10 mulheres para Kit

Por Sandro Palmas*

Ironicamente, durante muitos anos falou-se da virilidade do filho de Tex, esquecendo que Kit Willer, um jovem de vinte anos, já viveu, em quase setenta anos de vida editorial, mais de uma dúzia de aventuras sentimentais.

A primeira mulher foi Nahua, filha do chefe dos Pimas, na história La Montagna Misteriosa (15 da série mensal). Pequeno Falcão é feito prisioneiro pelos índios brancos, um povo misterioso que descende dos antigos astecas, que uns séculos antes fugiram das investidas de Cortez. Numa aventura que não tarda em assumir contornos de pesadelo, o Grande Sacerdote do Deus Sol, guardião das chamas, une simbolicamente o filho sagrado do sol (Kit Willer) com a jovem filha da Senhora da Noite (Nahua). Evidentemente, não se trata de um matrimónio, mas durante uns dias os dois adolescentes vivem quase em simbiose, como irmão e irmã, organizando em conjunto um plano de fuga que os desvie do terrível destino que os espera. De todas as mulheres que se cruzaram na vida do filho de Tex, Nahua é provavelmente uma das mais encantadoras.

Outra mulher, outra morena, Dora Elmer, que vive com o seu tio Jim num rancho continuamente assediado pelos índios Piutes, na aventura com o mesmo nome (23 da série mensal). Nas páginas finais, é com surpresa que assistimos à recusa de Kit em seguir o pai e Carson, preferindo ficar a ajudar a jovem. Se o insólito deixa o ranger surpreso, que numa primeira abordagem julga que tudo se deve a uma indisposição de Kit devido ao cansaço, ao velho Carson nada escapa, acabando por afirmar “o garoto ficou indisposto ao bater contra um par de olhos negros”. No entanto, a romântica Dora pouco faz para esconder os seus verdadeiros sentimentos, uma vez que o seu coração pertence ao ambicioso Frank Milligan, o que não deixa de suscitar ciúmes no filho de Tex.

Com a terceira mulher, a mexicana Manuela Montoya, tudo é bem mais sério. A aventura I Due Rivali (214 e 215 da série mensal) é uma das mais insólitas escritas por Gianluigi Bonelli que, no entanto, não era adepto de histórias românticas. Não foi por acaso que a ideia de apaixonar (finalmente!) Kit Willer, desde há muito defendida por Sergio Bonelli, tenha sido sugerida durante um jantar pelo cantor e amigo Fred Bongusto. No rancho de Don Carlos Montoya, a poucas milhas de Nogales, no Arizona, Kit Willer encontra-se em convalescença com diversas costelas partidas, depois de, num ato heróico, ter salvado a vida da jovem Manuela, que parecia condenada a sucumbir debaixo de uma furiosa manada de gado. Para a jovem é amor à primeira vista e ao leitor bastam poucas vinhetas para perceber que Kit Willer não ficou indiferente ao sentimento da jovem. No entanto, tudo parece estar contra esta relação, desde o rígido quotidiano na reserva navajo aos preconceitos da aristocracia da família de Manuela, que nunca aceitará a ideia de ver a sua única herdeira unida a um mestiço, até à presença de um rival, o impulsivo Dom Pedro Cortez, também ele oriundo de uma família abastada espanhola, ligada por uma velha amizade à do arrogante Hidalgo Montoya, que parece afastar categoricamente qualquer hipótese. Por amor ao filho, Tex tenta apalpar o terreno, até, por fim, perder a paciência! Na história nada nos sugere abertamente que Kit e Manuela também se tenham relacionado no sentido bíblico, mas certamente que ao leitor não escapou a emancipação de uma personagem feminina sem dúvida de grande espessura.

Aquilo que não é indicado abertamente na história I Due Rivali torna-se quase um manifesto na dupla aparição de Donna Clemmons. A primeira vez em I Fuorilegge del Montana (409 da série mensal), quando a jovem é libertada por Kit Willer na ghost town de Bannock, depois de ter sido raptada pelo Bando dos Inocentes, que a utilizaram como isco para atrair o seu presumível pai Ray Clemmons, ex-xerife e antigo líder do grupo. Os dois jovens tentam sair da cidade, mas acabam por ser capturados e a sua vida presa por um fio até ao final desta magnífica aventura. Um pouco mais tarde, em I Sette Assassini (463 da série mensal), Lena Parker, a mãe de Donna, abriu uma pensão em Heaven, palco idílico para uma cena de abraços e beijos entre Kit e Donna debaixo de um romântico luar e perante o olhar benevolente dos inquilinos da pensão. É nesta aventura que descobrimos que Donna poderá ser na realidade filha do Velho Camelo que, no passado, manteve uma breve, mas intensa relação amorosa com Lena. Desde então, permanece uma ligeira paixão, sem consequências, tanto que, ainda hoje, apesar da longa ausência e das diversas escapadelas de Kit, Donna é ainda a principal candidata a conquistar o coração do filho de Tex.

Na aventura Yukon Selvaggio (412 série mensal), vamos conhecer a primeira loura da série, a frágil e indefesa Linda Colter, interessada em encontrar o pai, o explorador de ouro John Colter. Tal como Manuela e Donna, Linda também acabará vítima de mais um rapto, e é também mais um relacionamento destinado a durar pouco, apesar dos irresistíveis comentários do velho resmungão, porque, tal como afirma um aliviado Tex, quando regressarem a Seattle os dois acabarão por se separar de uma vez por todas.

Em L’Uomo Senza Passato (423 da série mensal), Kit acorda numa gruta, ferido na cabeça e sem se lembrar do que quer que seja, até os seus olhos cruzarem a figura carinhosa da bela Flor de Lua, que vai chamar Tonkawa (trazido do rio) ao filho de Tex. Tal como já tinha acontecido com Manuela, também com a jovem sioux é amor à primeira vista, encantada que o jovem fale a mesma língua e que pareça um dos seus, depois de lhe vestir as vestes do seu povo. O pai de Flor de Lua, chefe da aldeia sioux, não tardará a perceber os sentimentos da filha e fará tudo o que ela deseja, sem se importar que a jovem já tenha sido prometida a Falcão Negro. Perante este cenário, naturalmente que o destino da jovem está selado, acabando Flor de Lua por se sacrificar, ao intercetar com o seu corpo a bala que o canalha Simon Gentry destinava ao seu amado Tonkawa. Aquilo que fica é a mais intensa e a mais bela história de amor alguma vez vivida por Kit, um matrimónio índio com muitos pontos em comum com o do seu pai e da sua mãe Lilyth, incluindo o epílogo comovente.

Nos últimos anos, os encontros com o sexo frágil aumentaram de forma concreta. Provavelmente, não se trata de uma escolha ponderada da parte da editora, ou talvez o seja parcialmente. Nas histórias da série mensal, a partir do momento em que Mauro Boselli se tornou no principal argumentista, de facto temos vindo a assistir a uma maior participação dos quatro pards que coincide também com uma crescente participação feminina. Desde a aventura anterior, datada dos anos noventa do século passado, o salto temporal é bastante amplo até encontrarmos outra mulher com quem o filho de Tex viva um relacionamento sentimental complicado.

A doutora Sarah Wyatt, voluntária junto dos pobres apaches na aventura Salt River (627 da série mensal), é outra bela mulher, cuja companhia atrai o jovem Kit. Entre os dois, rapidamente surge um mútuo entendimento, uma certa ternura da parte dela, que se preocupa com o facto de o jovem colocar a sua vida em risco. Mas o seu jogo é duplo, e não tardamos a descobrir que Sarah não é verdadeiramente uma médica, mas apenas a mulher do cabecilha Jack Curtiss. O epílogo da história é em boa parte marcado pela frieza de Kit Willer para com Sarah, ferido pela confiança traída, que contrasta com a do jovem exuberante quando perante uma possível conquista feminina, assim como com as palavras do Velho Camelo, mais maduro e experiente e por isso mais propenso a conceder uma segunda oportunidade a uma mulher que o faça por merecer.

A oitava mulher tem o nome de Beth Driscoll e surge na história Tombstone Epitaph (633 e 634 da série mensal), que se destaca inicialmente por um duplo equívoco sobre a sua identidade. Primeiro dispara sobre Kit, confundindo-o com um dos raptores do pai, e logo em seguida acaba agredida e deitada ao chão pelo jovem, que não tarda a reparar que, afinal, o seu adversário é uma fada loura a quem apenas falta apurar a mira. Numa história que exala laivos de erotismo, não há, no entanto, espaço para qualquer fantasia e no final restará apenas a recordação de uma bela aventura entre dois adolescentes.

Nas páginas iniciais de El Supremo (637-640 da série mensal), quando Kit Willer se prepara para libertar Helen, a filha do governador Aldergate, prisioneira no forte da Ilha da Névoa, o desertor Donen pergunta-lhe se ele tem um fraquinho por ela. A reflexão do filho de Tex (imortalizada por Maurizio Dotti com um olhar melancólico e quase sonhador), para quem uma rapariga da cidade nunca aceitaria viver na reserva navajo, não é certamente alheia à experiência ardente passada com a família dos Montoya.

Na extensa aventura Il Segno di Yama (673-675 da série mensal), a parte cor de rosa da história surge na figura de Shakti, uma devota do Senhor da Morte. A primeira vez, no restaurante junto ao porto de São Pedro em Los Angeles, um modesto estabelecimento onde a beleza hindu com um nome de deusa fixa o seu olhar ardente no filho de Tex, suscitando um irónico gracejo da parte do Velho Camelo. Depois, no dramático final, no templo de Naraka, onde se desencadeia um verdadeiro inferno, quando Shakti abre os olhos para a trágica realidade que a rodeia, tornando-se em mais uma das muitas vítimas do filho de Mefisto e Kit vai em sua ajuda.

Na recente aventura La Pista dei Forrester (680 e 681 da série mensal), Tex e o filho são obrigados a solidarizarem-se com os três irmãos referidos no título. Ocasião para Kit Willer conhecer a vulcânica Liz Forrester, cuja relação se vai desenvolvendo com o decorrer da aventura, acabando até por todos enfrentarem o bando do selvagem Ramirez, o que permitirá reconhecer e apreciar as qualidades de cada um. É raro ver na série Kit Willer acompanhado por uma companhia feminina, aspeto que aqui se deve a Pasquale Ruju, que soube dar espessura e profundidade à protagonista. Claro que isto não significa que a jovem Liz tenha sido pensada pelo autor como uma possível conquista de Pequeno Falcão. A ilustrar a impossibilidade de um romance entre os dois bastará o caráter forte e seguro, duro e orgulhoso da jovem, uma espécie de maria-rapaz.

Kit Willer e Luz Drigo

Muito promete o álbum Il Ritorno di Lupe (682 da série mensal), onde Kit conhece Luz Drigo, a filha da mesma Lupe Velasco que viveu a sua primeira ardente desilusão amorosa com Tex. O encontro com a jovem mexicana reavivou um pouco a situação criada em tempos, quando o filho de Tex encontrou a “filha” de Carson, inaugurando na série o tema dos amores e desamores geracionais. No entanto, o segundo álbum da aventura vai desiludir muitos leitores, porque deixa pouco espaço a Luz, acabando a mexicana por engrossar tristemente as fileiras de tantas outras mulheres que surgiram na vida de Kit. As páginas finais são mesmo lacónicas, caracterizando-se por mais um momento de inevitável despedida.

Nem com a hispânica Conchita o calor da paixão se mantém. Personagem de La Città Nascosta (686 e 687 da série mensal), aventura escrita por Tito Faraci, a jovem vai descobrir Kit, quando o filho de Tex acabará por se precipitar numa cidade perdida no tempo. Os cuidados prestados por Conchita ao jovem que perdeu a consciência e que se encontra em precárias condições físicas em tudo se assemelha a outras aventuras, como por exemplo aquela que Flor de Lua protagonizou e já acima referida. Contudo, desta vez fica uma simples paixoneta que nunca evoluirá para uma verdadeira paixão. Na verdade, a jovem acusa Kit de ser o culpado do perigo que paira sobre a cidade, representado pelo bando de Brad Stroke que se encontra na sua pista, achando mesmo que o filho de Tex só pretende juntar-se aos seus pards, mas não hesita em segui-lo, apesar da firme recomendação de Kit. Só nas cenas finais, depois dos pards fazerem uma limpeza geral à sua maneira, é que haverá espaço para Kit ir ter com a jovem, e Conchita liberta emotivamente a sua ambiguidade. Mas as palavras do filho de Tex são bem elucidativas e iludem qualquer atrevimento sentimental, acabando o leitor por encontrar em Conchita o mesmo tom por uma relação que os dois jovens sabem ser impossível de viver. O lugar de Kit é na aldeia navajo e é para lá que ele deve regressar.

O universo feminino de Kit Willer também é preenchido de aventuras sentimentais que poderemos definir como marginais, mas que de modo algum são negligenciáveis. Exemplo disso surge no Texone 28 La Cavalcata del Morto, quando os quatro pards se deslocam para o vilarejo mexicano Pueblo Blanco, onde habita o primo de Eusébio. Depois de uma desconfiança inicial, os habitantes decidem organizar uma grande festa na praça principal, ocasião para Kit se salientar na dança com uma certa Carmen, a mulher mais bonita das redondezas, e com a qual acaba por ser visto, mais tarde, num recanto escuro, longe dos olhares indiscretos.

Estes amores com garotas desconhecidas, encontradas (quase) por acaso, são sempre sugeridos por Mauro Boselli, autor para quem a vida de Kit Willer é cheia de potencial, e prova disso é o número de conquistas femininas que ultimamente têm chegado e que têm desorientado os leitores mais conservadores. Para uma personagem quase sempre suspensa no limpo da eterna juventude, a solução parece estar em apresentar um rapaz de certa forma volúvel do ponto de vista sentimental. No entanto, da sua vida ainda haverá muito por contar, apesar de, para já, condenado a uma vida de temperança e à paz dos sentidos, tal como Tex e Jack Tigre. O caminho sugerido pelos autores para moldar o filho de Tex permanece profundamente enraizado do seu tio Kit, o solteirão irresistível, ele sim um retrato irónico de um Dom Giovanni ou de um Casanova, dos quais Pequeno Falcão deverá continuar a ser nos próximos anos, mesmo que em menor escala, uma feliz emanação, isto apesar de permanecer profundamente marcado na alma pelo amores infelizes vividos pelo seu pai e pelo seu pard índio.

* Texto de Sandro Palmas publicado originalmente na Revista nº 11 do Clube Tex Portugal, de Dezembro de 2019.

(Para aproveitar a extensão completa das imagens acima clique nas mesmas)

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