As críticas do Marinho: Almanacco del West 2014 – “I rapitori”

Por Mário João Marques

É muito difícil escrever para Tex. A afirmação é do próprio Tito Faraci, argumentista experiente que se estreou na série em 2007 com a aventura “Evasione”. Desenhada pelo espanhol José Ortiz, curiosamente esta foi a primeira aventura a ser publicada, mas não a primeira a ser escrita por Faraci. Na verdade, “Il Sceriffo Indiano”, desenhada pelos irmãos Cestaro, foi mesmo a primeira aventura que Faraci escreveu para Tex, apesar de ter sido publicada apenas dois anos mais tarde, em resultado do ritmo lento de trabalho dos desenhadores.

Acreditando no que os leitores vêm sublinhando, Faraci ainda não assinou uma grande história para Tex, procurando incessantemente uma aventura que possa figurar no galarim das mais apreciados do Ranger. Não partilho dessa opinião, não significando com isso que Faraci já tenha deixado a sua marca ou o seu cunho pessoal na série. O autor tem vindo a explorar temas clássicos, desenvolvendo-os de modo linear, mas ultimamente parece privilegiar mais a acção do que propriamente a trama.

Nem sempre foi assim, pois no início, com “Il Sceriffo Indiano”, por exemplo, Faraci construiu a melhor aventura de Tex, sobrepondo os relacionamentos humanos e a espessura psicológica das personagens à acção, sem descurar esta. Mesmo a aventura seguinte “L’uomo di Baltimora”, onde se estreou Giovanni Bruzzo, parece ser interessante, porque o autor acaba por construir uma personagem, na figura um lord inglês em busca de aventura, que testemunha, através da sua escrita e do seu desenho, vários episódios do Oeste americano.

Ciente da dificuldade em escrever para Tex, Faraci tem vindo desde então a optar por uma receita que já deu mostras de sucesso, apresentar um Ranger infalível, muito interventivo, liderante, uma certa forma do próprio autor se proteger perante os mais exigentes, privilegiando assim uma faceta muito apreciada e que, no fundo, acabou por estar na base da sua fama e popularidade. Faraci acredita assim ter encontrado um refúgio, uma base que lhe permita meter o pé em terreno seguro. Tex é no entanto mais do que isso, sobretudo hoje quando os tempos são outros e os leitores parecem ser mais exigentes. Ciente disso, a série evoluiu e a personagem tem vindo a adaptar-se, a moldar-se aos gostos e às exigências.


O Ranger infalível, que constantemente deixa a sua personalidade vincada por onde passa, tem vindo a trilhar outros caminhos que o possam adaptar aos novos tempos. Boselli constrói aventuras densas, com muitas personagens, todas elas importantes na trama, dando muitas vezes outro protagonismo a personagens como Kit Willer ou Jack Tigre, como nenhum outro autor o fez. Recuando no tempo, o próprio Sérgio Bonelli via em Tex uma personagem que se diferenciava de alguma forma daquela que o seu pai idealizou, explorando e construindo um Tex que, sem deixar de ser interventivo, questionava-se, duvidava e por vezes falhava.


Ou seja, apesar de Faraci ter entrado bem na série, apesar de escrever aventuras agradáveis, faltará dar um passo em frente, o passo seguinte, o salto qualitativo que prometeu, assumindo o seu modelo para Tex sem desvirtuar as principais características da personagem. Talvez por isso, talvez ciente disso, o autor assuma a sua dificuldade em escrever para Tex.

I Rapitori conta a história do rapto de um jovem advogado que viaja até ao velho Oeste para pedir a mão da namorada ao pai desta. Tex encontra-se na zona e promete à jovem que vai tentar libertar o noivo, custe o que custar. Mas os factos não são bem aquilo que à primeira vez pareciam uma evidência.

Mais uma trama clássica que Faraci explora bem no seu início, mas que acaba por não a desenvolver com a mesma categoria nas páginas seguintes, revelando um argumento linear onde falta densidade e uma construção de ambientes e personagens mais madura, amplificando os limites que tem vindo a revelar na abordagem à personagem.

Por seu lado, o trabalho de Suarez é de grande qualidade na construção de ambientes e na caracterização das personagens, revelando estar à vontade no género e apresentando páginas de enorme detalhe. Faltará, no entanto, apresentar um Tex como todos apreciamos. Apesar das inúmeras composições do Ranger e sobretudo os ângulos em que o mesmo é apresentado, confirmarem um autor que está à vontade na composição da personagem e que nunca se nega a apresentá-la ao leitor, o seu Tex é granítico, incapaz de demonstrar emoções e sentimentos.


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