A Horda do Crepúsculo, ou quando Tex encontra Dylan Dog

Por João Miguel Lameiras [*]

Espaço de liberdade, que possibilita aos mais diversos criadores mostrarem a sua visão pessoal do mais famoso cowboy da Bonelli, os Tex Gigantes, ou Texones, como são conhecidos em Itália, têm dado a descobrir o trabalho de grandes ilustradores, italianos e não só. Autores que neles a oportunidade (e a responsabilidade) de ilustrar uma aventura épica de Tex, com maior liberdade e com outra dimensão (tanto em termos de número de páginas, como de formato).

Um dos últimos volumes da colecção que me levou a descobrir o universo Texiano, foi A Horda do Crepúsculo, o vigésimo nono volume da edição brasileira da Mythos, que passou de forma discreta pelos quiosques portugueses há um par de meses, e que reúne pela primeira vez numa aventura do ranger, Pasquale Ruju e Corrado Roi, dois dos nomes mais importantes associados à série Dylan Dog, outro título emblemático da casa Bonelli.

Nascido em 1962, Pasquale Ruju formou-se em arquitectura, mas preferiu dedicar-se à representação, fazendo teatro, cinema e dobragens para a Rádio e televisão italianas, o que lhe permitiu, anos mais tarde, participar na adaptação radiofónica de Dylan Dog, fazendo mesmo algumas das vozes de uma história que escreveu para a revista do investigador de Craven Road.

Em 1994, Ruju entra para a editora Bonelli como argumentista, assinando uma história curta do detective do pesadelo, que seria publicada em 1995. A partir de 1997 começa a escrever regularmente para a revista de Dylan Dog e, em 2004, começa também a escrever histórias de Tex. Nestes quase vinte anos que leva como argumentista da Bonelli, Ruju escreveu também histórias ocasionais para as revistas Nathan Never, Dampyr e Martin Mystere, e assinou os argumentos das mini-séries Demian e Cassidy.

Ao seu lado, Ruju conta com um desenhador com quem colaborou inúmeras vezes nas histórias de Dylan Dog, o veterano Corrado Roi. Nascido em 1958, em Lavello-Mombello, na Itália, Roi estreou-se profissionalmente aos 15 anos, trabalhando como assistente dos desenhadores dos StudiOriga, a agência de Graziano Origa, desenhando histórias para revistas que nem sequer podia comprar, por ainda ser menor… Depois de uma série de trabalhos para pequenas editoras, em 1986 consegue entrar finalmente na editora Bonelli, desenhando histórias de Mister No e Martin Mystere. Logo em Janeiro do ano seguinte, desenha o número 4 da revista Dylan Dog, iniciando assim uma ligação com o detective criado por Tiziano Sclavi, que se mantém há quase três décadas.

Tendo tido ocasião de desenhar a maioria dos heróis da Casa Bonelli, como Brendon, Júlia, Mágico Vento, Dampyr e Nathan Never, a estreia oficial de Corrado Roi como desenhador de Tex, dá-se apenas no livro que motiva este texto. Uma história escrita por medida para o seu estilo, por Pasquale Ruju.

Tal como acontece com outro Texone famoso, O Vale do Terror, ilustrado pelo saudoso Magnus, também neste caso estamos perante uma história mais próxima do fantástico e do terror, do que do Western tradicional, mesmo que muitos dos elementos fantásticos acabem por ter uma explicação racional. Mas a história tem como cenário principal um castelo, construído por um príncipe búlgaro no exílio, e Vladar, o assassino nictalope, que Tex e Kit Carson têm de enfrentar, tem características semelhantes (pelos menos, aparentemente) a um vampiro, o que aproxima mais de outras séries da Bonelli, como Mágico Vento, do que das aventuras clássicas de Tex.

Sendo um dos mais produtivos ilustradores da casa Bonelli, Roi criou um estilo único e rapidamente identificável. Um estilo de desenho sombrio, que sugere mais do que mostra, em que um muito eficaz uso das sombras ajuda à criação de um ambiente fantástico, ou nas palavras inspiradas de Graziano Frediani, um estilo: “feito de efeitos flou, de perspectivas distorcidas, de estilizações sofisticadas, de contrastes expressionistas entre o branco e o negro”, que evoca referências da arte como Aubrey Beardsley e Gustav Klimt, e da BD, como Jeff Jones, ou Esteban Maroto.

Mas a verdade é que o estilo sugestivo e sombrio de Roi funciona melhor nos espaços fechados e nos ambientes urbanos de Dylan Dog, do que nos horizontes rasgados das pradarias texianas. Como o próprio desenhador refere: “considero-me um desenhador mais gráfico do que plástico, no sentido em que tenho a tendência a sintetizar, enxugar, usando poucos traços e, sobretudo, o meio-tom. Mas Tex é um personagem que precisa de volume, de formas suaves, esculpidas“. Talvez por isso, o duelo final, na escuridão de um subterrâneo, seja a sequência mais conseguida do livro, apesar do desenhador conseguir bastantes páginas de grande beleza e eficácia narrativa ao longo da história.

Além disso, Roi também não altera significativamente a sua planificação das páginas de modo a aproveitar o formato maior dos Texones, tendo desenhado este Texone, provavelmente no mesmo formato em que desenha Dylan Dog. O que me leva a pensar que esta história encaixaria como uma luva no formato mais reduzido com que a Polvo editou o Tex na Patagónia. Neste formato, nota-se mais uma certa falta de pormenor no tratamento dos cenários e o uso excessivo dos grandes planos, mesmo que Roi saiba como pouco transmitir sentimentos através das expressões e do olhar das personagens que desenha.

A história, apesar de um final algo apressado, que precisava de mais páginas para ser devidamente desenvolvido, está muito bem construída, com as personagens femininas a terem uma importância fundamental, como acontece com a cigana Zaira. Mas também há personagens masculinas interessantes, como o Príncipe Florian, e, sobretudo Valdar, que se revela um adversário à altura de Tex e de Kit Carson, e que só a vingança de uma amante traída vai conseguir aniquilar. Sendo um bom exemplo do elevado nível atingido nos Texones, este A Horda do Crepúsculo não está, ainda assim, entre os melhores trabalhos de Corrado Roi. Um ilustrador superlativo que, claramente se sente mais à vontade nas ruas sombrias e enevoadas da Londres de Dylan Dog, do que nos canyons e nas pradarias onde galopam TEX e os seus pards.


[*] Texto originalmente publicado no nº 3 da revista do Clube Tex Portugal, de Dezembro de 2015 e republicado no blogue “Por um punhado de imagens” em 8 de Fevereiro de 2016.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

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