Tex Gigante 13: O Vale do Terror

Tex Gigante 13 - O Vale do TerrorArgumento de Claudio Nizzi, desenhos e capa de Magnus (pseudónimo de Roberto Raviola).
Com o título original La Valle dell Terrore , a história foi publicada em Itália no Tex Albo Speciale nº 9 em Junho de 1996 e no Brasil pela Editora Globo em Outubro de 1996 e republicado pela Mythos Editora no Tex Gigante nº 13 em Abril de 2004.

Tom Devlin chama Tex e Carson para investigarem uma série de insólitos assassinatos que vêm ocorrendo no vale de Yuba River. Lá chegados, os dois rangers são surpreendidos por um caso de vingança, com origem na louca corrida ao ouro na Califórnia anos atrás.

Tex e Carson a cavaloPelo culto que os leitores texianos lhe emprestam, pelo coro de críticas positivas recebidas ou ainda pela auréola que o rodeou, este Vale do Terror, sublimemente desenhado por Roberto Raviola, mais conhecido por Magnus, transmite uma empatia, uma química positiva antes mesmo da sua leitura. Esse facto poderia conduzir-nos para uma análise subjectiva, mas a verdade é que esta segunda leitura, três anos após a primeira, levou-nos a confirmar que todos os adjectivos usados para qualificar a obra são merecidos, justificando amplamente o culto devoto que os leitores lhe fazem.

 CasteloO argumento de Nizzi é bastante interessante, apoiando-se num caso de vingança, cujas origens remontam à corrida desenfreada ao ouro na Califórnia. Não estamos em presença de uma pura aventura do velho oeste, de um western clássico, com longas cavalgadas, poeira e tiroteio. Aqui predomina o mistério e o fanatismo de uma estranha seita, situando-se a acção em  florestas densas, perigosas e misteriosas, ou em ambientes imponentes (Sutter’s Rest), cheios de subterfúgios e labirintos (a casa de Bonner), onde Tex e Carson têm que lutar contra uma misteriosa seita, desconhecendo os reais motivos que movem esta, e sobretudo contra May-Ling, uma personagem bem construída e que, numa só aventura, pode bem entrar para a galeria dos grandes inimigos dos dois rangers.

PersonagensNizzi apela a factos históricos para a base do seu argumento, ao introduzir a personagem de John Sutter, conhecido como o Imperador da Califórnia. Se no início a história gira em torno de uma vingança familiar, o enredo vai ganhando outras proporções até finalizar num feroz combate debaixo de chuva e vento, que mais não servem do que acentuar o alcance trágico da aventura. Se o argumento de Nizzi é bastante apelativo, que dizer do desenho de Magnus?

Estudos de TexEstamos em presença de uma verdadeira obra prima do preto e branco, de páginas que nos deixam sem fôlego, tão grande é a qualidade apresentada. Magnus distingue-se, entre outras características, por um desenho extremamente apelativo e visualmente muito belo, minucioso, detalhista, com uma permanente obsessão pelo objecto, pelo ambiente e pela paisagem. A fisionomia humana é espantosa nas expressões de cada personagem, nos músculos faciais, até nas mãos, um pormenor que muitos desenhadores descuram por falta de rigor ou por pura e simplesmente falta de arte. Em Magnus nada surge de improviso, tudo é estudado ao detalhe e retratado até ao mais ínfimo pormenor. A descrição maníaca dos ambientes permite destacar uma porta, uma janela ou até a folha da imensa floresta. Tudo tem uma rigorosa lógica, porque para Magnus é o cenário que tem que ser realçado.

O autor constrói cenários e personagens em separado, sobrepondo-os numa fase posterior.

Cenário

As personagens

Resultado final

Exemplifiquemos este nosso comentário com as páginas iniciais, que são de uma beleza assombrosa, conseguindo o desenho transportar-nos realmente para a acção: o temporal, com a chuva a cair incessantemente, o ladrar do cão, a diligência a partir e, logo de seguida, a travar perante o xerife, tudo apresentado através de um grande realismo, que só a arte de um dotado  consegue transmitir. Também toda a cena da vistoria que Tex faz à cocheira de Bonner é um hino à 9ª Arte, na expressão que cada personagem vai adquirindo em cada momento, no desenvolvimento conferido de quadrado para quadrado, no jogo de pretos e brancos, uma vez mais tudo é de um grande realismo, tudo é arte pura.

O Vale do TerrorO desenho final, onde toda esta cena culmina (página 104), é revelador da arte de Magnus (aqui bem secundado pelo excelente Giovanni Romanini que desenhou os cavalos na aventura): repare-se tão somente nos movimentos de cada um dos cavalos sob o olhar atento de Bonner e repare-se, de igual forma, na postura de cada um dos cavaleiros, Tex, Carson e Ulrich. Num só desenho, Magnus consegue transportar-nos para a realidade dos grandes clássicos do género, onde tudo é fluidez e movimento.

O Tex de Magnus não é um Tex imponente como em Ticci, ou cínico como em Fusco ou ainda duro como em Ortiz, é um Tex determinado e audaz que vai buscar influências ao modelo de mestre Galleppini, como o autor bem frisou e como se pode ver perfeitamente exemplificado no último quadrado da página 38. Por todo o trabalho de Magnus perpassa a sua homenagem à personagem criada por Bonelli e Galleppini, mas também o profundo respeito que a série lhe merecia no panorama dos fumetti.

Magnus levou cerca de sete anos a concluir a obra, chegando à última página como alguém que iniciou uma viagem e vê, enfim, chegar a terra prometida. Depois, disse-nos adeus. Até sempre!

Texto de Mário João Marques

6 Comentários

  1. Eu tive a sorte de poder ler esta história (por duas vezes) e, ao mesmo tempo, também ler uma obra dedicada a Magnus, publicada devido a este “O Vale do Terror”. Estou a referir-me a “Al Servizio dell’Eroe – Il Tex di Magnus”. Uma obra onde está bem patente a aptidão e a extraordinária versatilidade de Magnus, através da publicação de uma extensa entrevista e desenhos inéditos.
    Trata-se de uma aventura marcante no universo texiano, não só pelos condicionalismos de Magnus e o seu posterior desaparecimento, mas sobretudo pela elevada qualidade do trabalho do autor.
    Um abraço.

  2. Caramba Marinho!!! Fazia um bom tempo que eu não acessava o blog e como tá legal, quanta matéria interessante… vocês estão de parabéns mesmo… agora sobre essa aventura… nem sei o que falar, é sem dúvida uma das minhas preferidas, ao lado de Oklahoma, eu não me canso de relê-la e admirar cada desenho… é fantástica, maravilhosa em todo o conjunto, poucas vezes eu vi um casamento tão perfeito como esse, com um argumento estupendo e uma arte que merece cada elogio feito nesse comentário acima…essa aventura foge totalmente do estilo Tex, pois temos um grupo de lutadores orientais de uma lealdade de ferro e uma chefe tão cruel e num traço mais que perfeito… realmente, cada quadro da revista é um deleite para os apreciadores do gênero… outra coisa, parabéns pelos comentários, estão perfeitos, mostrou exatamente o que também penso a respeito…
    Um abraço aos amigos Zeca e Marinho e obrigado por nos brindar com esse blog recheado de coisas interessante… longa vida a vós e ao blog,

    Edinan Motta

  3. Edinan Motta, grande Amigo, muito obrigado pelos elogios ao blogue (à crítica sobre este Texone, deixo os agradecimentos para o Marinho, se bem que concordo consigo, é uma edição deveras especial, para mim a melhor arte de sempre nos quase 60 anos de vida do Ranger).
    Tentamos diversificar ao máximo as novidades, as críticas, os desenhos, para abrangermos o maior número possível de Texianos e é com agrado que vamos sabendo que estamos indo no bom caminho. Em breve devido ao sucesso do blogue, vamos ter também uma secção internacional, mais precisamente, italiana, para os fãs italianos poderem também frequentar mais assiduamente o blogue.
    Um abração e contamos sempre consigo, irmão!

  4. Edinan,
    Faz tempo mesmo que não o víamos por aqui. Mas seja bem vindo e muito obrigado pelas palavras que aqui deixou.
    Acabou por dizer tudo o que nós pensamos desta excelente aventura texiana, certamente uma das melhores da já extensa galeria do ranger.
    Pode acreditar que vamos continuar a fazer do blogue um espaço de divulgação texiana e onde não faltarão assuntos de interesse, não esquecendo as críticas (risos)
    Um abração

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