As críticas do Marinho: “Tex Anual 15 – O Deus Canibal” (“Alaska!” no original)

Por Mário João Marques

Os cenários do grande norte têm sido palco de inesquecíveis aventuras texianas. Boselli assinou com Font em “Nei Territori del Nordovest’” uma bela história, Venturi desenhou para Nizzi “Le Foreste dell’Oregon” e, recuando mais no tempo, encontramos “Trapper” escrita por G.L. Bonelli e desenhada pelo “romântico” Nicoló. Sem recorrer a material de apoio, assim de repente lembramo-nos destas três excelentes aventuras, correndo o risco de deixar para trás muitas outras, onde o leitor sempre se identificou com a grandiosidade e agressividade de um cenário que alterna com os mais clássicos do velho oeste e onde Tex, vestindo sempre o seu casaco de pele, surge em perfeita harmonia com as condições naturais.

Mas se a excepção confirma a regra, este “Alaska!” vem comprovar que nem sempre o grande norte é cenário para grandes aventuras.
Na pequena localidade portuária de Stika, no Alasca, uma controvérsia opõe a comunidade local e a tripulação do navio “Matilda”, chefiada pelo capitão Roscoe, à tribo índia Tlingit do chefe Kowee. Gros-Jean chama Tex e Carson para auxiliarem a resolver uma querela que parece ter origens em factos pouco fundamentados e que cada uma das partes acusa a outra de ter cometido. Quando algumas jovens índias são raptadas, tudo parece desmoronar-se rumo a uma guerra entre as partes, mas na origem estão os índios Kutchtaga, espíritos malignos da floresta que parecem adorar um monstruoso deus canibal.

Já diz o velho ditado popular que “pau que nasce torto tarde ou nunca se endireita” e esta aventura parece fazer justiça a tamanha sabedoria popular. Tudo começou na escolha do desenhador, o argentino Angel “Lito” Fernandez, contratado por Sergio Bonelli para um Texone, mas acabando por ver esta aventura ser publicada num Maxi, depois da editora ter visualizado as primeiras páginas do seu trabalho. Fernandez é um artista de renome internacional, artistas como Carlos Gomez ou Domingo Mandrafina começaram no seu estúdio, trabalharam com ele, mas nesta aventura o autor argentino parece ter investido muito pouco.

Habitualmente, Fernandez entrega a realização dos esboços a outros autores do seu estúdio, compondo e realizando a arte final. Eventualmente, terá sido por isso que toda a aventura resulta graficamente num trabalho inconstante, alternando páginas bem desenhadas com outras que respeitam muito pouco a série. O desenho nunca é uniforme, onde por vezes há detalhe falta equilíbrio, assim como quando os cenários do grande norte são grandiosos a fisionomia e sobretudo a ergonomia das personagens denota falhas de composição dificilmente explicáveis.

Por outro lado, o argumento, apesar de situado num patamar acima do desenho, acaba por ficar refém deste. Bem construída nas primeiras cem páginas, a aventura acaba por baixar drasticamente de qualidade quando Tex e Carson se embrenham na floresta em busca das jovens desaparecidas. Aqui tudo se arrasta, muito por culpa de diálogos extensos e sobretudo muito frequentes. Boselli é um autor de extensa cultura, sobretudo neste tipo de argumento que se baseia nas crendices, na feitiçaria, nas superstições, jogando com mitos e demónios e que a saga Dampyr é um perfeito e conseguido exemplo.


Mas Tex tem os seus próprios códigos, sobretudo tem um ritmo particular e que vem provando ao longo de décadas. Tex nunca tem papel decisivo na acção, Gros Jean simplesmente não é a mesma personagem que o leitor conhece e aprecia, apenas Carson parece de alguma maneira fiel e identificável. Pelo meio uma multidão de personagens, todas sempre com muito que dizer, uma jovem índia cujo coração é disputado pelo valoroso guerreiro Kwayan e pelo capitão Roscoe, de quem está apaixonada, havendo ainda lugar para entrar em cena uma ridícula criatura gigante.


Escrevendo os seus argumentos em sintonia com os desenhadores e à medida que vai visualizando o trabalho apresentado por estes, rezam as crónicas que Boselli quis desistir desta história depois de Fernandez ter enviado as primeiras páginas. Desmotivado, tentou ainda fazer o melhor, mas a verdade é que o estado de espírito influencia sobremaneira a criatividade do autor, acabando por afirmar ser este o seu pior trabalho. As séries, ao longo dos anos, evoluem também por força de obras menos conseguidas, os autores nem sempre acertam. Por tudo isso, importa realçar a humildade e sobretudo a honestidade do autor perante o leitor, o que não é de somenos.


(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

Um comentário

  1. Realmente, Boselli está irreconhecível nessa história. A qualidade do desenho, irregular. Em resumo, na minha opinião, principalmente em função do número de páginas, mal utilizadas, esta é a aventura mais fraca de Tex.

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