Tex: “Tempestade sobre Galveston” (da Polvo) na análise do crítico Pedro Vieira Moura

Pasquale Ruju e Massimo Rotundo – Tempestade sobre Galveston, capa

Tex: Tempestade sobre Galveston. Pasquale Ruju e Massimo Rotundo (Polvo)

.Por Pedro Vieira Moura [*]

Em mais do que uma dimensão, Tempestade sobre Galveston é uma mais tipificada aventura de western do que Patagónia, de que faláramos antes. Se ambas estarão subsumias a uma economia de produção bem mais vasta, a saber, os livros maiores da casa Bonelli e, ainda mais, todo o historial de Tex Willer, é inevitável que façamos aqui uma leitura bem mais limitada entre estes dois textos, o que provavelmente incorrerá numa injustiça interpretativa, assim como uma capacidade limitada da apreciação de elementos específicos à obra assinada por Ruju e Rotundo. Seja como for, pensamos que essa via é não só inevitável como necessária no interior do nosso contexto, e haver uma vontade da parte da Polvo em, ao abrir-se esta oferta particular, fazer chegar estes livros a um público que não o especializado texiano. Basta ponderar na diferença abissal entre o tratamento original, mais inclinado para assinalar a presença e continuidade da personagem-marca registada, do que este caso, em que é o título específico, individualizado, que ganha proeminência. (Mais)

Dizíamos, então, da tipificação de Tempestade, que agrega toda uma série de ingredientes usuais na ficção mais normativa deste género. Os “vilões” são rapidamente identificados, assim como a injustiça central, que se vai acumulando com outras, alimentando junto ao leitor o desejo pela sua reparação, que acreditamos, desde sempre, que será cumprida pelos heróis. Não achamos que a escolha de um juiz corrupto, um boss do algodão na América postbellum, e as leis que permitiam o trabalho forçado a suprir as faltas de mão-de-obra barata depois da abolição da escravatura, uma carismática, bela, inteligente e independente dona de saloon, um xerife com boa vontade mas algo cego à autoridade, um jovem enganado pelas vicissitudes a uma vida de crime quando tem um bom coração, um forte e autónomo negro apanhado nas malhas da injustiça indicada acima, e uma dedicada mãe pronta a sacrificar-se pelo filho sejam elementos desinteressantes, mas integram-se com demasiado conforto em imagens sobejamente conhecidas e revisitadas bastas vezes pelo género para se tornarem surpreendentes. A complicação através de um quase mágico baralho de cartas que faz as vezes de mapa de tesouro perdido traz uma camada adicionada de aventura recombolesca, mas a gestão desse segredo é algo directa demais para a tornar disruptiva da economia que se promete desde o início.

Em muitos aspectos, portanto, o convencionalismo desta aventura é, por vezes, mais pesado do que a possibilidade dos prazeres admissíveis neste material de escapismo, algo que sublinhámos a propósito de Patagónia. Nada há de problemático ou errado em si mesmo de termos esses elementos alinhavados de forma clara e clássica numa estrutura narrativa. Grande parte da cultura popular estará menos na descoberta de variações e súbitas diferenciações culturais ou profundas crises de conhecimento social, do que na manipulação pela variedade de coisas já expectáveis. O problema está quando essa capacidade de diferenciação, de variação, que traria a felicidade musical ao tema, está algo enfraquecida, o que nos parece ser o caso de Tempestade.

Os ingredientes do herói infalível, por exemplo, são de tal forma sublinhados que se rompe a possibilidade de alguma verosimilhança. Tex aqui, não tem jamais falhas. Nem dorme. A utilização do pard Kit como contraponto mais atreito às pulsões humanas (pela comida, pelo descanso, até pela atracção sexual) por vezes apenas serve para acumular as capacidades sobre-humanas de Tex. Isso, a nosso ver, porém, empobrece a personagem em si, tornada pura cifra do “herói”. Até a questão de o imaginarmos de camisa amarela a tentar esconder-se num bayou se torna quase anedótica…

Com mais de duzentas páginas, é inevitável que a intriga ganhe alguma densidade, até por se tornar possível jogar com desarranjos da ordem cronológica, integrar recordações parciais de personagens,  gerir atenções intercaladas, e providenciar grandes elipses que aumentam a tensão ou suspense de várias cenas, ou da resolução final da história. No entanto, sentimos que, se houvesse uma gestão mais sumária de uma das linhas, teria sido possível construir uma história mais intensa, como a do mistério das cartas de jogar (as quais nunca são visualmente exploradas de forma satisfatória para o leitor se aperceber, por ele ou ela mesma, de que correspondem ao que vai sendo dito pelas personagens).

Dito isto, os diálogos burilados por Ruju são dignos da herança cinematográfica de John Ford ou Howard Hawks, nas quais todas as tiras e one-liners são certeiras e mortíferas. Essa é uma das partes que torna a leitura de Tempestade, a um só tempo, agressiva mas fonte de um prazer másculo, directo, alimentando todas as fantasias de ser-se rápido não apenas no gatilho mas na língua.


As capacidades expressivas de Rotundo são relativamente menos interessantes que as de outros artistas que já lavraram trabalho para a série. Há algo de animalesco e hiperbólico no rosto de todas as personagens (e quanto mais “vilões”, mais “simiescos”, havendo aqui basto pasto para interpretações de estereotipificação e reforço de ideias etnicamente informadas, logo, ética e politicamente problemáticas), que se torna ainda mais exagerado quando há emoções mais fortes a transmitir que retiram alguma da elegância possível mesmo a um trabalho mainstream desta natureza. Nalguns momentos, lembra um François Boucq menos consistente, em que há como que um excesso de carne ou pele no rosto das personagens, que as afasta de uma acalmia humana. Uma vez que todo o trabalho é de linha, nem sempre a diferenciação dos planos principais e secundários, ou da meteorologia, contribui para uma ambivalência expressiva.

Tudo é legível e claro, até mesmo onde não o deveria ser (as cenas nos pântanos, o auge da tempestade nos cantos mais soturnos e obscuros da pequena cidade de Galveston). Até mesmo as transições entre vinhetas e gestão dos eventos a mostrar são algo desinspirados, como se houvesse tão-somente a preocupação em tornar legível a amostragem da acção, e não a sua transformação numa acção (visual e estrutural) em si mesma, algo que outros autores o conseguem, inclusive no interior da produção de Tex. Acomodado à composição semi-regular expectável neste exemplo da indústria, toda a estrutura visual é a de um mecanismo que transporta o seu conteúdo sem grandes desvios.

Repetimos a ideia, já dita várias vezes neste espaço, que todo e qualquer western é sempre vendido, pelos seus defensores, como sendo “diferente” e “atípico” de um suposto centro nevrálgico de mesmidade ou representação clássica dele mesmo. Mas por vezes é bom regressarmos a representações basilares desse mesmo género para compreendermos em que medida é que a variação é feliz. Tempestade sobre Galveston parece querer cumprir o papel de “exemplo central”. Nesse sentido, toca quase todos os instrumentos centrais (apesar da ausência total de “peles-vermelhas”). Mas o resultado é um concerto anódino e pouco afoito.

[*] Texto originalmente publicado no blogue “Ler BD” em 17 de Agosto de 2016.
Copyright: © 2016 Blogue Ler BD & Pedro Vieira Moura

Blogue “Ler BD”

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Um comentário

  1. Tex é um imenso continente a descobrir. Insere-se claramente na tradição italiana de uma arte popular. Sem nunca prescindir de mínimos de exigência que, se desbravarmos a enorme saga do herói, rapidamente concluímos poder atingir, tantas e tantas vezes, máximos de resultado artístico. Sim. O herói é de facto um mito e sobre-humano e este crítico pouco ou nada percebeu deste monumento da Arte popular… mesmo assim com “A” maiúsculo.

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