“A Volta de Mefisto” (da Mythos Editora) na análise de Rui Cunha

Por Rui Cunha (texto) e Margarida Cunha (fotografias)

O regresso de alguém ou alguma coisa que nos é querido, costuma ser recebido com grande entusiasmo e por vezes até com pompa e circunstância. Acontece com quase tudo e com quase toda a gente, até mesmo na Banda Desenhada, a chamada Nona Arte, esse mesmo entusiasmo ou essa mesma pompa e circunstância também acontecem ocasionalmente.

Mefisto é um vilão e é uma das personagens mais queridas e mais marcantes da série de aventuras centralizadas no Oeste Americano que têm como protagonista o Ranger Tex Willer e os seus companheiros, criada há mais de 70 anos por Gian Luigi Bonelli e Aurelio “Galep” Galleppini. Mefisto é o arqui-inimigo de Tex, a sua fama entre o público leitor destas aventuras, chega a ser igual e por vezes ultrapassa a do Ranger, pelo que, o seu regresso, em 2002, tenha sido muito bem recebido.

A última aparição de Mefisto tinha sido em 1983, na história “A Sombra de Mefisto” (Tex nº 171-174 e na série “Tex Coleção” nº 318-321), mas, dada a recepção positiva dessa história e, sabendo Bonelli e Galleppini da grande aceitação que o velho e maléfico feiticeiro tinha nos leitores, começa a ser pensada uma nova história que envolvesse Mefisto mas não só! Tal história traria também de volta Lily Dickart, a irmã de Mefisto (que nunca mais fora referida em nenhuma aventura que envolvesse o feiticeiro), e outras personagens que directa ou indirectamente tivessem estado em contacto com ele. Tudo isto foi pensado e repensado e guardado  (num envelope!), até alguém estar disponível para trabalhar nas ideias e escrever um argumento.

“A Volta de Mefisto” (da Mythos Editora)

Em 1996, Mauro Boselli, argumentista e um dos nomes grandes da Bonelli, toma conhecimento do envelope onde Gian Luigi teria guardado os esboços duma futura história de Mefisto e fala nisso ao editor Sergio Bonelli que aprova a ideia e o encarrega de delinear uma história. Boselli entrega a escrita do argumento a Claudio Nizzi, outro nome grande da editora, que, no mesmo ano, entrega várias páginas escritas a Claudio Villa, um dos mais conceituados desenhadores da Bonelli e considerado um dos herdeiros directos da arte de Galep e que tem aqui um dos seus maiores desafios ao desenhar uma história com o maior vilão das aventuras de Tex.

Ainda sem data de publicação pois ambos os Claudios estão ocupado com outros projectos (Nizzi a escrita de argumentos para outros desenhadores e Villa a braços com as capas das revistas e com os pósteres de Tex), a edição desta nova aventura, foi adiada para 1998, por ocasião dos 50 anos de Tex, mas, tanto o argumento como a parte gráfica ainda estavam longe de estar concluídos e, principalmente Villa, estava apreensivo pois não queria desonrar aqueles que haviam confiado em si e queria que a sua arte fizesse justiça a Galleppini. Lá para 1999, dizia-se na Editora Bonelli, a aventura seria editada.

O ano 2000 chegou e passou e nada da nova aventura com Mefisto. Sergio Bonelli, como todos os leitores aguarda a conclusão da aventura e, resignado, convence-se de que ela só será terminada talvez dali a um ano. Mas será somente em 2002 que a tão aguardada aventura que marcará o regresso de Mefisto verá a luz do dia, pela mão de dois autores que são conhecidos como os mais directos herdeiros da arte de G. L. Bonneli e Aurelio Galleppini: Claudio Nizzi e Claudio Villa, mas, percebe-se que não será a última vez que veremos a diabólica personagem. Em 2004, chega ao Brasil onde obtém um enorme sucesso que justifica, em 2018, a escolha para a inauguração de uma nova colecção da editora Mythos com este título.

Ausente há muito tempo dos Estados Unidos, Lily Dickart, irmã de Steve Dickart, que entretanto assumiu o nome de Mefisto (nome da personagem que encarnava quando ainda era um prestidigitador, auxiliado por Lily), agora Condessa Leonov por via do seu casamento com Boris Leonov, um rico francês, vive em Paris, França e quer encontrar o paradeiro do irmão de quem não tem notícias há mais de 30 anos, para isso aceita participar numa sessão espírita onde um feiticeiro indiano consegue convocar os espíritos dos entes. Depois de conseguir entrar em contacto com o irmão e este lhe explicar aquilo que o motiva, Lily e o marido regressam ao continente americano para pôr em marcha um plano para fazer Mefisto voltar à vida e vingar-se de Tex e seus companheiros.

Mefisto! de Claudio Nizzi e Claudio Villa

A aventura foi lançada em Itália com o título original de “Il Ritorno di Mefisto”, do número 501 editado em Julho de 2002 até ao número 504 que saiu em Outubro do mesmo ano e marca o regresso do verdadeiro némesis de Tex Willer e dos seus companheiros.

A história, como todas as histórias não só de Tex, mas de qualquer outra personagem de banda desenhada divide-se em três partes: um prólogo, um desenvolvimento e uma conclusão. Todas as partes são distintas umas das outras e, tanto Claudio Nizzi no argumento como Claudio Villa no desenho,fizeram questão que assim fosse, sem pressa e com as personagens bem delineadas como manda o figurino, ou neste caso, conforme Gian Luigi Bonelli as idealizou.

Tendo presente uma ideia toda ela assente numa narrativa de cariz cinematográfico, os autores fazem um prólogo no qual mostram um ambiente de sociedade num tom quase sobrenatural que uma sessão espírita cria e se delineia um plano de vingança (pág. 5 a 27). A primeira vez que vemos o rosto de Mefisto numa bola de cristal, percebemos porque é que o desenhador levou tanto tempo a desenhar a aventura, mas também ficamos com a certeza que a escolha de Claudio Villa foi a acertada. A figura sinistra de Mefisto nunca foi tão bem representada como nesta arte (talvez apenas superada pelo desenho de Fabio Civitelli noutras aventuras) e também nunca foi tão diabólica e nefasta como nesta aventura.

O desenvolvimento da aventura acontece, tal como o plano delineado, a um ritmo lento, ao longo de mais de 300 páginas nas quais reaparece Loa, a feiticeira que se julgava ter morrido e sabemos finalmente qual foi o seu destino e Mefisto ressuscita e conta aos seus companheiros aquilo por que passou desde que Tex o prendeu e a Lily no México até à sua morte no castelo de Jean Lafayette, também conhecido como “Black Baron”, aos poderes que transmitiu ao seu filho Yama para que este vingasse a sua morte, até aquele momento em que através de sua irmã, vai poder vingar-se e eliminar Tex e os companheiros.

Do campo do sobrenatural passa-se ao campo mais realista, ou pelo menos é nisso que tanto Tex como o seu companheiro de aventura, Kit Carson, pensam quando aceitam realizar uma missão para a Agência Pinkerton que envolve ataques a três diligências que envolvem a morte de todos os seus ocupantes sem, no entanto, haver qualquer roubo da sua carga, mas sem fazerem ideia do que vão encontrar pela frente e que está directamente relacionado com o regresso de Mefisto (pág. 150 a 160) e que faz tudo parte dum plano minuciosamente elaborado por Lily Dickart (que ficamos a saber é o verdadeiro génio do mal, do qual Boris é um mero peão e Mefisto o braço executor duma vingança a dois).

A aventura parece ser igual a tantas outras de Tex que envolvem o vilão mágico, com os Rangers a fazer o seu trabalho e a serem encaminhados para pequenas escaramuças com alguns peões manobrados por Mefisto a tentarem fazer aquilo para que foram pagos (sem saberem para quem trabalham), mas, a partir do momento em que entram em cena Kit Willer e Jack Tigre (pág.261 até ao final) o ritmo da aventura muda e torna-se mais emocionante, principalmente quando três dos pards já se encontram nas mãos de Mefisto e que este se prepara para dar o golpe final na sua vingança, encaminhando-nos para a conclusão e o inevitável desfecho .

Aqui, ressalva-se o magnifico trabalho dos autores. Nizzi, através da sua  escrita muito bem estruturada e firme, transmite ao leitor aquele querer  saber como é que tudo vai terminar, aquela sensação de uma quase vitória do vilão no texto, que Villa, dono e senhor de uma qualidade artística e que muitos consideram próxima da arte de Galleppini, ilustra com entusiasmo e dedicação toda a ambiência difícil de classificar porque alterna entre a realidade e o sobrenatural que tornam esta aventura digna das suas antecessoras e um quase perfeito prólogo para um eventual regresso do feiticeiro, já que mesmo no final a sensação que fica não é de uma vitória (mais uma!) sobre o vilão, mas aquela sensação de derrota já que o pérfido Mefisto escapa uma vez mais não sem ameaçar os quatro pards de que voltará para os derrotar.

Quanto à edição do livro, trata-se de uma obra com 370 páginas, cinco das quais contêm um texto de Júlio Schneider, um dos nomes incontornáveis da Editora Mythos, elucidativo da odisseia que foi pôr esta aventura no papel. Apesar de colorida (técnica que tem sido muito utilizada nas diversas colecções de Tex, nomeadamente no que toca às primeira aventuras do Ranger e da qual eu, pessoalmente, não sou grande adepto), esta aventura até que não fica muito mal nesta técnica, as cores não são demasiado brilhantes nem demasiado berrantes, tornando esta aventura um grande clássico, facto que, penso eu, se deva a uma maior ponderação da Editora e do colorista sobre que tipo de tonalidade se deva aplicar.

Se colorida, a aventura já fica como fica, fico a pensar como é que ela se teria portado no original, ou seja a preto-e-branco?

Parabéns à Sergio Bonelli Editore e à  Mythos por mais esta iniciativa a favor do mais famoso Ranger da Banda Desenhada!

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

Um comentário

  1. Esta é uma das minhas aventuras preferidas de Tex. Os desenhos de Claudio Villa são magníficos! Espero que esta história seja publicada na coleção italiana TEX 70 anni di un mito.

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