As 10 Melhores BDs que João Miguel Lameiras leu em 2011

Por João Miguel Lameiras*[1]

Nesta altura do ano, é quase inevitável fazer as listas das melhores leituras do ano que terminou, e eu, mais uma vez, não fujo à tradição. Como das outras vezes, o critério de escolha foi os livros que li pela primeira vez em 2011, independentemente do local, ou data de publicação original. Daí que as mais importantes edições nacionais de 2011, Blankets e Emigrantes, não estejam nesta lista, pois já as tinha lido na edição original, há já alguns anos. O mesmo se aplica às excelentes reedições que estão a ser lançadas no mercado francês, de séries como Philemon, de Fred, Jerry Spring, de Jijé, Theodore Poussin, de Frank Le Gal e La Dynastie Donald Duck, de Carl Barks, que teriam certamente entrado nesta lista, caso as tivesse lido em 2011 pela primeira vez. Do mesmo modo, fica fora desta lista o Agência de Viajes Leming de José Carlos Fernandes, pois embora só em 2011 tenha sido publicado em livro pela Astiberri, tive ocasião de o ler pela primeira vez em 2006, ainda em fotocópia e, mais tarde, cheguei a ver provas da edição da Devir que nunca chegou a ser publicada.
Explicados os critérios de escolha, aqui vai a primeira parte da lista, ordenada por ordem alfabética:

1 – 36-39: Malos Tiempos, de Carlos Gimenez, De Bolsillo

Este livro, previamente publicado em 5 volumes pela Glenat España é mais uma viagem de Carlos Giménez ao seu passado, na linha de Paracuellos. Uma ficção autobiográfica, que mistura momentos vividos pelo próprio, com depoimentos recolhidos por Gimenez. O retrato que Giménez traça da vida em Madrid durante a Guerra Civil espanhola, é impressionante e a forma como o conta, mostra todo o talento de um grande autor de BD, que há muito atingiu a maturidade.

2 – Criminal: The Last of the Innocent, de Ed Brubaker e Sean Philips, Marvel/Icon

Com a série Criminal, Ed Brubaker e Sean Philips assinaram alguns dos melhores policiais negros dos últimos anos, com personagens à beira do abismo, diálogos afiados como um bisturi e um desenho de uma eficácia extraordinária, que recria no papel a ambiência do melhor film noir. Neste The Last of the Innocent, Brubaker e Philips arranjaram um processo narrativo tão simples como genial para tratar os flash-backs da adolescência de Riley Richards, apresentando-os num estilo gráfico diferente, que remete para as revistas da Archie Comics, estabelecendo assim um óbvio contraste entre um passado tranquilo e feliz e um presente sombrio. Brubaker diz que este livro é capaz de ser a melhor coisa que ele já fez e não sou eu que o vai desmentir!

3- Dog Mendonça na Dark Horse, de Filipe Melo e Juan Cavia, Dark Horse Presents nºs 4 a 7

A estreia de Dog Mendonça no mercado americano deu-se com estas quatro histórias de 8 páginas publicadas na revista Dark Horse Presents com o intuito de apresentar o lobisomem português aos leitores americanos, antes da Dark Horse lançar o primeiro álbum da série. Na realidade, estamos perante uma história em 3 partes, que relata a origem de Dog Mendonça e que termina precisamente onde começa o primeiro livro, e uma 2ª história solta,com os nossos heróis num Festival de BD. Para além do humor e das referências cinematográficas que são habituais na série, estes episódios introduzem uma nova dimensão metalinguística, ao colocar os personagens a falar directamente com os leitores, perfeitamente conscientes de que estão nas páginas da revista. Também em termos gráficos, é evidente o progresso de Juan Cavia, com as cores de Santiago Villa a serem reproduzidas, pela primeira vez, na perfeição. Um óbvio passo em frente para a mais popular BD portuguesa dos últimos anos.

4 – Dylan Dog: La Pequeña Muerte, de Sclavi, Ruju e Roi, Aleta ediciones

Desde que a Mythos deixou de publicar a série Dylan Dog, tenho tido grandes dificuldades em manter o contacto com o peculiar detective criado por Tiziano Sclavi. Até que descobri as edições espanholas da Aleta Ediciones, impressas no formato original e com um papel bastante superior ao usado pela Mythos. Entre as mais de 20 aventuras de Dylan Dog que li em 2011, La Pequeña Muerte, história desenvolvida por Pasquale Ruju a partir de uma ideia de Tiziano Sclavi, foi um dos melhores. O facto da história ser desenhada por Corrado Roi, o meu desenhador favorito de Dylan Dog e um grande desenhador em qualquer parte do mundo, claro que também ajudou à escolha…

5 – Habibi, de Craig Thompson, Pantheon

Sete anos depois de Blankets, o tão aguardado novo livro de Craig Thompson aí está. E graficamente, não há qualquer dúvida que valeu a espera, com o magnífico traço de Thompson cada vez mais apurado e com um excelente uso das potencialidades decorativas da caligrafia árabe. Obra monumental e de grande ambição, Habibi acaba por ser um pouco vítima desse excesso de ambição, pois a necessidade de abordar tantos temas (a escravatura, a ecologia, o amor, a religião, etc.) acaba por perturbar um pouco o fluir da narrativa. O que não impede que Habibi seja um livro belíssimo e uma leitura altamente recomendável!

6 – Parker: The Outfit, de Darwyn Cooke e Richard Stark, IDW

Segunda adaptação feita por Darwyn Cooke dos romances de Richard Stark (pseudónimo usado por Donald Westlake quando escrevia policiais) com o personagem Parker, The Outfit mostra um Cooke cada vez mais à vontade com o universo de Stark e sem qualquer receio de fazer experiências. Vejam-se as sequências do livro 3, apresentadas como um artigo numa revista, ou como um desenho animado da UPA, bem demonstrativas do talento narrativo de Cooke. Graficamente, mantêm-se a estilização e a elegância a que Darwyn Cooke nos habituou, com um trabalho bitonal que assenta como uma luva ao tom “retro” da história, passada nos anos 50.

7 – Polina, de Bastien Vivès, Casterman

Depois do magnífico Dans Mes Yeux, Bastien Vivés assina outro grande livro com Polina, a história da relação de uma jovem bailarina com o seu mestre, contada com um traço a preto e branco de extraordinária leveza, que parece flutuar na página, graças a um inteligente uso dos fundos cinzentos.Tão novo como talentoso, Vivès afirma-se cada vez mais como a grande revelação da BD franco-belga dos últimos anos.

8 – Portugal, de Cyril Pedrosa, Dupuis

Ficção autobiográfica sobre um autor que descobre as suas origens, Portugal tem conquistado a unanimidade da crítica e dos leitores franceses. O último trabalho de Cyril Pedrosa, autor francês de ascendência portuguesa, é uma belíssima viagem (a portugal, mas também interior) de quase 300 páginas, que se lêem de um fôlego. Integrando de forma harmoniosa os croquis do seu caderno de viagem, no meio das páginas de BD, Pedrosa constrói um belo livro, cheio de sensibildade e humor, mas que, infelizmente, dificilmente teremos oportunidade de ler em português…

9 – Stargazing Dog, de Takashi Murakami, Nbm

Esta bela capa transmite uma imagem de felicidade enganadora, pois esconde a história mais triste que li nos últimos anos. Os japoneses têm tradição nas histórias de fazer chorar as pedras da calçada (basta pensar num filme como Grave of the Fireflies, de Isao Takahata) e este Stargazing Dog é um bom exemplo. Uma história tão bela quanto triste, que Murakami conta de uma forma rigorosa, conseguindo (quase sempre) evitar cair na lamechice.

10 – Tex: Na Trilha do Oregon, de Manfredi e Gomez, Mythos Editora

Mais do que uma agradável surpresa, este Na Trilha do Oregon é, provavelmente o melhor “Texone” que já li. Para além de uma história interessante, muito bem construída por Gianfranco Manfredi que dá às personagens femininas um destaque pouco habitual numa história de Tex, há o desenho espectacular de Carlos Gomez. Verdadeira estrela em Itália, graças à série Dago, mas praticamente desconhecido no resto da Europa, este argentino é um desenhador de mão cheia, com um traço tão dinâmico como pormenorizado e que dá aos rostos uma grande expressividade que faz lembrar Buzzelli, embora o traço de Gomez seja mais elegante.

*João Miguel Lameiras, crítico e especialista de BD e também autor do blogue Por um punhado de imagens.
[1] (Texto publicado originalmente no Blogue “Por um punhado de imagens, em 13 e 17 de Janeiro de 2012)

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