Tex: “Patagónia” (da Polvo) na análise do crítico Pedro Vieira Moura

Tex: Patagónia. Mauro Boselli e Pasquale Frisenda (Polvo)

.Por Pedro Vieira Moura [*]
A personagem concebida por Gian Luigi Bonelli e Aurelio Galleppini em 1948 tem uma vida longa, diversa e explorada das mais diversas formas, não apenas em banda desenhada (se bem que é apenas nessa linguagem que atinge alguma qualidade) e não nos atreveremos sequer a encetar uma tentativa de a reduzir a uma apresentação sumária, sempre dada a falhas. De resto, a sua recepção em Portugal tem sido particularmente feliz, pelo menos em termos de respostas activas da parte dos seus fãs mais activos, pela existência não apenas do Clube Tex como pela criação de uma revista própria, acessível aos sócios. Acrescenta a que essa recepção seja surpreendente pelo facto das edições dessa personagem serem sobretudo as brasileiras (cuja recepção é de tal importância que existem mesmo estudos sobre isso, como é exemplo O mocinho do Brasil, de Gonçalo Junior, editora Laços: 2009), mas também italianas, espanholas e, quiçá, as outras línguas em que esta personagem é publicada, no paradoxal papel de personagem muita amada mas não sendo famosa fora desse mesmo círculo. Havendo fãs e conhecedores sólidos dessa série, com espaços próprios, não podemos sequer integrar Patagónia na sua contínua história, mas considerá-lo como um texto singular.

Ao contrário de outras séries de banda desenhada análogas em termos de distribuição e circulação popular, e em termos históricos, Tex é um título dirigido sobretudo a um público mais maduro, pela constância das histórias complexas e a matéria humana de que trata, ainda que no género do western de aventura. Quer dizer, sem a necessidade de se entregar a elementos pornográficos ou de violência extrema (o caminho preferencial desse ramo italiano que são os fumetti gialli, depois continuados por outras formas mais ou menos diluídas), é também por essas mesmas camadas de complexidade que criam uma distância em relação a, por hipótese, séries de super-heróis ou as revistas infanto-juvenis. Todavia, não valerá a pena misturar territórios, uma vez que as suas próprias condições de produção e até formatos apontam para um tipo de consumo bem diferente do que surgiria mais tarde como “banda desenhada em livro”. Em 1948 surgiu como uma revistinha de tiras, e o seu formato usual tem sido o do “gibi” ou “revistinha”, e apesar de ter surgido nos mais díspares formatos, de tamanhos e qualidades de impressão, estamos sempre a falar de apostas em modos “populares” e económicos. A sua edição em Portugal foi apenas assegurada num dos volumes de uma colecção, muito desigual mas pioneira de outros gestos que se seguiriam, distribuída pelo Correio da Manhã, em 2005, a Clássicos de Ouro. Agora a Polvo apostou igualmente neste nicho de mercado, mas com uma atenção especial para com a qualidade formal e material dos volumes, sendo Patagónia o primeiro passo, e tendo já saído um segundo volume, Tempestade sobre Galveston, a que regressaremos em breve. O acto da Polvo vem conferir a estes títulos esta qualidade de “livro” que tanto em voga está.

Algumas das aventuras longas da personagem eram publicadas em formatinhos mais humildes, de uma centenas de páginas em formato de bolso, e em continuidade, mas Patagónia faz parte dos ditos “Albo Speciale”, ou para os aficionados, “Texone”, que estão mais próximos do que entenderemos como “livros” propriamente ditos. Se este título faz parte de uma colecção maior (era o número 23), a sua publicação “isolada” pela Polvo dá-lhe uma pátina especial que forçosamente o destaca entre nós. Todavia, a aventura em si tem angariado muita atenção, mesmo no seu território original, e junto aos fãs hardcore, por várias razões: a alteração do ambiente, que é inédito na personagem; a complexidade referencial da aventura, ancorada na história factual da Argentina a caminho do último quartel do século XIX, e sem pestanejar face às responsabilidades de genocídio e destruição das populações ameríndias; o burilar completo da narrativa e da vivacidade das personagens por Boselli, e o desenho clássico, sólido e legibilíssimo de Frisenda. Pelo que se entende, é uma prestação muito acima da média da série, a qual, ainda assim, conta na sua história recente com a participação de muitos nomes de peso na banda desenhada italiana moderna.

Há toda uma biografia da personagem que leva a que a dinâmica entre as personagens, o modo como se referem a aventuras passadas ou a maneira como interagem face a novas situações espoletarão sentimentos de familiaridade e conforto junto aos leitores de longa data. Mas ao mesmo tempo, essa gestão não é feita de maneira a que um novo leitor, totalmente desprevenido, não se possa aperceber da distribuição dos papéis entre elas nesta aventura singular. É possível que haja uma inscrição das personagens algo empedernidas, segundo as funções clássicas da “aventura de heróis”, no sentido da “viagem única”, à la J. Campbell. Tex é quase infalível e é ele o grande compasso moral da história; o filho Kit surge como o cândido intempestivo; os poucos navajos que surgem enquanto personagens cumprem o papel do índio taciturno fiel e inteligente, cuja parcimónia nas palavras apenas assegura a que estas, quando proferidas, ganham uma dimensão de vaticínio; etc. Porém, defender-se-á, não sem razão, de que sendo esta uma narrativa plenamente ancorada num género popular, utiliza mecanismos narrativos e de representação que são de uma interpretação quase imediata. Sem dúvida, até por Tex preencher totalmente as fantasias do “white savior”,”going native”, etc., sem nunca se dar espaço à expressão própria dessas mesmas etnias que ele “representa”.

Ainda assim, e sobretudo em Patagónia, a categoria do western é apenas um quadro genérico que serve de ponto de partida, já que há um desvio de alguns dos seus mais costumeiros traços. Ou então, pelo contrário, eles mantêm-se mudando só e precisamente as circunstâncias do espaço, passando do deserto do Sudoeste americano para as pampas argentinas, as dos interlocutores, mudando dos brancos americanos para os argentinos, dos navajos para as etnias ameríndias daquela região. Pois acima de tudo, se existir algum “coração” do western, ele é mantido: a noção de justiça.

A sinopse é simples. Um antigo amigo de Tex, Mendonza, agora oficial do exército argentino, pede ajuda ao americano para salvar colonos brancos que foram feitos reféns por um indómito cacique nativo que não pretende vergar sob o domínio dos brancos: Calfucurá, dos mapuche (mas subsumidos ao descritivo de tehuelches). Figura histórica, há uma necessária redução dos papéis e da personalidade para o transformar no grande antagonista deste livro, que não lhe dá quase nenhum espaço de expressão. Enfim, não estamos aqui no território político de Jack Jackson. Logo, Calfucurá é o “vilão”, e isso deve ser suficiente. O grande problema da intriga está em que Mendonza precisa de gerir o melhor possível a situação local, nas alianças e comunicação com as várias tribos, pretendendo manter a paz geral e não abandonar-se numa guerra total, racista e de genocídio que é o desejo de alguns militares do Estado. Tex Willer surge portanto numa capacidade de estratega, mas igualmente de uma espécie de conselheiro (bastas vezes tomando decisões completamente à revelia da dita inteligência militar). O que se segue é uma complicada trama de comunicações, alianças, traições, reveses e avanços que demonstram o parco equilíbrio entre os representantes do Estado argentino, sedentos de uma purga civilizacional, e os nativos, mostrados ora como violentos e ligeiros guerreiros (os Mapuche de Calfucurá) ou nobres e honrados (a tribo do sul liderada por Mancuche, amigo de Mendonza). Ou seja, é criado um binómio entre os “bons índios” e os “maus índios” (e ainda se cria uma personagem dúbia, Solano, para matizar a antinomia), que se revela algo mais unidimensional do que o tratamento individual que se vai fazendo de toda uma série de personagens argentinas (oficiais, soldados, os gaúchos, os batedores de Tex, etc.). O tema, então, de todo o livro, é esse mesmo parco equilíbrio, o fraco papel que a honra e a palavra têm face à máquina da violência de estado. Nesse sentido, Boselli cria uma máquina narrativa que não deixa de menosprezar as capacidades individuais do herói, mas ao mesmo tempo preserva os mecanismos deste tipo de ficções, deixando Tex incólume de toda e qualquer responsabilidade dos actos iníquos que ocorrem.

É muito difícil não ler este livro sem criar paralelos quase de modo completo com alguns dos conflitos em curso nos nossos próprios dias, sobretudo entre, por um lado “a civilização ocidental” e, por outro, “o mundo árabe”. Atenção, não cremos de forma alguma na tese do “choque de civilizações”, simplesmente compreendemos que esse tipo de discurso maniqueísta é corrente e até, cada vez mais, expandido, por isso não deixa de ser curioso ler um livro popular, de um género popular, a tentar gerir precisamente com a complexidade “cinzenta” que impede de vermos o mundo a preto-e-branco. Daí que, tal qual O poema morre ou Os Vampiros, se poderá dizer que Patagónia coloca no papel principal a problemática do conflito bélico como aparente solução e discurso que cria divisões intransponíveis, ou melhor, apenas transponíveis por essa mesma violência. Por alguma razão abre este livro com a demonstração de como uma fronteira tentada pode ser atravessada em nome de actos da mais bárbara violência. Sem abandonar, de forma alguma, as estruturas necessárias para uma narrativa popular, com todas as cenas expectáveis (a “lição do herói” ao “arruaceiro iludido” ou ao “oficial arrogante”, “o sacrifício do coadjuvante”, etc.). E até o banquete na aldeia não é esquecido…

Apesar de tudo, há o costumeiro desequilíbrio das aventuras que elegem um herói infalível como seu protagonista. Tex é sempre quem resolve os problemas ou tem os melhores conselhos, sempre acertados. Se existem brevíssimos momentos em que o seu controlo se parece perder, é apenas momentâneo e para reforçar a sua infabilidade, nem que seja moral: quando se recusa a matar personagens, a tomar decisões mais drásticas, etc. É de Tex, portanto, o fiel que torna uma acção heróica. Por isso, quando finalmente Tex se entrega a actos mortíferos, e até chacinas, o leitor está ciente da justificação desses actos.

O desenho de Frisenda inscreve-se nas mais prestigiadas escolas italianas da tinta-da-China, em que o pormenor e clareza das figuras, objectos e planos é complementada por efeitos subtis do pincel meio-seco, raspagens sobre a tinta, provavelmente pochoir, sfumato, etc., que traz a algumas vinhetas mais densidade, textura, profundidade e, quando necessário, gravitas. Há vinhetas em que se vê o fantasma de Toppi. Se bem que possa parecer hiperbólica tamanha comparação, e possivelmente despertada pelo cadáver de um cavalo servindo de punctum à primeiríssima vinheta, a primeira página parece algo próximo de Andrei Rublev de Tarkovsky. Sendo a preto-e-branco, é mais do que expectável que o artista tire partido do alto contraste, muitas vezes com efeitos não-naturais para melhor gerir a condução do olhar (um contraluz em que o fundo é branco, corpos lado a lado em que um está em silhueta e o outro “iluminado”, a ausência total do cenário em negrura para destacar uma personagem, um céu nocturno “invertido”, etc.). Frisenda é capaz de desenhar minuciosas e detalhadas expressões do rosto humano, destacando-se acima de tudo o modo espaçado e tranquilo com que o faz, deixando sobretudo as posições dos corpos “falarem”, e jamais se abandonando a momentos histriónicos, mesmo nos episódios mais dramáticos e dinâmicos.  A composição semi-regular das páginas, sem nenhum tipo de experimentação inusitada (com pequenas excepções na cena final de combate, em que algumas figuras passam para fora da moldura, de modo eficiente), serve para promover numa estrutura sólida e constante as explorações expressivas a que se entrega. Além disso, a estruturação permite que cada página funcione como uma unidade, sem jamais quebrar cenas e transições a meio de uma delas.

Num equilíbrio curioso entre as características mais comuns e clássicas das “fitas de caubóis”, uma tentativa de se endereçar à história pelo filtro da ficção, e levantando a lebre face a temas apresentados de um modo ligeiramente mais matizado, Patagónia é um livro que preenche o seu papel de modo para além do competente.  Quando falámos de Fri(c)ções, de N. Duarte e J. Sequeira, aventáramos como não deixava de ser curioso que se diga que uma determinada instância de um género seja “atípica” ou “diferente”, como é o caso presente, quando o western deve ser precisamente o género em que mais variações se exploram. Logo, Patagónia não é de forma alguma um acto isolado. E muito menos o será em termos editoriais, pois se as condições forem favoráveis, poderemos estar perante mais um dos caminhos assegurados pela Polvo, numa colecção especificamente dedicada à personagem.

[*] Texto originalmente publicado no blogue “Ler BD” em 17 de Julho de 2016.
Copyright: © 2016 Blogue Ler BD & Pedro Vieira Moura

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