‘A minha vida com Tex’, por João Marin, MAIOR colecionador brasileiro de Tex Willer

João Marin, Londrina-PR – 7.685 itens

Tex: Uma Paixão Inexplicável
Meio século de colecionismo, aventuras e memórias

Maior Colecionador de Tex Willer do Brasil – João Marin, de Londrina (PR)

Memórias da infância

Os primeiros contatos com os “gibis” aconteceram no início da década de 1970, entre 1970 e 1971. Naquele tempo, a garotada se encantava com histórias curtas e coloridas: os clássicos da Disney – Pato Donald, Zé Carioca, Tio Patinhas e Mickey – e revistas de heróis e aventuras. Incorporar o papel de “mocinho” para derrotar o “bandido” era diversão e alento.

Mas, nem sempre, o prazer da leitura vinha fácil. Muitos pais e professores viam os quadrinhos com desconfiança, e uma distração pouco educativa. Havia ainda o peso do bolso: comprar uma revista podia significar abrir mão de um lanche na escola. A saída era improvisar, e se virar fazendo pequenos bicos – vender sorvete, engraxar sapatos, pintar cercas, recolher ferro-velho e garrafas – tudo para garantir a próxima leitura.

A solução encontrada para sempre estarem lendo envolvia espírito coletivo: cada amigo comprava uma revista diferente, e, depois de lidas, as trocas aconteciam aos sábados e domingos, em frente ao único cinema da cidade – que, quase sempre, estampava cartazes de Tarzan e de faroestes, que faziam a imaginação voar ainda mais alto.

O primeiro encontro com Tex

Nesse universo de revistas coloridas, havia um título à parte: Tex. Diferente das demais, as suas edições traziam histórias longas, em preto e branco, e era voltada a um público um pouco mais adulto – o que, inicialmente, não despertava entusiasmo na turma de jovens leitores.

A exceção vinha de Celso, um vizinho descendente de japoneses, alguns anos mais velho, e que já comprava a revista. Por volta de 1973, ele emprestou uma caixa cheia de gibis. Entre os exemplares da Disney e de heróis, surgiram edições de Tex. A leitura foi gradual: primeiro foram lidas as revistas coloridas, e, depois, o mergulho no faroeste em preto e branco de Águia da Noite (nome indígena de Tex).

A vida de colecionador

Em 1975, começou a coleção de gibis propriamente dita. O ponto de partida foi a revista Heróis da TV nº 1, dos personagens de Hanna-Barbera, publicada pela Editora Abril, e as dos super-heróis da Marvel, lançados pela Bloch Editores.

Tex já despertava admiração pela força dos roteiros, que eram envolventes, e tinha uma narrativa mais elaborada, mas suas edições ainda não faziam parte da coleção. A numeração um pouco avançada e a dificuldade de encontrar números antigos em uma cidade pequena eram obstáculos difíceis de transpor. O contato entre colecionadores, quando possível, acontecia apenas por carta – em uma era anterior à internet e às suas facilidades.

O relançamento de 1977

Tudo mudou no final de 1976, com a notícia de que Tex seria relançado desde o primeiro número. Isso fez com que a revista passasse a fazer parte das compras regulares, as quais se tornaram ininterruptas com o lançamento da segunda edição. Muitos números não chegavam às bancas da cidade. Uma das soluções era escrever diretamente à editora, ou conseguir junto a terceiros no mercado de usados.
Curiosamente, até hoje, permanecem preservadas algumas das embalagens originais das encomendas recebidas e das cartas. No início de 1977 foi comprada a primeira revista diretamente da Editora Vecchi, o nº 46, O Grande Rei, a qual é um marco afetivo. Junto com essa edição veio uma carta da editora, que também está guardada até hoje.

Meio século de Tex

Desde então, foram 50 anos sem interrupções. O gosto pelo personagem era tanto que, sempre que possível, as revistas eram compradas em duplicata, seja nas bancas, seja por pedido direto à editora. Assim, ao longo de cinco décadas, gradativamente, nasceu uma das maiores, e mais bem conservadas coleções do personagem do Brasil.

Devido ao diminuto espaço disponível para exibição da coleção, a maioria dos exemplares são guardados em caixas e controlados através de um banco de dados no Access.

Hoje, o acervo soma 7.685 itens individuais – incluindo exemplares importados, por exemplo, da Itália, França, Alemanha, Holanda, Argentina, Portugal, Espanha, Turquia, Índia, Grécia, Croácia, Finlândia, EUA. Contando com os repetidos, o número ultrapassa 17 mil peças.

Entre os itens mais raros, até pelo estado de conservação, destaca-se Histórias do Faroeste nº 22 – aquela contendo histórias de Tex e que nunca chegou às bancas. Estima-se que existam de 15 a 20 exemplares originais em mãos de colecionadores.

Tesouros da coleção

strisce (revistas em formato talão de cheque) italianas da década de 1950/1960, de várias séries
Histórias do Faroeste nº 22 – edição que não foi para as bancas (1981)
• Estátuas numeradas de Tex produzidas pela Infinite italiana – nas três versões: Limited, Ultra Limited e EFX Ultra Limited (2010)
Álbuns de figurinhas Tex (italiano e nacional – 1979/1981)
Júnior nº 28 (primeira aparição de Tex no Brasil – fev/1951) e toda sequência com Tex
Edições estrangeiras das décadas de 1950/1960
Artes originais, pôsteres e bonecos raros

Livros, revistas e eventos

A paixão por Tex, e o envolvimento com o acervo, ultrapassou o simples ato de colecionar, e deu frutos literários. Em 2018, nasceu o livro Tex …e a História de uma Coleção, escrito com a participação do amigo Sérgio Streiechen, em comemoração aos 70 anos de criação do personagem. Em 2024, foi a vez de Tex Curiosidades, desta vez em parceria com outro amigo, Doacir Liberalesso.

Desde 2019, a participação na equipe que produz a Revista do Clube Tex Portugal – atualmente uma das publicações mais relevantes dedicadas ao personagem – ajudou a consolidar a contribuição do colecionador também no campo editorial – pelo qual também é apaixonado. A publicação de livros, a confecção de artigos, a diagramação de revistas, dentre outros, servem para divulgar o personagem e, indiretamente, expor um pouco a coleção, tendo em vista a dificuldade de se montar uma exibição pública.

O mistério da paixão

E afinal, o que explica tamanho fascínio? O colecionador não tem dúvidas:

É como uma paixão que surge e, inexplicavelmente, não desaparece com o tempo.

Uma paixão que atravessa gerações, inspira artigos, livros, divulgações, eventos, cosplays. Talvez não haja resposta definitiva. Afinal, como nas grandes histórias de faroeste, a verdadeira riqueza está no caminho percorrido e nas amizades construídas.

Reconhecimento nacional

Mais do que um troféu pessoal, o reconhecimento pelo Rank Brasil é visto como homenagem a todos os fãs de Tex, independentemente do tamanho de suas estantes. O mais importante, ressalta, é estar satisfeito com o seu acervo.

O verdadeiro valor, defende o colecionador, está em manter viva a chama da leitura e os valores transmitidos pelo herói do faroeste, especialmente o senso de justiça.

Porque, no fim das contas, colecionam-se gibis, mas também se colecionam histórias e lembranças.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

6 Comentários

  1. Que bacana, ele mora a 40 km da minha cidade (Bela Vista do Paraiso-PR), parabéns, belíssima coleção.

  2. Adorei a matéria! Mas é claro que essa coleção gigantesca de Tex Willer não é só um troféu pessoal, é uma homenagem a todos os fãs que, como eu, talvez passem mais tempo com as revistas do que com os outros. Mas eita, quem não sonha em ter um exemplar daquela Histórias do Faroeste nº 22 que nem chegou às bancas? E os livros? Que legal poder curtir tanto a história que, no fim das contas, colecionam-se gibis, mas também se colecionam histórias e lembranças. Que verdade!

    • Isso mesmo Antonio. É para todos os texianos. Todos os que compraram (e ainda compram) são os responsáveis pela existência do nosso herói. Se não tivéssemos esse tipo de fã (e colecionador) talvez não tivessemos mais o personagem (assim como aconteceu com tantos outros). Parabéns a todos os texianos!

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