A Aventura (de Tex) continua

Por Tino Adamo*

É incrível que uma personagem criada há cerca de 70 anos continue, ainda hoje, a ser a publicação de maior sucesso da Sergio Bonelli Editore (SBE). Tex Willer e os seus pards continuam a cavalgar nas pradarias da aventura e a sua carreira de rangers está predestinada a perdurar por muito mais tempo. Não irei aqui debruçar-me em evocar a história de Tex, já bem descrita em centenas de artigos, dezenas de obras temáticas e inúmeras entrevistas aos autores ou a conceituados sociólogos. Pelo contrário, pretendo descrever “por dentro” o mundo do nosso amado Águia da Noite, uma vez que, trabalhando na redação da SBE, tenho o privilégio em conviver o seu quotidiano com o curador e também argumentista da publicação Mauro Boselli, com os desenhadores que frequentemente aqui vêm para entregar as pranchas, assim como com todo o resto do aparato redacional.

Mauro Boselli no seu gabinete.

Mauro Boselli está sempre ocupado a bater nas teclas da sua fiel máquina de escrever e tem um ar de génio que parece viver numa dimensão paralela. Mauro é capaz de escrever ao mesmo tempo dez ou catorze histórias, mergulhando literalmente nesta tarefa, pelo que se torna impossível interrompê-lo enquanto trabalha. Simplesmente nada ouve, e quem ouse contactá-lo, acabará frustrado a falar com as paredes. Mauro tem a honra de escrever argumentos para Tex desde há alguns anos. Começou a trabalhar na redação quando Gianluigi Bonelli ainda escrevia as suas imortais histórias e chegava à editora com o seu chapéu Steatson na cabeça e o seu colt 45 enfiado no coldre. De Gianluigi Bonelli aprendeu o seu ofício. O grande senhor devolvia todos os seus argumentos, porque achava que ele ainda não estava preparado para enfrentar as pistas do Oeste. No entanto, Mauro Boselli  “cerrou os dentes” e começou a trabalhar afincadamente e, antes mesmo de Claudio Nizzi ter deixado de escrever para Tex, foi ele que passou a gerir os destinos do nosso herói, tal como a equipa de desenhadores e argumentistas. Em resumo, no Oeste de Tex Willer é Mauro Boselli quem dita a lei!

Davide Bonelli e Mauro Boselli com a revista do Clube Tex Portugal.

Quem desenha para Tex tem consciência de pertencer à elite da Editora, mas a tarefa não é fácil, mesmo para estes grandes artistas. É curioso descobrir que, na hora de desenhar as aventuras do nosso amado ranger, as mãos tremem, mesmo para reputados desenhadores. Magnus levou 9 anos para terminar “La valle del terrore”, porque achava ser o trabalho mais importante da sua carreira. Enrique Breccia confidenciou-me que era uma verdadeira honra desenhar Tex, porque uma personagem tão importante e carismática devia ser desenhada com respeito, não poderia ser um trabalho como qualquer outro, mas algo que deveria ser considerado quase na esfera do sagrado.

Enrique Breccia.

Outro desenhador que suou bastante é Pasquale Frisenda. Pasquale é um desenhador muito extremoso, uma pessoa culta e brilhante e também um bom amigo, e creio que não se ofenderá se eu aqui contar a sua estreia, também num Texone, com argumento de Boselli: Patagonia!. Esta é uma história particular, ambientada nas pampas argentinas, e os protagonistas são índios, gaúchos e soldados do exército argentino. Para além do cuidado extremo para com os detalhes (passou meses a estudar o vestuário, usos, costumes e história local), Pasquale desenhou por três vezes a primeira prancha. Tive o privilégio de observar as diversas versões e, sem retirar qualquer qualidade à versão definitiva, que é uma pequena obra-prima, as outras versões eram superiores. Quando lhe perguntei o motivo de tanto esforço, ele respondeu: “porque é Tex!”.

Maurizio Dotti e Pasquale Frisenda.

Após tantos anos, Giovanni Ticci ainda está apaixonado pelo nosso herói. Numa ocasião, em conversa com ele, perguntei-lhe se não estava cansado de retratar exclusivamente as aventuras de Águia da Noite. Escutando, o mestre respondeu-me que Tex faz parte de si, é um familiar e que nunca o irá trair.

O mesmo discurso vale para todos os desenhadores desta personagem, como se a química que se cria entre o desenhador e o herói que vive no papel, feito de traços e tinta, se torne num todo.

Em pé – Carlo Ambrosini, Pasquale Del Vecchio, Tino Adamo, Maurizio Dotti, Claudio Villa e
Fabio Baudino. Sentados – Giovanni Ticci e a esposa Monica Husler.

No entanto, quem mais sofre são os argumentistas. Boselli não deixa escapar o mais pequeno detalhe. Trabalhando na personalidade de personagens de uma vida, Mauro é pródigo em conselhos, mas também muito direto. Quem se aproximar dele deverá adotar uma atitude Zen, recitar mentalmente o mantra da humildade, porque frases como: “mas Tex nunca se comportaria assim!”, ou então “Carson não fala desta maneira” e “a ação descrita não faz sentido por esta razão...”, estão sempre presentes num dia de trabalho. Em suma, nenhuma página é publicada sem antes ter sido discutida com o chefe supremo, o que vale dizer que os autores que consigam superar a prova, recebem tantas encomendas de trabalho que ficarão eternamente gratos a este satanás que responde pelo nome de Mauro Boselli. Gianfranco Manfredi, Pasquale Ruju e os outros escritores de Tex têm ainda outra árdua tarefa: para além de conhecerem de cor as engrenagens que movem as tramas, mecanismos e os tormentos das personagens texianas, devem estar aptos a descrever de modo credível o velho e clássico Oeste fordiano, que influenciou as aventuras do ranger.

Sergio Bonelli e Davide Bonelli num almoço com colaboradores da SBE.

Para tornar a série o mais realista possível, é fornecida aos desenhadores uma exaustiva documentação, quer da internet, quer da gigantesca biblioteca do falecido Sergio Bonelli. Em poucas palavras, para recriar a atmosfera real que o leitor desfruta, folheando as páginas das aventuras, existe todo um trabalho feito na sombra, que só é conhecido por aqueles que o fazem.

A redação, força motriz da editora, é um formigueiro onde as pranchas passam de mão em mão (agora, gradualmente substituídas pelos arquivos, infelizmente…) pelas várias fases até ao processamento final. À medida que as pranchas são entregues, geralmente 10 ou 20 de cada vez pelos desenhadores, são fotocopiadas e arquivadas numa divisão, cujas paredes são uma muralha de estantes, onde são depositados os originais dos desenhadores de todas as publicações.

As estantes destinadas a Tex, cujas prateleiras encontram-se identificadas com os nomes dos autores por ordem alfabética, fariam as delícias do mais pretensioso colecionador… as pranchas de Enrique Breccia, Ernesto Garcia Seijas, Laura Zuccheri e Fabio Civitelli, descansam ao lado das de Ticci e de todos os outros grandes mestres texianos, até que sejam recolhidas e enviadas para legendagem, acompanhadas do roteiro. Depois de todas as pranchas terem sido legendadas, ou seja, quando todos os diálogos foram inseridos nas vinhetas, inicia-se a fase de revisão.

Claudio Nizzi, Giovanni Ticci e Fabio Civitelli.

No que respeita a Tex, Mauro Boselli, com a ajuda do fiel Giorgio Giusfredi, ocupa-se em sublinhar eventuais erros dos desenhadores e reescreve parte dos diálogos, melhorando aqueles que lhe parecem fracos. Em seguida, as pranchas são encaminhadas para o letrista e para três desenhadores da redação. Eu sou um deles. Com os meus amigos Roberto Piere, também desenhador de Zagor, e Sergio Masperi, com quem ultimamente tenho feito Bonelli Kids (podem ver as tiras no site da editora, assim como na respectiva página no facebook), ocupo-me em corrigir as alterações gráficas necessárias, tapar nus demasiado evidentes e refazer cenas explícitas de sexo e violência, mesmo que nas páginas de Tex isso nunca tenha acontecido. A censura é rara, mas necessária, uma vez que a filosofia bonelliana passa por disponibilizar cada um dos produtos a um público heterogéneo que vai dos 9 aos 90 anos! A maior dificuldade deste trabalho consiste em conseguir imitar com sucesso os estilos dos vários desenhadores, já que uma boa correção não deverá ser perceptível. Não é por acaso que, até há meia dúzia de anos atrás, o nosso escritório era definido como “fantasma”! Depois de textos e desenhos estarem corrigidos, as pranchas são revistas mais uma vez e então enviadas para a fase da impressão. Antes de imprimir, é enviado para a redação o modelo, ou o teste de impressão.

Se tudo estiver correto, a impressão é aprovada, caso contrário nós intervimos mais uma vez, tal como o letrista, para corrigir o mais ínfimo erro de impressão. Ao mesmo tempo, o mítico Claudio Villa já terá enviado uma ilustração da capa, a preto e branco, em papel formato A4, assim como a respetiva fotocópia colorida a aguarela. Gian Mauro Cozzi, o nosso gráfico, tem a tarefa de colori-las digitalmente, devendo ter em conta as indicações dadas por Claudio Villa.

Claudio Villa.

Trabalhando desta forma, temos a ocasião de poder ler em primeira mão as aventuras de Águia da Noite e dos seus pards, assim como a honra de ter nas nossas mãos os esplêndidos originais de Mastantuono, Andreucci, Altuna e tantos outros mestres que fazem parte do staff.

A preparação de qualquer história é quase maníaca, e muitas vezes o olhar atento dos redatores não é suficiente para impedir que escape algum detalhe, o que acabará por deixá-los em apuros, uma vez que, seguramente, chamará a atenção de algum leitor, que irá escrever a protestar que a divisa de um capitão está mal desenhada ou a virgula que o letrista esqueceu.

Que o leitor tenha sempre razão e deva estar satisfeito, esta é a filosofia que seguimos mesmo antes do desaparecimento do nosso amado Sergio, adotada pelo seu filho Davide que, felizmente, é feito da mesma fibra do pai, demonstrando rapidamente ser um líder capaz e humano. Porque a diferença entre a Bonelli e as outras editoras é mesmo o facto de unir profissionalismo e amizade, mais do que tudo somos uma família que inclui também os leitores.

Davide Bonelli.

Nestes últimos anos, as iniciativas relativas a Tex foram muitas e variadas. Por exemplo, o spin-off Color Tex foi criado para satisfazer o público mais jovem, que prefere as histórias breves e a cores em vez do clássico preto e branco. Há ainda a republicação a cores das primeiras histórias da saga, Classic Tex, com a fórmula de álbuns menos extensos, com 62 páginas, e o Tex de autor, em formato álbum com capa dura, onde a planificação bonelliana é abandonada a favor de páginas construídas livremente, ao estilo francófono. Finalmente, começámos também a produzir gadgets e t-shirts que reproduzem o logo e desenhos do nosso herói.

Sergio e Giorgio Bonelli com o vereador da cultura de Milão, aquando da inauguração de um jardim dedicado a Gianluigi Bonelli

No próximo ano Tex festejará 70 anos. Vários argumentistas e uma legião de desenhadores foram-se sucedendo na realização das suas aventuras, nascidas da arte de Gianluigi Bonelli e Aurelio Galleppini, todos eles aproximando-se da personagem com um respeito sagrado. O espírito de Tex não foi traído e isso representa uma das principais razões para o ter elevado a fenómeno inter-geracional.

Pessoalmente, depois de 40 anos vividos como leitor, entre os quais os últimos 16, em que também tive a ocasião de “meter as mãos”, se tiver que escolher uma série para ler da vasta produção da Bonelli, proporei sem dúvida Tex, mergulhando nos territórios selvagens da Fronteira americana, nos mesmos locais onde mais tarde ou mais cedo passaram certamente Tex e Kit Willer, Kit Carson e Tiger Jack. E não terei dúvidas que o slogan “L’avventura continua!“, impresso desde há muitos anos na redação da via Buonarroti, em Milão, fará todo o sentido, e que o granítico ranger estará sempre pronto a lutar para que a justiça possa triunfar.

Tino Adamo.

* Texto de Tino Adamo publicado originalmente na Revista nº 6 do Clube Tex Portugal, de Junho de 2017.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima clique nas mesmas)

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