcado do juiz Maddox, celebrizado na mítica aventura de Guido Nolitta Caçada Humana. Tal como este, Trent é corrupto e pouco flexível na aplicação da justiça, porque no fundo parece sempre mais interessado na aplicação de uma lei em proveito próprio do que aquela que sirva os superiores interesses do homem e da moral. Por isso Tex não hesita, arrancando o livro de direito das mãos do juiz e, ao mesmo tempo que o rasga ao meio, grita: “A lei, Trent, é apenas uma pilha de banalidades no papel se você não souber aplicá-la de acordo com a sua consciência. E não basta um título ou uma toga para transformar um charlatão pomposo num juiz digno deste nome”.


Esta influência bonelliana estende-se ainda a outros pontos. Já vimos a forma e o modo como Ruju apresenta Tex, mas a linguagem utilizada, bem patente em alguns diálogos, parece sublinhar ainda mais esta inspiração. Diálogos como “Por vezes a impaciência é má conselheira, amigo. Atira para o chão a tua pistola… ou o próximo instrumento que tocarás será uma harpa bem afinada”, ou quando um bandido, surpreendido por Tex, pergunta “Maldição!… Quem és tu?”, ao que o ranger responde “As perguntas faço-as eu, belo crápula”, remetem-nos para aquele Tex pujante e que não recua diante do que quer que seja, mesmo num bar infestado de bandidos e onde o ambiente tem tudo para explodir a qualquer instante: “Se o teu compadre com bigode não colocar imediatamente as suas mãos sobre a mesa, prometo que o próximo brinde vai fazê-lo à saúde do senhor Satanás!”. Esta é uma linguagem rude, mas é aquela que mais rapidamente permite ao ranger passar a sua mensagem.

A acção desenvolve-se em praticamente dois dias, com uma intensidade dramática em crescendo, evoluindo em perfeita sintonia e coordenação com a tempestade que se aproxima. Na realidade, se as nuvens vão sendo cada vez mais frequentes e intensas, escurecendo o ambiente, também a trama se vai intensificando. A narração de Ruju vai alternando cenas em cada duas ou três páginas, acabando por adquirir um ritmo trepidante com a chegada da mãe natureza, a chuva, o vento, o rio que se liberta das suas fronteiras e tudo arrasta consigo. A água surge assim como elemento purificador. Tudo destrói para que tudo possa ser reconstruído. A cidade, a libertação dos escravos, mas também Manny, o tal que Tex e Carson tinham entregue aos cuidados do xerife, até ali confinado às paredes de uma cela da prisão, mas que, ao mergulhar nas águas revoltas do rio e salvar uma vida humana, acabará por provar que Tex estava certo do seu carácter e que é merecedor de uma segunda oportunidade.


No desenho desta aventura encontramos Massimo Rotundo, mais um nome saído directamente da própria editora, autor já com uma vasta e larga experiência, fruto de uma carreira eclética iniciada no já longínquo ano de 1978. Nascido em Roma em 1955, é um dos fundadores e docentes da Scuola Romana dei Fumetti e trabalha também para o cinema e teatro, onde já colaborou com nomes como Martin Scorcese ou Paul Verhoeven. Na banda desenhada, para além de muitos outros trabalhos, destaque para a sua participação em revistas como L’Eternauta, Comic Art, Orient Express, Heavy Metal e L’Ècho des Savanes, assim como trabalhos para as editoras francesas Delcourt, Glénat e Albin Michel. Na Sergio Bonelli Editore vai desenhar para as séries Brendon, incluindo as capas a partir do nº 45, Volto Nascosto e Shanghai Devil, sendo também o autor de todas as capas destas duas mini-séries escritas por Manfredi. Já foi distinguido por várias vezes, com destaque para o prémio Yellow Kid de 1990 como melhor desenhador italiano e o Gran Guinigi em Lucca.

Apesar de leitor habitual de Tex, as primeiras dificuldades de Rotundo surgem pelo facto de desenhar uma nova personagem, sobretudo num género ainda pouco frequentado pelo autor. No entanto, guiado pela sua própria sensibilidade, rapidamente Rotundo vai enfrentar de frente o desafio e desenhar de instinto, adoptando um estilo realista e compondo um Tex clássico e muito pessoal, sem que se vislumbre uma clara influência na sua composição, mesmo após ter estudado os modelos de Villa e de Ticci. O leitor está perante um traço firme e um desenvolvimento verdadeiramente cinematográfico. Nas cenas de acção isso é bem evidente, com Rotundo a suplantar-se. Estas cenas são variadas ao longo da aventura, destacando-se a que decorre no pântano, quando Tex e Carson se aproximam da casa onde supostamente se encontra Diego Garras. Esta cena é de grande eficácia narrativa, com Rotundo a compor graficamente uma notável intensidade dramática e onde o bater dos incessantes pingos da chuva se confunde com o crepitar das balas, levando mesmo o velho Carson a afirmar “… não percebo se chove mais água ou mais chumbo!”. Por outro lado, aqui e ali parece-nos que o desenhador terá ido buscar alguma inspiração a aventuras passadas (leia-se El Muerto), sobretudo a cenas que permanecem na memória visual do leitor texiano. Repare-se no duelo final entre Tex e Diego Garras, todo ele a sugerir o mítico confronto final entre Tex e El Muerto no cemitério, ou mesmo, no final da página 118, quando Jack Hood, o pai de Eleanor, se prepara para o duelo com Vincent Center. Se trocarmos o enquadramento, a posição de ambas as personagens parece em tudo idêntica à de Tex e El Muerto composta por Galep.


Este é o Tex que gostamos, um Tex que nunca vacila e acima de tudo tem uma confiança ilimitada em si mesmo, levando até que o coronel Woodlord liberte uma cínica admiração quando afirma: “Admiro a sua confiança… mas com estas mãos já quebrei as costas a homens mais robustos do que você”. Tex está do lado da razão, da justiça, da ética e da moral, o seu poder advém desta forma de pensar, o que lhe confere desde logo a superioridade necessária para se impor e para fazer valer os seus ideais, tornando-o desta forma quase indestrutível: “… um qualquer não daria ouvidos à sua arrogância… não aceitaria poisar a espingarda e envolver-se numa luta contra um grande valentão como você… mas eu não sou um qualquer!”. Pois não, este é o nosso Tex!

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

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