A cor em Tex: um longo caminho a percorrer

Artigo de Pedro Cleto*

A cor em Tex: um longo caminho a percorrer, por Pedro Cleto – Página 21

… eu, como todos sabem, continuo a me declarar fervoroso partidário do desenho em preto e branco. Só que, com o passar do tempo, tornei-me mais complacente, mais sensível aos pedidos e aos gostos modernos dos leitores.

Sergio Bonelli[i]

Eu, como Sergio Bonelli – passe a vaidade da comparação – também prefiro Tex a preto e branco. Possivelmente porque o descobri assim, muito naturalmente porque por Tex têm passado – continuam a passar – excelentes artistas, cultores do preto e branco, de certeza porque é assim que Tex tem sido idealizado pelos seus desenhadores.

O que não invalida que não perceba, aceite e até aplauda a vontade que Sergio Bonelli expressava de ir ao encontro dos “pedidos e gostos modernos dos leitores” actuais.
Só que, até agora, isso tem sido feito de forma equivocada.
Uma breve resenha histórica, antes de entrar propriamente no tema.

Na origem, Tex era a preto e branco.

A razão principal desta opção – acredito eu – era baixar custos e tempos de produção. Tempos, porque era mais rápido para o(s) autor(es) produzir(em) as suas bandas desenhadas a preto e branco; custos, porque a impressão a cor faria disparar o preço das edições.

E – muito justamente – as edições Bonelli – primeiro de Gianluigi, depois do seu filho Sergio – sempre se quiseram e defenderam de cariz popular, como projecto editorial que tem no preço – baixo – uma componente decisiva – daí, possivelmente, a longevidade de Tex (e da editora) e o sucesso redobrado das suas sucessivas edições.

Tanto quanto sei, a cor em Tex surgiu pela primeira vez há já muitos anos – Fevereiro de 1969, mais exactamente – para tornar diferentes, mais apetecíveis, mais apelativos, festivos, os números centenários.

Desconheço – alguém ainda saberá? – se na época foram colocadas sobre a mesa outras hipóteses para assinalar essas edições redondas: números com mais páginas, com oferta de brindes, posters ou separatas. Mas, diz-nos a História das edições Bonelli, que foi a cor o aspecto distintivo introduzida no número #100 de Tex e, desde então, recorrente a cada oito anos e tal.

Pensando em posteriores (re)publicações, em eventuais traduções, apenas porque era esse o modelo ou até porque no momento da criação ainda não era certa qual a história a introduzir no número centenário, a verdade é que as histórias desses números sempre foram desenhadas pelos autores como se destinadas a publicar a preto e branco, levando depois uma ‘cobertura’ colorida – atractiva, pela diferença, para quem lia Tex sempre a preto e branco – mas pouco trabalhada em termos de verdadeira aplicação da cor.

Dando um longo salto temporal, vamos até Fevereiro de 2007, quando a Sergio Bonelli Editore criou uma parceria com o jornal La Repubblica e revista L’Expresso para o lançamento da Collezione Storica a Colori, distribuída semanalmente com aquelas duas publicações, a preço acessível – mais uma vez! – com o propósito de publicar as histórias iniciais de Tex, em grossos volumes, mas desta vez a cores. Pensada inicialmente para ter apenas 50 tomos, teve um sucesso tal – no conjunto acabaria por vender 27 milhões de exemplares e render 186 milhões de euros! – que se prolongou no tempo, acabando por atingir os 239 tomos, republicando todas as histórias da série principal de Tex disponíveis até à data[ii].

Mais uma vez, a cor foi aplicada sobre as pranchas desenhadas a/para preto e branco, sendo equiparável às das edições especiais centenárias. Naturalmente. Era impensável redesenhar quase 60 anos de histórias aos quadradinhos para as preparar para a cor. Mas teria sido possível trabalhá-la melhor. Possivelmente, o facto de a colecção ter sido pensada limitada a apenas 50 volumes não justificava uma aposta diferente aos olhos do editor e depois não fez sentido modificá-la quando já estava em curso.

A cor em Tex: um longo caminho a percorrer, por Pedro Cleto – Página 22

Podendo haver entre os compradores – a par de muitos antigos leitores que coleccionaram Tex por nostalgia e pela hipótese de terem toda a sua longa saga aventurosa num mesmo formato – novos leitores, atraídos pela cor, Sergio Bonelli rendido “diante das entusiásticas reacções suscitadas pela edição histórica da saga texiana distribuída como suplemento do jornal italiano La Repubblica e da revista semanal L’Expresso[iii] decidiu avançar com uma colecção colorida regular, “uma série especialíssima de Tex” [iv].

Nasceu assim, em Agosto de 2011, Color Tex, edição anual que visava – digo eu – por um lado aproveitar a embalagem da Collezione Storica a Colori e, por outro, avaliar o mercado com o intuito de perspectivar avanços mais significativos nesta área.

Color Tex que entretanto já passou a semestral – prova da boa resposta dos leitores – mesmo que não tenha atingido as vendas da revista regular – e o preço mais elevado poderá, sem dúvida, ser um dos principais factores para esta situação.

Mas não será certamente o único porque aqui, em minha opinião, a Sergio Bonelli Editore falhou, continuando a aplicar nestas edições – criadas para a cor – o seu colorido tradicional, quase mecânico, plano, monótono, sem definição de volume nem de sombras, por vezes sobreposto nas manchas de negro que nos originais criavam contrastes, perspectiva e marcavam as distâncias.

E se a intenção era atender aos “pedidos e aos gostos modernos dos leitores”, Color Tex fica claramente a perder quando comparada – em termos de cor – com os comics americanos e os álbuns europeus que eles – possivelmente – lerão e de onde lhes vem a apetência pela cor. Algo que o próprio Pasquale Del Vecchio, que está a trabalhar num novo Color Tex que será editado em 2015, reconheceu durante a conversa/conferência que teve lugar durante a 1.ªMostra do Clube Tex Portugal, em Anadia, em Agosto último. Afirmou mesmo que lhe foi pedido que desenhasse normalmente, como se a edição fosse ser editada a preto e branco, o que parece um contra-senso, mais a mais em relação a um autor que está habituado a trabalhar de forma diferente para o mercado franco-belga.

Mas, reconheço facilmente que nem tudo tem sido negativo.

Se o número inicial, E chegou o dia[v] me desiludiu, já Os Bandidos da Neblina[vi], de Ruju e Cossu, deu um passo significativo nesse sentido.

A escolha de Ugolino Cossu para o desenho foi um trunfo, uma vez que o seu traço fino, pormenorizado mas limpo e com muitos espaços livres para o desenho respirar, revelou-se ideal para sustentar o trabalho de cor, que surge ao leitor mais distante das habituais cores mecanizadas Bonelli e mais próximo de um verdadeiro trabalho de colorista.

No Color Tex seguinte, O Xamã Demoníaco[vii], o traço duro e mais agreste de Ticci, pleno de manchas de negro para reforçar os contrastes desejados – a preto e branco… – que melhor realçam os ambientes selvagens em que a acção decorre, voltou a revelar-se pouco propício para a aplicação da cor.

Se depois ainda não tive oportunidade de ler ou sequer folhear os números seguintes, pelas páginas já disponibilizadas online, parece haver motivos para alguma satisfação. Na verdade, algumas das páginas do Color Tex #4[viii], mostram uma cor bem mais conseguida, com diversas gradações e sombras e volumes a surgirem da sua aplicação.

O mesmo se passa com o Color Tex #5[ix], onde a assinatura de Civitelli no desenho é garantia de um traço fino e detalhado, com mais espaço livre para o desenho se estender, o que, a par da utilização da cuidada técnica de pontilhado, possibilita que a cor não choque com manchas de preto e surja mais brilhante a atractiva.

Em resumo, apesar de pequenos passos na direcção certa, até agora os exemplos mais conseguidos da utilização da cor em Tex estão mais relacionados com o tipo de traço utilizado no desenho do que propriamente com a técnica utilizada na sua aplicação.

Ou seja, em termos de cor, Tex tem ainda um longo caminho a percorrer. Saltar algumas etapas e aprender com quem já o faz (tão) bem, só trará vantagens, a curto e médio prazo.

A cor em Tex: um longo caminho a percorrer, por Pedro Cleto – Página 23

[i] Do editorial do Tex Colorido #1, Mythos Editora, Abril de 2012
[ii] E sensivelmente no momento de fecho deste texto em termos da sua escrita, a 2 de Outubro de 2014, iniciou-se em Itália um prolongamento da colecção, que terá mais 17 volumes e trará as aventuras de Tex na Collezione Storica a Colori até ao momento presente.
[iii] Do editorial do Tex Colorido #1, Mythos Editora, Abril de 2012
[iv] Idem
[v] Idem
[vi] Tex Colorido #2, Mythos Editora, Abril de 2013
[vii] Tex Colorido #3, Mythos Editora, Maio de 2014
[viii] Color Tex #4, Sergio Bonelli Editore, Novembro de 2013
Este número introduz uma nova fórmula: em lugar da aventura longa, inclui quatro histórias curtas: L’uomo sbagliato, de Tito Faraci e Giampiero Casertano; Un covo di belve, de Pasquale Ruju e Sandro Scascitelli; L’ultimo della lista, de Gianfranco Manfredi e Stefano Biglia; La valle sacra, de Mauro Boselli e Nicola Genzianella.
[ix] Color Tex #5, Sergio Bonelli Editore, Agosto de 2014
O regresso da fórmula original com Delta Queen, de Mauro Boselli e Fabio Civitelli.

* Texto de Pedro Cleto publicado originalmente na Revista nº 1 do Clube Tex Portugal, de Novembro de 2014.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima clique nas mesmas)

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.