As críticas do Marinho: “El Supremo” – (Tex italiano 637 a 640)

Por Mário João Marques

São vários os episódios que marcaram a história das relações transfronteiriças entre os Estados Unidos e o México. Desde a independência mexicana em 1821 que alguns conflitos, mais ou menos dramáticos e violentos, caracterizaram a história dos dois países. Uma das principais crises surgiu com a secessão do Texas em 1836, quando os seus habitantes estabeleceram a República do Texas e pretenderam fazer parte da União, contando com o apoio do Sul, onde era permitida a escravatura. Província mexicana até então, o Texas não terá as suas pretensões independentistas reconhecidas pelo México, iniciando-se então uma disputa territorial que culminará numa guerra entre os Estados Unidos e o México. Em 1845 os EUA votaram a anexação do Texas, originando a Guerra Mexicana, que só terminará quando os Americanos chegam até à Cidade do México em 1847. Esta derrota custou ao México, além do Texas, a Califórnia do Sul, o Arizona e o Novo México, tendo também sido reconhecido o Rio Grande como a fronteira entre o México e o Texas.

Internamente a História do México caracteriza-se também por uma interminável instabilidade política. Por exemplo, com a proclamação da república em 1824, o México contou com 44 presidentes até 1855, com o espectro político a dividir-se permanentemente entre centralistas e federalistas. No século XIX, reinava no México uma certa veia romântica de um povo que tinha recuperado a liberdade nacional e pessoal. Muitos sentem ter vocação para chefiar, mas são poucos os que, num permanente clima de instabilidade, conseguem demonstrar qualidade e dimensão humana para unir o país.

Este é o terreno fértil e o ambiente de eleição para Boselli instalar a sua trama, desenhada com excelência por Maurizio Dotti, que tem aqui a sua estreia plena na série.

Reynaldo Casamayor, mais conhecido por El Supremo, é um ex-general do exército mexicano. As suas ambições são imensas, muito para além da “simples” honra em servir o seu país. Depois de reunir um pequeno exército, El Supremo ambiciona construir a sua própria pátria, edificar o seu próprio reino na Baixa Califórnia, um sonho pessoal e megalómano que vai precisar de apoio militar e político, aproveitando a instabilidade que reina no México. Chamados por Montales, Tex e os seus pards vão defrontar o poder de El Supremo, ainda numa fase inicial, antes que este se possa ramificar e desenvolver, influenciando assim o espectro político da região e possa conduzir a uma guerra de consequências que podem ser dramáticas para todos, incluindo para os Estados Unidos.

Esta ambição de El Supremo vem no seguimento de muitos sonhos independentistas que, durante o século XIX, e um pouco por todo o continente americano, sobretudo no espaço da América Latina, foram vividos por vários protagonistas. Boselli dá-nos o exemplo do americano William Walker, que também ambicionou construir o seu próprio reino, fundando a República da Baixa Califórnia, projecto rapidamente votado ao fracasso por falta de apoio político suficiente. Pelo contrário, El Supremo, oriundo de uma antiga família de aristocratas, parece reunir um conjunto de condições capazes de o guindar ao sucesso: conhece bem o exército mexicano, onde foi general, tem consigo parte do povo e reúne o apoio político junto de influentes senadores americanos, que vêm nele alguém capaz de construir um estado amigo junto à fronteira com os Estados Unidos, onde impere uma disciplina verdadeiramente militar que impeça a instabilidade e desenvolva os negócios.

A aventura é muito rica em situações, ambientes e personagens, com sucessivas mudanças para regalo do leitor. Inicia-se na Baixa Califórnia na fronteira com o Arizona, passando sucessivamente por San Diego (na Califórnia), pelo deserto de Altar no México, por uma ilha perdida e quase inexpugnável no Pacífico, ao largo da Baixa Califórnia, e ainda por São Francisco, palco de tantas aventuras memoráveis. Por outro lado, também são muitas as personagens, umas naturalmente mais decisivas que outras, assim como os quatro pards têm aqui uma ocasião especial para intervirem, numa gestão de recursos superiormente apresentada por Boselli, mas onde Kit Willer e Jack Tigre parecem evidenciar-se.

Uma aventura que, de certa forma, homenageia algumas das personagens bonellianas tão conhecidas e apreciadas pelo leitor, conferindo-lhes um papel que sublinha o seu enorme apreço no relacionamento com Tex. Em São Francisco, Boselli insere uma panóplia de personagens como Tom Devlin, Mike Tracy, Lefty Potrero, Bingo e Angelo, ou seja a fina flor criada por Bonelli que vive na grande metrópole americana. Mas este conjunto de “convidados” é apenas uma parte do elenco que permanece no nosso imaginário, porque a aventura gira toda ela em torno do auxílio prestado, uma vez mais, a Montales, personagem mítica e romântica que lutou contra o regime mexicano e que mais tarde chegou a governador da província de Chihuahua. Realce ainda para Donen e Mike, duas personagens inicialmente do mesmo lado da barricada, mas que em breve vão estar em lados opostos. Donen assume-se como um romântico que anseia viver grandes aventuras, mesmo que isso o coloque contra a sua própria bandeira. Nick Castle, pelo contrário, é um mercenário que actua por dinheiro e presta os seus serviços a quem melhor pagar. Donen rapidamente acaba por ser convencido das reais intenções de El Supremo, um sonho e uma ambição megalómana capaz de alterar o xadrez político e social da região e que terá influência no seu próprio país, os Estados Unidos, ao contrário de Castle, a quem o dinheiro parece ser o único interesse, independentemente das consequências. Aliás, o final é perfeitamente aberto em relação a ambas as personagens (sobretudo Castle, desaparecido com paradeiro desconhecido), deixando margem de manobra para que possam reaparecer em futuras aventuras, numa estratégia de continuidade que Boselli parece ter adoptado e que passa por dotar a série de um conjunto de personagens capazes de intervir noutras ocasiões e aventuras.

Para o sucesso da aventura muito contribui também o desenho de Maurizio Dotti, que já tinha tido uma passagem fugaz pela série quando, com Alarico Gattia, desenhou Glorieta Pass para o Almanacco del West 1998. Habituado a ambientes muito concretos e definidos em Dampyr, Dotti revela nesta nova fase toda as suas potencialidades, confirmando ser um desenhador de enorme talento. E isso torna-se mais evidente e motivo de realce pelo facto do caderno de encargos de Boselli ir muito além do expectável para um desenhador recém-chegado à série. Dotti tem que enfrentar diferentes situações, uma extensa galeria de personagens, mas sobretudo tem que desenhar muitos e diferentes ambientes. Em tudo revela um enorme virtuosismo, uma enorme capacidade de recriação, um domínio quase perfeito das personagens, deixando aqui um trabalho de grande superação gráfica. Quer nos ambientes de puro oeste com paisagens áridas e agrestes, noites fustigadas pela chuva, fortes militares, tabernas ou mesmo o mosteiro logo na cena inicial, quer no ambiente citadino de São Francisco, dividido entre a elegância do urbanismo da cidade e os locais mais recônditos apresentados debaixo de um manto de nevoeiro nocturno, para terminar no épico combate na ilha de El Supremo, Dotti revela ser um desenhador de traço realista e elaborado que joga muito com os efeitos entre o claro e o escuro e que prefere os enquadramentos menos clássicos, compondo cenas onde as personagens surgem dos mais diversos ângulos e perspectivas. A sua composição dos quatro pards parece quase conseguida e definitiva, com notáveis Kit Willer e Jack Tigre, faltando apenas aperfeiçoar o seu Tex, cujo modelo, se bem que imponente, parece ainda não ser uma pura construção “dottiana”.


De sabor épico e com cenas verdadeiramente cinematográficas e de antologia – veja-se toda a cena inicial, numa verdadeira atmosfera de western spaghetti, com a personagem de Lozano prestes a ser enforcada, e sobretudo o ataque final à fortaleza de El Supremo- esta é uma aventura que veio para ficar na história de Tex, uma daquelas aventuras que, apesar de algum excesso de diálogos em determinadas passagens, apetece ler e reler, apreciar um detalhe antes despercebido, compreender o ambiente histórico, o enquadramento social e político, as reais motivações das personagens, mas sobretudo reter as características bosellianas aqui presentes.


Em El Supremo Tex é decisivo, duro, herói por excelência, sempre de acordo com a sua fama, ocasião para Boselli reforçar a ideia de que ele é o autor capaz de manter a lenda, não invalidando que vá introduzindo elementos e características pessoais: Kit Willer e Jack Tigre assumindo um protagonismo que muitas vezes falta; novas personagens que deixam a ideia de não abandonar definitivamente o “palco” e poder vir a regressar no futuro; um argumento que, ao apresentar uma plenitude de situações e ambientes, não se limita a uma aventura de puro oeste, passando também por outros registos. Ou seja, sem renegar o legado recebido, antes o aproveitando, Boselli sublinha uma vez mais ser um autor capaz de deixar na série um cunho pessoal muito evidente, contribuindo assim para o seu desenvolvimento.

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