As Leituras do Pedro: Revista do Clube Tex Portugal #14 + Tex Edição Especial Colorida #16

As Leituras do Pedro*

Revista do Clube Tex Portugal #14
Fabio Civitelli, Giorgio Bonelli, Hernâni Portovedo, Jesus Nabor Ferreira, João Marin, José Carlos Francisco, Mário João Marques, Moreno Burattini, Pedro Pereira, Rui Cunha e Sandro Palmas
Clube Tex Portugal
Portugal, Junho de 2021
210 x 290 mm, 52 p., cor, capa mole, semestral
Exclusiva para sócios do Clube Tex Portugal (condições de assinatura disponíveis aqui)

Experiências

Por vezes, quando abrimos um álbum ou  (cada vez menos…) uma revista de BD, esquecemos todo o trabalho editorial que esteve por detrás do que nos chega às mãos, quase nos parecendo que ela surgiu de geração espontânea ou por obra de um qualquer génio – e alguns até o são, mas…

Mas o argumentista teve de escrever/riscar/corrigir/reescrever/ajustar e o desenhador teve de procurar referências, fazer esboços, apropriar o traço, mudar cenários, enquadramentos, poses…

Um dos artigos da Revista do Clube Tex Portugal deste semestre – já o décimo-quarto desta publicação que explora o mundo de Tex em particular e o universo do western em geral – possivelmente aquele que mais despertou a minha atenção, intitula-se Os Tesouros da Via Bunarroti (onde fica a sede da Sergio Bonelli Editore) e refere uma série de originais lá existentes – ou perdidos ao longo dos tempos – cuja publicação, por uma razão ou por outra, foi recusada pela editora.

E, onde escrevi ‘uma razão ou outra’, leia-se maioritariamente dois motivos: o desvio às normas instituídas para as aventuras do ranger ou a falta de qualidade dos artistas. Ou, no mínimo, a inadequação do seu traço para o género em causa.

[Numa revista que é um bom exemplo de tentativa/erro/melhoria em curso de publicação, que para mais, recentemente sofreu alteração de grafista – e de grafismo – os passos dados têm contribuído para a tornar mais legível e arejada, sendo de referir a utilização de cor(es) nos fundos das páginas como forma de identificar os diversos artigos. E já que esta referência à revista se tornou mais longa do que tinha pensado, fica a nota de que este número volta a incluir a secção A minha prancha de Tex (desta vez com a escolha de Fabio Civitelli) e, entre outros, os artigos Stefano Andreucci, destinado a Tex! (sobre o percurso do autor das duas capas), Até sempre mestre Ennio Morricone e As memórias de Giorgio (sobre o seu pai, Gianluigi Bonelli).]

Tex Edição Especial Colorida #14
Mauro Boselli, Antonio Serra, Moreno Burattini, Fabrizio Accatino e Mario Rossi (Majo)
(argumento)
Alfonso Font, Patrizia Mandanici, Raffaele Della Monica, Giorgio Trevisan e Mario Rossi (Majo) (desenho)
Oscar Celestini (cor)
Alessandro Piccinelli (capa)
Mythos Editora
Brasil, Fevereiro de 2020
160 x 210 mm, 160 p., cor, capa mole
R$ 29,90

Finda esta variante ao tema, inicialmente inexistente, retomo a ideia acima expressa para referir que uma das histórias que não deveria ter passado no crivo da editora Bonelli é A Voz do matador, um dos cinco relatos incluídos no Tex Edição Especial Colorida #16, pois nela o traço clássico e sujo do veterano Giorgio Trevisan, surge estático, pouco expressivo, demasiado rígido e com claras dificuldades no tratamento da figura humana, especialmente ao nível dos rostos que por vezes parecem ‘colados’ nos pescoços, acabando por tornar penosa a leitura de uma ideia base que também está longe de ser original.

Isto reforça a ideia que aqui já expressei outras vezes, de que esta publicação – a italiana Tex Color – é como um laboratório experimental para testar argumentistas e desenhadores que eventualmente aspirarão a entrar nos ‘quadros’ do ranger, pois nela, a par de criadores de créditos firmados – como até é o caso de Trevisan ou de Boselli e Font que abrem este número com Teton Pass, mais um relato (quase) sem Tex, com Kit Carson a assumir as rédeas dos acontecimentos – surgem nomes novos na bibliografia do ranger, claramente para (de)mo(n)strarem a sua arte e a sua capacidade de trabalho – factores fundamentais para uma série de ritmo mensal, onde apesar da sucessão de artistas, não se admite baixar o elevado nível de qualidade gráfica que, note-se, sempre foi uma nota distintiva nas edições Bonelli.

O experimentalismo que caracteriza esta publicação revela-se – a níveis diferentes – em duas das outras histórias para ela seleccionadas. A primeira, Cuidado com o lobo!, assinada por Serra e Mandanici (mais uma desenhadora a trabalhar em Tex), é uma das raras narrativas mudas nos mais de 70 anos de vida do herói – embora em termos de argumento, tal como no caso já citado atrás, recupere uma premissa recorrente na BD (e não só): o auxílio a um animal selvagem que posteriormente devolve a ajuda, bem servida por um traço expressivo e uma planificação que parece cristalizar momentos: um gesto, um olhar, um movimento brusco… Quanto à segunda, é também uma raridade na cronologia texiana, mas por motivos díspares, pois é obra de autor único (!), no caso Majo que, no que diz respeito ao argumento consegue dar corpo a uma narrativa típica das histórias do ranger, encorpada e com bastante consistência, que até ‘soa’ maior do que a trintena de páginas disponíveis; no entanto, a nível gráfico mostra-se uns furos abaixo do que as aventuras do ranger (normalmente) exigem, quase me atrevendo a escrever que só foi publicado porque a cor ajudou a disfarçar as (evidentes) limitações de um traço ‘indeciso’ entre o realista e o semi-caricatural.

Para o fim – sem motivo específico – ficou a história que melhor assume o espírito tradicional do ranger: um herói solitário, decidido e imbatível, que não hesita em fazer justiça pelas próprias mãos – afinal o que a maioria dos seus leitores procura. Tal como na BD de abertura, Uma armadilha para Kit é também uma narrativa (quase) sem Tex, uma vez que o protagonismo está entregue a Kit Willer, que aqui passa bem pelo progenitor! Sem grandes originalidades – Kit é capturado por bandidos que decidem usá-lo para atrair o ranger – está escrita de forma sólida por Burattini, que inclui dois pormenores atípicos mas bem imaginados no seu desenvolvimento, que contribuem para dotar Kit daquela aura quase irreal que orna o seu pai. No desenho, o traço seguro e dinâmico de Della Monica, bem servido por um colorido vivo, sem descaracterizar os tons típicos do velho Oeste, realça o tom acelerado do relato e deixa a certeza que se a história fosse publicada a preto e branco brilharia de igual forma.

*Pedro Cleto, Porto, Portugal, 1964; engenheiro químico de formação, leitor, crítico, divulgador (também no Jornal de Notícias), coleccionador (de figuras) de BD por vocação e também autor do blogue As Leituras do Pedro

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima, clique nas mesmas)

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