TEX SEM FRONTEIRAS: “Sergio Bonelli, o Grandioso”

Por G. G. Carsan*

Sergio Bonelli

Sergio Bonelli, o editor-diretor da Sergio Bonelli Editore, pode ser festejado como o grande e maior roteirista de Tex e os motivos existem em demasia.

Para não deixar qualquer espécie de dúvida quanto à nossa afirmação acima, valemo-nos do fator inapagável que foi emplacar a editora com o seu nome. Notabilizou-se por toda a Europa, um Continente que valoriza o conhecimento, a pesquisa, a sabedoria e congrega grandes nomes da ciência planetária.

No personagem Tex, criado pelo seu pai, Gian Luigi Bonelli, na editora de propriedade de sua mãe, Tea Bonelli, ele emplacou a sua primeira aventura e que aventura é essa, que recebeu aplausos e linhas da crítica especializada e jornalística. De facto, Sergio Bonelli, utilizando-se de um pseudônimo, ou seja, um nome diferente ou uma segunda identidade, que apesar de ser falsa, por não haver registro oficial, é aceita no universo literário, assinou a aventura Caçada Humana como roteirista Guido Nolitta. 

Ele praticamente alterou a receita básica do personagem, primeiro dotando-lhe de mais sentimentos, sendo capaz de admitir uma falha ou uma ideia menos impactante e, segundo, perdendo parte de sua invulnerabilidade, permitindo que sofresse uma derrota, que fosse ferido, que o seu plano, antes infalível, falhasse.

Caçada Humana ganhou as vitrinas e incontáveis matérias serviram para a criação de uma espécie de culto todas as vezes em que o seu nome é proferido. Ganhou o livro O Mocinho do Brasil, ganhou adeptos e por isso muitas matérias, boa colocação nas enquetes e é lembrada pelos colecionadores que gostaram do seu estilo.

Tempos depois, o Sergio, digo, o Nolitta, retornou com mais uma aventura que cairia redondamente no bem-querer dos texianos e se tornaria um sucesso, aparecendo no fabuloso ranking Tex Top-Três, continuadamente, década após década, para uns como a melhor, para outros na segunda colocação, para outros na terceira.

Um ser praticamente asqueroso com vingança e ódio gigantes e um duelo ao pôr do Sol, ao lado de uma cova no cemitério de uma cidade fantasma. Para chegar ao duelo, Tex precisou saber que o seu irmão de sangue Tigre tomou uma surra, seu filho foi baleado e ele próprio foi dominado pelo terrível El Muerto.

O clássico em quadrinhos se tornou uma lenda dos quadrinhos quando o pingente, chamado de bugiganga e de porcaria pelos atores, foi aberto e emitiu som, dando voz às armas dos dois homens na incrível luta pela vida.

Estávamos todos cientes da capacidade de Sergio Nolitta Bonelli, que chegou mais uma vez com uma longa aventura intitulada Missão em Great Falls, em quatro álbuns. Não é uma aventura qualquer de Bang Bang, pois Nolitta era diferente e editor, tinha poderes para escolher uma temática alheia ao faroeste puro. Um profeta com uma mensagem de liberdade para os peles-vermelhas do Norte, auxiliado por homens cruéis, dá tônica a esta magna aventura. Mais uma vez o Tex sofre ao ser capturado junto com o casaca-vermelha Jim Brandon.

Sergio Bonelli estava atento para o momento que G. L. Bonelli passava com a idade avançada e o ritmo de produção cada vez menor. O Claudio Nizzi estava sendo preparado para dar continuidade a criação de roteiros, enquanto escrevia o seu personagem raiz, Nick Raider, um policial em Nova Iorque. Por isso, Nolitta escreveu vários roteiros que foram intercalados na produção do Bonelli pai.

Entre essas produções, roteiros especiais como O Sinal de Cruzado, O Solitário do Oeste, O Vale da Morte, A Grande Ameaça, A Flecha Quebrada, O Desertor, Grito de Guerra e Os Dominadores do Vale. Assim, produziu e gerenciou o ocaso de G. L. Bonelli e a ascensão de Nizzi.

Estas aventuras foram/são de tirar o fôlego. Todas apresentam desafios diferentes para Tex e são escritas na medida para o desenhista da vez, respeitando as suas melhores características, seja paisagismo (Ticci), seja clima misterioso ou exploratório (Lettèri), um personagem forte (Fusco).

Reativando a memória, contra Cruzado o nosso herói erra e paga caro até o fim por subestimar um inimigo; em O Desertor, ele não consegue pegar o chefe dos bandidos, o Manuel Pedroza, e engole um sapo que só será cuspido tempos depois noutra aventura. E em Grito de Guerra é acusado da morte de um jovem índio, filho de um chefe embrutecido, Apanoosa, o que lhe causa sérios dissabores e uma pressão que lhe deixou à margem de uma… depressão.

Os Dominadores do Vale merece um aparte, pois Nolitta faz uma crítica enorme aos ricaços latifundiários que compram a lei, os políticos e as armas para tocar o terror conforme as suas perspectivas de poder e de riqueza. O Coronel Watson precisou amargar toda a sua soberba e ganância ao se deparar com um Ranger do Texas.

Com o C. Nizzi voando alto e seguro no comando do Tex, aplicando um sucesso atrás do outro, o Sergio foi cuidar de outras jóias da Editora e colocou o Nolitta texiano de molho. Mas quem tem a verve escritora e vive nesse universo nunca deixa de escrever e de ter ideias. Estimulado a todo instante, deve ter sonhado com o El Morisco atacado por onças do deserto mexicano e surgiu Retorno a Pilares, com 577 páginas, a mais longa aventura escrita nos 729 álbuns italianos de Tex e nas demais coleções.

Nesse clássico que se arrasta por sete longos meses, Tex enfrenta a incerteza de vida do filho Kit e tenta fazer justiça sem saber contra quem.

Tempos depois de saborear o grande sucesso da última proeza do Nolitta, Sergio, agora mega editor europeu de quadrinhos, relembrando as muitas viagens que fez pelo Mundo, seja Grand Canyon, seja Amazônia ou Deserto do Saara; festejado nos eventos italianos pelo sucesso da sua editora com tantos maravilhosos trabalhos nas mais de vinte publicações, volta com mais um best seller intitulado Caçadores de Lobos.

Uma baita aventura em que coloca o Jack Tigre, o seu preferido, para dormir e descansar. Sim, preferido, pois ele sempre descartava o Kit Carson nas suas criações, embora nessa tenha mudado de ideia e dado uma chance ao velho resmungão – Sergio respondeu em entrevista o porquê dessa atitude. (Entrevista no livro Tex no Brasil – O Grande Herói do Faroeste).

Sergio Bonelli e o livro “Tex no Brasil – O Grande Herói do Faroeste

Guido Nolitta encerra a sua participação com a bela aventura vivida nas Montanhas Rochosas e desenhada pelo Ticci, em que ele faz as pazes com o Velho Carson e  lhe dedica até um início de namoro. Todavia, não esquece de colocar os Rangers numa enrascada melindrosa para salvar Pat Mac Ryan da prisão.

De detalhar a sua dupla interpretação no que diz respeito a Carson, quando diz que para contar uma história de faroeste não vê espaço para brincadeiras e falatórios, mas pensava exatamente ao contrário em relação a Chico, na sua criação maior, Zagor – desde que se considere Zagor um faroeste – pois o Chico Caetano e Gonzalez e outras dez coisas mais sempre foi totalmente humorizado.

Mas ele era o Editor e decidia como era A e como era B.

Esperem, não acabou. Ele escreveu mais aventuras. Só que, foram consideradas menores pelos editores brasileiros e deixadas para trás – e mais dois casos extras. A Mythos foi que publicou mantendo a sua política e determinação de trazer à tona as quase 100 aventuras descartadas pela Vecchi e RGE.

Uma Aventura no Caribe coube em Tex e Os Aventureiros (foi temporalmente em continuação a O Solitário do Oeste, quando Tex e Kit retornavam do Panamá). Sasquatch, em que temos um macaco sagrado gigante, que reconhece em Tex um homem do bem, diferenciado; e O Cowboy sem Nome saíram na rubrica Almanaque Tex.

Missão Suicida foi publicada no Tex Ouro, completa. Tex se passa por um bandido e opera uma ação ultra perigosa, capaz de deixar o leitor ansioso de calças molhadas, ao realizar uma louca roleta russa.

Nolitta tem seu nome de autor em Tex Gigante, numa parceria com Boselli, em Os Rebeldes de Cuba.

Por fim, é dele uma das menores aventuras de Tex, como você pode comprovar em Uma Tarde Quente, que figura em Tex e Os Aventureiros e em Tex Almanaque.

Estas aventuras são consideradas abaixo daquelas primeiras citadas acima, mas são diferenciadas e pode ser detectado o modo Nolitta de escrever e de criar.

O grande timoneiro texiano, então, não ganhou no item alta produção, por ter infinitas e grandes outras responsabilidades, MAS como dito, citado, comprovado, tem o nome da Editora, tem El Muerto entre as três melhores, detém o recorde da mais longa aventura com  Retorno a Pilares, Caçada Humana rendeu um livro, ele foi um coringa nas horas difíceis com roteiros, administração e editoria, e, portanto, está recebendo desse escriba o mais alto grau de reconhecimento e fazendo jus a uma medalha especial, um busto e eternas celebrações em seu lauto nome.

Sergio Bonelli no Alto Orinoco a bordo de uma canoa yanoama

É loucura afirmar que sem Sergio Bonelli o Tex não teria alcançado esse sucesso que conhecemos e aclamamos? Não é. É possível que a editora tivesse continuado em transformação e até mudasse de mãos. Talvez Tex fosse um título cancelado após uma bronca entre G.L. Bonelli e outro editor. Sem Sergio é muito difícil pensar a maior editora de quadrinhos da Europa. Ele deu sangue, ossos e cabeça para ser o que foi, o que é.

Aliás, Sergio Bonelli já recebeu uma grande homenagem em 2013, no Especial Sergio Bonelli, contando sua vida e trazendo produções com Tex, Zagor e Mister No. 

Em verdade não queria, não vou me alongar com esses personagens, mas não custa dizer que ele foi o criador de Zagor, de Chico e companhia, e, que criou Mister No, ambientado no Brasil, à sua imagem e semelhança nos bons tempos.

Tex
Caçada Humana
El Muerto
Missão em Great Falls
O Sinal de Cruzado
O Solitário do Oeste
O Vale da Morte
A Grande Ameaça
O Desertor
A Flecha Quebrada
Os Dominadores do Vale
Grito de Guerra
Retorno a Pilares
Caçadores de Lobos
Golden Pass

Almanaque
O Cowboy sem Nome
Sasquatch
Uma Tarde Quente

Tex e os Aventureiros
Aventura no Caribe

Tex Ouro
Missão Suicida

Tex Gigante
Os Rebeldes de Cuba

Ave Sergio,

G. G. Carsan
Julho.2021 

Pós escrito:
Tenho uma estima tão grande pelo Sergio, que escrever esse texto é como estar batendo um papo com ele num acampamento, depois de um dia duro de cavalgada, falando das nossas vidas.

Quando enviei material sobre as Expotex de Jampa, ele fez um editorial em Nuova Ristampa e me enviou exemplares. Quando lancei o livro Tex no Brasil – O Grande Herói do Faroeste, ele fez um editorial em Tex Nuova Ristampa e me enviou exemplares. Quando solicitei material para as Expotex, ele enviou. Num dos editoriais, com o livro citado em mãos (livro levado pelo pard José Carlos Francisco) ele diz que sou um “arqueólogo texiano” e que gostou de encontrar factos que ele nem lembrava mais.

Não lhe conheci pessoalmente, ainda assim, gozei desses momentos ao seu lado.

* G .G. Carsan, 56 anos, paraibano, fã, coleccionador e divulgador, começou aos 7 anos a ler Tex e nunca mais parou. Realizou 9 exposições em João Pessoa, escreveu várias aventuras para Tex (algumas publicadas na Internet), palestras em vários Estados e plateias e quatro livros sobre a personagem no Brasil.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

5 Comentários

  1. Sou grande admirador do Sergio Bonelli, deixou uma obra indelével e relevante.
    Uma pessoa notável por inúmeras qualidades pessoais e profissionais.
    No entanto, nunca será o melhor ou o maior roteirista do Tex.
    Nizzi também é genial, mas, o maior de todos será sempre o G. L. Bonelli com certeza absoluta.
    O próprio G.L. Bonelli afirmou que o TEX é ele mesmo.

  2. Pard G. G. Carsan, desde o início notei que Sergio Bonelli descartava Kit Carson das histórias, por isso sempre preferi as histórias de Gian Luigi Bonelli e principalmente Claudio Nizzi, para mim as melhores histórias de Tex são com Kit Carson.
    Quanto a Tex não errar e falhar nas histórias de Gian Luigi Bonelli, temos que lembrar que em várias histórias escritas por ele, Tex foi ferido, preso e torturado, como podemos ver em Tex nº29 “Cinco Fugitivos Do Inferno” e no Superalmanaque Tex nº1 “A Grande Intriga“, onde Kit Carson conseguiu libertar Tex da prisão através do uso da força e da inteligência.
    Já nas histórias de Zagor, para mim o melhor roteirista é sem dúvida Sergio Bonelli.

  3. Ver a matéria com as imagens em tamanho superior na tela grande do monitor de 32 pol. do famoso Tex Willer blog é demais da conta.
    Obrigado grande Zeca pela editoração e inserção de imagens nessa matéria, que é a vanguarda das lembranças do Editor Sergio Bonelli quando chegamos aos 10 Anos de sua passagem para os campos eternos.

  4. Pard José Carlos, obrigado por retificar meu comentário anterior colocando o nome do autor do texto G.G.Carsan; após escrever o meu comentário é que fui notar que o texto era dele.

  5. Eu também prefiro as histórias de Tex escritas por Sergio Bonelli apesar de gostar muito da versão de seu pai que nos deixou aventuras fantásticas, como A cruz trágica, A vingança de Apache Kid, Entre duas bandeiras, A noite dos assassinos ou O grande golpe, entre tantas e tantas maravilhosas histórias. Mas, tal como referiu GG Carsan, Sergio Bonelli dotou os personagens de maior densidade psicológica e tornou o protagonista mais humano. Mas o que eu mais aprecio e que distingue verdadeiramente as suas narrativas e as torna únicas e imprevisíveis para o leitor é a mistura de géneros que Sergio consegue conciliar na mesma história: drama, comédia, ficção, terror ou suspense.
    Parabéns GG por esta bela homenagem, eu próprio já o fiz há alguns anos em O contador de histórias (“https://thebonelliemporium.blogspot.com/2013/09/o-contador-de-historias.html) e mais recentemente abordo a fase de ouro do personagem num texto intitulado de A outra face (https://thebonelliemporium.blogspot.com/2019/09/a-outra-face.html).

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *