As críticas do Marinho: “Tex Gigante 28 – Os Pioneiros”

Por Mário João Marques

O que é para cada um de nós uma boa aventura? Quais os critérios que utilizamos para caracterizar uma boa aventura? Naturalmente subjectivos, dependendo da sensibilidade de cada leitor e certamente com importância e graus diferentes. Mesmo assim, estou certo que a grande maioria dos leitores dará relevo e privilegiará um argumento que prenda permanentemente a atenção (mesmo que a ideia não seja original), uma história plena, rica de personagens, capacidade dramática, servida por um desenho detalhado e dinâmico, que nos detenha nos enquadramentos, que nos deixe sem fôlego perante determinadas sequências e que mantenha o mesmo nível ao longo de todas as páginas. Enfim, uma história que nos fique na memória e possa ser recordada pelas melhores razões. Pois bem, a ser assim, Os Pioneiros, assinado por Boselli e Venturi, cumpre com os requisitos.
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Se dúvidas houvesse sobre a real capacidade de Boselli em conferir uma espessura dramática às aventuras texianas, esta aventura vem colocar mais uma pedra no edifício grandioso de aventuras que o autor tem vindo a assinar para o Ranger. Não me canso de dizer, Boselli não é o autor bonelliano puro, mas é o autor que soube modernizar a personagem sem a desvirtuar, conferindo uma intensidade nos enredos, plenos de situações ímpares e de personagens plenas..


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Em perseguição de um grupo de traficantes, que vendem armas aos Piutes de Corvo Vermelho, Tex e os seus pards descobrem que uma caravana de pioneiros encontra-se pelas mesmas paragens e que está ameaçada por um eminente ataque desta tribo de índios. Guiada por um velho amigo de Tex, na caravana segue anonimamente um grupo de assaltantes que leva consigo dinheiro de um recente roubo. O que exalta a cobiça de Randy Lockhart que, aliado aos Piutes, pretende apoderar-se deste dinheiro. Estão reunidas as condições para um eminente ataque à caravana, cenário onde Tex e os seus pards se vão juntar, num verdadeiro hino à coragem em luta contra a feroz determinação dos Piutes e do bando de Lockhart.
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Os Pioneiros apresenta um oeste dramático, mas um oeste verídico, um oeste onde uns, em busca de melhores oportunidades, e outros para dar outro sentido às suas vidas, partiam rumo a paragens distantes, percorrendo caminhos inóspitos, enfrentando a força da natureza, mas sobretudo arriscando permanentemente a sua vida e dos seus familiares. Um oeste que Boselli capta na sua essência, na sua espessura dramática, não se coibindo de sublinhar as grandes linhas da série. Terreno fértil para o autor fazer aquilo que melhor sabe, diálogos ricos, personagens dramáticas, várias tramas que se interligam na perfeição, capazes de desenvolver a grande nível uma aventura que explora uma faceta romântica e clássica do velho oeste. Uma aventura onde um grupo de homens, em busca de um novo início, agarra-se a uma esperança que, apesar de presente, teima em ser alcançada.
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Depois de Galep, Ticci e mais recentemente Civitelli, Andrea Venturi é outro nome do staff texiano convidado para desenhar um Gigante. Já por aqui passaram nomes grandes da banda desenhada, alguns fora do contexto normal da série (Kubert, Magnus, Buzelli, Wilson), outros aqui chegados rumaram directamente para o staff de desenhadores texianos, em virtude das boas provas prestadas (Mastantuono, Ortiz, Frisenda, Filippucci), mas a tendência dos últimos tempos parece ser esta, a de aproveitar a prata da casa para compor uma obra que, pelas suas mais de duzentas páginas, requer muito tempo e dedicação.
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E este parece ser um dos adjectivos mais adequados e que melhor caracteriza o trabalho de Venturi nesta aventura, porque se nota em cada página a grande capacidade artística do autor de Bolonha, o pormenor e o detalhe conferido, sobretudo um cuidado que revela a humildade própria da sua personalidade e que recentemente tivemos ocasião de testemunhar numa visita do autor a Portugal. A prestação de Venturi revela o respeito e a honra com que assumiu este empreendimento, que o autor fez questão de sublinhar, ao afirmar sentir um enorme prestígio em ter sido convidado para este trabalho. Venturi desenhou com amor e paixão, para Sergio, para Boselli, para todos os leitores. Por isso o resultado é grandioso e se o estado de espírito contribui e influencia de sobremaneira um trabalho, I Pionieri (título italiano) reflecte o melhor que o autor quis transmitir.
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Venturi assume a sua influência ticciana, não somente pela construção do seu Tex, a sua fisionomia e as suas expressões faciais, mas também e talvez mesmo sobretudo na atitude que confere à personagem. Este Tex de Venturi, como o Tex de Ticci, é um cow-boy imponente e maduro, na plenitude dos seus recursos, altivo, capaz de captar a atenção de todos os que o rodeiam com um simples olhar, com uma simples expressão corporal. O Tex de Venturi está na plenitude dos seus recursos, que a maturidade de anos de luta e combate pela justiça foram conferindo.
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Por isso, o sucesso desta aventura vem muito do desenhador, um artista que, perante os leitores, tem vindo a ultrapassar com distinção todos os desafios propostos. Estreando-se em Dylan Dog com a aventura Johnny Freak, Venturi ficou desde logo na retina dos leitores, compondo aquela que é considerada como uma das maiores aventuras do detective do oculto, passando depois a capista de Mágico Vento, com tantas e boas provas dadas, até chegar a Tex e convencer logo nos primeiros traços.
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