A autobiografia do personagem fictício

Por Tiago Sousa [*]

Tex Willer é um longevo personagem dos quadradinhos italianos. Ao longo de seus mais de sessenta anos de criação já foram apresentadas muitas aventuras por diversos autores e artistas (sua revista oficial já passou do número 600). Sua vida já foi montada e remontada em vários momentos, mas nunca em narrativa e contada pelo próprio Texas Ranger.

O livro Tex Willer – A História da Minha Vida foi lançado com o objectivo de ocupar este vazio. Mas, espere um pouco, como pode alguém que não existe escrever sua própria história? Em partes isso não é possível. O verdadeiro autor Mauro Boselli, que desde 1994 escreve regularmente suas aventuras, mas para dar sentido à homenagem o texto é escrito em primeira pessoa.

Esta Observação abordará particularidades da narrativa.

O LIVRO SEM AUTOR 

Já que tema foi mencionado, comecemos com a questão da autobiografia.

“Do diário de Jack Granger. Primavera de 1899.
A viagem que eu fiz ontem de caleça, desde Flagstaff até o posto comercial de Kayenta, foi muito difícil, mas daqui em diante eu tenho que prosseguir em lombo de mula. ‘A estrada para chegar à aldeia central da reserva não é um passeio’, diz-me o dono do posto de trocas, correio e comércio, empurrando na minha direcção um copo cheio de uísque que, por educação, eu finjo beber. Ele me examina. ‘Com toda a certeza, você é um forasteiro, um cavalheiro do Leste. O que vai fazer por lá?’.
‘Eu sou jornalista. Quero entrevistar Tex Willer’ (pág. 9).

Assim o prólogo da obra tem início, mas vamos em partes, e desconsideremos neste momento a autoria do livro para Mauro Boselli e trabalhemos com a hipótese de Tex existir de verdade.

Autobiografia, segundo o dicionário Aulete, é “biografia de alguém contada ou escrita por ele mesmo, em forma de memória, ou narrativa, ou romance etc.”. O prólogo revela-nos que neste caso, ainda que no decorrer dos capítulos a história nos seja contada na pessoa de Tex, o verdadeiro autor seria o jornalista – também fictício – Jack Granger. Quando chegarmos ao final, saberemos que ele estava “há uma semana que não faz outra coisa além de tomar notas”.

Com isso em mente, podemos dizer que Granger foi de certa maneira o Watson de Tex. E assim como o doutor inglês pode muito bem ter alterado partes da história para manter o lado reservado do ranger. O livro pode ser considerado uma autobiografia apenas se o jornalista, para dar mais realismo, optou por ser um ghost writer, deixando a assinatura da obra para Tex. Facto difícil de ocorrer, pois tanto no início quanto no fim, ele mostra-se reticente em contar sua história e possivelmente não daria sua autorização para tal.

A VIDA E O MELHOR AMIGO 

Boa parte do livro cobre momentos que hoje, passados muitos anos nas histórias em quadradinhos, não são tão comentados ou relembrados, como sua juventude e o início da ‘carreira’ como ranger. Mas momentos importantes também são deixados de lado. Kit Carson, por exemplo, fiel parceiro de Tex, é mencionado pela primeira vez apenas no capítulo quatro (pág. 53), poucas páginas depois do grande vilão da série, Steve Dickart, o Mefisto. Ainda que ele apareça até o fim do livro, poucas não são as partes em que Tex sem seu parceiro, bastante diferente das revistas actuais.

Não entenda isso como crítica, apenas como uma curiosidade a respeito do que seriam as principais lembranças do ranger com o raposa de prata, nome que Carson recebeu dos índios Navajos pelos cabelos brancos. Mas até aí é condizente com a linha histórica da série e, além disso, a vida em conjunto dos dois amigos renderia um livro inteiro à parte.

Outro ponto relevante é a sinalização de mudanças na saga original, factor importante e necessário para que ela pudesse perdurar por tantos anos. Há, por exemplo, uma contextualização histórica inserida por Boselli/Granger que não constava nos primeiros números escritos por Giovanni Luigi Bonelli e desenhado por Aurelio Galleppini em 1948: quando Tex é convidado para entrar para os Texas Rangers no livro inicialmente ele recusa (“depois daquela experiência da guerra revolucionária” – em referência ao episódio com Mefisto – “naquele momento, o meu único desejo era viver em paz”), enquanto que nos fumetti ele aceita rapidamente.

Em seguida teremos a primeira demarcação de alguma data fixando Tex na história norte americana, mas este é assunto para o próximo tópico, então vamos lá.

UM PERSONAGEM PERDIDO NO TEMPO 

“Eu nasci no Texas. As primeiras imagens impressas na minha memória têm como fundo as verdes colinas e as pradarias do sul do Texas, onde meu pai havia construído, com as próprias mãos, um pequeno rancho” (pág. 15).

Um conhecedor da história norte americana poderia precisar uma data, mesmo que não completamente exacta, deste período. O facto é que em apenas dois momentos teremos a noção do tempo em que nos encontramos durante a leitura do livro: 1861, quando Tex, após recusar os Rangers, decide montar um rancho com dois companheiros, mas tem que abandonar tudo por conta do início da Guerra de Secessão; e 1899, ano em que Granger se encontrou Tex na aldeia dos Navajos e atenciosamente anotou seus pensamentos.

Esta ausência de datas é derivada da própria série em quadradinhos do personagem e tem como intuito estender o período em que se passam as histórias de Tex. Isso não impede os argumentistas de inseri-lo em acontecimentos reais, com datas fixas, como a edição em que os heróis presenciam o assassinato de Wild Bill Hickok em Deadwood em 2 de Agosto de 1876 (no Brasil, Tex 495 a 497) ou mesmo sua presença na mencionada Guerra de Secessão, que durou de 1861 a 1865.

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Muitas outras Observações poderiam ser feitas a respeito do livro. A mais engraçada delas seria comentar a completa falta de mira dos inimigos do protagonista, ou talvez o excesso de sorte quando leva tiros (quando acertam) apenas de raspão. A mais dramática seria abordar a ausência de espaço maior para a morte de seu velho companheiro Carson. E a mais ousada talvez fosse explanar sobre o porquê de contar a história de El Morisco, que pouco acrescenta à mitologia do personagem, quando existem outras riquíssimas, como é o caso de El Muerto. Mas talvez essas escolhas partissem demais para o lado pessoal deste que vos escreve (até mais do que os pontos que optei por falar).

Tex Willer – A História da Minha Vida não é a melhor das aventuras do ranger e não resume de maneira tão completa assim sua vivência ao longo destes mais de sessenta anos. Enquanto os primeiros capítulos narram o início de uma vida de aventuras de Tex, os últimos ficam com episódios específicos ao longo dos anos, deixando bastante espaço em aberto para encaixar as muitas histórias apresentadas nos quadradinhos. De qualquer forma, é uma nova maneira de ler Tex, desta vez em prosa.

Faltou possivelmente a Jack Granger (lembre-se de que ainda estamos considerando ele como autor do livro, e não Boselli) a principal tarefa de um jornalista: pesquisa. Se retirasse o rótulo de ‘autobiografia’ (que de facto não é) e utilizasse ‘biografia’ ele conseguiria apresentar-nos uma obra de facto completa da vida deste importante e interessante personagem, completando com datas e factos históricos (mesmo que imaginários, ocorridos apenas no universo de Tex) vividos por ele.

Obs.: todas as ilustrações deste post foram feitas por Fabio Civitelli, um dos mais importantes desenhadores actuais de Tex, e constam no livro.

TEX WILLER – A HISTÓRIA DE MINHA VIDA
Autor: Mauro Boselli
Ilustrações: Fabio Civitelli
Editora: Mythos
Ano de lançamento: 2012

*(Texto publicado originalmente no Blogue “Minhas insignificantes observações, em 20 de Abril de 2012)
(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

3 Comentários

  1. O Boselli é um excelente escritor-roteirista, no entanto sempre tenho a impressão que ele escopa mudar radicalmente o Tex, por exemplo morrer um dos quatro justiceiros, sempre temi mudanças radicais, como aconteceram com personagens Marvel-DC.
    Nos dias atuais leitores jovens anseiam mudanças, criticam demasiadamente a estrutura do personagem, nas mãos de Nizzi e até do velho G.L Bonelli…
    Quem segurou a essencia do Tex até hoje foi Sergio Bonelli, mas, temo que mudanças drásticas possam acontecer, para alavancar vendas ou conquistar leitores jovens.
    Quanto ao livro é muito ruim, o pior produto do Tex até hoje…

  2. Dilecto Antonio,
    Kit Carson morre, no livro, de morte natural, algo que acontecerá a todos nós, inclusive em personagens de histórias em quadradinhos – lembrando que o verdadeiro Christopher Carson partiu desse mundo faz tempo. Ainda sobre a morte de um pard, em TEEC Nº 1 (o “Color Tex” brasileiro), Carson também morre, mas, reaparece depois; assim, eu não acredito que Mauro Boselli diminua de quatro para três pards ou faça qualquer mudança drástica no universo do Ranger mais temido do Oeste.

  3. Olá, amigos,

    não quis de modo algum dizer que a morte prejudicou a história. Era um livro sobre a vida do Ranger, era inevitável que alguém morresse (principalmente, Carson, o mais velho). Não acho que foi esse o problema do livro, que aliás, é bom… mas podia ter sido muito melhor.

    Também não acho que uma mudança radical assim venha a acontecer na série normal, afinal essa é a essência do Tex e é o que o faz viver com saúde editorial até hoje.

    Abraços.

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