As críticas do Marinho – Speciale Tex Willer #2: Un uomo tranquillo

Por Mário João Marques

Speciale Tex Willer #2; Capa de Maurizio Dotti

Nem todos nascem para ser duros. Nem todos nascem para ser justiceiros. Nem todos nascem para enfrentar os corruptos, os poderes estabelecidos, os foras-da-lei. Mas nem só destes heróis reza o Velho Oeste, pois aqueles que trabalham arduamente e dedicam jornadas a fio ao seu rancho e a trabalhar em algo que é seu, são também verdadeiros heróis, sobretudo em Nueces Valley, onde a vida é dura desde o nascer até ao pôr do sol. Sam Willer é um destes homens. Um homem tranquilo! Sem a irreverência do seu irmão mais velho Tex, também ele é um homem da Fronteira e, se decidido a lutar por aquilo que é seu, também ele prova ser um homem da têmpera dos Willer.

O segundo especial da nova publicação Tex Willer, Un Uomo Tranquillo concede todo o espaço da aventura a uma personagem que poucas vezes teve o seu protagonismo, Sam Willer, o irmão de Tex, que os leitores estão a conhecer de modo mais aprofundado na longa aventura actualmente em publicação na série que narra as aventuras do herói enquanto jovem e que se iniciou no número 24 I Razziatori del Nueces. Até então, Sam Willer tinha surgido em três ocasiões: Il Passato di Tex de Bonelli e Galleppini, Nueces Valley de Boselli e Del Vecchio, e no cartonado Giustizia a Corpus Christi de Boselli e Mastantuono, estas duas últimas aventuras separadas por cerca de cinquenta anos da primeira, o que permitia concluir que Boselli, enquanto curador da série, ainda teria algo mais a contar sobre o irmão de Tex. E é neste pressuposto que surge Un Uomo Tranquillo, aventura que, curiosamente, não traz o seu nome ou o de Pasquale Ruju, enquanto autores habituais de Tex Willer, mas sim o de Roberto Recchioni, actual curador de Dylan Dog e criador de Orfani, e que confirma aqui a sua versatilidade, assinando o seu terceiro trabalho em Tex, depois de duas histórias para o Color Tex.

Speciale Tex Willer #2, de Roberto Recchioni & Stefano Andreucci

Com Un Uomo Tranquillo estamos em presença do melhor trabalho de Recchioni em Tex, afinal de contas uma aventura sem o herói, apesar da sua figura tutelar estar sempre presente nos acontecimentos. E talvez aqui resida alguma da qualidade desta aventura. Primeiro, porque não sendo Recchioni um verdadeiro autor de Tex, a presença do herói levantaria outro tipo de problemas ao argumentista. Depois, porque sendo um autor hábil na gestão psicológica das suas personagens, Recchioni investe muito na diferença natural entre Sam e Tex, acabando por grande parte do sumo da aventura ser exprimido nesta dualidade, não de carácter, mas de perspectivas e de expectativas,conseguindo um néctar delicioso com aqueles ingredientes que fizeram e continuam a fazer do western um género narrativo ímpar: a fronteira, as cavalgadas, as manadas nas suas infindáveis pradarias, os extensos ranchos, os saloons, os tiroteios, a nostalgia ou o romance. A solidez da aventura encontra-se presente neste imaginário que marcou uma época da História Norte-Americana e cimentou um género ímpar na cultura popular, e nem a ausência de Tex consegue enfraquecer uma narração com a justa dose de acção e pausas reflexivas, onde é notória e emerge a diferença entre os dois irmãos, uma vez que, depois da morte do pai, Tex preferiu trilhar os caminhos da justiça em todos os cantos onde ela se encontre enfraquecida, enquanto o seu irmão Sam optou por permanecer no rancho, preferindo uma vida mais pacata, longe da violência, o que não significa que não perfilhe do mesmo desejo de justiça do irmão.

Speciale Tex Willer #2, de Roberto Recchioni & Stefano Andreucci

Esta sua opção acaba por conduzir Sam a um permanente conflito interior, ampliado pela constante comparação que quase todos acabam por fazer entre ele e Tex, mas que não o irá coibir de, na altura certa, revoltar-se e emergirem si toda a espessura e o caráter dos Willer. Ao longo dos acontecimentos, Sam vai aproximar-se em certa medida de Tex, passando da personagem tímida, sempre na sombra do irmão, e que nos fora apresentada por Bonelli, a alguém que também luta pelos seus ideais, mesmo que isso implique pegar em armas, o que contraria a sua natureza. No western de Bonelli certamente não cabia um Sam Willer com a mesma psicologia de Tex, não havia espaço para alguém que estivesse à altura do herói, porque no western de Bonelli só havia lugar para um herói que fizesse a diferença perante os demais. No fundo, o que a aventura de Recchioni nos oferece é uma maturação da personagem, que a levará a deixar (pelo menos provisoriamente) a inocência ingénua de alguém que acreditava que nas palavras reside a força, mas que acabará por descobrir que, por vezes, é preciso pegar em armas e recorrer a meios mais violentos para defender a força das palavras.Aquilo que a personagem de Sam Willer de Recchioni nos traz é que mesmo aqueles que escolheram não disparar são obrigados a tal por força das circunstâncias, assumindo a aventura um realismo moderno e mais coerente com o meio onde os acontecimentos ocorrem.

Speciale Tex Willer #2, de Roberto Recchioni & Stefano Andreucci

Grande trabalho do sempre excelente Stefano Andreucci, ou não estivéssemos em presença de um dos mais conceituados nomes de Itália e de um desenhador que se vem cimentado no universo do jovem Tex Willer, cujo modelo tem vindo a servir para outros desenhadores da série, como Bruno Brindisi ou Michele Rubini. Com um traço sempre muito limpo e legível, elegante e com inúmeros enquadramentos verdadeiramente cinematográficos, o trabalho de Andreucci respira um sabor épico evidente em cenas ambientadas em espaços abertos, como é o caso do inesquecível duelo na pradaria ou no confronto final verdadeiramente de antologia que ocorre no rancho de Sam Willer, mas também na expressividade patente nas personagens. São tantas as cenas onde o desenho de Andreucci se exprime de modo sublime, que tornam esta aventura numa pequena obra prima gráfica, a justa dimensão para um imenso desenhador.

Speciale Tex Willer #2, de Roberto Recchioni & Stefano Andreucci

Em resumo, estamos em presença de mais uma peça na construção do mito. Uma aventura perfeita que se apresenta como mais uma forma de penetrar no rico passado de Tex, ao qual pertence, naturalmente, o seu irmão Sam. E se a opinião do leitor sobre a sua personalidade poderia não ser particularmente positiva, a aventura de Recchioni vem trazer outra perspetiva, apresentando o verdadeiro Sam Willer e lembrando que, como tudo na vida, pode existir mais um lado do que aquele que se nos apresenta. Apenas devemos saber para o qual olhar. Sam nunca será Tex, mas ficará para o leitor como um homem tranquilo para quem o exaltar da violência foi uma exceção. Um homem simples que anseia construir um novo futuro, esquecendo que no violento Oeste não há espaço para gente de índole pacífica, a quem dificilmente será permitida uma nova aventura, como os acontecimentos que vão ocorrer posteriormente em Culver City irão comprovar de modo dramático.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

Um comentário

  1. As críticas do Marinho é uma verdadeira obra literária, digna de qualquer prefácio.
    Parabéns!

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