As críticas do Marinho: Maxi Tex #27 – “I tre fratelli Bill” (“Os três irmãos Bill”)

Por Mário João Marques

Maxi Tex #27 – I tre fratelli Bill

Recuemos um pouco no tempo, até 1952, quando começou a ser publicada uma série de tiras semanais pela editora Audace, cujos protagonistas eram Black, Sam e Kid, os três irmãos Bill, uma família de aventureiros criada por Gianluigi Bonelli e cujas histórias, desenhadas por Giovanni Benvenuti (auxiliado ocasionalmente por Roy D’Amy), constituíam uma espécie de recriação nostálgica de um western aventuroso, clássico e impregnado de valores humanos. Os três irmãos eram por assim dizer uma versão literária de três famosos actores do cinema americano: Black, baseado no actor John Carradine do filme Stagecoach (A Cavalgada Heróica) de John Ford; Sam, em Victor McLaglen, o sargento Quincannon de The Lost Patrol (A Patrulha Perdida), também de John Ford; e Kid, em Montgomery Clift, o jovem atormentado de Red River (Rio Vermelho) realizado por Howard Hawks. A publicação termina após vinte e sete números, mas renasce em 1955 com Il Ritorno dei 3 Bill, desaparecendo de cena no ano seguinte, até Mauro Boselli decidir recuperar tão singulares e simpáticas personagens cruzando-as com Tex.

Maxi Tex #27 – I tre fratelli Bill de Mauro Boselli & Alessandro Piccinelli

Numa época em que a Sergio Bonelli Editore parece apostada nos crossovers entre as suas personagens, como por exemplo o recente encontro entre Dylan Dog e Dampyr ou o ansiado entre Zagor e o próprio Tex, mas também com personagens de outras editoras, veja-se a parceria com a americana DC, porque não recuperar muitos dos heróis clássicos do fumetto italiano, sobretudo aqueles que foram criados por Gianluigi Bonelli e que até actuam no mesmo teatro e nos mesmos ambientes de Tex, partilhando os mesmos valores e os mesmos combates. No fundo, o que Boselli nos apresenta é uma merecida homenagem ao pai de Tex e à sua prolífica imaginação, algo que recentemente já tinha sido proposto pela editora num Magazine Aventura com a republicação de duas das suas histórias, El Kid e Yuma Kid.

Maxi Tex #27 – I tre fratelli Bill de Mauro Boselli & Alessandro Piccinelli

E para começar esta aventura de Tex, nada melhor do que fazer uma belíssima apresentação de cada um dos irmãos: o imponente Sam, forte como um touro e que não hesita em mandar abaixo um trading post, apenas porque o acusaram de ser amigo dos fedorentos índios, logo ele que até toma banho uma vez por mês; o sedutor Kid, entrelaçado com a bela mexicana Francisca numa pousada em Tucson, quando tem de enfrentar os irmãos e o pai da jovem; e Black, o pistoleiro sombrio que num cemitério, ao som de um relógio de bolso, decalcado do inolvidável El Muerto, não hesita em abater o impiedoso caçador de prémios Jack Fenton e vingar a família Powell, particularmente o jovem Jimmy a quem Black tinha oferecido o relógio. Feitas as apresentações, a verdade é que não é de todo inocente que o leitor associe Sam ao também corpulento e irascível Gros-Jean, Kid a Kit Willer, também ele um jovem sedutor, e Black, mercê da sua fisionomia e da falta de algum sentido de humor, ao velho e casmurro Carson. Depois de um trading post destruído, de uma jovem abandonada e de um caçador de prémios abatido num cemitério, nada como o reencontro entre os irmãos, porque apesar de cada um ter sempre algo para fazer, a verdade é que é em conjunto que eles se sentem bem. E o encontro com Tex e Carson vai ocorrer por força de um grupo de apaches chiricahuas se terem  revoltado contra o seu líder Cochise e o filho Tahzay, obrigando todos a actuar no sentido da manutenção de uma paz ténue.

Maxi Tex #27 – I tre fratelli Bill de Mauro Boselli & Alessandro Piccinelli

Uma aventura que de certa forma regressa às origens de Mauro Boselli, quando o autor escrevia argumentos épicos onde Tex partilhava algum protagonismo com outros actores. Tal como o curador de Tex sublinha, nesta história o Ranger não é o único titular, porque os três irmãos Bill regressam para de novo cavalgarem com os leitores, reduzindo a presença de Tex a um nível que os mais conservadores não estarão habituados, o que se torna mais marcante já que os irmãos Bill não são personagens antipáticas aos nossos olhos, pelo contrario são homens generosos e com um elevado sentido de justiça, apesar de algumas vezes não terem grandes escrúpulos, porque não hesitam em arriscar a vida de outros para obterem os seus fins. Muito seguros de si, talvez mesmo demasiado, os irmãos Bill só utilizam as armas para o bem e só matam se estiverem em risco de vida, actuando muitas vezes no limbo entre a legalidade e a ilegalidade, preferindo, tal como Tex, a justiça, mesmo que esta implique ultrapassar os limites da lei. Ou seja, são personagens que merecem não só a estima do Ranger, mas também a nossa, humildes leitores e testemunhas dos acontecimentos de uma daquelas aventuras como já não se fazem, nas palavras de Graziani Frediani, tão clássica quanto moderna na interacção entre as inúmeras personagens e onde se respira permanentemente o perfume da honra, da ética e da amizade, não só a que une os irmãos, mas sobretudo a que une Tex a Cochise e ao seu filho Tahzay, relação que alcança outros contornos numa época em que tantos, demasiado mesmo, tendem a reduzir os conflitos raciais entre brancos e negros, esquecendo a exterminação que muitos índios foram vítimas, confinados hoje em dia em reservas sem qualquer identidade e entregues ao álcool e à droga, sem um alento, um qualquer objectivo ou oportunidade de mudança no horizonte.

Maxi Tex #27 – I tre fratelli Bill de Mauro Boselli & Alessandro Piccinelli

Acontecimentos servidos pelo traço sublime de um Alessandro Piccinelli em grande forma e que apresenta aqui o seu melhor e mais completo trabalho na série. Não há um defeito no seu desenho, quer na composição dos Rangers e das personagens, seja ela na sua fisionomia, seja também nas expressões faciais, nos movimentos em função da acção, sem esquecer aspectos muito importantes num western como a composição dos cavalos e os seus movimentos ou o estudo e recriação dos cenários. Nas cenas panorâmicas e mais abrangentes, onde se encontram presentes várias personagens, cada uma assume a sua postura corporal, uma postura natural e não estática. Por outro lado, parece ser notório um maior investimento do autor em cenas de grande plano e primeiro plano, o que conduz a uma espécie de engrandecimento do desenho e permite explorar e apresentar notavelmente as expressões faciais das personagens, como já antes referido, surgindo estas quase que diante do leitor. Notável, porque estamos perante alguém que, para além de trabalhar para Tex também desenha para Zagor, série onde ainda é o autor das capas.

Maxi Tex #27 – I tre fratelli Bill de Mauro Boselli & Alessandro Piccinelli

Uma aventura que fica na história de Tex pela capacidade indiscutível de manter os acontecimentos sempre no interesse do leitor, mas fundamentalmente porque representa novos passos no imenso trabalho que Mauro Boselli vem fazendo na série, traduzido não só pela recuperação de personagens do imaginário do fumetto italiano, mas também numa interessante ligação do enredo com acontecimentos narrados na série principal, assim como com outros que ainda virão a ser apresentados em Tex Willer, as aventuras do herói na sua juventude, tornando a série, desta forma, como um todo uniforme e coerente.

Mauro Boselli & Alessandro Piccinelli exibem orgulhosamente exemplares do seu (deles) Maxi Tex #27

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

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